"Acorda pra vida, menino. Esse é o fim da linha."
Os olhos de Hakien se abriram pesados. As grades frias da gaiola podiam ser sentidas através de sua capa grossa. A luz do pequeno lampião agredia seus olhos, lhe fazendo clamar pela paz silenciosa da escuridão.
Seu corpo se ergueu como um fardo, ele balançou a cabeça para despertar, mas a névoa era nada ao lado da agonia que o esperava.
O Velho Rato condutor sorria entre lábios selados, como quem, acanhado, sabia mais.
"Você sabe..." Os olhos enevoados de catarata encontraram os cinzentos e cansados olhos de Hakien, "não existe prêmio para o bom trabalho. De todas as coisas que você pode roubar nessa vida, o tempo sempre vai ser a mais preciosa."
"Eu não posso faltar ao trabalho," Hakien falou, colocando um pé cansado na frente do outro, já lamentando o caminho ainda não trilhado. "Não hoje."
"Por que não?" O Velho Rato perguntou às costas de Hakien.
Sem parar ou olhar para trás, ele respondeu.
"Hoje é meu último dia."
A caverna seguia como um túnel escuro, onde outras aberturas traziam outros Ratos, vindos de outros elevadores e outras favelas, que convergiam para o mesmo caminho.
Nas paredes, chamas vivas ardiam das bocas de máscaras esculpidas na pedra. À direita máscaras brancas, à esquerda máscaras negras. Cada semblante, uma emoção, um deus, um Orksha.
Os Ratos que peregrinavam o túnel eram diferentes dos Ratos da estação, eles traziam consigo os cadáveres de seus amigos e familiares. A primeira vigia mal havia começado, mas o túnel para o Ossuário sempre estava repleto de morte e vida.
Os mais pobres seguiam em grupos maiores, uns dançando, outros chorando, sempre exagerando seja no luto ou na alegria. Seus mortos eram carregados em liteiras de raízes trançadas, cobertos por mantos cinzentos. Atrás deles, trombadores da Kamba Nova marcavam o ritmo da procissão.
Já os mais prósperos transportavam seus mortos em moluscos translúcidos de meio corpo de altura, que sustentavam nas costas pequenos vagões fúnebres esculpidos em madeira branca de Ybyrá. Em silêncio, esses grupos menores avançavam, deixando em sua elegância contida, um rastro mucoso que brilhava ao chão.
Como era o costume, os grupos funerários seguiam ao centro, enquanto que os que seguiam sozinhos caminhavam pelas beiradas. Hakien sempre seguia ao lado das máscaras negras, olhos baixos, evitando ver o último semblante do lado branco.
O Orksha da Esperança.

Na saída do túnel, uma câmara colossal.
Nela um gigantesco obelisco rubro se encontrava ao centro.
Em sua entrada, uma mandíbula gigante com presas recurvadas.
No buraco oco de seus olhos, chamas pálidas.
No vazio de sua língua, uma escada feita em ossos alinhados.
Em seu crânio rachado, uma placa que dizia...
"Me ofereça seus ossos brancos,"
"Em troca das lágrimas negras de seus pecados."
No topo do obelisco, o glorioso Templo das Despedidas aguardava as procissões, que com dificuldade, subiam suas escadas altas.
Hakien, entretanto, pegou outro caminho. Contornando a coluna monumental, seguiu até entrar em uma discreta garganta auxiliar.
Atravessando os muros estreitos ele caminhou até encontrar um amplo salão cercado por dezenas de pequenos portais. No centro, um alto e musculoso Rato fazia a guarda com sua armadura de ossos e sua lança com uma lâmina de Pytuti, um cristal vermelho que emanava um brilho quente.
O Rato usava um tapa-olho, que de alguma forma parecia tornar seu único olho verde musgo ainda mais intenso e perturbador.
"Você me odeia?" O Rato Musculoso perguntou com uma voz irritada que ia contrária ao sorriso manso de seus lábios grossos.
Sem responder, Hakien caminhou entediado em sua direção.
"Eu acho que você me odeia." O Rato continuou. "Eu apostei que você iria faltar hoje, que você mais que todos iria querer o bilhete, mas não, você não apenas veio, mas chegou mais cedo. Me diz, é seu desprezo por mim que te traz aqui?"
Hakien se virou para o Rato Musculoso. "Eu não odeio ninguém em particular." Ele balançou a cabeça e sorriu. "Eu abomino a todos sem distinção."
Sem esperar uma resposta, ele atravessou o seu portal.
No âmago do vasto salão, uma pirâmide de cadáveres de Ratos nus.
Do buraco no teto alto, outro cadáver caiu sobre os demais.
Rolou até encontrar seu lugar entre seus companheiros calados.

"Hakien, meu jovem", falou um Rato magro, com um semblante estreito com olhos fundos e bochechas encovadas. "Os mortos esperam, mas os vivos têm pressa. Seus colegas nos abandonaram em busca de seus devaneios. Lamento dizer, mas nós teremos uma árdua vigília à nossa frente."
"Nós?" Hakien perguntou, sem conter o sarcasmo. "Você vai me ajudar com os corpos?"
O Rato sorriu, revelando os ossos proeminentes de seu semblante esguio. "Todos temos nossa sina." Passou os longos dedos sobre o manto cinza, um manto simples, sem joias ou adornos. "Pequeno ou grande seja o nosso fardo, sozinhos haveremos de carregá-lo."
"Obrigado por nada, então." Hakien falou se aproximando da pilha de corpos. Em sua mente ele viu sua rotina de morte e exaustão. Esse momento, breve como um piscar de olhos, parecia ser pior que o trabalho em si, pois era uma agonia extra, a tabulação da sua dor, fazia parte da conta. Mas não sabia evitar. Todos os corpos, sem ajuda, com ele cansado a ponto de cair, isso tornava impossível calar a voz que dizia que essa seria sua pior vigia, seu pior ciclo, de uma eternidade de ciclos ruins. Nem tinha começado e já sabia que não ia aguentar. Ainda assim, não tinha escolha.
Hoje é meu último dia. Ele pensou com um sorriso.
Sim, seria sua pior vigília, mas ao mesmo tempo...
Seria a melhor de todas.
"Encontre-me no fim de sua labuta." A voz do Rato Magro arrastou-se como quem não tinha pressa de ser. "Eu lhe darei o que lhe é devido... mais algo indevido do meu parecer."
Hakien deu de ombros, não demonstrando a tempestade de emoções em seu interior. Quando os passos se afastaram, ele escolheu o primeiro corpo. Uma mulher de meia-idade com um semblante belo e um corpo mutilado. Na maioria das vezes ele arrastava os cadáveres, mas, sendo leve, ele a carregou no colo.
A segunda câmara estava repleta de túmulos de pedra negra, todos abertos, à espera dos mortos. Hakien depositou o cadáver despedaçado da mulher no interior de um deles. Na parede acima, o semblante do Orksha do Luto observava com olhos vazios, uma dor silenciosa e contida era esculpida na pedra, sua boca aberta revelava um orifício úmido.
Hakien puxou a manivela.
Imediatamente, centenas de lesmas vomitaram da boca do Orksha. Uma delas caiu na borda, rolou e rastejou lentamente à procura de uma saída que não haveria de encontrar.
Hakien a pegou, era grossa e amarelada com veias vermelhas. O cheiro doce apodrecido pesava no ar. Sua pele pulsava numa agonia faminta. Num espasmo súbito, uma espuma branca começou a secretar da vil criatura.
"Eu não estou morto ainda." Ele sussurrou para o verme antes de jogá-lo junto aos demais. Ele limpou a mão em sua capa negra esfarrapada.
No túmulo, a espuma branca começou a corroer a pele morta da Rata como se fosse ácido. As lesmas bebiam dela, engordando, cintilando num brilho escarlate.
"Eu espero que você não tenha tido filhos." Ele então se virou para a pilha de corpos, com um longo suspiro ele pegou um Rato obeso e o arrastou com muita dificuldade até seu lugar.
O Rato mal cabia em seu túmulo, e ele teve que usar um instrumento de pedra para pressionar sua banha, um trabalho indigno, exaustivo e necessário.
Hakien passou as próximas horas arrastando corpos, os colocando em cada um dos cinquenta ataúdes, banhando todos em lesmas amareladas. No final de sua longa e exaustiva jornada, ele retornou ao primeiro corpo.
A bela Rata mutilada não existia mais, em seu lugar seus ossos brancos e as lesmas obesas ao seu redor.
"Você não foi uma boa Rata, foi?" Hakien falou ao retirar as lesmas gordas. "Eu vou precisar de mais de um vaso para você."
No fundo da câmara, uma prensa parafuso, com vasos ao redor, e um altar com panos vermelhos e papiros cinzas.
Hakien jogou as lesmas obesas dentro da prensa, elas tentavam escapar, mas agora eram gordas demais para rastejar. Ele girou a manivela, com facilidade a princípio, mas quando a pedra caiu sobre as lesmas, o esforço foi ficando maior e maior, pulsando seus músculos, e fazendo jorrar de uma torneira, um viscoso líquido negro.
Da pequena Rata mutilada, jorrou uma torrente escura que encheu três vasos. Hakien colocou o dedo no líquido, depois o pressionou num papiro cinza. Com sede, a folha bebeu do negro, cuspindo de volta letras que formavam um nome.
Opira Naztro.
Hakien retornou ao túmulo e recolheu os ossos limpos.
Sobre o altar, repousou os ossos num manto vermelho, ele dobrou o manto, e o selou com o nome da Rata. Depois selou os três vasos da mesma forma.
Com um longo suspiro, Hakien continuou seu trabalho. Indo ao túmulo do Rato Obeso. Para sua surpresa, as lesmas, mesmo depois de terem devorado a montanha de sua gordura, continuavam pequenas e finas. Os ossos, entretanto, estavam limpos.
Na prensa, as finas lesmas foram esmagadas sem esforço, e em vez de uma torrente, um singelo fio de líquido negro escorreu, mal chegando à metade do menor dos vasos funerários.
No papiro o nome que se manifestou foi Eduran Gordan.
"Você foi um Rato bonzinho, Edu?" Hakien perguntou ao crânio que colocou sobre o manto vermelho. "Ou você nunca viveu o suficiente para machucar ninguém?" Ele deu de ombros. "Não faz diferença agora, faz?"
Não era seu trabalho levar os ossos ou os vasos, mas hoje nenhum dos carregadores apareceu. Se ele não levasse o Legado, não haveria o ritual funerário.
Não é meu problema.
Hakien desprezava seu trabalho nas tumbas, porém ele preferia a companhia dos mortos aos vivos. Mas ele estava faminto, esgotado e caindo de sono. Tudo que ele tinha que fazer era terminar sua vigia, da forma mais simples e fácil possível.
Sendo assim, colocou os dois Legados prontos sobre a carriola. A roda rangia, com os eixos ressecados. Suas pernas ardiam no caminho ao nível superior. Mesmo assim, Hakien continuou sem fraquejar.


