Trono de Cinzas

Trono de Cinzas

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Seu pesadelo era um mar escuro o envolvendo e o engolindo nas profundezas do nada.

Seu peito implorava por ar, Sorbo nadava dentro de seu vazio à procura de uma superfície em sua escuridão; mas sua escuridão era eterna, não havia superfície, não havia fim a ser encontrado.

Ele acordou e abriu os olhos, achando ter escapado do pesadelo de se afogar num mar escuro, mas seus olhos abertos ainda estavam cobertos pela escuridão, seu peito ainda carregava a dor e agonia de não poder respirar.

Suas mãos esqueléticas tateavam o escuro à procura de seu sino de cabeceira. Ele chegou a tocar o delicado metal com a ponta de seus dedos, mas ao fechar sua mão sobre o pequeno objeto, este escorregou por entre seus dedos, caindo e levando junto consigo sua esperança de viver.

Não!!! Sorbo gritou em sua mente, sem conseguir emitir um único som. Seu pesadelo era real, ele sabia agora, mas não era em águas que ele se afogava, e sim no catarro preso em sua garganta. Eu quero viver maldita, você me prometeu vida.

Alto será o custorespondeu a voz que vinha do escuro de sua cabeceira.

Sorbo estava disposto a pagar qualquer preço. Seu medo, seu terror absoluto de morrer lhe dava coragem para fazer o que era preciso. Usando suas unhas longas e pontudas, ele começou a rasgar seu pescoço, dilacerando sua carne, fazendo seu sangue fluir. Era um plano aterrorizador, porém prático. Rasgaria sua garganta até alcançar sua traqueia. Com um buraco em sua garganta, ele poderia respirar.

Os primeiros rasgos foram fáceis, pois suas unhas eram afiadas e sua pele velha e frágil. Mas o fácil se tornou difícil quando o sangue começou a fluir. Seus dedos escorregavam e rasgavam os lugares errados, fazendo com que sangrasse ainda mais, fazendo que ele errasse ainda mais o caminho de suas unhas. Unhas que se partiram, uma de cada vez, até sobrar apenas uma.

Enlouquecido e apavorado, Sorbo tentou enfiar seus dedos dentro da ferida, mas estes se dobravam para o lado errado de suas juntas e se partiram como se fossem gravetos.

Não. Não me abandone agora, você me prometeu.”

– A única promessa de vida é a morte, meu bravo Sorbo – respondeu com imensurável ternura a voz que vinha de sua cabeceira.

Ela falou algo mais, porém agora palavras já não tinham nenhum significado; um animal irracional havia despertado dentro de Sorbo, uma criatura desumana, que possuía apenas um sentimento, medo; apenas um propósito, viver.

Quando a escuridão o engoliu por completo, Sorbo não fugiu do animal. Ele se entregou à fera, mergulhou nas profundezas de seu terror. No coração do nada, ele urrou como um animal, ele latiu, ele gritou, e não parou até que o silêncio e o catarro não tivessem mais forças para calar sua voz.

Num espasmo de vontade, ele ouviu seus gritos entre os jatos de vômito e catarro que jorravam de sua boca, ao mesmo tempo ele defecava e urinava em seus lençóis de seda.

Mas o animal não conhecia a vergonha, o animal esqueceu até o medo, o animal dava seu primeiro suspiro de prazer. Então, o animal dormiu e Sorbo retornou, sorrindo; mesmo deitado numa cama de sua imundície, ele sentia algo que não sentia há décadas: felicidade.

Seu prazer, contudo, foi passageiro, e com cada suspiro ele sentia suas dores retornando. As pontas de seus dedos desunhados, as juntas distendidas, seus dedos fraturados. Dores competindo entre si por sua atenção, sua garganta dilacerada, seu coração podre. Sorbo então chorou, mas não de tristeza ou dor, como era seu costume. Hoje as lágrimas que escorriam sobre as bolsas negras em seus olhos eram lágrimas de alegria.

Eu venci, eu venci outro dia.

Levando sua mão trêmula ao peito, ele sentiu a chapa de ouro que substituía seu tórax. O metal protegia seu coração, mas ao redor, onde a pele encontrava o metal por meios de parafusos e grampos, uma infeção se alastrava, matando sua carne e produzindo um odor putrifico.

Quanto tempo?

Ouviu passos. Depois o barulho da porta do quarto se abrindo. Sua guarda pessoal permitiu que entrasse luz e uma pequena legião de médicos e enfermeiras.

Ao lado de Sorbo, na mesa de cabeceira, não havia nenhuma mulher. A voz que sussurrou no escuro não se encontrava no claro; na mesa apenas um abajur, uma jarra de água e um espelho de mão feito de marfim negro.

Mesmo estando com seus dedos fraturados, ele pegou o pesado cobertor poluído e o usou para limpar suas lágrimas.

Que me vejam caído, mas não derrotado.

Para a sua decepção, não havia pena nos olhos de seus médicos. A médica que liderava o grupo fez um gesto sutil para que quatro enfermeiras o despissem e trocassem sua roupa e lençóis. Então, abriu as cortinas e deixou a luz do sol invadir o quarto, revelando um aposento vasto e soberbamente decorado.

Era o seu ritual diário de humilhação. Ser limpo e vestido como um bebê. No começo de sua invalidez ele pensou que a vergonha um dia passaria. Mas, mesmo depois de décadas de covalência, Sorbo descobriu que a vergonha morreria apenas junto com ele. Até lá, eram todos atores, ele fingia não sentir vergonha, eles fingiam não sentir nojo ou pena.

Na parede mais decorada do aposento, um quadro parecia rir dele; a pintura tinha sido feita após sua cerimônia de hierarquia. Os jovens sonham com o que vão ter, já os velhos sonham com o que um dia foram. Por isso, o quadro ria.

Olhe quem eu fui e veja agora quem eu sou.

No quadro o pelo de Sorbo era lustroso, com um tigrado de vermelho. Seu focinho era negro como a noite. Ele não permitia espelhos em seu castelo, com a exceção do espelho de sua cabeceira. Mas ele não precisava de espelhos para saber que seu pelo hoje era o cinza de um branco sujo, um sujo que não poderia mais ser lavado de volta ao claro.

Sujo como eu, sujo como minha vida.

Sorbo fechou seus olhos, como fazia todos os dias, escapando dali, buscando refúgio nas lembranças de seus dias de glória.

Eu era o Paramor da minha Linhagem.

Dentro da pintura estava o dia mais importante de sua vida, seu refúgio preferido. Foi nesse dia em que seu pai se ajoelhou aos seus pés. Ele podia ver seus irmãos, lado a lado, sorrindo com os dentes e invejando com os olhos, ao se ajoelharem eles beijaram sua mão. Depois se recolheram, e junto aos colares de prata, que testemunhavam o fim de uma era.

Seu pai colocou o brasão de porcelana na mesa de mármore, e com o descer de um martelo quebrou os contornos de seu rosto, que estavam gravados na joia. O novo brasão tinha um novo semblante, o semblante de Sorbo, o símbolo sagrado que servia de farol para o futuro de todos de sua linhagem.

O brasão juntamente com o colar de hierarquia eram o símbolo de poder de um Paramor. Seu corpo agora era sagrado, sua aparência, desde a tonalidade de seu pelo à espessura de seu focinho, era tida como o novo modelo de perfeição.

Muitos achavam que o pelo cinza de meu irmão mais velho seria o novo ideal, mas não, eu fui o Paramor, e minha beleza se tornou o símbolo do poder.

Em seguida, ele pegou seu colar, ouro com três pedras de diamante; ao colocar esse colar em seu pescoço, ele se tornaria o Paramor, líder máximo de sua Linhagem.

Seus pensamentos então foram levados ao seu primeiro dia no senado, ele foi o mais novo senador da história de Caltos. Mais novo ainda que o Imperador Escravo. Durante as décadas que sucederam, ele saboreou o poder absoluto, todos o obedeciam, todos o temiam, muitos até o amavam.

Eu dei a minha vida em troca de poder e riquezas. Apenas para descobrir que elas não compram ou tomam a única coisa que realmente importa. O Tempo.

Ele abriu os olhos, voltando para seu quarto, vendo sua médica, Clôdia, ao seu lado. Ele a amava e a odiava ao mesmo tempo, ambos sentimentos sempre na mesma intensidade, lutando entre si, se alternando entre si, sem nunca um deles ser o vencedor definitivo.

Envelhecer e se tornar uma criança outra vez, o mundo se torna menor, e as únicas pessoas que importam são as que cuidam de nós, nos alimentam de comida e atenção, e como eu anseio a sua atenção, como eu repudio a profunda e instintiva vontade que sinto em lhe agradar. Teria eu amado minha mãe algum dia como eu amo você hoje? Meu amor por você é minha fraqueza, e meu ódio é minha força. Há de chegar o dia em que um desses sentimentos vai trasbordar. Te ter nua em meus braços ou ter sua pele esfolada, para que sua beleza não me assombre mais. Ambas atitudes de um tolo, mas quem sou eu, se não um tolo diante dos seus olhos…

Ele observava enquanto a médica preparava a pasta cinza que era seu alimento, já fazia alguns anos que não podia mais engolir sólidos. Sua faringe cada dia se contraía um pouco mais, se aproximava o dia em que sufocaria ao beber água.

Em sua barriga havia uma sonda, sua comida era prensada todos os dias para dentro do seu estômago. Comida essa sem sabor algum, que não servia nem para saciar a sua inseparável fome.

Clôdia não era como os outros médicos, era especial: não apenas por liderar os demais. Era especial por ser uma Felina num mundo de Caninos. Vinda da distante nação de Tróferos, Sorbo pagara uma fortuna para tê-la ao seu lado.

Ela desbridava a pele morta de seu peito, enquanto ele admirava intensamente seu rosto, que lhe irradiava conforto. Ela era esbelta, delicada, longilínea e sem curvas. Sua pelagem curta tinha as extremidades lilases. A mesma tonalidade dos seus olhos. Por mais que já havia atravessado a fronteira dos cinquenta anos, a jornada não lhe tinha roubado a feminilidade e nem o sorriso jovial.

– Por que você não me deixa morrer, minha bela Clôdia?

– Você me paga para lhe manter vivo.

– E se eu lhe pagasse para acabar com minha dor, o que você me diria?

– Não.

– Que lhe importa se eu vivo ou morro?

Clôdia tocou no rosto de Sorbo com afeto.

– Eu não sou indiferente, meu propósito é cuidar de você, para que seus dias sejam dias de dignidade.

– Meus últimos dias, você quer dizer.

– Sim.

– Me diga, se eu pedisse para morrer, quanto eu teria que chorar e implorar para que você me desse a misericórdia da morte?

– Chore até ficar seco ou grite até perder a voz. Malcriado ou obediente, eu vou lhe manter vivo.

Sorbo acenou a cabeça, sorrindo.

Por isso a coloco à frente de todos. Se um dia minha vontade falhar, se um dia a dor for demais, você vai continuar me arrastando, até que eu fique louco, ou recobre o juízo. Abençoada seja sua crueldade e indiferença, minha preciosa.

– Muito bem, minha bela. Juntos até o fim, então.

 

Algumas horas depois, no salão, Sorbo se mantinha sentado em seu trono com dificuldade. Sua vestimenta lhe puxava tal qual uma âncora. Uma longa capa púrpura, com detalhes em dourado, cobria suas pernas e braços. Luvas negras escondiam os dedos quebrados de suas mãos. Até seu pescoço e cabeça estavam envolvidos por um elegante capelo, que deixavam à mostra apenas o seu rosto e suas pequenas orelhas pontudas.

Ao seu lado, Clôdia apontava uma seringa de vidro para a placa aberta em seu peito. Seu coração batia exposto, o órgão era murcho, quase negro e parcialmente coberto por uma estranha mucosa vermelha.

Dentro da seringa de vidro, um líquido negro e viscoso se movia como se estivesse vivo. O vidro estava se rachando. Eram pequenas e delicadas rachaduras, mas estas iam se espalhando lentamente pelo vidro.

– Você tem certeza? – a médica quis saber.

Sorbo apenas acenou que sim. A agulha de marfim penetrou seu coração, fazendo-o sentir, de imediato, o líquido milagroso arder em todas as veias de todo o corpo. Era uma dor que aliviava as outras dores.

– Sinto vida… – murmurou.

– E um risco desnecessário – Clodia reclamou, enquanto fechava a tampa de metal e abotoava seu colete. – Seu coração não vai aguentar muito mais.

– Como diriam os que me odeiam, eu não tenho coração, minha bela – virou-se para os guardas. – Abram o portão!

As portas duplas do salão eram decoradas com relevos em prata e ouro, retratando uma cena de batalha entre Caninos e Gorilas. Tão logo as portas se abriram, oito servos fizeram seu caminho carregando em seus ombros uma luxuosa liteira. Nela, sentado sobre suas inúmeras camadas de gordura, um Suíno morbidamente obeso fazia sua majestosa entrada. Seu corpo era monstruosamente inchado, mas sua cabeça e braços eram pequenos, comparados a abundância de sua massa; se ele tinha pernas, estas estavam perdidas dentro das dobras adiposas de sua barriga. Ele vestia um impecável terno feito sob medida para sua comunal forma, com tecido de micro lã e três botões de esmeralda. E como se isso não bastasse para ostentar sua riqueza, o Suíno tinha seu rosto perfurado por várias argolas e joias. Tantas que a cada passo que os seus servos davam, os metais faziam a melodia de dezenas de pequenos guizos.

Os servos que o carregavam eram da subespécie dos Javalis; todos musculosos e de aparência feroz, todos seminus, usando apenas sandálias e tangas que pareciam fraldas.

– Seja bem-vindo! – saudou Sorbo. – Perdoe-me, não sei o seu nome.

– Meu nome não importa, nobre Sorbo, cuja face está estampada na moeda da grande República de Caltos. Perante ti, quem sou eu? Ninguém. Apenas um humilde funcionário autorizado a representar os interesses do Banco dos Gigantes, em vista de sua persistente solicitação de um novo empréstimo.

– Sua presença me traz grande conforto. Por demais espero uma resposta.

– Meu nobre, me convocou e aqui estou. Não seja dito que nossos ouvidos estão surdos aos apelos da Linhagem de Narácio, entretanto, lamento que minha mensagem seja eco de todas as anteriores.

O Porco sorriu antes de continuar. Seu rosto rosado estava enfeitado com brincos nas orelhas e no nariz achatado. Quinze argolas ao todo, todas de ouro. Tinha uma aparência boba e inofensiva. Seus olhos, no entanto, contavam outra estória.

– A resposta é “não”! – finalizou.

Sorbo fez um sinal com a mão, e os Javalis colocaram a liteira no chão. Agora Sorbo, na altura de seu trono, olhava o Porco de cima para baixo.

– Uma viagem longa para uma declaração tão curta.

– Menos poderia ser entendido como um insulto.

É um insulto.

– Lamento.

– Ninguém me diz “não”, Porco! – Sorbo não alterou o tom da voz. Ela era firme, porém baixa. Ninguém me diz “não”, senão minha Clôdia.

– Permita-me discordar, pois por quatro vezes lhe dissemos não por meio de mensageiros. Aqui estou eu, em carne, lhe dizendo seu quinto não.

– Acorrentado no meu calabouço, tendo como único alimento os próprios dedos, eu lhe vejo me dizendo “sim”, cinco mil vezes.

– Certamente, meu nobre – o porco olhou para a mão coberta de anéis com grandes joias coloridas. – Não obstante, seriam cinco mil súplicas que meu nobre teria dificuldade em coletar nos cofres nas filiais de nossos bancos.

– Será que vocês, Porcos, não aprenderam nada com sua trágica história? Quando o Leão Branco uniu as tribos selvagens dos estepes, ele ofereceu um tratado de paz ao seu ‘deus’ imperador Erik, o Bondoso, que prontamente não apenas refutou o pedido, como esquartejou os mensageiros e ordenou que o Leão se curvasse diante de seu novo deus, ou que testemunhassem o holocausto de sua espécie antes de se juntar a ela nas profundezas do abismo. Me diga, Porco, dói saber que sua espécie já foi o maior império de Moserus? Que não mais de quinhentos anos atrás suas terras iam de Ilys a Caltos? Que vocês possuíam Zigurates, cidades, fortalezas, e até mesmo espécies escravas, como os Coelhos e os Rinocerontes? Dói ler nos livros de história como seu ‘deus’, que se proclamava imortal, assistiu sua família, seu povo, seu império cair; até que humilhado ele implorou perdão, apenas para ser entregue as bestas, que o comeram vivo diante de seu povo estúpido, que observou em pavor a morte de um tolo que acreditaram ser um deus? Alto foi o custo da estupidez de seu povo; suas terras foram tomadas, seus escravos libertados, suas cidades saqueadas, sua população massacrada. Um único erro que custou a vida de noventa e nove de cada cem Porcos – Sorbo olhou com orgulho para Clodia, depois com desdém para o Porco. – Aquele que não aprende com a história estará fadado a repeti-la.

O Porco olhou a sua volta, para os soldados, depois olhou para Sorbo e bocejou.

– Sim, sim, meu nobre – o Porco falou, entediado. – A Dinastia do Leão Branco nos tornou apátrida, mas seria essa a lição, meu nobre? Que nós perdemos a guerra? Não existem mais Leões em Morserus, o que eles conquistaram com a espada, eles perderam com a espada. Mas o Banco que nossa espécie os convenceu a criar permanece, nossas moedas unificam a economia das Cinco Nações, não temos exércitos, não temos terras, mas possuímos agora algo de maior valor, algo que você almeja, mas não possui. Ouro.

– Quem é você, Porco, e quem sou eu?

– Eu sou eu; e você é você, meu nobre. Quem mais haveríamos de ser?

– Uma vez eu perguntei ao meu pai por que todas as Linhagens de Caltos eram diferentes umas das outras. “Igualdade é uma mentira”, foi o que ele me respondeu. E me contou a estória que seu pai tinha lhe contado. No começo, antes da república, antes mesmo da Dinastia do Leão Branco, em algum lugar dos dias esquecidos, diz a lenda que os Caninos de Caltos eram todos irmãos. Todos iguais, com o mesmo pelo, os mesmos traços. Vivíamos da terra e dividíamos o pouco que possuíamos uns com os outros – Sorbo apontou para o seu belo salão e continuou. – Mas prosperidade procria discórdia. E, com o transformar de vilas em cidades, houve a sutil, porém irremediável, separação entre os irmãos. Uns prosperaram, outros não. Os filhos nascidos do privilégio usaram suas pequenas vantagens para conseguir ainda mais, e os filhos de seus filhos continuaram a tradição, até que uma sutil diferença e uma pequena vantagem deram lugar a uma grande diferença e uma grande vantagem; assim fizeram brotar da terra os muros que dividiram nossas cidades. De um lado os que serviam. Do outro os que eram servidos. Os que tinham muito casavam com os que tinham muito, e os que tinham nada casavam com os que tinham nada. Haviam exceções, é claro, nem todos os pobres possuíam nada, alguns nasciam dotados de algo tão precioso quanto o ouro: beleza. Com sua beleza eles compraram seu direito de viver dentro de nossos muros, no conforto de nossas camas. Com o passar dos anos, cada cidade tinha uma Linhagem, e enquanto que os pobres eram uniformemente feios em sua insignificância, os ricos se tornaram uma única família, unidos dentro de um mesmo ideal de beleza, privilégio e poder.

– E suas cidades se tornaram cidades-estados, cada qual com uma única Linhagem, e cada Linhagem liderada por um Paramor, escolhido pouco por seus méritos e muito pela fascinação que sua espécie tem com suas extravagantes e diversas aparências. Eu conheço sua história, meu nobre, desconheço apenas a natureza do seu argumento.

– Não somos iguais, Porco. Eu nasci para ter o que quero ter. E você nasceu do outro lado do muro, destinado a encontrar seu propósito no servir dos meus anseios.

– Meu nobre é generoso, sinto-me humilde diante de suas duras, mas verdadeiras lições de História. Permita-me então pagar minha dívida com uma aula de Sociologia. Seu mundo mudou. Enquanto é verdade que minha espécie não possui mais terras, e que não possuímos nação ou bandeira; essa não é nossa fraqueza, e sim nossa força. Quando fomos expulsos de nossa terra, nós aprendemos a grande lição: sábios são aqueles que temem os mais fortes. Não obstante, os fortes não são nossos mestres, e sim nossos libertadores. Mostraram-nos que terras podem ser conquistadas, castelos destruídos. Espalhamo-nos pelo vento levando conosco a importância de sua lição. O Leão Branco matou quase todos os filhos de Erik, o Bondoso, mas seu filho mais novo, o mais fraco de todos, sobreviveu com o poder de uma ideia. Moedas de Ouro com o semblante de Leões. A unificação monetária das Cinco Nações através de inúmeros Bancos, que juntos formariam o Banco dos Gigantes.

– Não existe poder na moeda, seu Porco estúpido. O Leão Branco caiu, não caiu? Traído pelas duas Nações que ele ajudou a formar. Chacinados não pelas Espécies nobres de Morserus, como os Cães e os Felinos, mas sim pelas espécies mais fracas, os Coelhos e os Ratos. Onde está então o poder do seu Banco, como o Ouro pode proteger você e os seus quando ele não pôde proteger ao Leão que conquistou o mundo?

– Me diga então, meu nobre, qual o nome do atual dono do Banco dos Gigantes?

– Quem se importa? Qual a diferença entre um Porco e outro?

– A diferença, meu nobre, é justamente no poder decentralizado. Não se pode destruir ou conquistar o que está além do seu conhecimento. O Banco dos Gigantes existe em todos os lugares onde existe o ouro. Nosso ouro. Ouro que vendemos a todas as nações. Somos verdadeiramente Gigantes com nossa sombra se estendendo por todo o mundo conhecido.

– Estão eles, seus bancos e seus irmãos que habitam minha nação, fora do meu alcance?

O porco riu.

– Funcionários e papéis podem ser substituídos.

– E você, porco? Pode você ser substituído?

– Eu não estaria aqui se não pudesse. Sou apenas um funcionário. Meu tamanho pode ser maravilhoso, mas existem outros ainda mais belos, alguns ainda maiores que eu.

Sorbo percorreu seus olhos pelo corpo do porco, sem esconder o nojo que sentia.

– É verdade que as fêmeas da sua raça são atraídas pela gordura de seus machos?

– Eu sou divino aos olhos dos meus, e não apenas para as fêmeas. Basta um olhar e todos sabem quem é o mais rico e notável. Cada quilo em meu corpo carrega consigo seu valor em prestígio – o Porco sorriu, olhando para o trono. – Meu nobre Sorbo, mesmo com todo o seu poder, aos olhos dos meus, você seria considerado um mendigo.

Sorbo sorriu, revelando uma boca com poucos dentes.

– Daqui vejo um aleijado – Sorbo pausou, deixando o insulto se estender no silêncio. – Se eu colocasse um copo com água a dez metros e proibisse seus servos de ajudá-lo, você morreria de sede, incapaz de andar os poucos passos salvadores. Sua espécie sofre de um dilema parecido. Acumulam riquezas que não usam senão para criar mais riqueza. Ouro comprando ouro, competindo entre si, para ver quem tem a maior pilha de moedas, enquanto tolos os carregam em suas costas, sustentam o peso de sua gula e ganância. Mas se aproxima o dia em que as costas de seus tolos vão quebrar, e eles vão cair. Abrirão os olhos e verão, finalmente, que são muitos sem nada, servindo poucos que têm tudo. Neste dia hás de entender o valor da minha espada, assim como a mentira e a ilusão dos seus valores.

– Novamente, meu nobre, transborda sua generosidade em forma de conselhos. Tão precioso presente me endivida. Permita-me pagar palavra por palavra, a verdade que seus olhos veem, pela verdade que os meus observam.

– Fique à vontade.

– Diante de mim, vejo um velho que sonha com seus dias de importância e poder. Nada é eterno, meu nobre, nem mesmo o poder e o privilégio. Eu olho para você e vejo sua nação, uma nação falida, que tenta fingir para o mundo que nada mudou, que vocês ainda são o centro de Morserus, que ainda são melhores que as demais espécies.  Com seus cofres vazios e seu povo faminto vocês imploram por empréstimos, mas em seu orgulho fútil usam todo o ouro que recebem para manter a ilusão de poder. Quem você engana, meu nobre? Sua capa purpura não esconde suas rugas e olhos de esqueleto, suas ameaças e braveados não escondem o desespero e necessidade em sua voz. O mundo que conhece não existe mais, meu nobre, você e sua nação foram passados para trás.

– Minha nação comanda a Legião de Ferro, cinquenta mil soldados, dez Golens de guerra; juntas as outras quatro nações não possuem metade do nosso poder bélico.

– Sim, meu nobre, mas aí está sua fraqueza, e não sua força. O custo anual de sua Legião é duas vezes maior que as quatro nações combinadas. Suas transações correntes são insustentáveis, com uma dívida externa conosco de 500 milhões de brasões de ouro. Caltos não tem condições de pagar seu exército, nem os juros de sua dívida. Com um déficit anual de 50 milhões, vocês escolheram ampliar seu poder militar. Meu nobre, existe um limite até onde podemos ignorar a realidade. Não entretenha ilusões de empréstimos, de guerra, de poder. Abra seus olhos para sua cruel, porém irresoluta, realidade. Sua nação está falida.

Sorbo gargalhou, uma gargalhada cheia de sarcasmo e desprezo, uma gargalhada que subitamente se tornou uma trovejante tosse. Espasmos de dores alucinantes atravessavam seu debilitado corpo, mas as dores em seu peito não se comparavam as feridas em seu orgulho, na humilhação de ser um velho que nem ao menos podia fingir possuir dignidade. Em sua mente Sorbo implorou para a tosse passar, e dessa vez ela passou, deixando em seu lugar seus lábios babados e o peso indigno do olhar de vitória no rosto de quatro queixos de gordura do maldito Porco.

Eu devia matar esse Porco aqui e agora, quantos sacrifícios mais eu vou ter que suportar até eu conquistar meu querer.

– Eu conheço uma estória – Sorbo falou, sorrindo com poucos dentes e limpando sua baba em sua linda capa purpura – sobre cinco crianças brincando num jardim, cada criança representa uma espécie das nações de Morserus. Uma senhora Bode toda vestida em negro se aproximou e ofereceu a cada criança o brinquedo de sua escolha. A primeira criança a pedir foi o Coelho, ele queria uma coroa para poder brincar de rei. Depois foi o Gato, que pediu um livro para poder brincar sem a companhia das outras crianças. Então, a maior de todas as crianças, um Gorila, pediu uma pequena estátua de seu deus, para que pudesse rezar. Já o Rato, tal qual teria feito uma criança de sua espécie, pediu uma moeda de ouro, para que ele pudesse comprar todos os brinquedos que ele quisesse ter. Você sabe o que o Cão pediu, Porco?

– Uma espada, eu imagino, para poder brincar de soldado – o Porco falou, com um sorriso nos lábios e desprezo nos olhos.

– Sim, o Cão pediu uma espada, e a senhora de negro deu a cada criança o conteúdo de seus corações, e então ela assistiu eles brincarem. O Coelho queria ser o Rei de todos; o Gorila queria que todas rezassem para seu deus; o Gato, se achando superior, se afastou para ler seu livro; o Rato ria e falava quão estúpidos todos eram por pedirem brinquedos sem nenhum valor. Foi quando o Cão espetou o Rato e mostrou para todos o poder da espada. Enquanto o Rato sangrava, o Cão pegou a moeda de ouro, e depois a coroa, a estátua, e até mesmo o inútil livro. E você sabe por que todos obedeceram, seu Porco estúpido?

– Eu não conheço essa estória, meu nobre – o Porco respondeu sem o sorriso.

– Porque o maior tesouro que temos é nossa vida, e para protegê-la vamos nos despir de tudo, tudo que temos, tudo que acreditamos, tudo que amamos. A vida é mais importante que nosso orgulho, nossa dignidade, nossas crenças, nossa família – Sorbo aponta para seus guardas. – Quem segura a espada controla a vida, eu seguro a espada de Caltos; agora, seu cretino insolente, todos vão brincar o meu jogo, com minhas regras.

– Perdoe minha insolência, meu nobre – o Porco respondeu com alegria em seu olhar. – Talvez todo esse mal-entendido seja sua memória que lhe falta em seus dias de convalescia. Sim, ilustre Sorbo, um dia fostes o Paramor de sua Linhagem, um dia controlou o senado com sua influência, e uma dia suas palavras foram verdades; mas esse dia não é hoje, meu nobre. Seu colar de hierarquia tem dois diamantes, e não mais três. Você escolheu seu filho Gladios para ser o novo Paramor de sua Linhagem, ele controla o senado. Enquanto você, meu nobre, não controla mais nada.

– Meu filho me falou palavras semelhantes – Sorbo respondeu baixando a cabeça, ele parecia prestes a chorar. – Ele sempre foi meu preferido.

– Seu filho vai salvar sua nação, meu nobre. Saiba que ele escreveu para o Banco de Gigantes; com a ajuda das Casas Mercantes de Ezzon e Galtravos ele vai refinanciar a dívida de Caltos, em troca sua legião de ferro vai marchar para as florestas de Affika e exterminar a Confederação das Panteras, que se enriquecem com o comércio ilegal de peles de kastores. O mundo mudou, meu nobre. Temos leis entre as cinco nações, temos tratados de comércio, temos penas com tinta no lugar de espadas com sangue. Eu sinto muito em ser o destruidor de suas fantasias, mas a verdade tem que ser dita, o mundo que você conhecia acabou.

– Não, essa não é a minha vontade.

– Ninguém mais se importa com sua vontade, meu nobre. Minha resposta é não, adeus.

Os Javalis se abaixaram para levantar a liteira, mas Sorbo estendeu sua mão, os comandando a parar.

– Eu tenho algo para lhe mostrar – Sorbo olhou para o lado, e um servo se aproximou do Porco com uma caixa de madeira escura com enfeites de joias em suas mãos. – Meu filho Glaudios me disse não em nosso último encontro, eu tentei lhe explicar o poder da espada, mas ele não entendeu. Talvez o conteúdo dessa caixa lhe ajude.

Quando o servo abriu a caixa, o Porco gritou assustado, ele olhou apavorado para seu interior; sobre um forro acolchoado estava a cabeça degolada de um Cão.

– Você matou seu próprio filho?

– Meu filho matou a si mesmo ao esquecer o poder da espada – Sorbo respondeu com tristeza em sua voz. – Ele me subestimou, ele subestimou seu irmão mais novo e estúpido, ele subestimou os sonhos de conquista do general em controle da Legião de Ferro, e como na estória das crianças no jardim, a brincadeira de uma nunca agrada as outras, e no final vence o mais forte.

O medo no rosto do Porco se transformou em nojo, e o nojo deu lugar a raiva.

– Seu tolo – o Porco gritou sem medo em sua voz –, você imagina estar no controle de algo? Você imagina que sua nação ou qualquer uma das cinco nações têm algum real poder? Vocês são fantoches, todos vocês, andam falam e pensam com o mover de cordas que fingem não ver. Sentados em seus tronos de cinzas, vocês são ignorantes dos verdadeiros mestres invisíveis de Morserus.

– Me conte então, Porco, quem são meus mestres invisíveis?

– Você os conhece… Eles estão a volta do poder, eles pagaram por sua educação na Academia, eles constroem seus castelos, eles produzem seu vinho, eles lhe vendem suas armaduras e armas, eles fazem doações de prestígio para os colares de ouro de suas Linhagens. Eles festejam seu poder enquanto lucram com sua ignorância.

– As Casas Mercantes? – Sorbo perguntou com ironia. – Suplicantes e mendigos todos eles, com suas mãos estendidas e joelhos dobrados prontos a atender e saciar os desejos daqueles que têm poder. Servos servem, servos não são mestres de absolutamente nada.

– Por quê? – o Porco perguntou mais calmo, seus olhos, entretanto, ainda brilhavam com hostilidade. – Por que eles lhe dão presentes? A Casa Mercante de Armane lhe deu todas as armaduras e armas de sua guarda pessoal – o Porco apontou para os guardas, todos vestidos em elegantes couraças de metal e lanças.  – Um presente caro, eu diria que nessa sala apenas temos mais de cem mil brasões de ouro enfeitando seus soldados. Mas um ano depois, no senado, você, Sorbo, votou no rearmamento de sua Legião de Ferro e escolheu a Casa Mercante de Armane para ‘servir’ a Caltos, com um contrato que rendeu a Armane mais de cem milhões em brasões de ouro.

– Novamente você me fala de moedas, Porco. Eu não me importo com moedas, eu queria um exército com o melhor armamento de Morserus, e é justamente o que eu possuo.

– Sim, meu nobre – o Porco falou em tom de insulto –, sua linda fábula de crianças lhe diz que a espada é mais poderosa que a moeda. Permita-me, então, lhe contar uma estória, não de crianças, e sim de números. Caltos vende à Casa Mercante de Tlenes toda sua colheita de grãos e frutas, e arrecada em seus cofres, anualmente, a quantia de cinquenta e cinco milhões de brasões de ouro; contudo, quando somamos todos os alimentos manufaturados que vocês compram de volta, Caltos tem um déficit anual de quinze milhões de brasões de ouro.

– Impossivel! – Sorbo falou, alarmado. – Esses valores estão errados!

– Meu nobre, o senhor mesmo votou para diminuir as taxas das taxas de importação das Casas Mercantes duas vezes em sua estadia no senado; seu pai três vezes; seu falecido filho uma vez. A Taxa que já caiu pela metade da metade está à espera de mais um voto no senado para abaixar ainda mais seu valor.

– Mas isso é bom para a economia de Caltos, todos sabem que baixas taxas nas Casas de Comércio geram mais riqueza para as Nações de Morserus, com seu acúmulo de capital estimula o comércio e permite o acesso a bens de consumo, produzindo mais riquezas que retornam para nossos cofres em maior proporção.

– As Casas Mercantes oferecem doações não apenas a nações, meu nobre, as Academias de Morserus têm torres construídas com o único propósito de ensinar o dogma econômico que você acabou de citar. Os lucros das Casas de Comércio nunca aumentaram o poder econômico de sua nação. Você foi ensinado que sim, mas seus cofres dizem que não.

– Como é possível eu nunca ter ouvido nada disso?

– Você escolheu ser ignorante. Ignorante das consequências de seus atos, do custo de suas vontades, da inconsequência de seu propósito. Vocês conquistaram o mundo economicamente com suas terras férteis, mas toda sua riqueza se foi na compra de brinquedos. Vocês devem ao Banco de Gigantes quinhentos bilhões de brasões de ouro. Quer saber o que é um devedor, meu nobre? Um devedor é um escravo voluntário. Se eu pegar um padeiro em sua capital e disser que agora ele é meu escravo e que agora seu trabalho será varrer o chão de meu palácio, esse padeiro vai me odiar, ele vai sonhar em escapar de sua cruel vida, vai sonhar em matar seu cruel mestre, que lhe roubou sua liberdade. Contudo, meu nobre, quando sua dívida para conosco tira as moedas de sua economia, quando poucos podem comprar o pão, o padeiro perde sua padaria; sem emprego para sustentar sua família, ele descobre o desespero, ele faz suas próprias dívidas. Se eu falar para esse padeiro agora, varra meu chão e receba por isso um salário de um escravo, suficiente apenas para afastar a fome, o padeiro não vai apenas me obedecer, ele vai me amar, e ao varrer meu chão, todo ódio que ele deveria ter por mim, ele vai dar a si próprio por ter falhado com sua família. Ele vai desistir de sonhar sem nunca saber, sem nunca entender que ele se tornou um escravo de mestres que não consegue ver.

– Se tudo que você me diz é verdade, as Casas Mercantes e o Banco de Gigantes são os verdadeiros inimigos de Caltos.

– Não, não, não, não, meu Nobre. Nenhuma lei foi quebrada, nenhum crime cometido. Seu inimigo não é o Banco de Gigantes, ou as Casas Mercantes, seu inimigo é a ignorância que você alimenta dentro de você.

– Por que me contar tudo isso, Porco?

– Por que sua estupidez, meu nobre, pode destruir o mundo. É triste, eu sei, descobrir que sua vida é uma mentira, que seus sonhos são fantasias e que sua mente lhe engana e se perde de você. Eu lhe imploro, meu nobre, aceite seu fim com dignidade, abra orfanatos, doe sua herança para caridade; os velhos se vão, mas crianças nascem, se não é possível salvar a si, por que não salvar elas? Por que não salvar as crianças de Caltos?

O Cão baixou sua cabeça, o Porco moveu seus lábios discretamente, ele não queria demostrar o sentimento de vitória que carregava escondido no peito. Mas seu sentimento morreu quando Sorbo levantou sua cabeça, vestindo em seu rosto um sorriso de vitória e um olhar de obsessão e loucura.

– Fodam-se as crianças! – falou Sorbo.

O Porco piscou espantado.

– Foda-se minha Linhagem! Foda-se minha nação! Foda-se Morserus! Mas, acima de tudo, Porco, foda-se seu ouro e seus mestres invisíveis! – Sorbo se levantou. – Tudo que eu sempre quis foi ter tudo que eu sempre quis. Eu nunca me importei com consequências, eu sempre soube que minha nação nunca teria como pagar sua dívida. Eu sempre soube que meu povo sofria com os benefícios que eu concedia às Casas Mercantes. Sim, talvez eu seja um escravo do meu desejo, contudo, eu prefiro ser um escravo de um desejo meu saciado por mim, que ser um escravo do desejo alheio como vocês. Será que você não enxerga sua própria ignorância? Sim, vocês recebem moedas por seus serviços, mas o mesmo pode ser dito por todas as prostitutas que saciaram minha vontade.

– Você é louco!

– Eu? Me diga, Porco, se a dívida de Caltos não for paga, o que acontece com o Banco de Gigantes?

– Nós somos grandes demais para cair. A queda do Banco de Gigantes destruiria a economia de Morserus.

– Camponeses continuariam a produzir alimentos, nobres continuariam a coletar suas taxas, sim, perderíamos muitos luxos, mas não morreríamos de fome; Morserus sobreviveria sem Bancos, sem Casas de Comércio. Quem vive da terra, continua vivendo; quem vive da coleta de impostos, continua vivendo; já os que trabalham vendendo moedas e supérfluos, esses certamente vão morrer de fome.

– A idade dos Leões acabou, você não pode tomar Morserus por força militar. Se Caltos invadir Gaul, as Casas de Comércio internacionais cairiam do mesmo jeito. Nosso mundo voltaria para a idade das Sombras. Por que você acha que não existe guerra entre as nações por mais de quinhentos anos? As Casas de Comércio não podem permitir uma guerra.

– Não subestime o medo, Porco. O medo move o mundo. Eu sou servo do meu medo de morrer. Meu medo é o poder da Rainha das Sombras, meu medo não me deixa escolha senão acreditar em suas palavras de escuridão. Eu sei que posso estar louco, eu sei que tudo isso pode ser por nada. Sei que muitos vão morrer, mas eu não me importo, Porco. Eu matei o filho que eu mais amei. Eu mataria a todos em Morserus por mais um dia de vida. Esse é o poder que me comanda, esse é o poder que comanda a Legião de Ferro. Escolha seu lado agora, mas escute seu medo antes de escolher, seu medo é seu único amigo, apenas ele pode te proteger da terrível tempestade que está por vir.

– O Banco de Gigantes. Não conheço o medo, meu querido tolo – o Porco coçou a testa e sorriu. – Nós não temos deuses de escuridão que nos prometem vida eterna, em troca de chão e guerras. Nosso único deus é o deus da ganância e acúmulo de capital.

– Ouse me negar o empréstimo, e minha guerra começa neste salão.

Um Cão vestido com o manto dos Bibliotecários de Caltos se aproximou do Porco com um enorme contrato e uma pena de tinta.

– Quer saber um último segredo, Sorbo? Nosso sistema monetário é feito em cima de dívidas; sem dívidas não existiria nenhum lucro. Toda moeda é uma dívida, uma promessa de valor, em troca de valor real. Perspectiva é uma coisa incrível, não. O que é dívida para você, é lucro para nós. Contudo, mesmo assim o Banco de Giagantes precisa de garantias reais, no não pagamento do empréstimo, conceda ao Banco as colheitas de Caltos como garantia.

– Sim, – Sorbo falou babando com um sorriso. – Que me importa o amanhã?

O Bibliotecário redigiu um novo documento e entregou ao Porco que o acinou.

– Com o assinar desse contrato, você faliu sua nação e me fez um dos banqueiros mais poderosos de Morserus. Tenha sua guerra, destrua seu mundo, nós emprestaremos o ouro necessário para reconstruí-lo – O Porco falou e acenou para os Javalis, que levantaram a liteira. – Você tem o poder para falir muitas das Casas Mercantes, para destruir Gaul, para destruir Caltos, mas o Banco de Gigante está acima de todos, não podemos ser donos de terras, mas somos donos daqueles que nos devem – ele acenou e os Javalis moveram a liteira em direção à saída. – Adeus Sorbo, eu não espero vê-lo nunca mais. Mas lhe deixo com um aviso, seja suspeito de falsas promessas, ninguém vive para sempre.

O Porco se foi com sua escolta. Sorbo não deu atenção ao aviso, seu peito batia com euforia, ele sentia algo que a muitos anos não conhecia: Paz! Seu coração pulsava cada vez mais forte. Por alguns momentos ele se esqueceu até mesmo de sentir dor.

Eu venci, minha Rainha, eu vou ser seu campeão, vou viver. Viver para sempre!

Naquele instante, sua dor retornou, como um punhal perfurando seu coração. Olhando ao seu redor, tudo deixava de existir, tudo escurecia, tudo lhe abandonava, até mesmo sua dor até mesmo seu medo. Sorbo caiu, apertando a placa de metal em seu peito.

Clôdia foi a última coisa que viu quando seu coração parou de bater.

O lindo semblante da única fêmea a quem ele jamais amou.

FIM?

 

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