O Mercador de Sonhos

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A lacraia rosa voava rastejando no vento com suas dezenas de pernas, remando no ar noturno da grande Capital de Ilys, a nação dos Coelhos.

Nas ruas desertas, um solitário Coelho, vestindo um uniforme serviçal, acendia os postes usando um longo cabo de madeira com uma chama em sua ponta.

A luz dos postes acesos revelava casas harmoniosas, com janelas longas e vidros levemente coloridos. Todas no estilo estrutural de Ilys, que presava a simplicidade de linhas longas e lisas.

Pelo vão entre a porta e o chão, a lacraia entrou em uma das casas. Ela voou por uma ampla sala e passou por vários aposentos, até entrar pela fechadura de um deles.

No quarto escuro, um Porquinho de quinze anos soluçava em sua cama. Com seus olhos fechados, ele chorava tentando adormecer.

A lacraia posou em suas bochechas gorduchas, o pequeno Porco moveu seu rosto. O inseto parou e esperou o menino dormir e começar a roncar. Quando isso aconteceu, a lacraia correu pelo rosto redondo do Porco e penetrou uma de suas orelhas.

Tão logo a lacraia desapareceu dentro de seu ouvido, Ollie abriu os olhos e pulou da cama. Sem saber ao certo se tinha sonhado ou não, ele enfiou seu dedo mindinho o mais fundo que pôde sem nada encontrar. Olhando pelas frestas da cortina, notou que uma luz forte radiava do outro lado. Será que já era dia? Ele pensou, sua mãe ia brigar se ele perdesse a hora do café.

Com pressa, ele abriu a porta de seu quarto para ir até a sala de jantar. Mas sua casa não estava mais lá, do outro lado do umbral. Em seu lugar havia uma pequena loja de doces. Mas não uma loja como as de Ilys, com sua decoração minimalista. Era uma loja feita com paredes de gravetos amarados uns aos outros, e os doces ficavam dentro de cúpulas de vidro em cima de vários balcões. Todos eles feitos de troncos cortados ao meio, elevados do chão por cipós que desciam do teto.

Atrás do balcão maior estava uma figura estranha de aparência indígena. Ela usava uma máscara de ossos e uma coroa de galhos. Na ponta de cada galho, pendurados por cordões negros, pequenos ossos e penas faziam a decoração macabra. O estranho estava totalmente coberto por um manto longo de pelos cinzas. Estes, também, igualmente decorados com mais penas e mais ossos.

— Não tenha medo de mim, Ollie. Eu sou o Mercador de sonhos. Eu vim de muito longe para poder negociar com você… — falou o Mercador com uma voz amistosa.

— Mercador de Sonhos? — Ollie perguntou ao se aproximar do balcão. — E onde está a minha casa, seu Mercador?

— Sua casa está na superfície, junto com seu corpo, que dorme em sua cama.

— Eu não estou em casa? — Ollie perguntou confuso.

— Você — o Mercador apontou para ele —, está aqui — falou apontando para a loja. — Já seu corpo, está lá — finalizou apontando para o teto.

Ollie sorriu.

— Entendi, é só um sonho — ele olhou à sua volta —, mas parece tão real. Ei, quantos doce! — Ollie falou colocando sua mão no vidro de um dos doces do balcão.

— Como meu nome diz, eu vendo e compro sonhos, Ollie —  o Mercador tirou a cúpula de vidro deixando a guloseima à mostra. — Do outro lado daquela porta — o Mercador apontou para uma porta que Ollie não tinha visto até agora — estão seus quatro sonhos. Se você comprar meu doce e alimentar qualquer um de seus sonhos com ele, seus sonhos vão abandonar as ilhas do inconsciente e vão subir com você, para acompanhá-lo eternamente no mundo da superfície.

— Você é um bobo — Ollie falou rindo. — Todo mundo sabe que o que você sonha fica no sonho. É por isso que é um sonho.

— Talvez seja prudente eu lhe explicar as regras de uma maneira simples. Apesar de estar na primeira camada da terra dos sonhos, você não está sonhando. E eu independo de você. E com o seu consentimento, eu detenho o poder de trocar um sonho abandonado por um almejado — o Mercador apontou para a porta. — Seus sonhos te esperam. Se você realmente quiser um deles, minha proposta é real.

Ollie coçou a cabeça.

— Deixe-me ver se eu entendi. Você não é um sonho, e eu não estou sonhando. Eu estou abaixo do sonho, num lugar que você chama de terra dos sonhos. E se eu comprar um doce de você, na verdade vou estar comprando um sonho que não realizei. Mas para isso eu vou te dar em troca um sonho que eu tenho, mas não quero mais — ele olhou para os olhos negros atrás da máscara branca. — É isso, Senhor Mercador de Sonhos?

O Mercador acena sem transparecer satisfação ou insatisfação.

— Um sonho por outro, essas são as regras.

— Mas como isso é possível? Como você pode existir no meu inconsciente? Afinal, todas as ideias dentro da minha mente são minhas e de mais ninguém.

O Marcador riu. Um riso perturbador. Não por conter um sentimento maligno, e sim por parecer dizer que tudo que Ollie sabia era apenas ilusão e, agora, ele estava para despertar para outras verdades.

— Qual é a graça?

— No seu mundo, vocês acreditam que podem escolher uma verdade e chamar todo o resto de fantasia ou mentiras. Mas no meu, verdades, mentiras e ilusões são a mesma coisa. Aqui tudo são estórias, e todas as estórias são reais.

— Mas você falou que não pode tudo, você falou que existem regras, você falou que você é você, mas como você pode ser você se isso é o meu sonho?

— Durante todos esse séculos em que eu viajo de ilha à ilha, nunca pude explicar a real natureza de quem eu sou, ou do que esse lugar representa. Eu mesmo não sei. Eu conheço algumas estórias, estórias que vieram com os sonhos que eu comprei. Estórias que se contradizem entre si. Estórias que seria demais para a mente de uma criança.

— Meu tio Boggie me falou que não existe estória complicada, o que existe é estória mal contada. Se você quer me vender algo, eu tenho que saber mais.

O mercador junta seus longos dedos em frente à máscara em seu rosto.

— Muito bem, pergunte o que quiser saber e eu respondo no melhor do meu conhecimento.

— Quem é você realmente?

— Ninguém é alguém realmente. Em cada nível somos algo totalmente diferente.

— Em cada nível?

— Existem quatro níveis, no quarto nível temos o mundo da superfície, abaixo temos as ilhas do inconsciente, depois temos o zoológico das ideias e na ultima camada o oceano da vida.

— O que é um oceano?

— Sabe o deserto que circula as cinco nações de Morserus?

— O deserto sem fim, todo mundo sabe disso.

— Então imagine que no lugar da areia existisse água.

— Cobrindo o mundo todo?

— Sim, isso é um oceano.

Ollie riu.

— Só num sonho mesmo, o mundo ia afundar se fosse assim, coberto de água. Tá, mas você não respondeu minha pergunta. Quem é você?

— Em que nível?

— Como assim, em que nível?

— Na superfície eu sou mil e oitocentas e treze lacraias. Nas ilhas do inconsciente eu sou um mercador de sonhos. No zoológico de ideias eu sou parte de um conjunto de pensamentos que estão presos entre si pela frequência em que vibram. No oceano da vida eu sou tudo e sou todos.

— E eu? Eu sou diferente em cada mundo que nem você?

— Sim, todos são.

— Quem eu sou em cada mundo?

— Na superfície você é um Porco. Nas ilhas do inconsciente você é uma ilha. No zoológico de ideias somos a mesma frequência. No oceano da vida você é tudo.

— Você falou que você era tudo.

— Todos somos tudo no oceano.

— Eu não entendo.

— Poucos entendem.

— Como você pode ser mil lacraias?

— Existem muitas estórias que explicam isso, a que eu gosto mais é a dos Gatos. Eles acreditam que seu mundo é dividido em duas partes: a biosfera natural, onde você vive; e a biosfera das sombras, onde vivem seres que não são fauna ou flora. Seres que se alimentam de ideias e emoções. Seres de consciência primitiva, que estão em algum lugar entre peixes e plantas. Seres como o anima e o ellion.

— E qual deles você é? Qual deles é as mil lacraias?

— Ambos. O anima se alimenta do imaterial e produz o material. O ellion se alimenta do material e produz o imaterial. Mas em raras ocasiões ambos se alimentam através de um inseto simbionte. Insetos que aprendem a comer ideias e emoções como o anima. Insetos que nascem, então, nas ilhas como seres como eu. Seres conscientes que se forman de fragmentos da consciência de seres da superfície.

— Eu sou o ser da superfície, e você quer comer os meus sonhos?

— Sim. Mas eu não vou roubar seus sonhos, você pode escolher me dizer não.

— Mas como você pode ser mil e tantas lacraias?

— Tal como uma casa é feita com vários tijolos, minha consciência é um conjunto de várias partes. No seu mundo eu não tenho consciência, eu sou um inseto a procura de comida. Um inseto que está ligado a milhares de outros através da biosfera negra.

— Um inseto que sonha ser um mercador, e um mercador que sonha ser um inseto.

— Os Gatos nos chamam de Tartar, mas temos outros nomes e outras estórias. Os alces dos estepes nos chamam de orksha; os Bodes, de servos da lanterna negra; e os Gorilas, de cavaleiros dos quatro príncipes.

Ollie estava com a boca aberta, mas sua mente trabalhava construindo o significado do que ele tinha acabado de escutar. Não era um sonho, isso estava muito claro. Era o mesmo sentimento de quando ele abriu o relógio de corda de seu pai. A complexidade de cada engrenagem, de cada mola… Era um sentimento de insignificância, de que o mundo era muito maior do que ele um dia poderia conseguir entender.

— Por que você entrou na minha orelha?

— Você me chamou.

— Como eu posso chamar alguém que eu nem sabia que existia?

— Lágrimas. Alguns sonhos deixam resíduos nas lágrimas. Elas atraíram o inseto. Elas narraram os seus sonhos.

Ollie olha para o chão.

– Você me viu chorando? — ele perguntou com a voz triste.

— Eu estou na sua ilha. Vi muito mais do que apenas as suas lágrimas.

— O que são essas ilhas das quais você fala toda hora?

— No seu mundo você é uma criança da raça dos Porcos. Mas aqui você é uma ilha. Aqui todos são ilhas.

— Como é que eu posso ser uma ilha?

— Agora não é hora de falar sobre isso. Agora é hora de você saber o custo de realizar um dos seus quatro sonhos.

— Eu tenho quatro sonhos?

— Todos, nos três primeiros níveis, têm quatro sonhos.

— Quais são os meus quatro?

— Eles te esperam do outro lado da porta. Mas o custo de realizar um sonho, é a perda de outro.

— Como assim?

— Estou falando sobre Ogromna Gora.

Ollie abriu um largo sorriso e recitou o que lembrava de sua viagem a Ogromna Gora.

— É a maior montanha do mundo conhecido. Cravada em suas entranhas existe uma cidade de mesmo nome, que foi construída pelos Bodes. Quando o gelo cobriu o mundo durante a Ermitagem, todos os povos de todas as Raças vieram se esconder na grande montanha. Dizem que o idioma único que falamos hoje é fruto dos duzentos anos de união na montanha. Ou pelo menos foi o que o guia falou, eu nunca me esqueci.

  • Estou falando sobre o sonho que você trouxe de Ogromna Gora. Seffia.

O sorriso evaporou do rosto de Ollie.

— Eu também nunca me esqueci dela. Ela me deu uma moeda, uma réplica da primeira moeda cunhada pelo banco dos Gigantes.

— Muito mais do que isso. Vocês passaram uma semana juntos, enquanto seu Pai e seu tio atendiam as palestras da casa mercantes de Kamen. Vocês dois foram deixados de lado para descobrir a grande montanha que virou um centro turístico. Você nunca tinha encontrado ninguém assim, ela era rápida, enquanto você era lento; você era mais instruído, mas ela era mais ousada; você se achava feio, e ela não via feiura em nada, nem mesmo em você. E ela lhe deu seu primeiro beijo e vocês andaram de mãos dadas. E quando você chorou dizendo que ao fim da viagem seria a última vez que vocês se veriam, ela sorriu e apostou que vocês se reencontrariam certamente. Ela insistiu que você comprasse uma moeda comemorativa, uma réplica da primeira cunhada pelo banco dos gigantes. Com o semblante do Leão Branco Geik Kar — o mercador parou de falar. O silêncio parecia incomodar Ollie, que quase se remexia.

— Ela falou que eu tinha que guardar a moeda, e que quando a gente se encontrasse novamente eu tinha que dar a moeda para ela — o rosto do Porco ficou choroso. Seus olhos castanhos claros brilhavam entre luz e lágrimas contidas. – Mas eu perdi a moeda. Porque eu sou um idiota descuidado.

— Olhe no seu bolso, Ollie — falou o Mercante apontando para o bolso no peito do pijama amarelo com estrelas do pequeno Porco.

Ollie tirou de seu bolso uma linda moeda dourada com o perfil de uma cabeça de Leão.

— Nossa! Como você fez isso? — ele falou animado, já esquecendo que a um segundo atrás ele estava quase chorando. — Mas a moeda somente existe aqui, sim? — falou agora sem alegria.

— Essa moeda não é uma moeda. Esta moeda é toda a sua viagem. São todas as suas lembranças daqueles quatorze dias. Se você me der essa moeda, eu levo tudo. Cada momento, cada alegria. Eu levo Seffia. Eu levo seu primeiro beijo.

— Mas foi meu único beijo — falou Ollie, agora olhando indignado. — Por que eu te daria isso? Eu não quero esquecer dela. Eu penso nela sempre. Quando eu perdi essa moeda foi um dos meus piores dias.

— Eu levo isso também. Quero tudo, o bem e o mal de suas lembranças. Mas acima de tudo, levo o seu sonho de um dia voltar a encontrar-se com ela.

— Não! — Ollie gritou. E depois de esperar em vão para o Mercador continuar a falar, ele reiterou em tom manso. — Por que você acha que eu lhe daria tudo isso?

— Você não vai me dar nada. Em troca da moeda você leva o Doce — o Mercador aponta seu indicador magro para o doce sobre o balcão. — Um sonho, por outro.

— E o que faz o doce?

— Ele alimenta os seus sonhos mais novos. Aqueles que você colocou no lugar deste sonho antigo.

— De que sonhos você está falando?

– Você sabe seus sonhos, eles estão te esperando do outro lado daquela porta — novamente ele apontou para a porta velha. — Quatro sonhos te esperam, quatro possibilidades de vida. E se você escolher um, se você der o doce para o sonho escolhido, vocês ascenderam juntos para a superfície. E com seu sonho para sempre ao seu lado, o que foi construído apenas no mundo das ilhas, vai ser também construído no mundo da superfície.

— Quando eu perdi a moeda eu já sabia que eu nunca mais iria encontrar-me com ela — Ollie colocou o brasão do Leão nas mãos do mercador. — Ela falou que queria me ver de novo por que teve pena de mim, ela era boa demais para mim. Eu sempre soube disso. Você me faz um favor em ficar com essa moeda.

O Mercador fecha seus dedos sobre a moeda, e a porta velha se abre bruscamente, com a força de um vento forte que varreu o pequeno interior da loja.

Saindo de trás de seu balcão, o Mercador colocou sua mão sobre o ombro de Ollie. Estendendo sua outra mão ele apontou para o brilho branco que vinha do outro lado.

— Caminhe comigo e aprecie a ilha de seu inconsciente.

 

Ao pisar no caminho de pedras, Ollie olhou para o céu negro. Na escuridão celeste, não se viam estrelas ou luas. Em seu lugar, ilhas flutuavam e orbitavam todo seu redor. Agromeradas em pequenos grupos. Milhares de milhares de ilhas, algumas tão longe que eram apenas pontos, outras tão próximas que era possível ver o verde da vegetação e o formato de suas casas. Ele notou que o lugar onde estava também era uma ilha.

Correntes gigantes ligavam as cinco ilhas mais próximas à sua ilha. Todas com tamanhos similares, nunca maiores que um estádio. Ollie notou que as ilhas se aglomeravam em conjuntos e eram presas uma as outras por correntes. Já outras ilhas, as mais distantes, não tinham correntes.

— Por que aquelas ilhas são ligadas com pontes em vez de correntes? — Ollie perguntou ao Mercador ao seu lado.

— Alguns constroem correntes, outros constroem pontes.

Ollie acenou, fingindo ter entendido as palavras do Mercador. À sua frente ele viu uma casa grande com oito janelas e dois andares. Tirando os tijolos azuis, era a mesma casa onde ele tinha nascido. A estrada de pedras levava à sua entrada.

Olhando para trás, ele viu mais três casas. Contudo, a porta de onde ele tinha saído não pertencia a nenhuma delas. A porta estava ligada a uma carroça coberta. Uma grande carroça, mas não grande o suficiente para ter dentro de si uma loja e seu quarto.

A carroça estava atada a uma lesma gigante com asas de borboleta. Lindas asas em azul e dourado, com linhas de vermelho e preto.

— Que animal é esse? — Ollie perguntou.

— Não é um animal, esse sou eu.

— Como isso é você? Você não é você?

— No mundo da superfície você tem a ilusão de ser apenas uma coisa. Nas ilhas você pode se ver mais claramente.

— E agora, o que eu faço?

— Agora você vai encontrar com cada um de seus sonhos, quando você quiser que seu sonho se torne realidade, você deve oferecer a ele isto — o Mercador falou ao oferecer o doce que estava na cúpula a Ollie.

Ollie pegou o doce da mão do Mercador.

– Eu posso escolher qualquer uma dessas casas?

— Não, existe uma ordem. Primeiro a casa do Sul, depois do Oeste e depois do Leste, apenas então você pode entrar na casa do Norte.

— E como eu sei qual é qual?

O Mercador apontou para a casa de tijolos azuis.

  • Esta é a casa do sul… — ele apontou para um pequeno castelo quebrado de pedras rubras. — Esta é a casa do Oeste — apontou para uma mansão feita de ouro e mármore. — Esta é a casa do Leste — se virando abanou a mão em direção à uma pequena casa de tijolos negros, na borda de um penhasco que dava para o vazio. — Aquela é a casa do Norte.

Ollie pegou o doce que o Mercador ainda lhe estendia. Quando ele andou na direção da casa o Mercador ficou para trás.

— Você não vem comigo? — ele perguntou, e o mercador acenou que não.

Ao chegar à sua porta, com uma larga maçaneta redonda, Ollie bateu na porta, que imediatamente se abriu.

Do outro lado, uma senhora Porca, com um vestido negro e pelo cinza. Ela tinha quatro brincos prateados, um em cada orelha e um em cada narina. Sua boca estava costurada com um fio branco que entrelaçava de um canto a outro de seu sorriso falso.

— Mãe? — Ollie perguntou ao reconhecer a Porca.

A senhora não respondeu e se afastou. Ollie a seguiu. Entrando na casa ele reconheceu a mobília. Era uma sala linda, e meticulosamente decorada com antiguidades frágeis e delicadas. Era a casa que ele tinha morado antes de irem para a capital de Ilys, quando seu pai ainda morava com ele e sua mãe.

Ouvindo um arroto, Ollie entrou no salão de jantar.

— Alou Ollie — falou o Porco nu e tão morbidamente obeso que suas banhas cobriam em várias camadas sua genitália e pernas. Ao redor do colchão, que servia de cadeira, quatro mesas estavam abarrotadas de comida de todos os tipos, menos verduras. — Fique à vontade e coma alguma coisa. Esta aqui é a sua casa.

Ollie se aproximou da mesa em frente ao Porco gordo.

– Eu conheço você, não? — o gordo sorriu com um dente levemente torto no canto de sua boca. Seus olhos eram azuis e seus pelos eram marrom claro, tal qual os de Ollie. — Quem é você?

O gordo sorriu ainda mais.

– Eu sou a vida dos seus sonhos.

Olhando ao seu redor, Ollie fez uma careta de nojo.

— Você não é meu sonho. Eu vou embora daqui.

— Não tem mais ninguém aqui, você não tem que fingir para mim. Isso aqui a minha volta não é comida, e você sabe. São nossos amigos, nosso lazer, nosso conforto, nosso refúgio. Lá fora o que a gente tem? Um mundo que nos odeia. Quer ir vai, mas você sabe o que acontece quando você sai de casa.

— Eu não quero ficar gordo, eu não quero que eles amputem minhas pernas como fizeram com o meu avô. Eu quero poder andar, eu quero poder viver como todo mundo vive.

— Todo mundo são os Gatos, Coelhos, Cães, Gorilas e, até mesmo, os Ratos. Mas todo mundo não são os Porcos.

— Por que não?

— Faz mais de quinhentos anos que o Bondoso Erik foi esquartejado pelos Leões na queda do império dos Porcos. Mais de dez mil porcos chacinados nas ruas da capital. Outros trezentos mil tiveram o mesmo fim nas outras cidades. Nem mesmo crianças e infantes foram poupados. Menos de mil Porcos sobraram nos pântanos de Kazil. Não fosse o tratado do banco de gigantes, eles teriam massacrado todos nós.

— O passado é o passado.

— Nada mudou. Todo mundo ainda nos odeia, todo mundo ri da nossa cultura. Ser gordo para eles é uma vergonha. Ser gordo é ser uma aberração. Ser rico é um pecado que nós cometemos todos os dias. Não importa o quanto as cinco nações se unifiquem numa única cultura, os Porcos vão ser sempre os Porcos.

— Chega, para de falar para mim o que eu falo para mim! Como você faz isso? Como você sabe o que eu penso?

— Por que sou eu que grito no seu ouvido todos esses anos, te mostrando as verdades que você não quer ver. Eu sou seu único amigo, Ollie. Eu sou o único que pode te proteger do mundo lá fora. Olha novamente para o que eu tenho para oferecer. É um sonho lindo que eu construí aqui para você — o gordo olha com olhos esbugalhados para o doce na mão de Ollie. — Me dá esse doce e eu prometo tornar seu sonho realidade — o gordo falou com saliva escorrendo dos dois cantos de sua boca.

— É esse o meu sonho? Voltar a morar numa pequena vila de Porcos? Comer até não poder mais andar? Viver sozinho com a minha mãe? Ela grita comigo, me chama de lixo.

— Ela se cala se você comer, quando você estiver gordo demais para abandonar ela como o seu pai fez. Quando ela sair da capital dos Coelhos e voltar para o vilarejo de Porcos onde ela nasceu. Esse é o sonho de sua mãe. Mas esse também é o seu.

— Não, eu tenho outros sonhos.

— Sim, mas nenhum deles você tem capacidade para realizar. Para que tentar? Para que sofrer? Você pode não falhar no exame da academia, mas você vai falhar em todo o resto. Nunca vai fazer amigos, nunca vai encontrar ninguém que queira te amar. Sua mãe e sua comida, é tudo que você tem. É tudo que você merece ter.

— Você está certo — Ollie falou com uma lágrima escapando.

— Me dá o doce, eu estou com tanta fome. Por favor, me dá o doce — o Porco gordo estendeu seu braço na direção de Ollie.

— Não.

— Por que não? Você sabe que tudo que eu te falei é a verdade. Você falou que eu estava certo.

— Imaginar é diferente de ver o que a gente imagina. Eu não sei o que me espera lá fora, mas eu não consigo pensar em nada que seja pior do que o que eu vejo aqui dentro.

— Não! — o Porco gordo gritou. — Não! — mas Ollie já havia abandonado seu salão de jantar.

 

O Mercador esperava do lado de fora, e Ollie olhou para ele com indignação.

— Eu não gostei dessa casa.

— Vamos então à próxima — o Mercador falou apontando para o pequeno castelo de pedras rubras.

— Alou — Ollie gritou ao entrar pela porta quebrada. O interior era amplo e vazio, sem decorações ou móveis, apenas paredes nuas de pedras avermelhadas. — Tem alguém aqui?

— Olha quem chegou atrasado — falou a voz rouca e grossa.

Ao entrar na sala de onde vinha a voz, Ollie avistou um musculoso porco, vestindo um peitoral de couro coberto por espinhos de metal. Ele urinava numa criança da sua idade. Um Coelho bege com um nariz branco. Baltazar Estroff, um aluno de sua escola. Ele não era o único, mais seis Coelhos de sua sala e um professor estavam no chão. Todos presos a correntes atadas ao muro de pedras. Todos eles com os olhos costurados.

— Não é engraçado? — falou o Porco sem parar de urinar. — Lá em cima ele ri e bate, mas aqui ele apanha e chora — terminando, o Porco forte abotoou a calça e se virou para encarar Ollie. — Olha para você, gordo e mole. É por isso que ele te bateu ontem, e é por isso que ele vai te bater amanhã. E eles vão rir — o Porco apontou o dedo para as outras crianças. — E esse aqui — ele falou pegado o Coelho adulto, que usava óculos quadrados por cima dos olhos costurados —, esse aqui vai fingir que não vê porcaria nenhuma. Para que óculos se você não vê, me diz? — o Porco forte falou ao bater com o rosto do Coelho no chão, quebrando seus óculos e sangrando seu nariz.

— Para! Não faz isso — Ollie pediu.

— Para? — o Porco forte soltou o Coelho e se aproximou de Ollie. — Olha para mim seu saco de merda! Dá uma boa olhada no que eu tenho para te oferecer.

Ollie reconheceu o Porco forte. Não pelo rosto quadrado com queixos largos, não pelo corpo sarado com veias saltando dos bíceps, mas pelos olhos azuis e o pelo marrom claro.

— Você sou eu?

— Eu sou tudo que você pode ser.

— Eu não quero nada disso.

— Eu sei. Você vive na casa azul e às vezes visita a mansão de ouro, mas quando você olha num espelho, você vem me visitar. É fácil esquecer o seu corpo nojento enquanto vestido, mas quando você está nu a verdade grita. Não são apenas eles que te chamam de saco de merda.

— Eu nunca pensei isso de mim.

— Está mentindo para quem aqui? Você odeia o seu corpo, e tem razão de odiar. O bondoso Eric não era bondoso, era? Ele não era um deus, era? Ele teria morrido de gangrena mesmo se os Leões não tivessem cortado sua cabeça. Ele teve o que mereceu. Os Porcos tiveram o que mereciam. Afinal, quem fez dos Rinocerontes e Coelhos seus escravos? Não tem como reclamar quando os Leões vieram fazer o mesmo. Todo o ódio que o mundo tem dos Porcos é justificado. E com você é a mesma coisa — ele limpou uma lágrima do rosto de Ollie e a lambeu. — Chora não seu merda. O lugar de choro é a casa azul. Aqui é a casa de suor e dor. Aqui você aprende a ser forte.

— Você não tem nada que eu queira.

O Porco forte riu um riso cruel.

– Não está reconhecendo esse castelo, não? Você construiu ele quando leu sobre a queda da Dinastia do Leão Branco. Quando as Cinco nações traíram os Leões e exterminaram todos os herdeiros do grandioso Geik Kar, um Leão negro chamado Gadriel se refugiou num castelo que pertencia a um punhado de Coelhos nobres, e antes dos soldados invadirem e matarem o Leão, ele chacinou e torturou toda a família.

— Não, eu não me lembro disso — mentiu Ollie.

— Não? Não lembra de ler sobre como ele acorrentou a família nas paredes do grande salão, e como ele urinou sobre eles? Sobre o Duque que na estória era um soldado com um peito cheio de medalhas, mas que na sua mente era seu colega de sala, Baltazar Estroff?

— Foi só um…

— Sonho? — o Porco forte abriu um sorriso. — Eu posso te dar esse sonho.

— Não — falou Ollie dando um passo para trás.

— Eles são seus inimigos, todos eles. E você pode chorar e se esconder deles, ou você pode me dar esse doce na sua mão. E aí quem vai chorar são eles.

— Eu não quero fazer ninguém chorar.

— Me dá logo a porcaria desse doce!

— Não, tudo que você quer é machucar os outros!

— E daí? Quem são os inocentes, me diz? São os Porcos com sua filosofia falida, que cultua ostentação de riquezas e banha, onde doentes mentais foram colocados nos status de deuses e guias de moralidade? Ou são as grandes raças das cinco nações, que roubaram o mundo de todas as outras raças menores? Não importa quem está por cima, a estória é sempre a mesma. Uma raça bate, enquanto a outra apanha. É assim no mundo, é assim na sua escola.

— Nem todo mundo é ruim. Nem todo mundo é meu inimigo.

— Quem não é? A garota da moeda? Ela teve pena de você. Quem vai te amar, me diz? Ninguém, e você sabe disso. Você é um saco de merda, mas não é o suficiente apenas você odiar o seu corpo. Se você quer escapar dele, você tem que agir em cima do seu ódio. Para vencer você tem que sofrer. Você tem que suar — o Porco forte falou e estendeu seu braço para Ollie. — Me dá o doce. Me dá essa merda que eu te mostro o que é um sonho de verdade. O que é ser um Porco de verdade?

— Por que você não toma o doce de mim?

  • Do que você está falando?

— Se você é tão forte, por que você não pega da minha mão e come? Por que eu tenho que te dar o doce?

— Eu não sei — o Porco forte falou com uma voz fraca.

— Eu não quero o seu sonho. Eu acho que eu quis, mas eu não quero mais. Adeus.

— Não — suspirou o Porco forte ao ver Ollie saindo de seu castelo.

 

Ollie caminhou novamente até o Mercador.

  • Eu não gostei de nenhum dos sonhos que você me ofereceu até agora — ele reclamou.

O mercador apontou para a casa de ouro.

— Você ainda não viu todos.

Ollie olhou para a mansão, olhou para o Mercador, e depois atravessou os portões dourados e entrou na casa que tinha suas portas abertas. Dentro, uma banda tocava no grande salão.

— Seja bem-vindo Ollie — falou um Porco adulto vestindo um impecável terno branco com uma camisa rosa e um chapéu coco. De dentro de seu colete ele tirou um relógio de ouro e olhou a hora. — Você chegou no tempo exato de mudar a sua vida.

Ollie olhou a sua volta. Uma banda formada por Coelhos e uma vocalista Gata tocavam uma bela sinfonia. Ele conhecia a banda, seu pai tinha o levado para um concerto quando eles se mudaram para a capital de Ilys. Primeiro seu pai trocou sua cidade, depois ele trocou sua família.

Os alunos de sua escola também estavam no baile. Dançando e sorrindo. Eles não pareciam se incomodar que suas orelhas tinham sido cortadas e o vazio de seus ouvidos foram costurados com linhas brancas.

— Este é o seu lugar Ollie — o Porco com chapéu coco falou ao colocar a mão em seu ombro e o guiar para próximo da pista de dança. — A cultura, é a arma do cidadão educado em sua luta por reconhecimento. Apenas os pobres acreditam que ouro compra a felicidade. Ouro é uma pedra bruta, seu valor é uma ilusão. Mas é no comércio dessa ilusão que reside a verdadeira riqueza do mundo — o Porco pegou uma taça de um garçom. — O melhor vinho, o melhor tecido, a melhor orquestra. É como mostramos a todos quem somos, e qual é o nosso verdadeiro valor.

— Meu pai falou isso — Ollie falou para o Porco olhando em seus olhos azuis. — Por que você tem o meu rosto, mas fala com as palavras do meu pai?

— Você se lembra de outra coisa que ele lhe disse naquela noite em que vocês foram ouvir a orquestra?

Ollie tentou lembrar, mas mais nada daquele dia lhe veio à mente.

— Não, eu esqueci o resto.

— Por que não importava. Você construiu essa casa apenas com os pensamentos que foram importantes a você. Nas outras casas vivem os pensamentos ruins, mas aqui meu querido Ollie, aqui residem os seus sonhos de uma vida melhor — o Porco apontou para os convidados dançando no salão. — Seus amigos estão todos aqui.

— Eles não são meus amigos, eles riem de mim.

— Crianças vão ser crianças. O seu valor não está em quem você é, mas no que você faz, ou naquilo que você tem — o Porco deu um tapinha na barriga de Ollie. — Eles riem da sua barriga, mas se você cobrir seu corpo com tecidos importados e caros… — o Porco alisa a lapela do seu terno. — Se uma barriga maior diz que você é mais gordo, uma roupa melhor diz que você é mais bem sucedido. Ninguém ri do seu pai, ri?

— Não.

— Porque seu pai aprendeu a jogar pelas regras.

— Quais são as regras?

— Todos os seus desejos têm um custo. E quanto mais você está disposto a pagar, maior o valor do que você quer. Quer amigos? Dê uma grande festa, quem convida escolhe. Quem convida qualifica quem merece e quem não merece estar. Não existe valor no que se tem, o valor nasce da comparação entre o seu e o do outro. A esposa mais bela, a maior casa, a mais deslumbrante festa. A mais ousada aventura. O mais caro vinho. Quem aguenta beber mais, ou quem bebe com maior classe. A única riqueza digna de ser possuída é aquela que apenas você tem a exclusividade de possuir.

— Eu não quero ser melhor que ninguém.

— Mas é claro que você quer! Quando seu pai trocou você e sua mãe por outra família mais bela. Quando seus colegas de escola escolheram lhe dar o mesmo desprezo. Todos eles te atribuíram um valor. Esse valor é a sua dívida. Sua dívida de felicidade. Você pode ir morar na casa azul e fingir que essa dívida não pode ser paga, ou ir para o castelo rubro e fazer birra esperando que o mundo pague o seu valor. Mas, cedo ou tarde, se você quiser ser feliz, você não terá escolha a não aceitar o preço imposto. Os espertos sempre vêm para esta casa.

— Como eu posso comprar a minha felicidade?

— Estudando. Se tornando um Voxarma. Trabalhando e competindo com todos os outros. A vida é uma escada, Ollie, somente quem sobe pode ver quem fica em baixo. E agora você está em baixo. Você não tem nada a mais que qualquer outro. Mas sua escalada começa aqui, nessa casa. Olhe à sua volta, para o seu mundo prometido, veja as belezas que te esperam.

Ollie olhou à sua volta, chãos de mármore, tetos de catedral. Convidados belos e mesas fartas. Comidas cheirosas e música boa. E todo mundo que ele conhecia estava lá. Gentis e subservientes como os empregados do seu pai. Era o mundo que seu pai sempre quis lhe dar. Era o conselho que seu pai sempre falou em seu ouvido. Se você está cansado de sua vida, trabalhe e compre para si uma vida melhor. E foi exatamente o que ele fez. Sempre trocando uma coisa por outra, uma pessoa por outra. Ser melhor era subir uma escada, uma que nunca terminava, e quanto mais ele via seu pai subir essa escada, menos vida e alegria ele encontrava em seus olhos. E mais distante ele ficava do mundo.

— Eu não acho que meu pai seja feliz — Ollie falou para o Porco anfitrião. — Eu não quero a vida do meu pai.

— Compare a vida que você tem com a vida que você vê aqui.

— Mas eu quero ser feliz.

— Não existe felicidade, o que existem são momentos de prazer. Momentos como este.

Ollie se sentia dividido em três partes. Uma queria fugir e chorar. Outra queria gritar e quebrar os pratos, mas sua última parte concordava com a escolha de seu pai. Talvez ele tenha, realmente, comprado a sua vida melhor.

— E então meu jovem, podemos finalizar nossa transação?

— Eu ainda não fui na casa negra — Ollie falou.

— Acredite em mim meu jovem, ninguém volta da casa negra à beira do penhasco. Você não vai ter uma oferta melhor que esta.

Ollie estendeu o doce para dar ao Porco de chapéu coco, mas ao ver o casal que dançava ao seu lado, uma Cadela de Caltos que ele sempre achou linda, por um segundo pensou em como seria bom ter ela em sua vida, mas no segundo seguinte sentiu repulsa de vê-la com as orelhas cortadas.

– Por que todos têm seus ouvidos costurados? — ele perguntou ao porco retraindo sua mão, um pouco.

— Por que eles não me ouvem, é claro.

— Como eles podem ser seus amigos se eles não te ouvem?

— Não seja tolo, meu jovem. O que eu digo não importa para nenhum deles, eles vieram para a festa.

— É como com o pai, não? Todo mundo trabalha para ele, todo mundo gira ao redor dele, mas ninguém realmente se importa com ele. Nem as filhas novas dele. Eu acho que nem a mulher dele.

— E daí? Mesmo assim ele te trocou, não trocou? Se ele prefere elas, é por que elas são melhores que você.

— É o que eu sempre acreditei — Ollie falou recolhendo o doce. — Pensando bem, eu não acho que eu queira essa vida.

— O meu sonho é o melhor de todos. Me dá esse doce agora, antes que seja tarde demais.

— Não. Mas se você quiser saber, eu nunca gostei de festas.

A banda intensificou, e a bela música acompanhou Ollie através da porta, do portão e apenas parou quando ele alcançou o Mercador que o esperava na bifurcação do caminho de pedras.

 

— Só falta uma última casa, e eu não gostei de nenhum dos sonhos até agora. O que me espera na casa negra?

— Você conhece todos os seus sonhos, Ollie.

— Sabe o que eu acho? Eu acho que você me enganou, e que todas as casas são casas ruins. Com sonhos ruins.

  • Todas as casas são suas, todos os sonhos são seus.

Vendo a casa negra na borda do penhasco. Vendo o abismo negro com ilhas no lugar de estrelas, Ollie refletiu no que essa casa poderia representar. Um sentimento de desespero se apossou de seu corpo e mente. Uma certeza fatalista que aquela casa seria o seu fim.

— Eu não quero ir para essa casa — ele falou.

— Você sempre pode voltar para uma das outras três.

Ollie olhou para trás e viu as três casas. Não, ele não tinha como voltar para nenhuma delas. Ele pensou no que poderia ser pior que elas. Nada lhe ocorria, e isso o assustou mais que qualquer coisa que ele poderia imaginar.

Mesmo assim ele fez o caminho das pedras até a entrada da pequena casa de tijolos pretos.

Ele bateu na porta. Quando ninguém respondeu ele entrou.

No aposento escuro, um velho Porco se balançava numa cadeira de balanço. Sua pele sobrava sobre seus ossos magros. Parecia não existir carne entre os dois. O velho usava o mesmo pijama amarelo com estrelas azuis que Ollie, mas o do velho aparentava ter séculos de descaso e maltrato. Estava sujo e despedaçado.

— Eu bati, por que você não respondeu? — Ollie perguntou.

— Eu sabia que você iria entrar, cedo ou tarde, todos terminam aqui — o velho respondeu.

— Qual é o seu sonho? — Ollie perguntou temendo a resposta.

— Eu não tenho um sonho, eu tenho o despertar de sonhos.

— O que isso quer dizer?

— Me diga primeiro o que você vê.

— Uma sala, uma estante, uma vela e uma cadeira de balanço.

— Não se faça de estupido. Fale a verdade. A verdade que você engole. A verdade que te envenena. As gentilezas e as mentiras ficam do outro lado daquela porta. Aqui voz que cala fala. O que você vê?

— Um velho rabugento, que mora sozinho no escuro, com uma estante de livros sem livros.

— Sim, sozinho e infeliz. Você entende agora?

— Entende o que?

— Você está vendo o seu futuro.

— Não. Isso não é verdade, eu tenho muitos sonhos.

— Você não tem nada, nunca teve nada e nunca vai ter algo mais que o nada — o velho falou com calma.

— Não diz isso, por favor, não me diz isso.

— Na casa azul você chora ao descobrir que ninguém te ama. Na casa vermelha você grita ao descobrir que você não ama. Na casa amarela você mente ao descobrir que o amor não pode ser comprado.

— E na casa negra?

— Na casa negra você descobre que está sozinho. Que o amor que você busca foi em vão. Que o seu sonho acabou.

Lágrimas corriam sobre as bochechas redondas de Ollie.

— É isso que você tem para me oferecer?

— Não — o velho falou indignado. — Isso seria cruel. Eu não quero o seu sofrimento, você já sofreu demais. Eu estou aqui para te libertar.

— Me diz, eu faço qualquer coisa, só me diz qual é a saída.

— Olhe para esta vela.

Ollie obedeceu. A vela estava gasta e se escondia dentro de um ninho de cera. Sua chama pequena parecia se debater. A qualquer segundo a vela estava para perecer.

— O que tem a vela? E só uma vela.

— Você é um prisioneiro dessa vela. Prisioneiro de sua promessa de luz. Você vive no escuro, esperando que a luz cresça. Cresça para aquecer e confortar. Mas cada dia que passa, sua vela queima a cera e perde sua chama. A luz está morrendo, e você vive dentro do medo dela acabar. Mas viver dentro da casa do medo é ainda pior que viver sem luz, então você se revolta. Não é justo, alguém é culpado, alguém tem que pagar. Mas todo ódio que você oferece ao mundo acaba por envenenar você mesmo. E então você descobre que morar na casa do ódio é ainda pior que viver sem luz. Você cai de joelhos, e implora ao mundo por mais tempo. Diz que vai tudo na barganha por mais um segundo de luz. E na casa do desejo você desperdiça o pouco tempo que tem, fingindo que existe luz no mérito de seus feitos. Na ilusão de sua riqueza, mas a luz da vela aos poucos se apaga. E quando o escuro vem, você finalmente encontra a casa negra, onde a verdade é a única coisa clara. Não importa o que você faça, a luz vai se apagar.

— Eu não quero viver no escuro.

— Você deixou o querer na casa amarela.

— Então me diz, qual a lição dessa casa?

O velho se levantou e foi até a varanda. Ollie o acompanhou.

— Olhe para baixo. Veja a queda infinita, veja todas as ilhas acorrentadas umas às outras. Aquela ilha maior é a sua mãe. A mais distante é seu pai. Aquela ali é seu amigo. Todos encarcerados entre si. Nós não vivemos aqui Ollie, nós somos cativos. Na superfície você é o preso, mas aqui você é a prisão.

— Mas você falou que tinha uma saída.

— Me dê o doce, e eu lhe darei a saída.

— Não, primeiro você me diz qual é a saída.

O velho sorri com seus poucos dentes.

– Apagar a vela é a saída. Desistir é a saída.

— O que acontece quando a vela apaga?

— Os sonhos morrem.

— E eu?

— Você dorme e não sonha, não acorda.

— Eu não quero morrer.

— Você não estaria aqui se isso fosse verdade.

— As coisas podem mudar.

— O que vai mudar, me diga? Sua mãe vai aprender a te amar? Seu pai vai voltar? Você vai fazer amigos? Não. Não. E não. Não importa o sonho que você escolha, todos eles terminam no mesmo lugar. Com você velho e sozinho.

— Não diz isso — Ollie falou em suplica.

— Não sou eu que digo, você sabe. Foi por isso que trocou a moeda por mim. Não existe ninguém que vai te amar.

— Por que ninguém vai me amar? O que eu fiz de errado?

— Você não fez nada de errado. É assim que termina para todos. Ninguém escapa de si mesmo. Ninguém escapa da escuridão — o Velho se virou para Ollie e olhou com seus olhos esbugalhados para o doce em sua mão. — Eu estou faminto, será que eu poderia comer o doce agora?

— Eu não quero morrer.

— Deveria querer. O que te espera ao amanhecer? Pense em como vai ser o dia. Depois pense em como vai ser o dia depois desse dia. Quando termina a dor? Nada vai mudar. Nada vai melhorar. Sua paz existe apenas no sono. Por que não dormir?

— Isso não é justo.

— Injustiça é a casa vermelha.

— Não existe outro caminho?

— Fugir é a casa azul.

— Não.

— Me dê o doce, tenha misericórdia de si mesmo.

— Tem que existir outra casa. Não pode ser só isso.

— Não existe outra casa Ollie, esse é o fim da linha.

— Não.

— Por que não? Me diz, o que mais lhe resta?

– Eu não sei. Mas se eu te der o doce, eu nunca vou saber.

O Velho então caiu de joelhos chorando.

– Por favor, tenha misericórdia de mim, não me deixe aqui sozinho novamente, eu sofro, como eu sofro. Por favor, me salve desse lugar maldito.

Ollie abraçou o velho.

— Me diz como… Como eu posso ajudar?

— Eu estou faminto. Me dê o que comer.

— Eu não posso, me desculpa.

  • Eu te odeio — o velho falou olhando nos olhos de Ollie com veias vermelhas riscando o branco de seus olhos. — Eu sempre te odiei, como todos te odeiam. Você merece sofrer. Nós merecemos sofrer.

Ollie se afastou do velho, e o velho então gritou, e depois se encolheu no chão como um animal indo dormir.

 

Correndo para fora da pequena casa, Ollie encontrou o Mercador esperando por ele.

– Você me enganou! — ele gritou para o Mercador. — Eu troquei o meu melhor sonho, e tudo que você me deu em troca foram pesadelos.

O Mercador estava com a moeda em sua mão.

— São seus sonhos. Você construiu cada uma das casas com seus pensamentos, suas escolhas.

— Que escolha? Eu nunca tive uma escolha.

— Não? Você escolheu me dar esta moeda.

— Você me enganou, eu achei que você ia me dar um sonho bom. Por que você não me deu um sonho bom?

  • E que sonho seria esse?

Ollie tentou responder, mas nada lhe veio à mente.

— Você acha que vive na superfície? Você vive aqui. Morando simultaneamente nas quatro casas. Coletando os ecos das palavras que te torturam. Palavras de medo, raiva, desejo e tristeza. Seus sonhos são seus mestres, e você é o escravo das vozes que você escolheu escutar.

— Não. Tem que ter outra casa, tem que ter algo mais.

— Todos têm apenas quatro, agora escolha uma.

— Eu não quero esses sonhos! Eu quero outro sonho.

— Você não tem outro sonho.

— Eu quero ter.

— Você tem que escolher o que você tem.

— Não, eu quero minha moeda de volta.

— O que existe em minha mão é apenas a ideia da moeda. A moeda você perdeu, a ideia você abandonou.

— Por que você está fazendo isso comigo? O que eu te fiz. Por que você me odeia? Por que todo mundo me odeia? Eu nunca fiz nada contra ninguém. Eu não mereço nada disso.

  • Você diz as palavras, mas você não acredita nelas. Você não está nesta ilha, você é a ilha.

Ollie caiu no chão como o velho tinha caído, se encolhendo como um animal. Quando começou a chorar, começou a chover. E na chuva ele pensou em sua vida. Por que ele tinha escolhido trocar o único sonho bonito que possuía. Era a voz da casa azul, e agora, olhando para trás em sua vida, ele podia ver claramente que as casas falavam por ele em todos os momentos de sua vida. Não existia uma escolha que ele tenha feito que não fosse uma escolha de uma delas. Sem saber o que fazer, ele se levantou. Olhou para uma das casas e jurou para si mesmo que ele nunca mais ia ser controlado pelas vozes que não eram suas. Mas ao pensar em qual voz era a sua, ele percebeu que ele não tinha a menor ideia de quem ele era.

— Quem eu sou? — Ollie sussurrou ao vento.

Antes de ter resposta, ou talvez em resposta a chuva começou a ceder. Quando ele olhou para a casa negra, ele percebeu que a chuva tinha limpando a tinta preta, revelando tijolos brancos por trás do líquido escuro. Quando a chuva finalmente parou, a casa negra tinha se transformado em uma casa branca.

Ele olhou para o Mercador que nada falava e nada revelava por trás de sua máscara. Ollie então caminhou novamente para a singela casa no penhasco.

A pequena sala ainda era a mesma, mas ao mesmo tempo não era. Tudo parecia totalmente diferente.

A mesma vela estava sobre a mesa, com o mesmo ninho de cera ao redor de sua chama pequena. Mas a luz dessa vela não parecia tremer como a outra, e iluminava com absoluta claridade tudo a sua volta. Sem as sombras, Ollie se sentia mais calmo e aquecido, e a casa parecia um pouco maior e mais aconchegante.

Na estante de livros agora havia livros, exatamente todos os livros que Ollie tinha lido até então. Na varanda, Ollie viu um gordinho vestido com o seu pijama amarelo de estrelas azuis. Quando o gordinho se virou, Ollie se encontrou olhando para uma exata cópia de si mesmo. Com as únicas exceções que o seu outro eu não estava molhado, e ele sorria um sorriso contente e amável.

— Sempre soube que você viria — falou sua cópia sorridente.

— Quem é você? — perguntou Ollie. — Onde está o velho?

— Eu sou o velho.

— Não, o velho é velho. Ele é ruim e queria o meu mal.

— Quem você acha que ele era?

— O mercador falou que esta era a casa da tristeza. Mas o velho não estava triste, ele estava desesperado.

— Sim, ele era o seu desespero.

— Quem é você?

— Você sabe.

— Eu não sei de nada. Por que você não me explica? Eu não sei quem é você! Eu não sei por que a casa mudou de cor, eu acho que as cores querem dizer algo, mas eu não tenho ideia do que seja. Por favor, me diz.

— Pense no que sabe Ollie. Confie na voz interna, todos têm duas vozes, uma vem de fora e fica presa dentro das ilhas; e a outra vem de você. Não do seu eu individual, mas do seu verdadeiro ser.

— Eu não sei — Ollie olhou para sua cópia, que apenas sorria. — São cores primárias, é isso?

Quando a sua cópia não respondeu, Ollie fechou os olhos e pensou. Ele pensou por um longo tempo e, aos poucos, tudo parecia ir ficando mais claro. Um pensamento puxava outro, e sem saber quanto tempo levou pensando, eventualmente falou:

— Eu acho que eu sei algumas coisas.

— Me diga — sua cópia suspirou amavelmente.

— As cores primárias são os nossos sentimentos primários. Azul é o medo, vermelho é a raiva, amarelo é o desejo. Se você junta as cores primárias, você tem o preto; o preto é a tristeza e o desespero, que é o conjunto dos outros três. É por isso que o Mercador falou que tinham regras, que uma casa levava a outra. Você não pode ter o preto sem as outras cores.

— E o branco? O que você sabe sobre o branco?

— Na escola eles dizem que o branco não é uma cor, e sim o reflexo de todas as cores. Então o branco é parecido com o preto, mas um é quando você absorve tudo, e o outro é quando você reflete tudo.

— Muito bem. Então quem sou eu, Ollie?

— Você é o oposto do velho.

— Quem sou eu?

— Você é a esperança.

— Não, quase. Quem sou eu?

— Você é a esperança e o amor.

A esperança de Ollie sorriu para ele.

– E na casa do medo você encontrará a coragem. Na casa do ódio, a compaixão. Na do desejo, propósito. E aqui, amor.

— Então eles são monstros?

— Não existem monstros. Como não existem pessoas ruins. O que temos são prisioneiros de escuro e a liberdade da luz.

— Mas dizer isso não muda nada, muda? Você mora no mesmo lugar que o velho — Ollie falou ao olhar à sua volta. — Você está sozinho, ninguém te ama como ninguém me ama. Como você pode falar de luz se você não vive melhor que o velho?

— Eu não estou sozinho, você está aqui comigo.

— Mas a vela… A vela vai apagar e vai ficar escuro, e a gente vai morrer antes de realizar nossos sonhos.

— Será?

— Olha para a vela, ela está prestes à apagar.

— Durante todo o meu tempo aqui, ela sempre esteve assim, prestes à apagar. Mas nunca apagou. Nem uma vez. Sabe o que eu acho? Eu acho ela nunca apaga.

— Mas e se você estiver enganado?

— Me diga você, que vida você teria acreditando que tudo vai ficar bem? E que vida você teria em acreditar que tudo vai acabar mal?

— Eu entendi. Se eu esperar o pior, não importa o que aconteça na minha vida, eu vou viver uma vida ruim, de sofrimento e desespero. Mas se eu acreditar que tudo vai ficar bem, então não importa como acaba, porque eu vou ter vivido uma vida melhor apenas por acreditar no melhor.

— Essa é a escolha. Viver com medo ou coragem, ódio ou compaixão, desejo ou propósito. Tristeza ou amor.

— Então nada muda na minha vida, eu continuo com os mesmos problemas. Eu mudo, mas meu mundo continua sempre o mesmo?

Ollie entendeu. Pegou um dos livros da estante, ele amava ler, mas fazia mais de um ano que ele não lia um livro por lazer, apenas os que eram impostos nos deveres de casa. Ele foleou as páginas. A segunda folha estava em branco.

– Eu nunca terminei de ler esse livro.

— Volte a ler. Cada livro expande esta casa.

— Mas, é assim que eu vou viver? Lendo sozinho, sem amigos, sem ninguém que se importe comigo, sem ninguém que me ame? É esse o sonho que você tem para me dar? Eu preciso que alguém me ame.

— Então ame.

— Amar quem? Minha mãe sempre me diz que eu sou lixo. Na escola me chamam de saco de merda. Até meu pai, que finge gostar de mim, uma vez me falou que eu era sem brilho. Eu quero esperar a garota voltar, eu quero perder a aposta que eu fiz com ela. Mas eu não aguento esperar mais.

Um vento forte passou pela sala abrindo a porta e quase apagando a vela, por um segundo o escuro chegou a voltar, mas o vento passou e a vela se manteve acesa.

  • Venha comigo — o sorridente Porco levou Ollie até a varanda.

— Olhe para cima. Veja essa beleza infinita, veja todas as ilhas que estão ligadas por pontes umas às outras. Quão belas cada uma delas são. Olhe para as correntes que te predem a ilha de sua mãe. A de seu pai. E a dos outros. Olhe para as rachaduras que estão nelas agora. Sua prisão não tem muros, tudo que você tem que fazer para sair dela é transformar as correntes em pontes.

— Eu não posso mudar o mundo.

— Sim, você pode. Todos podem.

— E o que acontece se eles não quiserem criar as pontes?

— As correntes se partem e sua ilha sobe sozinha, enquanto as ilhas deles continuam aqui até eles aprenderem o caminho.

— Eu não tenho coragem de me amar.

— Você tem coragem, você não tem o hábito. Adquira um e o outro vem junto.

— Eu não sei como fazer isso.

— Eu não estaria aqui se você não soubesse.

Sem saber o que responder, Ollie ofereceu o doce ao Porco sorridente.

— Obrigado, mas não estou com fome.

 

Ollie saiu da casa branca com um sorriso em seu rosto. Ao encontrar com o Mercador, ele já estava de costas caminhando de volta à carroça nas costas da gigante lesma com asas.

Ao entrarem pela porta, Ollie estava novamente dentro da pequena loja de doces. Sem pedir permissão, ele foi até a cúpula de vidro e colocou o doce de volta no prato vazio. Depois foi até o seu quarto, antes de entrar ele se virou para o Mercador, que já estava novamente atrás do balcão.

— Você é bom ou você é mal?

— A maioria diria que eu sou mal.

— Não foi o que eu perguntei.

— Você não vai lembrar de mim.

— Eu acho que você é bom — Ollie se virou para entrar.

— Ollie — o mercador falou o fazendo parar —, não comece a ler um livro novo, termine primeiro aquele que começou.

— Se eu lembrar eu leio — Ollie falou ao entrar no quarto.

 

A lacraia rosa saiu de dentro do ouvido de Ollie, ela voou um pouco, mas seu brilho rosa tinha perdido sua intensidade. Seu voou tinha perdido a leveza e, antes de alcançar a fechadura, ela caiu ao chão. Suas escalas rosas foram perdendo a cor até que se tornarem escalas cinzas. Então a lacraia se enrolou e morreu.

Ollie abriu os olhos, pela primeira vez em muitos anos ele acordou se sentindo feliz. O peso que ele carregava em seu peito tinha suavizado, ele sabia que tinha sonhando com algo bom, mas por mais que tentasse, não conseguia se lembrar sobre o que tinha sonhado. Algo sobre uma loja de doces.

Sua mãe ainda não tinha acordado e a casa estava em total silêncio. Ele sabia que ela ia gritar e que na escola os garotos iriam implicar com ele, mas o pensamento entrou e saiu de sua mente como uma brisa. Qual o sentindo em se preocupar com as coisas que ele não podia mudar?

Com o tempo que lhe restava antes da hora do café da manhã, ele escolheu ler um pouco. Pensou em começar um livro novo, mas decidiu terminar de ler o livro sobre a filosofia dos Gatos, a teoria unificada sobre o panteísmo. Ele tinha parado de ler na segunda página fazia alguns anos. Quando ele abriu o livro, uma moeda caiu. A moeda com o semblante do Leão Branco. A moeda que ele achou que tinha perdido. Seu sorriso virou riso, e Ollie, naquele momento, acreditou que tudo ficaria bem, que ele perderia a aposta, e que cedo ou tarde, tudo que ele sonhava, um dia se tornaria realidade. Ele encontraria tudo que faltava. E em algum lugar dentro de si mesmo, num mundo que poucos acreditariam existir, correntes estavam se partindo e novos sonhos estavam sendo erguidos.

Fim?

7 Comments

  1. Sem dúvida, o melhor conto que já li na minha vida. O autor mergulha a narrativa em sombras para emergir, com verdadeira mestria, na luz.
    Encantamento absoluto!!!!!

  2. Este foi o primeiro conto destas antologias que eu li. Percebi três coisas:
    1 – Foi o conto que mais gostei (até mais que “A Dança dos Orkshas);
    2 – Percebi que independente da ordem que você lê, a história fará sentido, principalmente por que é uma história sobre indivíduos.
    3 – Estou viciado e quero muito mais.

  3. “— Eu entendi. Se eu esperar o pior, não importa o que aconteça na minha vida, eu vou viver uma vida ruim, de sofrimento e desespero. Mas se eu acreditar que tudo vai ficar bem, então não importa como acaba, porque eu vou ter vivido uma vida melhor apenas por acreditar no melhor.— Essa é a escolha. Viver com medo ou coragem, ódio ou compaixão, desejo ou propósito. Tristeza ou amor.”
    Ou seja, o comando de nossas vidas, é nosso. E também os sonhos são arquitetados por nós. Numa maneira muito simplista de resumir seu conto.
    Marcello, fico muito impressionada com a riqueza de detalhes. Fico imaginando como você, além de criar o roteiro de uma nova história, cria também os cenários, as roupagens, os diálogos, toda a produção sem se perder no labirinto de sua imaginação.
    Ainda vou reler Morserus, (bem como os dois contos que li) mas minha primeira impressão é de que é uma grande metáfora.
    Parabéns, meu amigo, espero poder aprender muitas coisas com suas histórias e com sua maneira de contá-las. Um abraço

  4. Reflexão maravilhosa. Enfrentar os medos, compreender o que nos prende e escolher o melhor.

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