Paradoxo Automata

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Lazander contemplou o rosto imóvel de seu pai. Mesmo com seus belos e felpudos pelos de um puro branco neve, suas feições rígidas narravam cinquenta anos de angústias e frustrações. Duas longas veias negras subiam pelo colarinho até sua orelha esquerda. Em seu focinho, um sorriso mentiroso de paz.

Eu nunca vi ele sorrindo em vida”, Lazander pensou ao tocar o frio aço inoxidável do caixão. “Eles te forçaram a sorrir, meu pai? Ou teria encontrado na morte algo que a vida recusou dar?”

 Dando de costas para o cadáver de seu pai, Lazander encontrou a multidão esperando ansiosa por suas palavras de conforto ou perdição. O fedor de medo permeava o ar. Mas se seu nariz Canino percebia os covardes, seus olhos eram enganados pelos rostos solenes vestidos em trajes negros de um descomedido esplendor.

Ternos de tecidos raros cortados sobre medida. Vestidos exclusivos de grifes predominantes no grande espetáculo que eram os desfiles de moda em Arkadia. Um pino de metal com o icônico rosto de uma boneca podia ser visto em todos os convidados.

O pino marcava a elite da Casa Mercante de Ariel.

Mesmo que a morte do dono majoritário fosse um espetáculo que pertencia a todos dos mais de três mil funcionários, apenas os cem mais bem pagos foram convidados para o exclusivo evento.

Eles querem saber se apenas meu Pai morreu, ou se suas carreiras faleceram junto com ele. Eles que esperem. Agora é o meu momento, agora é minha vez de mostrar a todos quem sou!

 – Meu Pai foi um visionário – Lazander quebrou o silêncio.

Sentados ao ar livre em cadeiras redobráveis, os convidados estavam alinhados sobre uma elegante e longa plataforma de aço. Banhados pela luz das duas luas próximas.

– Meu pai nasceu pobre. Um Cão mestiço sem um colar de hierarquia. O filho único de fazendeiros que trabalhavam numa terra que não lhes pertencia.”

Lazander olhou para o grupo seleto que era o conselho de diretores da Casa Mercante de Ariel. Quatro dos seis membros eram Cães de Caltos. Seus ternos exibiam um colarinho baixo, fazendo de todo o traje apenas uma acentuação de seus colares de hierarquia. Todos colares de prata.

– Para aqueles que não são familiarizados com nossa cultura. Existem quatro tipos de Cães em Caltos. Os Paramores, que são os governantes de suas Linhagens e seus distritos. Simbolizados pelos colares de ouro. Os administradores, que cuidam da divisão de trabalho. Simbolizados pelos colares de prata. Os executores, controlam os soldados e lidam diretamente com os Cães mestiços. Simbolizados pelos colares de Bronze. Todos os demais Cães são uma subclasse, cuja função é trabalhar para as castas superiores. Os mestiços, como são chamados, são simbolizados por sua ausência de símbolos, seus traços inferiores e variados, mas, acima de tudo, por seus pescoços sem colares – Lazander tocou no botão de ouro branco que ficava no topo da gola fechada de seu terno feito sob medida com uma linha tripla de esmegalion que parecia ter sido esculpido em seu corpo bem cuidado. – Se você é um cão sem coleira em Caltos, você é um servo e deve sua vida e lealdade ao Código de Obediência e ao Paramor de seu distrito. Isso se traduz numa vida de servidão e dedos sujos de terra.

Lazander parou de falar, repousou seus olhos azuis gelo nos membros Caninos do conselho. O peso do silêncio parecia ser sentido pelos Cães de colares prateados, que se remoíam inquietos em suas cadeiras. Um por um, eles baixaram suas cabeças levemente, num sútil, porém significante gesto de submissão.

– Meu pai nasceu para trabalhar numa terra que por lei não lhe pertencia. Numa cultura onde ele era não apenas irrelevante, mas naturalmente inferior. Quando o mundo lhe diz quem somos, quem somos nós para dizer que o mundo está errado?

Lazander queria chorar… Era apropriado chorar. Todos esperavam isso dele. Mas ele não tinha lágrimas para a morte de seu pai. Ele procurava algum sentimento para mostrar ao seu público, mas não havia nada. Nem dor, nem alegria. Apenas indiferença e o não bem-vindo frio da expectativa.

  • Meu pai provou o mundo errado. Muito se sabe de quem ele se tornou. Sobre sua ascensão ao trigésimo andar das Torres de Armikage. Sobre sua descoberta de uma nova composição que permitiu uma nova partitura ao Krysiel de três quilates. De como ele se tornou um dos Cães mais ricos em Clatos – Lazander passou seus olhos pela plateia, que o encarava com impaciência. – O que poucos sabem é como tudo começou. Como que um filho de fazendeiros se tornou uma lenda.

Os últimos dois membros do conselho, um Gato e um Gorila, se sentavam opostos um ao outro. Todos no conselho se odiavam, eram unidos apenas pela ganância que compartilhavam entre si.

– Meu pai foi um menino por demais gentil e frágil ao toque. No início de sua infância ele foi protegido do mundo pelo incondicional amor de sua mãe. Ela lhe permitiu ser quem ele queria ser. Graças a ela, meu pai nunca trabalhou na fazenda. Ao contrário de todas as demais crianças sem coleira, ele passava seus dias costurando ao lado de sua mãe. Ela fazia vestidos simples, ele fazia bonecas com as sobras de pano. Uma vez por mês eles iam até a cidade vender seus artesanatos na grande feira. Meu pai me disse uma vez que nunca foi tão feliz quantos nos anos ao lado de sua mãe. Infelizmente, para ele, sua mãe adoeceu e morreu no seu aniversário de quatorze anos. Após o enterro, seu pai lhe deu um ultimato: trabalhar no campo ou sair de casa – Lazander apertou sua mão direita para conter o espasmo de dor. – Ele saiu de casa e, sem ter onde ir, caminhou até a cidade próxima. Mas sem pano para fazer suas bonecas, ele viveu de esmolas, se alimentando dos restos de comida encontrados no lixo dos Cães de colares de bronze. Juntos aos restos de comida, um dia encontrou arames e metais oxidados que, como ele, foram descartados por não servirem a ninguém. Com estes elementos meu pai criou sua primeira boneca de sucata. Ele a vendeu na feira. Fez outras, vendeu mais. Cada boneca que fazia era mais elaborada que a anterior. Em um ano, meu pai não era mais um mendigo. Ele tinha uma pequena oficina, onde construía e vendia suas mais novas criações. Cansado de bonecas imóveis, ele aprendeu sozinho a dar o primeiro sopro de vida a suas obras. Forjou então engrenagens, rodas de escape e catracas. Simples mecanismos que davam a ilusão de vida. Com eles suas novas bonecas puderam se mover e dançar ao girar de uma manivela. Ele não sabia, mas tinha criado seus primeiros automatas.

Lazander olhou para além dos convidados. Para além dos jardins coloridos meticulosamente cuidados. Um pequeno castelo sem muros, feito de mármore branco. Seu castelo agora. Ele queria sorrir, mas seria inapropriado. Baixou então seus olhos de volta para seus convidados.

Num enterro, não é quem morre a estrela, os herdeiros são o verdadeiro espetáculo.

 – Meu pai ficou rico vendendo seus automatas. Em poucos anos ele tinham dezenas de empregados e vendia suas obras para uma pequena Casa Mercante, a qual revendia seu trabalho para todo o mundo de Morserus. Mas, apesar da segurança material, meu pai era infeliz. Suas obras de arte, que agradava a todos, não lhe inspiravam mais. Há muito tempo ele tinha se cansado da mera ilusão de vida. Ele sonhava em criar um automata que pudesse andar e falar como todos nós. Ele se tornou um estudioso da anatomia corporal, procurou em cadáveres o segredo da mobilidade autônoma. Mas a biologia não tinha nenhuma resposta para suas obras de metal. Foi então num cristal que ele encontrou a promessa para sua crescente obsessão. Nas Torres de Armikage, eles conheciam o segredo do Krysiel. Uma joia capaz de responder ao pensamento, com o poder de mover próteses de braços e pernas perdidos nos campos de batalha. Meu pai vendeu tudo que tinha e usou cada moeda de ouro para pagar sua vaga na academia. Durante os próximos dez anos ele ascendeu ao nível máximo da academia. O décimo terceiro andar da Torre de Armikage.

Lazander levantou uma pequena joia vermelha de um quilate com corte oval e um intenso brilho laranja.

– Um Krysiel não pode ser encontrado na natureza. Cada um deles tem que ser criado por um Majstor Compositor. Infelizmente, para meu pai, o preço de se tornar um Majstor era altíssimo. Não apenas nos anos dedicados ao estudo da Linguagem Musical de Siel, mas ao sacrifício máximo de ter que se fundir a uma de suas joias. A fusão de Krysiel é um processo aterrorizante, uma vez que a joia envenena gradualmente seu portador, reduzindo sua vida drasticamente, muitas vezes levando antes sua sanidade.

Lazander olhou além do público, na direção do jardim. Avistou cinco figuras de capuzes vermelho se aproximando. Sem cerimônia, ele jogou a joia que segurava fora.

– Porém, o sonho de meu pai estava muito além do sacrifício de sua vida. Com apenas trinta anos de idade, ele se tornou o Majstor mais novo das torres de Armikage. Não apenas isso, ele foi o primeiro compositor a criar uma nova partitura que permitiu a sua orquestra manifestar novos cortes de Krysiel. Essas novas joias patenteadas por nossa companhia tinham o exclusivo poder de fazer um simulacro parcial da mente de um servo no cristal. Permitindo assim que este dê o sopro de vida aos automatas de meu pai.

As figuras de vermelho passaram por entre o público em suas cadeiras. Uma se colocou ao lado de Lazander, enquanto as outras quatro rodearam o cromado caixão.

– O automata X1 foi o início de nossa casa mercante – Lazander deu uma pausa ao colocar sua mão sobre a manta da figura ao seu lado. – Meu pai morreu envenenado pelo seu Krysiel apenas nove anos após realizar seu sonho. Mas sua genialidade, seu legado e nossa companhia continuarão eternamente vivos.

Lazander retirou o manto que cobria a figura, revelando em seu interior um automata. Seu corpo brilhava com o aço inoxidável que cobria suas delicadas e silenciosas engrenagens, que giravam por entre as brechas das placas de metal. Seu corpo era masculino em físico, mas entre suas pernas não existia nenhum sinal de sexualidade. Seu rosto era plano e alongado, com lábios imóveis, olhos sérios e vazios, buracos adornados de escuridão. Em sua testa, onde ficaria um terceiro olho. Um Krysiel de corte asscher amarelo brilhava num reluzente laranja.

– Senhoras e senhores, eu lhes apresento o nosso mais novo modelo de revenda, o automata X2 – Lazander falou olhando para trás por um instante. – Totalmente silencioso, duas vezes mais leve, cinco vezes mais caro. Ao contrário do X1 que obedecia a comandos simples, o Krysiel do X2 vem em cores e funções exclusivas. O verde tem todo o conhecimento utilitário e reflexo condicionado de um jardineiro. O vermelho de um chef; o amarelo de um mordomo. E podemos, inclusive, compor joias com funções específicas. Guardas, cirurgiões, babás, qualquer profissão que utilize repetição motora. Livre arbítrio e imaginação são nossas únicas limitações.

As quatro figuras ao redor do caixão o levantaram e caminharam poucos passos para o final da plataforma.

Lazander andou na direção de seu pai e fechou o caixão. Os automatas encobertos de vermelho marcharam em direção ao final da plataforma. Os convidados se levantaram para poder ver melhor.

No final, o vazio da queda. No horizonte, ilhas flutuantes iluminadas por faróis em seus portos aéreos. As ilhas mais próximas eram pequenas, com pequenos castelos e torres ocupando quase todo seu perímetro. Já as ilhas mais distantes eram maiores, nelas podia-se ver pequenas cidades de mansões.

– Ao grande sonhador de Casa Mercante de Ariel. Entregamos seu corpo ao abismo. Que seu legado permaneça vivo dentro de nós. O passado acabou, o presente lamenta, mas o futuro nos espera. Adeus, meu Pai.

Os automatas soltaram o caixão, que despencou abismo abaixo. Os olhos de Lazander se encheram de lágrimas. Era um tumulto de emoções em seu peito. Ele não tinha como dizer se seu coração ardia de tristeza ou alegria.

Quando ele se virou, todos olhavam para ele. “Eles querem saber se devem pular no abismo atrás do meu pai ou se existe esperança em suas vidas.

 – Quando o primeiro X1 foi posto à venda por quinhentos mil Leões de ouro, todos riram de nós. Quem compraria um automata que faz trabalho de um servo pelo valor equivalente a contratar cem servos por cem anos? Talvez alguns de vocês estejam se fazendo a mesma pergunta quanto ao X2. Quem comprará um servo no valor de quinhentos servos? A resposta é simples. Todos, todos que puderem comprar. Eu tenho um X2 agora preparando meu jantar. Isso faz de mim o único a possuir o novo modelo. Isso faz de mim um ser superior a todos que possuem o antiquado X1. A pergunta então, meus caros, não e quem poderia comprar um de nossos novos automatas, a pergunta se torna quem não vai poder comprar um?

Lazander tirou sua luva e revelou a todos uma joia escura em sua palma.

–    Quando eu nasci, tudo que meu pai conquistou já existia. Meu pai morreu, mas o segredo que pertence à Casa Mercante de Ariel está vivo em mim. Eu conheço as suas partições, eu serei o novo Majstor condutor. Eu vou compor os novos Krysiels. Hoje é o fim de uma era, mas também o início de toda uma nova realidade para nossa companhia.

Alguns choraram ao ouvir suas palavras, outros até mesmo riram aliviados, nenhum gritou de alegria, mas era possível ver eles se contorcendo para não demostrar sua contida felicidade.

Como eu gostaria que você pudesse ver isso, pai. A felicidade que sua morte trouxe a todos aqueles que lhe devem a vida. Seus preciosos brinquedos, que você não soube dividir, agora são todos meus.”

 Todos aplaudiram. Membros do conselho inclusos.

xXx

Lazander saboreava seu licor de mel enquanto seus olhos contemplavam as dezenas de iates dirigíveis. Eles se despediam de seu porto em direção ao centro do abismo. Do alto de sua bancada, ele podia ver os convidados menos afluentes na fila de um navio aéreo. Todos indo para o mesmo lugar, a cidade mais rica do mundo. A ilha de Arkadia. La eles se hospedariam por mais alguns dias, e depois voltariam para suas nações de origem.

Dizem que as ilhas flutuantes e o abismo são a grande maravilha de Morserus. Mas para mim, que nasci aqui, tudo que vejo são pedras cinzas quebrando a monotonia do vazio eterno.

Lazander aspirou e, com o ar preenchendo seu peito, ele se sentiu pela primeira vez em sua vida pleno. Hoje ele tinha saído da sombra de seu pai, deixado de ser o filho de um gênio, para se tornar a única esperança de sua Casa Mercante. Ainda podia ouvir o clamar dos aplausos.

Eu sou quem acredito ser.

Ao suspirar e esvaziar o peito, ele reencontrou o vazio de sempre. Comparado com as Casas Mercantes que se sentavam ao conselho de mármore. Seu império de vendedores de bonecas caras era insignificante. Ele tinha ouro, mas seus rivais tinham ouro, influência e poder.

De que me vale aplausos de empregados? Eu não ganhei o jogo. O jogo está apenas começando.

 “Senhor, aqui está o Krysiel de seu pai.”

Caindo para fora de seus pensamentos, Lazander olhou para o fiel mordomo ao seu lado. Um Cão mestiço, da sua idade. Ao invés do uniforme ele estava vestido com sua elegante jaqueta preta.

– Obrigado, Ollar – Lazander falou com um sorriso.

O jovem mordomo lhe estendeu uma caixa prateada onde repousava, num delicado forro de cetim branco, o esqueleto negro de uma mão descarnada. Na palma escura e rachada, um Krysiel se fundia aos ossos. Um Krysiel diferente dos outros, porque este tinha perdido tanto seu brilho quanto sua cor.

Lazander desviou seus olhos para o jovem mordomo. No seu semblante impassível ele podia ler cada pensamento dele.

– Me diga Ollar – Lazander se levantou para poder falar cara a cara –, o que lhe ofende mais em mim? Que eu ousei me tornar o novo Majstor de Siel? Ou que eu vou entrar na proibida sala de tesouros de meu pai?

Ollar não respondeu, mas seu corpo rígido não escondia seu desconforto e hostilidade.

– Você nunca teve o meu intelecto – Lazander falou com um sorriso –, contudo, eu sempre admirei sua honestidade e coragem. Teriam essas qualidades de sua juventude se perdido no adulto de agora?

Ollar riu. Um riso sarcástico que teria incomodado Lazander se não fosse sua satisfação em finalmente ter tirado alguma reação de seu fiel mordomo.

– É tudo um jogo para você, não é? Essa joia vai te matar como matou seu pai. Um pai que merecia mais de você que usar seu enterro como plataforma para exibir os novos modelos de automata que ele desenvolveu sozinho, mas que você tomou crédito para se exibir para o conselho de diretores!

Lazander balançou a cabeça.

– É isso que te aborrece?

– Seu pai lhe deu tudo. Você deve a ele…

– Eu não devo a ele nada – Lazander se recompôs e continuou num tom quase suave. – É tudo um jogo, Ollar. Um jogo de comunicação. Os membros do conselho estão espalhados por nossas filiais nas cinco nações de Morserus. Sem contato um com o outro para poder avançar suas pretensões ao cargo de diretor executivo. Me diz, então, o que você acha que aconteceria depois do funeral, quando todos voltassem a se reunir em Arkades?

– Você é o dono da companhia, eles não têm poder nenhum.

– Não Ollar, como o dono, sou eu que não tenho poder nenhum. Sem mim, eles têm entre eles todo conhecimento para fazer tudo, menos a produção dos Krysiels. Nada impede eles de quebrarem seus contratos e levarem todos os nossos segredos para um de nossos competidores. Existem outros Majstores, nossa patente pode ser revogada se perdermos o poder de suprir nossa demanda. As Torres de Armikage nos dão nosso monopólio em troca de uma porcentagem de nossos lucros. Se os membros do conselho perderem sua confiança em mim, eu perco toda minha companhia.

– Eles não seriam tão desleais.

– O que você chama de lealdade, meu querido, eu chamo de estupidez. O único poder que os donos, os reis, os ricos têm sobre a grande maioria que controlam, e a ignorância que os mesmos têm de sua real capacidade coletiva. Eu não desrespeitei meu pai. Eu me tornei útil e sacrifiquei meu futuro para poder dar continuidade ao meu legado.

– Seu legado? Você quer dizer o legado do seu pai.

– Meu pai viveu e morreu como um vendedor de bonecas. Eu tenho planos muito maiores.

– O que mais você pode querer, o menino que nasceu com tudo?

Lazander colocou sua mão direita sobre o Krysiel na palma de ossos. Sobre sua luva negra, uma luz fria atravessou o couro escuro e o forçou a desviar seus olhos.

– Eu quero a imortalidade do meu nome. Eu quero um mundo melhor para todos. Eu quero todo um futuro, que apenas eu posso ver.

Ollar fechou a caixa.

– Você é o Majstor agora. Eu espero que não se arrependa.

Lazander sorriu, mas sua alegria era pequena. Ele culpou Ollar por isso. Com ele sempre vinham as lembranças de um passado mais feliz. Uma época em que foram grandes amigos. Uma época onde crianças eram apenas crianças num mundo de aventuras. Mas com a idade veio a iniquidade de potencial, de status, de propósito. Esse era o poder do poder.

Eu tenho controle absoluto sobre seu destino, para ele eu não sou mais um amigo. Eu sou um deus.

 Obrigado, meu querido – Lazander falou lhe dando as costas. – Tenha uma boa noite.

xXx

Lazander afastava as sombras com uma lanterna de óleo. Os degraus da torre invertida eram amplos, as paredes eram densas. Todo o caminho era cravado num caracol de pedra que ia até as profundezas da ilha flutuante.

Na longa descida, cercados pelas sombras e muros sem janelas, ele começou a temer que a escada não tivesse fim. Ninguém ousava construir abaixo da linha dos faróis, todos sabiam que nenhuma embarcação jamais retornou ao descer no abismo. Ele teria voltado, mas seu pai tinha feito esse caminho todos os dias por anos. Lazander mesmo tinha o feito uma vez. Não havia nada a temer. Seu futuro estava a sua espera.

Ao final da escada ele encontrou o que procurava. Diante dele, uma redoma de aço gigantesca cobria quase todos os cinco metros da parede de concreto reforçado. No coração da redoma um painel controlava dezoito cilindros de titânio expostos. Um Krysiel de um quilate servia de fechadura magnética.

Lazander colocou sua mão direita sobre o mecanismo. A joia em sua mão brilhou sua luz fria, que atravessava sua luva negra. Em seguida a pequena joia respondeu com um brilho amarelo, que em sequência moveu as engrenagens ocultas fazendo rolar os cilindros de titânio para dentro. Sem nenhum contato, a porta se abriu sozinha, revelando seu interior.

Seu precioso quarto de tesouros agora é meu, pai.

Ao contrário das estórias de tesouros, não haviam baús de joias ou moedas de ouro. Aos olhos não informados, não se via nenhum tesouro, apenas um amplo quarto circular decorado com móveis antigos e quadros de Leões. Uma prateleira de livros. Um quadro negro com rascunhos matemáticos e os contornos de uma automata. Uma cama de casal com colunas de madeira. Um livro de páginas foleadas de ouro e prata estava aberto sobre um altar.

Era aqui que você se escondia do mundo, Pai, num quarto decorado com o seu mau gosto, numa caverna de insanidade.

Lazander sabia que apesar de nada combinar, cada peça de mobilha ou arte estavam avaliadas numa pequena fortuna. Os quadros pertenciam à Dinastia do Leão Branco. Os móveis eram relíquias da Grande Guerra, e um dos vasos pertencia à Idade das Sombras.

Meu pai, que ganhou sua vida transformando objetos em ouro, gastou a maior parte de sua fortuna transformando de volta ouro em objetos. Mas seu verdadeiro tesouro não está aqui. Seu grande sonho, o final da estória que apenas eu sei, está me esperando do outro lado destas belas cortinas brancas.

 Lazander colocou sua lanterna sobre a mesa, ele podia ouvir uma delicada melodia. Ao atravessar as cortinas, ele avistou uma ampla varanda e uma figura feminina tocando uma arpa.

– Olá Ariel, quanto tempo – Lazander falou a concertista.

De costas para Lazander, iluminada pela luz que subia dos largos quadrados de vidro aos seus pés, estava a bela concertista.

A luz acariciava sua silhueta feminina de curvas sinuosas e se refletia nas placas duradas de sua nudez. Cada placa escondia arbitrariamente o interior de seu corpo. Entre os muitos vãos existia um universo de vida, na complexa e silenciosa forma de seu núcleo de rotores, âncoras e inúmeras outras maquinações que se movimentam e giram, não como peças de uma máquina, mas como os órgãos de um ser vivo.

Ainda mais belos pela ausência de sangue e maior simetria.

A bela automata continuou a tocar.

 Ao terminar, Ariel se virou e olhou para Lazander com seus olhos de safiras esculpidas num rosto perpetuamente sereno que possuía limitado movimento. Entretanto, sua simplicidade era balanceada por uma perfeição artística que ela irradiava em seu sorriso eterno.

– Olá Laz, é muito bom lhe ver novamente – Ariel falou com uma voz que não vinha dos seus lábios. Uma voz doce e gentil, mas numa cadência tão precisa e constante, que em sua perfeição revelava algo inatural em seu som.

– Eu teria vindo lhe visitar mais vezes, mas meu pai insistiu em ter você apenas para ele e mais ninguém.

– Eu teria gostado muito disso.

– Teria? – Lazander se aproximou. – Você realmente sente algo, ou apenas diz o que acredita que eu gostaria de ouvir?

– Eu sinto. Não da mesma forma que você, mas eu sinto sim.

– Você é muito especial, não é Ariel? – Lazander falou olhando diretamente para a luz que vinha do vão entre seus dois delicados e perfeitos seios metálicos. – Me diga o que você sentiu por meu pai que lhe prendeu aqui por uma década e a escondeu do mundo?

– Eu amei seu pai.

– Não seria isso um indício que você não é real? Que dentro de seus lindos seios falsos existe apenas uma ilusão de consciência? como num teatro de bonecos, você repete para mim as palavras escolhidas pelo seu criador.

– Exitem maneiras de determinar a existência ou não de consciência dentro de qualquer ser que a proclame ter.

– Como então? Uma vez que você tem o intelecto para simular qualquer resposta, como saber se realmente existe algo real dentro de você?”

– O poder de escolha. Seres conscientes a possuem, enquanto serem inconscientes possuem apenas a ilusão de as ter.

– Precisamente – Lazander ofereceu sua mão a Ariel.

Sentindo o calor de seu toque, Lazander puxou o automata para próximo de si.

– O que você quer de mim, Laz?

– Você tem um sonho? – Lazander falou olhando para os olhos de esmeralda.

– Sim.

– Me diga seu sonho.

– Eu gostaria de embarcar numa caravela aérea. Velejar os céus amarelos de Morserus. Ir além dos desertos eternos e descobrir o que existe além do fim.

– Nada existe além do fim.

– O que lhe faz dizer isso com tanta confiança?

– Ninguém nunca voltou do fim.

Talvez o que existe além do fim, existe apenas para aqueles que não retornam.

– Então, tolos são aqueles que buscam ou não buscam essa resposta. Ambos ignorantes de sua ignorância até ser tarde demais para retroceder. Não é a vida cruel, Ariel?

– O que você quer de mim, Laz?

– Eu quero realizar o seu sonho. Amanhã eu farei a encomenda de uma caravela aérea. Construirei sua tripulação de automatas, todos modelos X2 feitos sob medida com Krysiels simulacros de velejadores com décadas de experiência. Uma fortuna, sem dúvida. Mas não além do meu alcance.

Recolhendo sua mão, Ariel se afastou de Lazander.

– Laz. Você não pode dar ou prevenir alguém de alcançar o seu destino. Se você deseja algo de mim, por que não ser direto?

Lazander se sentou à mesa.

– Que tal você me fazer um chá. Enquanto bebemos eu lhe conto qual é o meu sonho.

– Eu adoraria.

Ariel saiu da varanda e deixou Lazander sozinho a contemplar a escuridão a sua volta. Do outro lado do parapeito não havia nada. Não se podia ver as luas ou as outras ilhas. Apenas uma escuridão absoluta que era quebrada pela luz que irradiava do piso de vidro abaixo de seus pés.

Quando Ariel voltou com o chá, ela verteu o fumegante e perfumado líquido num artesanal copo de porcelana. Luari era o sabor preferido de seu pai, amargo demais para o paladar de Lazander.

– Sobre o meu sonho – Lazander colocou o copo sobre a mesa –, após a tradução do livro de Siel, as torres de Armikage descobriram a linguagem musical. Uma linguagem tão absurdamente complexa que seu conhecimento não pôde ser suportado por apenas um indivíduo. Os primeiros Majstors conduziam sua orquestra sem a ajuda de um Krysiel. A mais simples das três partições do livro de Siel foi tocada por anos até produzir seu primeiro Krysiel. Uma insignificante pedra de um quilate cujo único poder era a construção de instrumentos capazes de atingirem as notas para a segunda partitura. Foram décadas até que todos os instrumentos da orquestra estivessem sintonizados com os Krysiels. A segunda partitura então foi performada há pouco mais de duzentos anos. Em alguns meses o primeiro Krysiel de três quilates foi materializado. As instruções para a terceira partitura ditavam que a joia deveria ser implantada cirurgicamente na mão direita dos Majstores.

Ariel pegou na mão direita de Lazander. Com seus delicados e precisos dedos, ela puxou sua luva negra. Ao redor da joia, grossas e compridas veias escuras se estendiam expostas a sua pele. O pelo marrom de sua mão estava ralo, e em seus dedos podia-se ver as juntas de seus ossos. As veias escuras se estendiam até o início de seu pulso.

– Se amputarmos sua mão agora, podemos salvar seu braço – Ariel falou gentilmente.

– Eu não terminei minha estória – Lazander puxou sua mão de volta. – Até hoje ninguém conseguiu tocar a terceira partição. Ao fundir o Krysiel com o Majstor, a joia se envolve numa nuvem negra. O envenenamento de Siel gradualmente mata o condutor entre cinco a quinze anos. Durante esse tempo, contudo, um Majstor tem o poder de fazer variações na segunda partição e criar joias de três quilates com variantes de poderes magnéticos e de simulacros de conhecimentos básicos.

– Você não é seu pai, Laz. Não tente repetir uma vida que não é a sua.

– Não me subestime, Ariel. Eu não sonho em ser um vendedor de bonecas e morrer no auge de minha vida.

– Então, remova o Krysiel.

– Não – Lazander deu um longo gole, ao colocar a xícara de volta à mesa, ele continuou. – Existem cinco páginas faltando no Livro de Siel. Athanasius Ikaros rasgou essas páginas após matar seu mais brilhante aluno. Ninguém nunca soube suas motivações para tamanho sacrilégio. Uma vez que ele se enforcou após queimar todas as traduções do livro de Siel, deixando apenas o original. Por qualquer que fosse seu motivo, ele sabia que o conteúdo das cinco páginas destruídas, páginas que já haviam sido lidas e relidas por todos os outros Majstores, não poderiam ser reescritas. Atá hoje, quase todos em Armikage acreditam que essas cinco páginas são um vazio de conhecimento, que impedem os Majstores de alcançar as notas certas para a terceira partitura de Siel.

– E você acredita que as páginas perdidas podem lhe dar o caminho para realizar seu sonho.

– Eu não acredito Ariel, eu sei. Me entregue meu sonho, me diga o conteúdo das páginas perdidas do livro de Siel. Em troca, você terá sua liberdade e o seu sonho.

– O conhecimento que você busca traz consigo verdades que você pode não ser capaz de ouvir.

– Eu estou disposto a correr esse risco.

– Eu não.

– O que é você, Ariel? Por muitos anos eu pensei que meu pai tinha descoberto você em alguma ruína. Mas depois me ocorreu que o grande sonho dele nunca foi criar automatas ou ficar rico. O sonho do meu pai era criar vida. De alguma forma ele realizou seu grande sonho. Ele criou você. Não é isso, Ariel?

– Sim.

Lazander colocou suas mãos sobre os seios de Ariel. Erguendo seus delicados mamilos, depois abrindo seu peitoral. No interior mecânico do automata existia um Krysiel do tamanho de um punho.

– Mil quilates de paradoxal perfeição. A única explicação possível para sua existência é que meu pai descobriu o Segredo de Siel.

– Não, seu pai nunca entendeu o Segredo de Siel.

– Então, como um imbecil, uma criança adulta, que era meu ignorante pai, conseguiu fazer o que mais ninguém em Armikage conseguiu?

– Você sabe qual era o nome da sua avó?

– Não. Eu nunca pensei em perguntar. Meu pai sempre chamou ela de mãe em suas estórias.

– Ariel.

– O nome de nossa companhia. O Seu nome. Isso é mais que uma homenagem, não?

– Sim. Seu pai foi maltratado e ignorando por todos, menos por sua mãe. Quando ele pensava em felicidade, a única felicidade que ele conheceu foi nos momentos ao seu lado. Dos sorrisos de orgulho que ela o dava ao término de uma nova boneca. Quando ele estava faminto e abandonado, sozinho numa cidade estranha, ele fez sua boneca de metal não por moedas ou alimento, mas para tentar relembrar o sorriso, o sentimento de ser amado.

– Isso é muito melodramático, mas não explica você, não explica nada.

– Não Laz, isso explica tudo. Os caminhos do coração levaram seu pai a mim. Seu pai manteve sua mãe viva em sua mente e, com cada boneca, ele se permitia sentir minutos de felicidade, de aprovação. Mas sua mãe imaginária se tornou cada vez mais exigente, e cada nova boneca tinha que ser mais perfeita que a anterior. Até que um dia sua mãe idealizada lhe deu a ideia de recriá-la. Assim nasceu o sonho que se tornou eu.

– Você e um simulacro de minha avó? É isso que você está me dizendo?

– Sim e Não. Não existia sangue para criar um simulacro. No lugar de sangue, seu pai usou lágrimas. Em suas lágrimas existiam a ideia que seu pai tinha de sua avó. Uma ideia que substituiu verdades esquecidas por fantasias idealizadas.

– Mas como? Como foi possível?

  • Como na composição da primeira joia de krysiel, ele se sentou todos os dias nesta varanda e tocou uma música feita com todo o sentimento acumulado que explodia em seu peito. Ele tocou sua história, sua infância perdida, sua saudade eterna, a tempestade de lembranças de amor, tristeza e dor.

– Por que mais ninguém conseguiu fazer isso?

– Porque a melodia que ele tocou requer cinquenta anos de uma infância perdia para ser composta.

– Onde está a partitura?

– Ele não fez uma. E mesmo que tivesse feito, ele usou lembranças que mais ninguém possuiu. Usou experiências que mais ninguém teve. A música sem o sentimento não atravessa as Linhas de Siel.

– Então me diga o que estava escrito nas cinco páginas perdidas. Se você quer o seu sonho e sua liberdade. Eu quero o segredo perdido sobre o significado das Linhas de Siel.

– Não.

– Sua vida. Me diga sim ou eu vou destruir seu corpo e jogar sua joia dentro do abismo.

– Não.

– Por que não?

– Porque eu não quero que você acabe como seu pai.

– Eu sou tudo aquilo que meu pai nunca pôde ser – Lazander olhou para as grotescas veias dilatadas em sua mão. – Eu vi meu destino dentro do Krysiel. Quando eles fundiram a joia em mim, por um segundo ela ficou branca, um único segundo antes de ser encoberta por sombras. Mas nesse segundo eu pude ver além de qualquer outro Majstor em Armikage. As joias, enquanto claras, são interligadas, e o conhecimento de uma se torna o conhecimento de todas. Eu não pude ver nenhum dos Majstores das torres, as sombras os encobriam de mim. Contudo, eu pude ver outros portadores de Krysiel. Existem dois apenas vivendo em paz, eles sorriram em pensamento para mim. Eu pude ver você, Ariel, você fala com eles, você conhece todos os segredos, aqueles que eu busco e aqueles que eu não imagino querer saber. Eu me vi liderando o mundo, sendo o reitor de Armikage, ensinando ao mundo como clarear as sombras do Krysiel. Por um segundo eu soube tudo, em outro segundo eu não sabia mais nada.

– Você viajou pelas Linhas de Siel.

Lazander baixou seus olhos para o meio dos seios de Ariel, para a luz amarela que trasbordava de dentro deles.

– Sua joia não esta coberta de sombras. Me ensine a voltar para elas.

O rosto de Ariel era uma máscara, com um restrito movimento, apenas seus lábios responderam.

– Algumas coisas estão além do saber, Laz.

Lazander baixou o braço e continuou com voz firme:

– Chega de platitudes, se você tem algo a me dizer, diga!

– As sombras que cobriram o conhecimento que você clama querer foram criadas por você.

– Você está dizendo que eu escolhi não saber?

– Sim.

– Por que eu faria isso? Por que um ser racional escolheria morrer a entender a verdade?

– A joia na sua mão está contaminada. Onde as veias negras tocam, elas consomem elas destroem. Se você me permitir amputar sua mão agora, você perderá apenas uma mão. Mas se esperar mais um dia que seja, você terá que cortar o seu braço. Espere ainda mais, e as linhas vão atravessar seu ombro. Não existe retorno desse ponto.

Lazander tocou em sua mão.

– Eu não posso cortar minha mão. Se eu fizer isso, nossa Casa Mercante fica sem um Majstor. Sem alguém para criar novos Krysiels. Eu perco tudo que eu herdei em menos de um ano.

– Entao você sabe a resposta da sua pergunta.

– Que pergunta?

– Por que um ser racional escolhe a morte.

– Não é apenas minha vida que está em jogo aqui. Nossa companhia emprega mais de três mil funcionários espalhados pelas cinco nações. Me diga, Ariel, pode seu coração de vidro sentir qualquer coisa? Seria você indiferente a todo sofrimento no mundo, incluindo o meu?

– Eu não sinto como você sente. Meu amor por você e por todos os seres vivos não é visceral. Meu amor por você, Laz, é intelectual.

– Então, em nome desse ‘amor intelectual,’ me diga: o que estava escrito nas cinco páginas rasgadas? Qual o segredo das Linhas de Siel?

– Não é um segredo. As Linhas de Siel se comunicam com nosso mundo constantemente, seja na forma de fábulas, religiões, filosofias, livros… . O Segredo de Siel, contudo, apenas pode ser compreendido por mentes conscientes. Mentes como a sua, Laz, não têm como compreender as linhas de Siel, não importa quantas vezes eu as explique para você.

– Você está dizendo que eu não tenho inteligência para entender?

– Você não tem consciência.

– Eu? – Lazander quase engasgou, seu rosto conturbado lutava para controlar a hostilidade que ele sentia. – Eu não tenho consciência? Eu sou o animal falante, o automata de carne, vazio de ser? EU, NÃO VOCÊ?

– A única escolha que você jamais fez foi a escolha de não ser você.

– Você acha que eu não sei o que são as Linhas de Siel? – Lazander pega Ariel pelo braço e a leva de volta à sala dos tesouros. Ele a coloca sentada na cama que fica em frente ao quadro negro. Com sua luva, ele apaga os desenhos feitos por seu pai. – Me permita provar meu entendimento, Ariel. No Livro de Siel aprendemos o conceito que tudo que existe no nosso mundo existe primeiro como uma possibilidade existencial. Ou seja, antes de podermos construir um barco aéreo, a possibilidade da criação desse barco já deve existir. Tornando assim a ideia da matéria como precursor da mesma. Isso não se aplica apenas ao que criamos, mas a toda a criação. Toda matemática, toda música, toda física, toda vida existe como uma possibilidade antes de existir com uma realidade. Esse lugar de infinitas possibilidades é chamado de Matriz de Infinidade Conceptual – Lazander faz um círculo no quadro. – Nessa Matriz de Infinidade Conceptual um círculo existe em todas as suas possíveis permutações. Inclusive na sua perfeição. Porém, no nosso mundo, por mais que tentemos, nunca alcançaremos o círculo perfeito. O que nos diz que somos o reflexo de nossa ideia perfeita. Imperfeitas permutações de um inatingível ideal – ele risca o círculo ao meio. – Dentro da matriz, toda possibilidade é uma realidade num multiverso de infinitas realidades que de real não têm nada. – Lazander desenha outros círculos e termina por fazer um círculo enorme que engloba todos. – Nosso universo, nosso mundo, nossa consciência são apenas fragmentos da Matriz de Infinidade Conceptual.

Lazander apaga o quadro.

– As Linhas de Siel são a comprovação factual de toda essa teoria. Se tudo existe como um conceito na Matriz, então na materialização de uma ideia existe a necessidade de um ponto focal. Como no surgimento do abismo há mais de mil anos,  de onde toda vida em Morserus se procedeu. Mas além do imperativo biológico de sobrevivência e aprimoramento, ao contemplar a criatividade dos seres vivos temos que sucumbir a irrefutável conclusão lógica que não existe criação na criatividade. Em algum lugar dentro de nós existe um elo entre nosso consciente, que existe no mundo físico, e nosso inconsciente, que ainda persiste na Matriz. Uma linha pela qual todas as nossas ideias transitam, nos mantendo perpetuamente unidos à Matriz. A mesma Matriz que nos criou nos primórdios do tempo ainda continua a criar através de nós. Nos utilizando como um ponto focal – Lazander desenha em linhas simples um Cão com um ponto de interrogação na mesma proporção ao seu lado. Com uma linha ele une os dois. – Eles chamam o contato entre a matriz e nossa mente de Linhas de Siel.

Lazander se aproximou de Ariel cobrindo seu rosto sereno com uma sombra.

– As Linhas de Siel são, em sua essência, informação e conhecimento– ele tocou gentilmente na parte clara do lindo semblante metálico. – Os Krysiels são ideias de objetos. Nada tão simples quanto nas fábulas mágicas. Não é apenas uma questão de querer e acreditar. As regras que constroem nossa realidade não podem ser quebradas, elas devem sempre ser obedecidas. Assim foi criada a noção de uma linguagem musical, cujas vibrações teriam o poder de existir simultaneamente em nossa realidade e na realidade da Matriz. Cada nota, cada instrumento, cada arranjo, corresponde a uma seção das leis da física. Para se criar algo que não existe, foi preciso primeiro inventá-lo em teoria – Lazander deu um sorriso de vitória. – Eu estudei por quase dez anos o maldito Livro de Siel. Estudando suas partituras, aprendendo suas notas. Eu odiei cada segundo, mas eu aprendi tudo que eles tinham para me ensinar. A única coisa que me falta são as malditas cinco páginas. Então, minha pequena boneca dourada, entenda que eu estou vivo, eu estou conectado a Matriz pela Linha de Siel, eu sou um ser consciente, e você é apenas um Eco, um simulacro de uma ideia e nada mais.

– Você entende a ideia até o ponto onde ela lhe é útil. Desse ponto de vista você não tem como entender o real significado de tudo que aprendeu. Tudo que você vê, Laz, são seus desejos refletidos de volta.

– Então me diga o que é o Segredo de Siel?

– Essa resposta pode lhe custar sua vida.

– Que conhecimento pode ser tão poderoso ao ponto de matar quem o descobre? Que verdade é capaz de levar um estudioso a queimar livros, a matar um aluno, a cometer suicídio? Que pesadelo se esconde em apenas cinco páginas?”

– Não é o conhecimento, Laz. É o que esse conhecimento diz sobre quem o adquire.

– Chega de ser enigmática! Se eu não entendo, me explique. Se você realmente quer me ajudar, me mostre algo sobre o que você está falando.

Ariel se levantou da cama, se aproximou do altar com o livro aberto e virou suas páginas até encontrar os rasgos simbólicos das cinco páginas que faltavam.

– Eu tenho uma estória – ela olha para Lazander, que acena para que continue. – Imagine que você seja um animal andando numa bela estrada, onde tudo é farto, onde tudo é belo. Porém, em um ponto da estrada, você, o animal, encontra um rei que diz ter poderes mágicos. O rei aponta para uma bifurcação na estrada. De um lado, um amplo caminho de pedras rodeado por árvores de frutos diversos. Do outro lado, uma pequena e estreita trilha de terra, rodeado por árvores petrificadas e esqueletos de animais. O animal, que é você, quer seguir na estrada ampla, mas o rei lhe diz: “Me coloque em suas costas, me leve pelas estradas estreitas através de uma árdua viagem de sofrimento e dor. Faça isso meu animal e, ao final da jornada, eu lhe tornarei um ser vivo. Mais que isso, eu irei embora desse mundo, e você ficará no meu lugar sendo o único rei”. – Ariel estendeu sua mão direita e falou: – Ampla estrada – depois, mostrando sua mão esquerda, ela disse: Estreita estrada.

– E se eu escolher a estrada errada? Como fica sua estória?

– Você já escolheu a estrada errada.

Lazander tocou na mão esquerda de Ariel.

– Eu nunca ia querer viver como um animal. Eu escolho a estrada do Rei.

– Por muitos anos o animal carregou o Rei e, durante cada um desses anos, o animal sofreu… Muitas vezes ele quis desistir. Mas quando ele chorava ou implorava para voltar, o Rei lhe surrava as costas com uma vara feita de um galho de pedra. Quando o animal obedecia, o Rei lhe contava estórias de seu reino, estórias de como ele seria feliz estando em seu lugar. Nos primeiros anos, o animal sonhou em fugir da estrada estreita, sonhou em escapar do Rei. Mas se o fizesse, todo seu sofrimento teria sido em vão. Então, cada ano, ele continuava, porque a cada ano, maior era seu sacrifício, maior seria o caminho de volta. Até que o sonho de escapar se tornou um pesadelo, porque a ideia de voltar agora era ainda mais atormentadora que a ideia de continuar. Ele tinha aprendido a sofrer. Suas costas, cobertas de cicatrizes, mal sentiam as chibatadas do Rei. No final de muitos anos, ele obedecia ao Rei com tanta devoção que este apenas lhe contava as promessas que ele queria ouvir.

– Onde termina sua estória?

– No final da estrada – Ariel deixa o silêncio ocupar o espaço entra ela e Lazander. – O animal estava velho e cansado. O Rei, que nunca mudou, que apenas parecia maior agora, desmontou e sorriu ao dizer ao animal: ‘Agora você sou eu’. Mas o animal chorou, porque não existia nenhum reino, nenhum povo, nenhum nada. A estrada terminava num precipício que parecia não ter fim. O animal queria dizer que o Rei mentiu, mas o Rei desapareceu de sua frente. O animal, sozinho, percebeu que ele não era mais um animal, que agora ele era o Rei. O rei de ninguém, o Rei do lugar nenhum, o Rei sozinho no final da estrada. O Rei que é você, então olhou para o caminho de volta. Um caminho que era longo demais para sequer considerar. O Rei, que é você, então pula dentro do precipício, e assim termina sua estória.

– Eu pedi para você ser clara. Isso não é ser claro. Qual o seu ponto?

– Por que o animal não voltou?

– Você falou na estória o porquê. Era tarde demais para voltar.

– Em que momento na estrada do sofrimento fica o ponto onde não existe mais retorno?

– O que no nome do abismo você quer dizer para mim, Ariel?

Ariel ficou calada, e em seu silêncio Lazander entendeu o significado da estória. Ele era o animal. Partindo daí, o resto era incrivelmente óbvio. A estrada era a escolha. O Rei representava seus sonhos, sua jornada por significado. O Rei era as mentiras de grandeza contadas por aqueles que são menos que almejam ser. O penhasco é a descoberta de uma vida de ilusão.

– Você não quer falar o Segredo de Siel porque nele você acredita que eu vou descobrir que toda minha vida e todos os meus sonhos são mentiras. E que eu vou preferir morrer a encarar a tragédia das minhas escolhas.

– Olhe para sua mão, Laz.

Lazander obedeceu. As linhas negras suavam um sangue denso. Elas também tinham se estendido e, agora, atravessaram seu pulso e se escondiam dentro do punho de seu terno. Resistindo a ânsia de vômito, ele tirou seu blazer. Seu braço nu estava entrelaçado por três gordas veias que rodeavam todo seu braço. Duas delas longas o bastante para alcançar a entrada de seu ombro.

– O que você fez? – Lazandre acusou Ariel, tentando esconder o pânico em sua voz. – O envenenamento de Krysiel demora uma década.

– Apenas quando você desconhece a causa.

– Sua metáfora está me matando?

– Você quer viver? Esquece as páginas perdidas do Livro de Siel. Abandone seu sonho de salvar o mundo. Falhando em ambos, corte seu braço antes que a corrupção ultrapasse seu ombro.

– Eu prefiro morrer, como o animal da sua estória.

– Por quê?

– Eu sei quem eu sou. Meu propósito nesse mundo. Eu posso ver um mundo melhor do que o que existe. Eu vou construir esse mundo melhor ou morrer contente nesse mundo inferior.

– Assim lhe promete seu Rei.

– Que seja. Agora, me diga, qual o Segredo de Siel?

– Você está preparado para o fim dessa estrada?

– Se eu tenho que morrer, Ariel, que não seja no meio da estrada. Se é para morrer, me mostre o penhasco que eu pulo.

Ariel pegou o giz branco da mão esquerda de Lazander.

– As Linhas de Siel são mais que pontos de contato entre ideias – Ariel traça uma linha no quadro. – Individualmente, cada linha corresponde a uma vida.

– As Linhas de Siel somos nós?

– Sim, mas apenas em sua essência fundamental. Imagine que a linha de Siel não é apenas sua vida, mas sim o caminho pelo qual sua consciência experiencia sua vida ideal.

– Como assim, minha vida ideal?

– Lembra das duas estradas da estória? – Ariel riscou uma linha no quadro negro abaixo da linha anterior. – Na verdade, só existe uma estrada, o único caminho onde você vive sua vida real é o Caminho de Siel.

– E a outra estrada com animais mortos?

– Você é a Linha de Siel ao caminhar por ela, ou você se torna a sombra do caminho. Quanto mais distante, mais escuro; quanto mais escuro, mais doloroso o percurso.

– E o Rei?

– Ele é seu ídolo de sombras, ele representa a divisão de sua consciência em duas.

– Como na estória do Rei e o animal?

– Sim. Como o ídolo e a sombra.

– E o que existe no Caminho de Siel?

– Sua felicidade.

– Faz algum sentindo. Se na matriz de infinidade conceptual existem todas as minhas escolhas simultaneamente, então, certamente existe a melhor das escolhas. Basta comparar cada possibilidade e escolher entre elas, a vida na qual eu fui mais feliz. E chamar essa vida, esse caminho, de Caminho de Siel.

– Muito bem, Laz. Agora você entende o segredo das Linhas de Siel.

– Por que você achou que eu não acreditaria nisso? Por que qualquer um não acreditaria nisso? Por mais burro que seja o indivíduo, por mais egoísta ou desprezível, se uma existe uma coisa que une todos os seres conscientes é que todos buscamos nossa felicidade individual.

– É aí que você se engana, Laz. São apenas os seres inconscientes que buscam sua felicidade individual.

– Você está se contradizendo agora.

– Estou? Me diga então, Laz, como você imagina ser seu Caminho de Siel?

– Só existe um caminho para minha felicidade. Quando eu fecho os olhos, eu posso ver esse caminho. Todos aqueles que duvidaram de mim, todos aqueles que nem sabem que eu existo, vão acordar para um novo mundo. Um mundo melhor, um mundo onde cada cidadão vai ter um Krysiel em sua palma. Um mundo onde não existem distâncias, onde ao pensar em alguém você poderá se comunicar com esse alguém. Eu vou vender essa união ao mundo. Não apenas aos ricos e poderosos, mas a todos. Se existe um sonho no mundo que merece ser realizado, esse sonho é o meu. Pois ele é o mais belo de todos.

– Você acha que o aplauso do mundo vai ser o suficiente?

– Eu não acho, eu tenho certeza.

– Seu pai tinha certeza que quando conseguisse recriar a ideia de sua mãe num corpo imortal, que todo o sofrimento de sua infância se esvaneceria. Como um pesadelo que é apenas real até o momento em que despertamos. Mas ele despertou no mundo de seu sonho e descobriu que possuía o mesmo vazio que carregou até então.

– Talvez ele tenha entendido que você não é real. Que você é apenas uma fantasia.

– Não, Laz. Pessoas infelizes toleram sua infelicidade enquanto puderem acreditar no sonho de um mundo futuro onde elas serão felizes. Num lugar, ou numa pessoa, ou num ato, que vão lhe tirar do mundo inferior em que vivem e os levar para o mundo superior. Mas felicidade não é um lugar, não é uma pessoa, não é um ato, felicidade, Laz, é um estado de consciência.

Lazander olhou para seu ombro. As linhas negras estavam visivelmente se movendo. Uma para seu pescoço, outra para suas costas, e a última para seu peito. Com um sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos, ele se voltou para Ariel.

– Como o animal de sua estória. No caso do meu Pai, seu rei foi você, Ariel.

– A felicidade não se encontra no final da estrada. A felicidade é o primeiro passo e todos os depois.

– Não – Lazander falou deixando correr as lágrimas. – Você está me dizendo que meu sacrifício foi em vão, é isso?

– O que você quer é a vontade do Rei, a vontade do seu ídolo de sombras.

– Não, meu sonho é meu! Não existe Rei!

– Nada é seu Laz, não seu sonho, não seu corpo, não sua mente. Você pertence ao seu ídolo de sombras.

– Quem é você para me dizer qual é o meu sonho? Quem é você para me dizer que eu vou ser infeliz mesmo realizando o meu sonho? Quem é você para me chamar de animal?

– Por que você não me pergunta o que é o ídolo de sombras?

– Porque eu sei que o que quer que você tenha para me dizer, tem o propósito de me ferir.

– Eu não quero te ferir, Laz. Eu gostaria de poder lhe ajudar. Mas a verdade é que eu não sei o que dizer. Eu tentei de tudo com seu pai. Todas as palavras foram ditas. Mas o ídolo de sombras as traduzia como ofensas ou mentiras. Seu pai escolheu ser um escravo. Você é livre apenas para fazer a mesma escolha.

– Esse é um dos discursos mais prepotentes que eu já ouvi em toda minha vida. Você parte do princípio que eu estou e sou errado. Que eu preciso de ajuda, que eu preciso aprender. Nós não somos muito diferentes, você e eu. Porque eu parto do mesmo princípio. Eu sou superior a você intelectualmente. Enquanto que você quer me salvar, eu quero salvar o mundo. Um de nós dois é um iludido. Mas eu sou o ser vivo. E você… o que é você? Um paradoxo automata, um simulacro, um eco da mente de um cadáver. Uma boneca desprovida de escolha ou vontade. Você não é melhor que eu.

– Não é uma competição, Laz. Receber ajuda não é perder. Dar ajuda não é vencer. De todas as palavras que eu te falei, você apenas escutou o que lhe foi permitido ouvir. Você procura em mim um inimigo, você procura no mundo inimigos. Mas seu único inimigo está escondido dentro de você.

– Meu ídolo de sombras.

– Sim.

– Por favor, faça o seu discurso. O suspense está me matando.

– O que você ama dentro do seu sonho, Laz?

– O que isso tem a ver com meu ídolo de sombras?

– Apenas responda.

– Eu amo o meu sonho.

– Responda à pergunta que eu fiz. O que você ama dentro do seu sonho?

Laznder queria dizer que ele amava a ideia de ver seus inimigos derrotados. Contudo, ele não queria entrar no jogo de Ariel. Os sentimentos que o motivavam era muitos, o medo da irrelevância, o ódio por todos aqueles estavam acima dele, o desejo de provar ao mundo seu valor. Tantos sentimentos lhe guiando para um mesmo lugar, mas entre eles, nenhum era remotamente parecido com amor.

Ele buscou dentro de seu sonho algo para amar. Quase falou que amava a ideia de transformar o mundo num lugar melhor, seria esse seu amor. Mas ele não precisava mentir. A verdade era o suficiente.

– Eu não tenho um sonho de amor, Ariel. Eu tenho ambição, eu tenho um legado para construir. Eu tenho algo infinitamente maior que o amor para me motivar.

– O que você tem é uma ideia de quem você deveria ser, de onde deveria estar, como deveria ser tratado e percebido. Essa sua ideia de você se tornou mais importante que você. No altar dessa ideia, você se prostra e se ajoelha. Você acredita na voz do altar. Mas a voz é sua, sua ideia de si mesmo. Essa ideia é seu deus, Laz. Seu mestre. Seu dono.

– O Rei do animal. Meu ídolo negro.

Ariel acenou.

Lazander sabia que a ideia era ridícula. Qual era o problema de ter uma ideia de si mesmo? Mesmo assim um sentimento de náusea e raiva tomou conta dele. Apesar de sua forma feminina e palavras superficialmente gentis, Ariel era sua inimiga, ela queria mostrar que ele era um fracassado.

– Eu não tenho uma ideia de mim, Ariel – Lazander falou forçando um sorriso. – Eu sou minha ideia de mim.

– Você é a sombra? Ou você projeta a sombra?

– Eu não estou projetando nada. Eu sou quem eu acredito ser e ponto final!

– Você é? Ou vai ser?

– Eu sou – não, eu ainda não sou. Eu preciso dela para ser. – Eu vou ser, eu tenho que ser – mas eu estou morrendo. Será que ela vai me matar também? Será que essa maldita boneca que destruiu a minha infância vai destruir também o meu futuro? – O que você quer de mim, Ariel? Qual o propósito desse jogo estúpido de palavras?

– O propósito é mostrar que você não existe, Laz; que sua ideia de si mesmo tomou conta de sua vida e bloqueou sua Linha de Siel. Sua consciência existe apenas do outro lado da Linha, deste lado existe apenas o animal.

– Então quem eu sou, Ariel? Eu sou a ideia dos outros de mim? O pobre menino rico, mimado e incapaz? Uma mera sombra do meu pai? Uma versão sem talento de um Cão estúpido? É isso que eu sou, então?

– Não. Essa é a sombra do seu ídolo. O seu ‘eu’, que você teme ser. A imagem do ídolo é formada em torno do vazio que você carrega. No ralo de emoções densas que são formadas pelos ecos de tudo de ruim que você ouviu e guardou dentro de si. Na sombra você esconde do mundo seus verdadeiros sentimentos sobre si mesmo. Seu ídolo de perfeição existe para esconder na arrogância seu complexo de inferioridade. Uma ideia alimenta a outra, numa prece eterna de negação interna e autoafirmação externa.

– Me diz você então, minha boneca iluminada. Se eu não sou o que eu penso de mim, se eu não sou quem os outros pensam de mim, quem, em nome do abismo sem fim, sou eu afinal? – Lazander falou esperando que o sarcasmo pudesse esconder o tremor em sua voz.

– Você é sua Linha de Siel.

– Isso não é uma resposta! De que me adianta você me dizer que eu estou no caminho errado? Que eu sou a pessoa errada? Qual é o caminho certo? Qual o segredo que é tão óbvio a você apenas?

– Amor.

– Isso é uma piada?

– Não, Laz. Amor não é apenas uma palavra, amor é um caminho. Apenas no amor entendemos que existimos além de nós mesmos. Apenas no amor a felicidade alheia e a nossa são igualmente essenciais. Amor e o Caminho de Siel o inicio, o meio e o fim da estrada. Amor é tudo. As pessoas a sua volta, o conhecimento que você carrega, aquilo que você faz. Não existem duas estradas. O que existe é a estrada que escolhemos por amor, ou o caminho das sombras da sua ignorância do significado do que é amar.

– Isso é ridículo. Eu não faço nada por amor.

– Você faz tudo por amor, Laz. Você só não sabe disso. Seu ídolo de sombras foi criado para satisfazer sua necessidade de amor.

– Você acha que eu sou igual ao meu pai? Que eu sou uma eterna criança carente em busca de afeto? Eu enterrei meu pai hoje, Ariel… Eu não chorei! Eu não planejo construir um automata dele. A verdade é que eu queria que ele morresse!

– Todos seus sonhos de grandeza nascem num menino tentando mostrar ao seu pai que ele é digno de ser amado. Quando isso não aconteceu, quando ele se escondeu de você nesse quarto de tesouros, nascia a sombra que lhe dizia que você não era bom o suficiente para ser amado. Das sombras desse pensamento, seu ídolo emergiu e, com ele, a voz que lhe dizia ser um gênio, porque gênios não falham, porque gênios salvam o mundo, porque gênios recebem o aplauso, gênios são dignos de amor.

– Eu não derramei uma lágrima por ele hoje. Ele preferiu você a mim. Você que não é real, você que não existe! Eu chorei muito por ele, até que eu entendi que ele era um imbecil. É difícil para uma criança entender as limitações de seu pai. Mas eu não sou qualquer criança. Eu não chorar por ele hoje é a prova disso!

– Trocar amor por raiva não é uma prova de superação, é uma prova de sofrimento eletivo, nada mais.

– Eletivo? Onde está a minha salvação? Onde está esse amor que eu não vejo, não sinto e não tenho?

– Em todo lugar, Laz; nosso mundo foi criado por esse amor.

– Deixa eu te falar o que eu entendo. Eu fui no Circo de Tanares uma vez. Na entrada eles tinham um caixa enorme com o automata de uma Gorila fêmea dentro. Uma versão muito inferior aos nossos modelos. Inferior, mas funcional. A automata Gorila representava um oráculo, e com um Leão de cobre você podia ler seu futuro. Ao colocar a moeda e puxar a alavanca, um carta saía da base da caixa – Lazander olhou para a perfeição que era Ariel. Um olhar quase afetivo. – Na minha carta dizia: “Siga seu coração, seja feliz fazendo o que você ama”.

– Um excelente conselho.

– Não Ariel, não é um excelente conselho. É apenas um clichê esotérico. Você encontra besteiras como essa em todo lugar. Nos ensinamentos da Lanterna Branca pelos Bodes. Nos conselhos que buscam multiplicar suas palavras dizendo para imbecis o que eles querem ouvir. Como nas letras dos bardos, que falam de amor e pouco mais. Isso apenas prova que você é vazia. Não existe conteúdo dentro de você, ou alguma grande verdade. O que você tem é uma solução impossível para um problema insolúvel. Mas você não tem como entender o que eu lhe digo, porque você, como a Gorila Oracula, são apenas bonecos que dizem o que são feitos para dizer.”

– Você não acredita em amor?

– Não!

– Amigos sem amor são estranhos. Um trabalho sem amor é uma prisão. Conhecimento sem amor é um fardo. Um sonho sem amor é uma fuga. Um rico sem amor é pobre.

– Eu não acredito em amor. Até onde eu sei, a ausência é tudo que existe.

– Não Laz, o que você acredita é que você não merece ser amado. Essa é a mentira da sombra que cria o ídolo. É o ídolo que lhe diz que o sucesso é amor, que o aplauso é amor, que sua inteligência é amor. Que na vitória, você apaga a dor. Mas não existe vitória na estrada sem amor. Porque sua vida, sem amor, não é sua verdadeira vida.

– A culpa é minha, então?

– Não sua culpa, sua escolha. Você mesmo admite ter ouvido o Segredo de Siel. Você admite se lembrar do significado de seu conteúdo. Você que escolhe desconsiderar que tudo que você procura já existe dentro de você.

– Eu não escolhi meu pai. Eu não escolhi minha vida. Você pode repetir e repetir que o Caminho de Siel é o amor, que eu tenho que fazer o que eu amo, andar com quem amo, aprender o que eu amo; mas quando eu olho para dentro de mim, eu não encontro nada! Você fala sobre amor, eu lhe pergunto, o que é isso? Eu não amo nada! Não o que eu faço, não com quem eu ando, não o que eu estudo… Na minha estrada nunca existiu uma encruzilhada para um lugar melhor.

– A razão de você não ver um caminho melhor é que ele esta atrás de você. Se vire, ande de volta. E você vai encontrar o Caminho de Siel.

– Eu prefiro morrer a voltar agora.

– Seu ídolo não tem mais poder sobre você, Laz, ele se alimenta da ignorância que você não mais possui.

– Eu não tenho um ídolo de sombras. Eu não sou um animal. Eu sou tudo aquilo que eu imagino ser!

Lazander apontou o indicador de sua mão negra para o rosto de Ariel. Seu dedo evaporou numa pequena nuvem escura. Com olhos esbugalhados em absoluto horror, ele podia ver um lasco de sua pele carbonizada flutuando no ar.

Ele tentou segurar sua mão envenenada antes de perder o restante de seus dedos. Mas ao primeiro toque seu punho negro se decompôs numa grande nuvem de charcos de carne putrefata.

Caindo de joelhos, Lazander vomitou um sangue negro. Ao abrir os olhos, viu um de seus caninos ao chão. Uma pequena embarcação de um canino branco no mar escuro de sua podridão.

Esse é meu fim. Aqui minha vida acaba.

 Seu braço direito estalou num espasmo, ele sentiu seus músculos se contraírem até se rasgaram. O cristal negro ainda estava atado a sua palma negra nua de dedos e carne. A joia pulsava e emitia uma luz fria que o permitia ver seu corpo, mas que escondia em sombras tudo ao seu redor.

As três linhas negras agora se quebravam em dezenas de ramos que cobriam seu tronco. Outras enforcavam seu pescoço. Os ramos de veias negras bloqueavam a visão de um de seus olhos, enquanto que outros ramos que ele não via espremiam seu coração.

Lazander gritava sem som. Agonizava sem dor. Seu corpo pertencia à joia. Quanto mais ela se alimentava dele, menos ele sentia seus sentidos carnais. Sua mente era seu único refúgio. Mas em seu refúgio ele experienciava o pânico dos condenados. O arrependimento de erros irreparáveis.

Não existia mais um caminho de volta. Todos os anos de sacrifício, de decepção, de espera. Tudo e toda uma existência em vão.

Lazander tentou catalogar tudo que perdia. Mas foi com decepção e surpresa que percebeu que não tinha nada a perder. Pois tudo que ele valorizava pertencia apenas ao mundo de suas expectativas futuras. Ele perdia apenas o que ele nunca teve. Seu sonho de ser alguém melhor de quem ele era.

 Minha vida imaginária. Meu eu imaginário. Meu ídolo de sombras.

 A sombra de Ariel cobriu o seu rosto. Seus olhos de esmeralda pareciam ver através de Lazander. Ela o abraçou.

– Você não tem mais um amanhã. Esse é o seu momento, seu último momento.

– Não!

  • Esse é o momento que você evitou existir. Seu ídolo de sombras não lhe serve de nada agora.

Lazander entendeu o que ela quis dizer. Não havia um futuro para ele ser vindicado. Não existia mais vitória no amanhã, não haveria aplausos, reconhecimento ou glória. Tudo que ele tinha era o agora, e mesmo esse agora não duraria muito mais.

 – Se eu não sou quem eu acreditei ser – Lazander chorava lágrimas negras –,eu não sou nada.

– Nada não é seu verdadeiro ser. Nada é o julgamento da sombra que alimenta seu ídolo – Ariel falou distante.

– Quem eu sou, então?

– Amor.

Lazandre riu e engasgou no sangue negro que trasbordava de suas entranhas. Ele cuspiu o visco escuro ainda sorrindo com dentes sujos.

– Amor é uma mentira!  

 – A sombra do amor é o medo. No medo imaginamos os monstros, monstros que ferem aqueles que amamos, que destroem o que construirmos, que estão sempre entre nós e nossa felicidade. Mas não existem monstros, apenas as sombras criadas pela luz que você deu as suas costas – Ariel limpa as lágrimas do rosto de Lazander. – No absoluto total da escuridão, uma fagulha de luz brilha com a intensidade de um sol. Encontre essa luz Laz, não morra no escuro. Não morra como um animal.

Lazander já não sentia mais o peso de seu corpo. Já não ouvia mais a voz de Ariel. Tudo que existia agora era a escuridão absoluta. Na escuridão, ele procurou a fagulha de luz. Mas não havia fagulha de luz, não havia nada.

É isso a morte? Apenas o nada?

 No silêncio do vazio ele esperou, ele gritou, ele chorou. Mas sem corpo, seus atos eram apenas pensamentos. Lazander pensou na estória do animal e o rei, pensou no precipício. Lhe ocorreu que o animal fez seu caminho numa estrada sem nunca voltar. Olhando apenas uma vez para trás.

– Não ouse – a voz falou com a autoridade de um Rei.

A voz estava em algum lugar a sua frente. Sem sentir seu corpo, ele se virou de costas. Quando nada aconteceu, ele se imaginou virando de costas. Mas nada mudou, apenas o vazio da escuridão eterna.

Será que ela estava certa? Será que minha vida foi uma procura por amor nos lugares onde não existia amor?

 – Não. Você provou ao mundo seu valor. É no escuro que encontramos os fracos. Você é forte, Laz, todos morrem, mas não são todos que suportam o insuportável peso da realidade.

É isso que você tem a me oferecer? Um penhasco escuro para eu pular?

 – Eu tenho apenas a verdade dos fortes.

Não. Não é coragem que lhe move. Não é coragem que você me deu. Seja honesto pelo menos uma vez. Me diga que você sabia desde do início que era para o escuro que você sempre me guiou.

O som de pedra se rachando. O brilho de uma fagulha que parecia ter a intensidade de um sol.

Antes de poder ir na direção da luz, Lazander ouviu o trovejar de pegadas. Algo se colocou entre ele e a fagulha. A figura bloqueava a luz com sua massa gigantesca, mesmo assim ele podia ver no eclipse de seus contornos sua aparência e forma. Uma estátua de pedra cinza, usando seu rosto e uma coroa.

– Você mentiu para mim – Lazandre falou sem boca. – Você me prometeu felicidade!

A estátua gigante sorriu. Rachaduras se abriram por todo contorno de seu malicioso semblante.

– Volte ao seu caminho – a estátua falou apontando para a escuridão total.

Lazander podia ver melhor agora, ele estava aos pés da estátua, deitado ao chão. Não deitado, ele era o chão. Não o chão, mas as sombras da estátua projetadas ao chão.

– Eu não vou pular no seu precipício!

– Quem é você sem mim?

 Eu não sei.

– Seu medo é minha força, sua insignificância é minha altura. Eu existo na ausência do seu ser. Você não é nada sem mim!

– Então, eu vou ser nada.

– Não! Você é melhor que os outros! – a estátua gritou em desespero. Suas rachaduras se espalharam. Ela caiu de joelhos ao chão.

– Eu não estou mais com medo.

A estátua se partiu em dezenas de pedaços. Os pedaços caíam dentro da sombra que era Lazander, e com cada fragmento, a sombra tomava corpo, se alimentando dos blocos, até que não sobrou mais nenhum rei.

Tudo que sobrou era a sombra que, agora de pé, correu em direção à fagulha de luz. A luz rasgou a sombra. A dor era alucinante. A dor era quase demais para Lazander suportar.

Quase.

Lazander abriu os olhos e percebeu que estava sendo carregado por Ariel. As portas do cofre se encontravam abertas atrás deles. Juntos, eles subiam as escadas.

– Você não pode me salvar, Ariel. É tarde demais para mim – Lazander suspirou com um sorriso. – Obrigado, por tentar.

Ariel pegou o esqueleto de carne, que era o braço direito de Lazander, em sua ponta o Krysiel ainda brilhava. Não em preto, mas num branco transluzente.

– Morte não é o fim. E o fim não é agora – Ariel falou com seu perpétuo sorriso.

Lazander sorriu de volta. E a escuridão o encobriu novamente.

xXx

Ariel e Lazander caminhavam pelo porto em direção a uma belíssima caravela aérea. A embarcação tinha dois balões de vespian gás, e rotores em sua proa.

Lazander estava vestido num elegante e minimalista colete amarelo, cobrindo uma camisa branca que não tinha mangas em seu ombro direito. Isso permitia que o braço metálico pudesse ser visto em toda sua glória.

Não era uma prótese, pois dentro do moderno mosaico de titânio e ouro existia ainda um esqueleto com carne e algumas veias rosadas que lhe davam vida.

– Eu gostaria de poder ir com você, Ariel. Conhecer o mundo além do deserto infinito.

– Você estará sempre comigo, Laz – Ariel segurou na palma cromada de Lazander. Um Krysiel brilhava com um branco quase transparente.

– Não é a mesma coisa – Lazander sorriu revelando um canino de ouro.

Ele ajudou Ariel a embarcar. No barco, uma dúzia de atomatas X2 preparavam-se para partir.

– Você ainda não acredita merecer uma segunda chance.

Não havia porque negar. Com seu Krysiel claro, Lazander e ela eram praticamente um único ser. Ele não tinha acreditado no amor mesmo depois de ter despertado da escuridão. Mas sem o ídolo de sombras para encobrir a joia, ele acordou para descobrir o real significado de amar, o que Ariel chamava de amor intelectual. Ele era ela. Não no literal sentido da palavra, mas na imaginativa noção que a felicidade dela era a sua felicidade, que a dor dela era a sua dor. Tudo era tão óbvio agora.

– Não é que eu não acredite, eu só não entendo. Por que eu?

– Ainda existe resquícios do pensamento animal. Uma coisa é saber o caminho. Outra coisa é andar o caminho.

Sem saber mais o que dizer, ele a abraçou. Ele se lembrou de uma das poucas vezes que abraçou seu pai. Ele conhecia o sentimento, a pureza do momento. Ele amava Ariel como ele amou seu pai. Como ele estava aprendendo a se amar.

Quando a caravela partiu, ele usou a joia para viajar com ela por todo o abismo, até passarem pela cidade porto. Ao ver as árvores gigantes da floresta de Afika, Lazander desviou sua atenção de volta para seu corpo.

Ele caminhou de volta para seu castelo. Não mais seu castelo, pois ele já tinha vendido sua companhia e sua ilha. Ele não sabia o que fazer com o dinheiro. Nem sabia o que fazer com sua vida. Tudo que ele sabia era que ele tinha um caminho a encontrar. O Caminho de Siel. O caminho que a Matriz tinha escolhido para ele.

Eu deveria estar assustado, mas sem a sombra para me ensinar o que temer, tudo que eu vejo a minha frente é um universo de possibilidades. Sem o ídolo para me dizer que sou melhor que o mundo, eu tenho agora o mundo para conhecer. Eu ainda não sei amar, mas eu sei que não tenho nada a perder.

 Ollar acenou para Lazander. Seu empregado que salvou sua vida. Seu amigo que sempre esteve ao seu lado. O primeiro passo em seu Caminho de Siel.

Lazander lamentou pelos anos perdidos, em como a divisão dentro dele tinha dividido o mundo do lado de fora. Em como a noção de melhor e pior o levou a solidão. Ele podia ver a pessoa que ele tinha sido numa pequena fração de sua mente. Como esse ser era incapaz de viver, sabendo apenas reagir ao mundo a sua volta. Criticando para não agir, se comparando para se elevar, odiando ao mundo para esconder o ódio que sentia por si mesmo.

Ao abraçar Ollar, Lazander entendeu que ninguém era melhor que ninguém. Que por mais que tenha sofrido pela ausência de seu pai. Que a Matriz tinha lhe dado uma infência agradável, que sua conexão com ela estava em seu amigo. Que não escolhemos quem amamos, apenas reconhecemos quando encontramos esse amor. Ele tinha encontrando um desses laços, cabia agora buscar os outros.

Minha estória começa agora.

FIM?

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