Um Brinde de Veneno

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No exato momento em que a porta do elevador se fechou eu me arrependi de ter entrado. Eu olhei para o Rato com seu uniforme de atendente, tão remendado que parecia estar se metamorfoseando em uma nova roupa. Ele sorria para mim com seus dentes amarelados. Antes que eu pudesse falar que tinha mudado de ideia ele abaixou a alavanca que ativou a maldita máquina e começou a tagarelar.

– Não tenha medo senhor Gato. Eu desço para a cidade baixa todos os dias. Nunca morri. Esse elevador foi criado por Gatos como o senhor. Usa o contrapeso de outra caixa de ferro como uma gangorra. Um desce, o outro sobe. Um sobe o outro desce. Mais seguro que o bonde.

– Eu não tenho medo. – Menti. Uma mente sem medo é uma mente sem imaginação. Eu sabia muito mais que o Rato ascensorista sobre as maquinas que invadiam a cidade de Troferus, capital da minha nação. O uso de elevadores já tinha virado moda e era usado em todas as torres, e até mesmo em algumas casas.  Eram modelos novos, que usavam a força da água ou vapor para mover os pilões. Haviam mecanismos que travavam o elevador no caso de as correntes se partirem. Já o modelo usado na nação dos Ratos era obsoleto. Não apenas isso, estavam em péssimas condições. O metal da cabine estava enferrujado. E até mesmo a seta para baixo estava faltando. Faíscas saiam da parede quando o metal raspava na pedra.

Eu me acalmei, lembrando que morrer era uma benção. Foi quase uma decepção quando o elevador chegou ao fundo do buraco e o Rato abriu as portas pneumáticas.

O ar era denso e empoeirado. Uma caverna redonda esculpida na forma de uma pequena estação com sete vagões e sete túneis.  Outro Rato apareceu, vestido com um ridículo uniforme de maquinista.  Sorriu o mesmo sorriso ‘sou obrigado ou perco meu emprego’ e perguntou:

– Para onde o meu ilustre turista deseja ir? Eu começaria pelo universo 25.

– Eu não sou um turista. Eu quero ir até a prisão de Aprazor.

– Mas a prisão fica do outro lado cidade baixa. – Falou o Rato maquinista espantado. – O senhor tinha que ter descido pelo escalador que fica na praça da cidade alta.

– Deixa de ser burro seu burro. – Retrucou indignado o Rato ascensorista. – Não está vendo a beca do Gato? Eu nunca vi alguém mais bem vestido e isso inclui os cabeções da cúpula. Você quer ele misturado com a bandidagem que vai nos vagões? Ele é coisa fina, e os coisa fina entram aqui pela estação.

A ideia que essa era a entrada ‘nobre’ quase me fez vomitar. Ou talvez fosse o ar: eu tentei respirar pela boca e senti o gosto de poeira amarga. Eu teria voltado dali mesmo, mas me faltou a coragem de admitir que tinha mudado de ideia. Esse é o tipo de covarde que eu sou, um covarde que tinha medo que os outros descobrissem que eu sou um covarde.

O ascensorista se despediu, mas não se afastou, seus olhos demonstrando que esperava uma gorjeta por ter feito o seu trabalho. Eu dei uma moeda não por achar que ele merecia, mas porque sabia que se não a desse, poderia ser sabotado em outra oportunidade. Afinal, fazia parte da cultura dos Ratos fazer um mal trabalho para aqueles que não ‘ davam uma ajuda’. Era uma das maravilhas de estar em Kazil a nação dos Ratos. Todos os dias eram dias de chantagem gentis.

O Rato maquinista me levou para dentro de um dos sete vagões sobre trilhos. Na cidade baixa, tudo era inclinado para dar movimento aos vagões. Então quanto um adentrava a cidade, mais ele descia no intestino do mundo. Eu tinha ouvido rumores do que havia no ponto mais baixo. Estórias sobre o palácio invertido e sombras vivas. Estórias tão ridículas que eu nunca tinha dado ouvidos até agora. Mas vendo pela primeira vez a entrada de uma cidade submersa eu redescobria minha fé no niilismo folclórico.

O escuro dos túneis não me incomodava; como todos da minha raça, ver nas sombras era meu dom. Mas o escuro dos meus pensamentos esses sim me atormentavam. Eu já sentia meu pulmão arder um pouco. Em minha mente atormentada eu podia ver o pó sujo se acumulando dentro de mim. Me envenenando, trazendo consigo consequências severas que iriam me visitar alguns anos depois de eu sair daqui. Se eu sair daqui e claro.

Pensar em morrer sempre me trazia algum conforto. Nunca existiu um problema para mim que a morte não fosse a solução ideal. Mas é claro, foi isso que me trouxe aqui. Meu crime. Eu matei uma senhora Rata. E agora estava a caminho de matar um Cão. Eu tinha cogitado deixá-lo viver por mais um dia. Mas minha consciência, que eu nunca imaginei ter, não me permitiu.

O maquinista me deixou na entrada dos portões de Aprazor. Dois guardas me esperavam. Um gordo e baixo, com um rosto redondo e um nariz longo. O outro magro e alto, com um olhar de débil mental. Bem diferente do olhar do gordo. Este tinha um olhar que brilhava, como o de um macho cheirando o sangue fresco do cio de sua fêmea. Mas não era o meu sangue que ele cheirava, era meu ouro e prata.

– Meu lorde Zemial. O prisioneiro o aguarda em numa sala de interrogação. Eu espero que a viagem até nossa humilde prisão não tenha sido desconfortável. – O Rato gordo falou apontando para os portões na entrada do túnel. – Por favor me acompanhe.

Tao logo eu entrei no corredor fui atingido nas narinas com o fedor de urina e secreções mamíferas. Era um fedor quase vivo, porque os poucos dutos de ar não tinham como circular toda essa podridão.  Parte do cheiro permanecia, até o ponto de o fedor se entranhar em sua mente; cedo ou tarde o cheiro, por si só, me levaria à insanidade. Ou talvez ter vindo voluntariamente aqui era um sinal que eu já era insano.

Eu caminhava pelo corredor; do meu lado direito ficavam os muros da caverna. Esculpidas nos muros eu via as celas. Buracos com grades. Alguns tão pequenos que não permitiam ao Rato prisioneiro ficar de pé. Outros maiores, mas tão abarrotados de Ratos que deitar era impossível. Ao me ver os prisioneiros gritavam súplicas; outros, ameaças de morte. Era uma sinfonia para sádicos e masoquistas. Mas, de todos, o som mais perturbador foi justamente um assobio com melodia. Como poderia alguém encontrar a coragem para viver sem o desespero num lugar como este?

– Nos colocamos ele aqui em nossa melhor sala. – O Rato gordo falou abrindo uma porta de metal. – Aqui está o prisioneiro com quem o senhor queria conversar.

Sentado em uma cadeira de ferro, atado a mesa de ferro, com correntes de ferro, estava um Cão vestido em trapos. Era ele que assobiava.

– Quem é o mago? – O Cão perguntou.

– Eu não sou um mago. Não existem magos. – Eu falei pela milésima vez, imagino.

– Se você não é um mago por que se veste como um?

– Uma vez que não existem magos, eu não poderia estar vestido como um. – Falei minha meia verdade. Sim magos não existiam, mas eu estava usando uma fantasia. Luvas longas, um sobretudo que mais parecia uma capa. Óculos com lentes amarelas. Um peitoral com botões na lateral. Calças e botas. Tudo do mais puro negro contrastando com meu pelo albino. Com meus olhos sem cor que refletiam as veias de sangue em seu interior, dando uma tonalidade falsa de púrpura. Sim, eu era uma fantasia ambulante. Sim eu estava sendo ridículo aos meus olhos. Mas a vestimenta cumpria seu propósito. Ela me separava dos outros sem que eu tivesse que proferir qualquer palavra. Elas também carregam consigo uma mensagem aos outros da minha profissão. Os animistas que gostavam de usar saias e deixar que o mundo pensasse que eles tinham poderes ou que eram mais inteligentes que os demais. Ao me vestir diferente deles, deixava patente que eu me achava superior a todos eles. Claro que isso era meu ego combatendo a realidade da minha real estação nos baixos escalões da academia. Mas nada disso importava agora. Eu, como sempre, desperdiçava minha vida perdido nos confins de minha mente remoendo as frivolidades de pensamentos fúteis.

– Se você não é um mago, o que você é? E o que você quer comigo? – O Cão perguntou me trazendo de volta ao momento.

Eu quero que você morra para que minha consciência fique mais tranquila. Eram as palavras que eu queria dizer. Mas me faltou coragem. O Cão era tão jovem, tão cheio de vida, e esperança. Era sempre assim com os tolos. A coragem da estupidez sempre foi algo que me fascinou.  Mas ele não merecia o fim que estava por vir.

– Retire as correntes e nos deixem a sós – falei.

– Minha mãe iria cuspir no meu rosto se soubesse que eu permiti alguém do seu porte ficar à mercê dessa criatura nociva – falou o Rato gordo. – Ele não é como os outros, meu Lorde. Não se deixe enganar; eu conheço a face do mal, e está, – apontou para o Cão, dramaticamente, – Esta é a face do mal.

– Apenas atenda meu pedido e nos deixem a sós. – falei colocando duas moedas de zinco em sua mão.

O Rato magro pegou chaveiro com centenas de chaves e, sem errar uma vez, soltou os grilhões do Cão. Já o Rato gordo movia os lábios e olhava para mim com uma crescente falsa indignação.

– Apenas atenda o meu pedido. – O gordo recitou minhas palavras, mas com uma entonação de raiva e desdém. – Onde está o por favor e o obrigado? Apenas saia de sua presença. Eu sou o que me diz? Os dentes podres de uma puta? Cuja a ausência apenas acalenta no prazer da chupeta?

Como eu odeio gente dramática. – Quanto você quer Rato?

– Agora estou ofendido. Não pela insinuação de suborno e sim pela falta de cordialidade, eu não sou um Rato. Eu tenho um nome. Meu nome é….

– De nenhuma importância para mim. – Algumas vezes eu falo coisas estúpidas que dão a alusão a coragem. Mas eu estava com pressa de sair desse maldito buraco, e morrer aqui e agora me pouparia o caminho de volta.

O rato magrelo colocou sua mão na espada curta em sua cintura. Com a bainha rasgada eu podia ver a lâmina enferrujada. Eu nunca tive nada contra ter minha pele cortada, lâminas sempre me pareceram um jeito eficiente e belo de matar. Mas a ferrugem não fazia parte da fantasia. De súbito, eu tive que controlar uma compulsão de vômito.

– Respeito é bom e eu gosto, seu Gato. Ou tu aprendes a respeitar ou tu vais aprender outra coisa. – Falou o Rato magro com malicia.

– Que outra coisa? – Eu perguntei engolindo de volta o líquido quente em minha boca.

– Você sabe. – O Rato magro levantou a espada curta dois dedos da bainha. – E se não sabe, não vai querer saber.

Eu coloquei a mão dentro de minha bolsa e tirei o pequeno estojo de metal onde eu guardava meus cigarros. Riscando um fósforo na parede, acendi um.  Não costumo demostrar medo, mas eu nunca deixei de sentir. Eu sempre quero morrer, até que momentos como esses chegam. A vida e uma merda até que tentem tirá-la de você. Aí, do nada ela ganha um novo valor. – Quer saber o que eu sei? – Eu perguntei jogando a fumaça sobre eles. Era um teatro, ambos os lados atuando, fingindo ser quem não eram. Todos fingindo coragem e bravura, todos covardes que preferem morrer sendo qualquer um que não a si próprios.

– O que você sabe Gato? – Dessa vez foi o Rato gordo que falou.

– Essa prisão é uma máquina. Como o elevador que me trouxe aqui nesse buraco no fim do mundo. Uma máquina grande composta de pequenas engrenagens. Pregos e molas. E vocês acham que são seres vivos com sonhos e anseios. Mas são nada mais os pregos e molas desse lugar. Se você tivesse a coragem de usar essa espada você não seria um prego aqui. Você seria um soldado. A ferrugem da sua lâmina é a mesma que eu vejo na sua vida insignificante. Quer saber o que é pior que estar nesse lugar maldito contra a sua vontade? E estar aqui por opção. Quando o Cão morrer na dança, amanhã, ele escapa daqui. E vocês quando escapam? – Eu terminei olhando fundo nos olhos do Rato gordo. O Rato magro tirou a espada da bainha, babando de raiva.

Eu sorri. Por um breve momento, eu me sentia leve.

– Quer matar, mata por ouro. – O Rato gordo falou segurando o Rato magro. – Ele quer morrer seu idiota, tu dás o que ele quer e vais ganhar o que, em troca?

– Ele falou… – O Rato magro tentou se explicar.

– Chega! – Interrompeu o Rato gordo. – Se vê que esse Gato tem a voz do conselheiro negro. Isso aí é sangue ruim. Sai, deixa que eu resolvo.

A menção do conselheiro negro pareceu dar conforto ao Rato magro, que cuspiu no chão e saiu da cela. Já o Rato gordo novamente me encarou com um sorriso de quem sabia mais que eu.

– Quem é o conselheiro negro? – Perguntei curioso.

– Um Orksha escuro.  O Conselheiro negro é a voz que nos diz para fazer as coisas que depois nos arrependemos. Todas as escolhas que destroem nossas vidas são escolhas feitas pelo conselheiro com o propósito de nos levar aos braços de seu pai. O Orksha da Morte.

Um povo ignorante com crenças ignorantes, pensei, sem verbalizar. Nem precisava, estava estampado em minha cara. – Mais que lindo folclore – disse com desdém.

– Minha mãe participa da Dança dos Orkshas. Ela dança para o Orksha amarelo, o privilegio. Mas o Orksha dela é o filho. O Orksha orgulho. Eu nunca quis saber o meu. Uma coisa perigosa saber sobre algo. Esse é o poder dos Orkshas, eles não são como os outros Deuses, que vivem nos céus ou nos livros, nossos Deuses vivem dentro da nossa bitola. – O Rato gordo bateu na cabeça. – Como que você escapa de um Deus que está dentro da sua cachola?

– Privilegio, Morte e Orgulho não são Deuses. São estados de ser. Como alguém reza para o privilegio? – Eu perguntei tentando esconder minha curiosidade.

– Tu pensas, tu pensas em ter mais que os outros, tu pensas na moralidade de comer enquanto tantos passam fome. E com cada pensamento tu alimenta o Orksha do Privilegio. Com pensamento ele entra em tu e transforma o mundo ao seu redor.

Eu traguei mais do meu cigarro. Eu podia ser ateu, mas até eu podia ver a beleza de uma religião onde distúrbios mentais eram Deuses. – Talvez eu possa te dizer então qual seria então o seu Orksha, que tal corrupção e indevida prepotência intelectual. Existem esses Orkshas?

– Tu se acha ne? – O Rato apontou o dedo na minha cara. – Tu não és melhor que o mundo não. Não foi o acaso que te arrastou até aqui. Tu que só enxerga o ruim no outro, e aquele que só enxerga o ruim em si próprio. Quer saber o que eu faço com as moedas que eu tomo dos otarios que nem tu? O que eu tomo eu dou. Eu dou para   minha família. Minha mulher, meus filhos, minhas namoradas. Eu sou um Rato bom. E tu? Tu que se acha melhor que o mundo, quem que você tem do seu lado? O que você ta fazendo aqui? Tu achas que você escolheu vir pra cá. Teu Orksha te trouxe aqui, por que ele mora aqui perto.

– Eu não acredito em Orkshas.

– E por isso que tu estás perdido aqui. Todo mundo tem quatro Orkshas, norte, leste, oeste e sul. Só o Norte nos leva a uma boa vida. Os outros são perdidos e nos testam, nos levam para vala funda. Tu estás na vala Gato, tu estás na vala e não sabes.

Eu queria responder alguma coisa esperta que ao mesmo tempo humilhasse o Rato, me engrandecesse e justificasse minha vinda aqui. Mas minha mente só imaginava a tal vala. Eu podia me ver na quina do abismo, olhando a escuridão e pulando dentro dela. Finalmente encontrando paz. Eu quase perguntei onde ficava a vala. Mas eu tinha ficado calado por tempo demais. Resolvi deixar o meu silêncio como resposta.

– Minha mãe poderia te ajudar. – O Rato continuou. – Mas gente que nem tu não sabes pedir ajuda.

– Quanto você quer para calar a boca e ir embora?

– Dez moedas de cobre.

Eu tive que rir. – Eu te dou uma. E aconselho você a pegar. Você não tem poder de barganha. Não pode me ferir sem que o seu capitão, que eu subornei para estar aqui, te esfole vivo. – O Rato olhou para o Cão que estava sentando no seu canto. – Vai fazer o quê? Matar a oferenda? Sim. Eu não sei muito sobre os seus hábitos, mas sei o que vocês fazem com seus prisioneiros condenados.

– É claro que eu não vou matar ninguém, já falei para você que eu sou um Rato bom. – Ele tirou uma faca do cinto. – Faço um negócio com você. Uma moeda de cobre para cada dedo que eu não cortar do Cão. Ninguém faz muita questão de oferendas inteiras.

– Ele está condenado à morte. Que diferença faz para mim se ele morre com dez dedos ou menos?

– Se não vale nada não de nada. Eu saio daqui com vinte dedos. Dez meus, mais dez do Cão.

Eu olhei para o Cão, que já tinha se levantado. Ele olhava para mim com mais desconfiança que para o Rato com a faca. Eu queria ir embora, os dedos do Cão não valiam dez moedas. Mas eu teria vindo até aqui em vão. – Eu presumo que você queira todos os dez dedos. – Eu falei para o Cão esperando um sorriso que não veio. Mas não tinha problema, o Rato gordo sorria pelos dois.

O Rato saiu com minhas dez moedas e bateu a porta de ferro.

– Finalmente a sós. – Falei para o Cão.

– Quem é você e o que você quer comigo?

O Cão começou a lamber seus pulsos feridos.

– Meu nome e Zemial.

– O meu é Hakien. – Ele falou. – Agora, o que você quer comigo?

– Eu quero ver você morrer. – Falei sem rodeios e acendo outro cigarro com meu último fósforo. Ele parou de lamber os pulsos e olhou para mim.

– Eu não matei a velha. Eu juro que eu não a matei.

– Eu sei disso.

– Você sabe? Então conta para o juiz que me condenou.

– Não foi um juiz que condenou. Em Kazil os Ratos se dividem em tribos, mas não como em tribos de selvagens, como as dos Lobos. Aqui o líder da tribo é quem paga o salário dos outros. São chamados de cabeças grandes. Quem te condenou é quem eles chamam de cabeça pequena. São os chefes dos guerreiros das tribos. São eles que decidem casos criminais, como os de homicídio.

– Mas e o tribunal de vox-protos? Existe uma lei maior que a de Kazil.

– Tecnicamente sim. Mas faz quase 50 anos que o tribunal da montanha não julga um caso. E o último julgamento foi apenas para anular o conselho das sete torres, por ter sentenciado um dos mercantes mais ricos do mundo à morte.

– Mas se você sabe que eu sou inocente você pode apelar para o Rato que me condenou. Certamente eles não vão querer matar alguém inocente.

– Kazil e uma cleptocracia. Não é ilegal matar ou roubar nessa sociedade. É apenas ilegal matar e roubar sem requisitar permissão para os cabeças pequenas. Funciona assim, digamos que eu queira te matar. Eu vou para o tribunal de pequenos crimes e digo o motivo por que quero a sua morte. Pode ser por que eu não fui com a sua cara, ou por que você pisou no meu pé. Mas quanto mais injusto for meu motivo, maior vai ser o custo da permissão. Se você por algum motivo tivesse me roubado ou matado alguém que me importasse o custo cairia consideravelmente.

– Que tipo de sociedade permite qualquer um matar com impunidade?

–  todas. – Eu falei tragando o resto do meu cigarro. – O poder sempre serviu ao poder.

– Mas se você disser a eles que eu não matei ninguém…

– Todo mundo sabe que você não matou a senhora Paingalle.

– Então por que eu fui preso?

– Por que o real responsável pela morte de Eulonieta Paingalle é um animista. Um representante da academia. Alguém sem importância em sua nação, mas importante o suficiente para trazer repercussões para a cidade caso o precedente da condenação de membros da academia seja aberto. A família, é claro, poderia ter insistido na morte do animista. Mas por motivos que até agora eu desconheço, eles aceitaram uma soma em ouro da academia e o cabeça pequena teve que se contentar com sua comissão do suborno e escolher um simulacro criminal.

– O que em nome do abismo e um simulacro criminal?

– Alguém escolhido para pagar por um crime que não cometeu.

– Eu?

– Sim.

O Cão não chorou como eu imaginei. Ele parecia mais confuso que indignado. Mas é claro ele ainda não sabia da melhor parte.

– Como eles podem justificar matar um inocente? – Perguntou.

Eu cruzei os braços e recostei a cadeira contra a parede, deixando-a apenas com as pernas de tráz tocando o chão.

– Os Ratos são uma raça sofrida. Kazil é a região mais inóspita do mundo conhecido. Entre pântanos e vulcões, e céus infestados de predadores, é um milagre que eles não tenham sido exterminados. Foi esse buraco, conhecido como a cidade baixa, que lhes permitiu sobreviver. Enterrados no escuro, cavando suas favelas de pedra e terra.

– O que isso tem a ver comigo?

– Tem tudo a ver com você. Imagine o choque de achar que o mundo é ruim e cruel, apenas para descobrir que outras raças vivem em meio a bosques verdes e animais silvestres. Lagos e planícies, flores e frutas.

– Eu sou tão responsável pela ecologia desse lugar quanto eu sou responsável pelo crime que fui condenado. Eu não mereço estar aqui.

– Mas é exatamente isso que eles se perguntaram. O que eles fizeram para merecer a punição por um crime que não cometeram. Os Ratos, como raça, foram condenados pelo destino a uma vida de dificuldade e provações, a viver sobre a sombra da morte durante todos os dias de sua pobre existência, enquanto o resto do mundo desfruta de abundância e prosperidade.

– Então o que é isso, inveja? Eu sou um Cão de Caltos, uma nação rica, e vou ser condenado à morte pelo crime de ter nascido?

– Não simplifique uma cultura. Cada casal de Ratos tem em média doze filhos, dos quais, raramente, quatro chegam vivos à maioridade. O valor da vida aqui é bem baixo. E a religião e a política deles refletem essa realidade. Inocentes existem apenas num mundo onde se permite o luxo de acreditar no conceito de inocência. Não existem inocentes em Kazil.

O Cão me encarou por um longo período sem falar mais nada. Apenas me observava. Ele estava para fazer a pergunta fundamental. Nos seus olhos eu podia sentir a hostilidade, ele não era burro, e antes mesmo de ele me fazer a pergunta, era claro que ele já sabia a resposta.

– Quem é você exatamente?

Eu desinclinei a cadeira e coloquei meus braços sobre a mesa. – Eu sou o responsável pela morte de Eulonieta Paingalle. – Eu falei quase sorrindo. – Eu cometi o crime.

Eu vislumbrei fúria no semblante do Cão. E imaginei se eu teria tempo de falar outra palavra antes de ele pular em mim.

– Se isso é verdade, o que me impede de te estrangular aqui e agora? – Ele perguntou sem sair da cadeira.

– Curiosidade eu imagino.

E minhas palavras pareceram funcionar. Eu não sabia como seria esse momento, mas tenho de admitir que uma parte de mim estava decepcionada.

– Por que você a matou?

– Tecnicamente falando, eu não a matei. Eu apenas provi os meios pelo qual ela pôde matar a si própria.

Eu peguei em minha bolsa um frasco e o coloquei sobre a mesa. Um frasco verde.

– O que é isso? – O Cão perguntou.

– O que você acha?

– Veneno?

– Sim. Um gole e você estará livre.

O Cão se levantou derrubando a cadeira.

– Eu não vou me matar por um crime que eu não cometi.

Eu peguei outro cigarro do bolso e lembrei que tinha usado o último fósforo.

– Acho que você não entendeu a moral da estória que eu te contei. – Falei saindo da minha cadeira e indo até a tocha na parede. – Ninguém é inocente. Todo mundo merece estar aqui. Todo mundo merece morrer horrivelmente. – Eu acendi meu novo cigarro na tocha. – A verdadeira injustiça do mundo não é que alguns sofrem. – Eu traguei fundo e olhei para dentro dos olhos do Cão, lindos olhos de cor castanho claro. Eu queria ver o momento em que ele finalmente fosse entender. – A grande injustiça é que a maioria escapa ilesa.

– Você é um louco. – Ele falou se virando de costas.

– Então me diz. O que você veio fazer em Kazil?

– O que importa o que eu vim fazer aqui?

– Me entretenha. – Eu falei ao me sentar.

– Eu sou um mercenário à procura de trabalho. Só isso.

Ele mentia bem; talvez ele realmente acreditasse no que estava dizendo. Como a maioria das pessoas, ele se escondia de si mesmo. – Você não é um mercenário. Você está fugindo de algo. Por isso veio para uma terra que não conhece. Por isso veio para Kazil. A nação dos ladrões.

Ele se virou e sentou na cadeira. Com indagação no rosto ele perguntou. – Como você sabe disso? Quem te contou que eu não sou um soldado?

– Pequenos detalhes contam grandes estórias. Você não usa um colar de hierarquia como os Cães nobres de Caltos. Mas seu porte e pêlo refletem os traços da Linhagem de Lobradar. O que me diz que sua mãe era uma rafeira e você e um mestiço. Mas mestiços geralmente tem uma vida melhor que os rafeiros, que são a classe mais pobre. Para uma raça que valoriza mais a aparência que o mérito, você poderia ser um oficial, nunca um mero soldado. A questão então se faz. O que você fez para estar aqui?

– E isso que veio saber? Se eu fiz algo de errado eu mereço estar aqui? Você dormiria mais tranquilo se não tivesse condenado alguém inocente?

– Eu não me lembro da última vez que tive uma noite tranquila. Mas são os meus pecados que me atormentam à noite. Eu não dou a mínima importância para o que você fez ou deixou de fazer.

– Eu não matei ninguém, e eu não roubei também.

– O que você fez então?

– Eu engravidei minha meia-irmã.

Eu quase ri. Mas ele estava sério, não era uma brincadeira. Eu podia ver seus olhos longe, por uma fração de segundo. Provavelmente contemplado seu rancor e remorso.

– Meu pai era um nobre. Não um qualquer, com coleira de cobre, que interage com os rafeiros. Ele usava uma coleira de prata. Prata são os administradores, apenas abaixo dos colares de ouro que são dos Paramores. Os donos da terra. Eu acho que isso faz de mim um Rato né? Eu cresci vendo meus meios irmãos terem tudo, enquanto eu não tinha nada. Quando eu engoli meu orgulho e pedi para o meu pai me reconhecer como seu filho bastardo e me dar um colar de cobre – o Cão pausou para as palavras não soltarem lágrimas. – Ele me falou que eu não era seu filho. Que a extensão de nossa relação foi ele ter montado a minha mãe. Que ele não ia pagar um momento de prazer com uma vida de vergonha. Seu sangue era puro. E ele preferia morrer a ter sua linhagem maculada por um rafeiro como eu.

– E sua meia-irmã sabia quem você era?

– Ela sabia que eu era um bastardo de um Lobradar, mas não sabia que tínhamos o mesmo pai. Ela era uma menina tola que acreditava que Cães deveriam se portar como Gatos. Que noção estupida, eu querendo provar que eu não era um rafeiro, e ela querendo que todos fossem um.

Eu sorri. Era uma vingança bonita. Ele engravidou a irmã para forçar o pai a ter um mestiço em sua família. Incesto não era aceito em Caltos com a mesma tolerância em que Troferus.

– Ele aceitou a criança? – Perguntei, mas o Cão abaixou os olhos. – Ele matou o próprio neto?

– Sim, e me culpou pelo crime. Não é engraçado? E a segunda vez que eu sou condenado pelo que eu não fiz.

– Você é um hipócrita. – Eu falei sem recriminação, não era um insulto e sim uma observação.

O Cão me olhou alarmado. Não era a resposta que ele estava esperando. – Você culpa seu pai por não aceitar sua pobreza, – continuei – mas na sua luta, você ignora que você aceita sua pobreza com o mesmo desdém que ele. E o caminho de sua vingança passa pelo mesmo lugar onde uma jovem é usada e descartada ao saciar o ego da sua vontade. Tal qual seu pai fez com a sua mãe, você fez com a sua meio-irmã.

– Eu não matei ninguém. – O Cão gritou. – Ele merece morrer. Era ele que tinha que está aqui no meu lugar. Não é justo.

– Qual a diferença faz uma maldita coleira?

– Era meu direito. E todo mundo sabia, todo mundo via no meu pêlo. Mas sem a coleira no meu pescoço eles me tratavam com um deles. Eu era mais.

– Os Cães de Caltos e suas coleiras e hierarquias. Vocês são tão ridículos.

– Quem se importa com o que você pensa. Muito obrigado por me colocar aqui. Se já lavou sua consciência com minha estória pode ir embora. Vá e leve o seu veneno com você.

Eu tive que admirar como ele ainda controlava suas lágrimas. Nunca se deve chorar em público, para isso temos o escuro da noite e a cama vazia.

– Amanhã é a dança dos Orkshas. – Eu falei pegando o frasco. – Você sabe o que vai acontecer com você?

– Eu sou oferecido aos deuses dos Ratos, ou algo assim.

Eu abri o frasco e senti o cheiro de morte. Um cheiro doce com uma leve pitada de amargo por trás.

– Me permita ser mais preciso. No coração dessa cidade existem dois estádios. Um na cidade alta, e outro aqui na baixa. Construídos um sobre o outro. No centro dos dois estádios tem um buraco. Amanhã vai haver uma grande dança no estádio de cima. Eles chamam de a dança dos Orkshas. E você e os outros criminosos vão desfilar e serão escolhidos pelo povo como oferendas. Eles vão cortar o seu corpo e vender um quarto do seu sangue. Depois vão te costurar e tatuar seus cortes com o símbolo do Orksha que foi escolhido para você. Depois então eles amarram seu calcanhar numa corda elástica, e jogam você e o resto dos criminosos dentro do buraco. – Eu gesticulei com meu dedo do ar até a mesa. – No fundo do buraco tem um grande lago. – Eu empurro o frasco aberto em sua direção. – O lago é cercado por um labirinto de cavernas naturais. Alguns caminhos levam a predadores, outros a armadilhas, outros ainda para tesouros. Um caminho apenas leva de volta a cidade baixa. Mas mesmo assim você vai encontrar as portas fechadas. Apenas quando todas as outras oferendas estiverem mortas a porta se abre.

– Mas como eles vão saber quem morreu e quem não morreu?

– O sangue de cada participante é misturado com uma fórmula descoberta faz quinhentos anos pela Casa de Comércio dos Hadracus. Eles são os donos dos estádios. O público que escolher torcer por você vai beber do seu sangue misturado com essa fórmula. E isso vai permitir a eles dormirem nas cadeiras do estádio enquanto sua consciência corre com vocês nos labirintos. É um dos eventos mais cobiçados do mundo. Por um punhado de moedas qualquer um vai poder ter num único dia, a jornada completa da vida. Do nascimento à morte. Vão saber o que é matar, vão saber o que é morrer. E aos que escolherem o vencedor, estes vão saber o que significa ganhar o prêmio máximo de viver.

– Isso é monstruoso.

– Eu sei, e por isso eu estou aqui.

– Quantos são?

– Cem oferendas por jogo.

– Eu não quero morrer. – O Cão falou contendo as lágrimas.

– Mas morrer você vai. A questão agora é como.

O Cão olhou para o frasco. Depois para mim.

– Uma chance em cem é melhor que nenhuma chance.

– Não seja estúpido. Um terço das oferendas morre sendo mastigada por uma serpente de pedra que vive nas entranhas do labirinto. Um punhado morre nas armadilhas. O resto, a grande maioria morre lutando entre si. Eles fazem músicas a respeito. Tem uma que fala sobre uma menina rasgando o rosto de um adulto com suas unhas.

– Eu sou um Cão e a maioria das oferendas é de Ratos. Eu tenho uma chance maior de sair vivo.

– Será que você não cansa de se enganar? Será que você não enxerga que ninguém ganha? Somos todos perdedores no jogo da vida. Coloca dentro da sua cabeça dura que viver é a punição. Morrer, esse sim é o verdadeiro prêmio.

– Você é um covarde.

– Eu prefiro o termo realista.

– Não você é um covarde. É por isso que você os mandou tirarem minhas correntes. É por isso que você ofendeu os guardas. É por isso que você carrega frascos de veneno e os oferece para todos menos a si mesmo. – O Cão se levantou, colocou as duas mãos sobre a mesa e se inclinou para me olhar com um insuportável ar de vitória. – Você quer morrer. Você quer morrer, mas não tem a coragem de sua convicção. – Ele falou o óbvio.

A vontade que me deu foi pegar o frasco e beber até a última gota. Mostrar para ele que ele estava errado. Mas é claro, eu sabia que ele estava coberto de razão.

– Alguns sofrem, como você. Por não saberem quem realmente são. Você acha que é a coleira de prata que você busca? Não. O que você realmente quer é o amor de um pai que te abandonou. No orfanato em que eu fui criado eu via isso o tempo todo. Essa era a mesma dor que corroía as outras crianças. Nenhuma fera esfomeada conhece a fome devastadora que é a fome por afeto de um órfão. Essa é uma fome que te come por dentro. Te raspa até não sobrar mais nada, só a pele e o pelo, uma roupa usada por ninguém. Eu sou assim, às vezes eu me corto só para ver se eu existo dentro da minha pele. É sempre uma surpresa ver o sangue correr. Mas o meu sofrimento é diferente do seu. Pois o meu não vem da ignorância e sim da aceitação da terrível pessoa que eu sou. Da minha incapacidade de sentir alegria, afeição e paz. Eu me odeio tanto que às vezes eu não tenho coragem de encarar o espelho. E aí você entende. Cedo ou tarde todos descobrem. A morte não é a inimiga. A morte é nossa única salvação. E essa é minha oferenda a você. Um brinde ao amanhã, que ele nunca chegue.

O Cão se sentou e pegou o frasco.

– Um brinde requer pelo menos dois copos.

– Eu não trouxe nenhum.

– Se eu beber, você me acompanharia?

Talvez pelo discurso que eu tinha acabado de fazer, talvez pelo longo caminho de volta, – Sim eu adoraria lhe acompanhar. – Eu falei.

– Por que não sozinho? Qual a diferença?

– Eu não sei. Quem sabe eu sou apenas um daqueles que não consegue beber sozinho.

– E o que você fez para merecer morrer?

– Eu sou um monstro com um coração negro. Eu odeio cada aspecto do meu ser. Eu sou assombrado pela vida que eu nunca tive, e pela pessoa que eu nunca fui. O reflexo desse ser, ri de mim no espelho. Do outro lado do reflexo eu sou querido e amado. Eu tenho uma carreira como um grande animista. Sou respeitado. Deste lado, eu sou sozinho e desprezado. Eu sou o animista mais fracassado da academia. Eu mereço morrer, não pelo que eu fiz com minha vida, mas por tudo aquilo que eu deixei de fazer.

E meu grande segredo era revelado para um estranho. Se eu tivesse pego uma faca, cortado meu peito e colocado meu coração batendo na mesa eu não teria me sentido mais exposto ou nu.

– Você não é um monstro. – Ele falou tentando me confortar. – Você está aqui não por que você se sente culpado. Você quer morrer comigo por que você não consegue carregar a culpa.

– Eu não sinto a menor culpa. Eu sinto inveja.

O Cão pegou o frasco e sem cerimônia fechou a tampa.

– Se você quer brindar comigo, volta amanhã.

– Não seja um tolo.

– Me diz, Gato. Você me falou o destino de quem perde a dança dos Orkshas. O que acontece com quem ganha?

Eu ri. Eu tive que rir. Como são cruéis os devaneios de nossa mente. O sonho que atormenta é o mesmo sonho que nos sustenta.

– Amanhã vai ficar tudo bem, é isso que você pensa? – Eu perguntei agora sério. Procurava medo no Cão, mas via apenas meu reflexo no brilho dos seus olhos.

– Alguém tem que ganhar não? Eu quero saber qual o prêmio.

– Liberdade, fama E ouro. O suficiente para atrair não criminosos para serem voluntários na corrida.

– Eu sempre acreditei que eu seria alguém. Sabe o sentimento de que você é especial e que o mundo tem algo reservado só para você.

– Eles chamam esse sentimento de devaneio.

– Quer saber o que eu acho? Eu acho que amanhã vai ser o meu dia.

–  Sempre haverá um amanhã. Nós dizemos isso por que sofremos hoje. Ninguém é feliz hoje. Ninguém foi feliz ontem. Mas todos seremos felizes amanhã, de alguma maneira. Tudo que eu sei e que os dias passam e o amanhã nunca chega.

Os guardas abriram a porta. O Cão se levantou sorrindo. Como se soubesse algo que eu não sabia. Como se amanhã ele não fosse morrer em agonia para o entretenimento de uma cidade de Ratos.

– Eu espero ver você novamente. – Ele falou estendendo a mão para mim. – Quem sabe não lhe dou um motivo para brindar amanhã.

Eu apertei a mão dele. Eu não queria mentir e dizer que tudo ia ficar bem. Eu não queria falar a verdade e dizer que ele já estava morto. Eu me calei então e apenas acenei movendo meus lábios para enganar um sorriso.

Num segundo seguinte eles se foram e eu fui deixado sozinho na pequena cela. Eu guardei minhas coisas e antes de sair olhei para a chama da tocha que estava a segundos de apagar. Nas chamas eu via o dia de amanhã e me perguntava se realmente teria coragem de ir até o estádio. Beber do sangue e apostar que o Cão sairia vivo.

Uma parte de mim queria acreditar que era possível. Eu até podia imaginá-lo vitorioso. Nós nos tornando amigos. Brindando sem veneno. A outra parte de mim ria com o ridículo dos meus anseios. Eu o veria sangrando e chorando as lágrimas que hoje ele tinha conseguido esconder.

Mesmo assim eu decidi que iria assistir a dança dos Orkshas. Eu iria torcer pelo Cão. E correr com ele pelo labirinto. Assisti-lo lutar por sua vida. Descobrir o que acontece quando o amanhã finalmente chega.

– Eu espero brindar com você amanhã, Hakien.

Eu falei para a cela vazia. E fiz meu caminho de volta pela escuridão deste maldito lugar.

Fim?

4 Comments

  1. Vou ousar, como leitora, comentar uma história tão fantástica .
    Me senti presente , fazendo parte da dinâmica ,descendo o elevador, adentrando as profundezas sujas e empoeiradas…
    Nossa, atrevo -me a fazer um paralelo às nossas próprias vidas …
    Quantas vezes assumimos papéis atormentados por nossos ” orkshas da morte”…
    As figuras de linguagem utilizadas nos dão uma dimensão verdadeira de sentimentos ; personificação , sinestesias …
    Vontade de continuar falando , mas , por agora , vou terminando com o meu ” um brinde de veneno ”
    Li suas histórias, mas ousei arriscar meu palpite nesta história fantástica…
    Beijo grande Denise Torres

    • Vou ousar te dizer que os meus leitores, sao mais observadores que o humilde escritor, e mutias vezes tenho q admitir que o melhor nas minhas estorias nao esta nas boas coisas que eu escrevi, e sim o reflexo da agilidade mental e interpretativa de quem leu, e viu no meu trabalho uma qualidade que na verdade existe dentro do próprio leitor. Vc e um exemplo de alguém q observa a beleza que traz consigo. Obrigado por iluminar meu blog, e ser minha primeira comentadora da nova versao .BR Vc e demais Denise 🙂

  2. Que sintonia clareia minhas idéias como estórias vividas dentro de mim! Que mente por trás de um ser vivido expressa sonhos vividos de um coração profundamente banal, mas humano! “Creio que já se enganou o que alimenta sonhos e não esperança” transcender é precisso em toda bela e qualquer obra que nos liberta de meu eu “ego”. Muito obrigado pela obra, que Deus abençoe mais e mais!

  3. Interessante, Marcello, observar a natureza dos sentimentos, das emoções…
    O que queria matar e o que não queria morrer…
    O primeiro, o reflexo da covardia…o segundo, o da esperança…
    E como é interessante observar como a natureza do segundo vai modificando a natureza do primeiro…
    E assim, também é a vida..a nossa vida de humanos…Humanos??? Que mente poderosa você tem! Para poder escrever este conto, teve que sentir tanto como o primeiro , como quanto o segundo para poder ser coerente…Parabéns, meu amigo, também estou aprendendo com você…Grata…Gratíssima

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