O Enigma da Vida

O Enigma da Vida

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Meu nome e Zemial, eu sou um Gato albino da próspera nação de Troferus, tenho quarenta e um anos e hoje é meu último dia de uma longa e infeliz vida.

Eu sonho com meu fim faz muito tempo, tinha seis anos quando a ideia me ocorreu pela primeira vez. Quando você é jovem, mesmo numa infância infeliz, você adia morrer, porque uma parte sua acredita que tudo pode mudar, que de alguma forma a felicidade vai te encontrar. Aí os anos passam, e nada muda, nada nunca muda. Porém, como você já esperou tantos anos, por que não esperar mais alguns? Em um piscar de olhos décadas se passaram. Você se acostuma com o vazio dentro do peito, mas o vazio pesa, e a cada ano seu peso aumenta; chega uma hora que você não tem mais forças para carregá-lo. Se acabam as desculpas, o vazio esmagou todas elas junto com toda a sua vida. Nessa hora, você finalmente percebe que chegou a sua hora de parar de lutar, chegou a hora de se render, chegou a hora de morrer.

No entanto, a vida é cheia de ironias sádicas, uma dor de estômago revelou algo, que no início eu pensei ser um tumor, mas que na verdade era um pesadelo que eu tive em minha infância. Minha mãe tentou me matar faz muitos anos, eu achei que ela tinha falhado, agora eu percebo que ela me matou naquele dia, eu só não sabia. Meu sonho naquele dia não foi apenas um sonho. Eu não imaginei comer uma vespa, eu não estou imaginando elas crescerem dentro de mim.

No início você ignora, por ser um pesadelo, por ser algo impossível, porém todos os pesadelos têm raízes em algo real. Com seis anos meu pai morreu, com seis anos minha mãe me abandonou num orfanato; quando eu fiz onze ela voltou, não para me tirar de lá, ela voltou para me matar. Ela me levou para o banheiro e me afogou na banheira. Sabe qual a pior parte disso tudo? Eu não morri. Eu acordei com ela morta no meu lugar, com uma seringa enfiada em seu braço. Ela tinha levado um estojo com duas seringas, uma com um líquido negro que ela injetou em mim, a outra tinha um líquido transparente, essa ela usou nela mesma. As duas eram veneno, e as duas matavam, mas a negra demorou mais, muito mais.

Na época, a explicação era simples em minha mente, eu não merecia ser amado, minha mãe me odiava por isso, por eu ser algo de ruim, algo que apenas eu e ela víamos. Ela tentou apenas me abandonar depois que meu pai se foi. De algum modo isso não foi o suficiente, ela não suportou saber que eu continuava vivo, então decidiu ter o prazer de me ver morrer; depois ela matou a si própria para escapar do julgamento da sociedade.

O problema dessa estória estava nos detalhes, por que tentar me afogar se o plano era me envenenar? Por que me contar uma estória sobre um jardim negro? Por que eu ainda tenho pesadelos com esse jardim? Por que eu acho que as vespas negras do meu sonho estão crescendo dentro de mim? Nada faz sentido, até você procurar por um, e aí você encontra uma pista aqui, uma evidência ali, e de repente as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar.

Minha mãe trabalhou para um Casa Mercante que buscava encontrar o segredo de outra Casa Mercante que vendia o líquido negro que ela usou em mim, eles chamam esse veneno de Sangue Negro, é uma droga que causa insanidade e prolonga a vida, muitos acreditam que se você morrer com ela em suas veias, você vai encontrar a vida eterna.

Existe um fundo de verdade nessa estória, é difícil de imaginar, mas existem insetos que acreditam estar vivos, insetos parasitas de mentes; na Academia eles são classificados como exspes. Muitos acreditam que eles são deuses, mas eles são apenas insetos que se alimentam da ignorância de indivíduos como minha mãe. Esse Sangue Negro não é mágica, e como o parasita se multiplica, sim, nesse exato momento existem ovos de vespas prestes a se romper dentro de mim, quando isso acontecer eu morro, e cada vespa que sair de mim vai buscar um novo hospedeiro.

Eles vão espalhar minha dor pelo mundo.

Eu comprei essa cabana no meio do nada para poder morrer em paz… O problema com o suicídio é que pessoas vão tentar te salvar, como a diretora do orfanato, que me tirou da banheira e respirou uma ingrata vida de volta em minha boca. Essa outra verdade que apenas eu sei, ninguém salva ninguém, eu vivi por trinta anos depois de ter sido ‘salvo’, eu lutei todos os dias, lutei para me vestir, lutei para tomar banho, lutei para trabalhar, mas, acima de tudo, eu lutei para fingir que eu não era um Gato quebrado, porém eu sou, sempre fui, e se alguém merece morrer, esse alguém sou eu!

Na minha mesa de cabeceira eu tenho meu frasco com veneno, ao meu redor eu tenho as janelas fechadas, que me dão a escuridão companheira. Eu não tenho que arrumar a bagunça desse quarto, eu não tenho que sair mais dele, e só de pensar que eu finalmente vou parar de tentar já me me sento melhor. A morte não é nossa inimiga, a morte é a nossa única aliada, nossa única escapatória dos terrores da vida. Mas antes de morrer eu tenho uma pergunta que me atormenta, que me atormentou durante os últimos trinta anos. Quando eu estudei sobre os exspes descobri um em particular que me fascinou, eu tenho ele aqui, em minhas mãos, numa jarra de vidro. Parece ser apenas uma lacraia nas cores de vermelho e negro, porém ele é muito mais que apenas um inseto; ele rouba das mentes de seus hospedeiros seus segredos, colocando em troca um segredo de outro em seu lugar. Eles chamam esse inseto de Mercador de Segredos, e ele vai me ajudar a resolver um grande dilema, algo que desesperadamente preciso para poder morrer em paz.

Abrindo o jarro eu vi a pequena lacraia de vermelho e preto voar, voar sem asas, se aproximando do meu rosto, rastejando sobre o meu queixo; mesmo enojado eu permiti que a lacraia entrasse dentro de minha narina esquerda, o parasita tinha um propósito para mim, e eu um para ele.

O inseto subiu dentro de mim, eu senti sua picada, que me fez lacrimejar, depois eu não senti mais nada, mas eu sabia que o parasita estava criando ligações com minha mente, em breve eu dormiria e sonharia com o mundo do inseto mercador.

Porém, nada aconteceu, o sono não veio, e mais uma vez em minha vida eu descobria a decepção, meu plano brilhante de descobrir algo sobre minha mãe tinha falhado, assim como tudo na minha vida. Eu poderia voltar para Capital e confrontar o Bode que me vendeu o inseto mágico, contudo, eu não tinha mais tempo, eu podia sentir as vespas em meu estômago querendo nascer; se isso acontecesse comigo numa cidade, outros seriam contaminados. Não, meus erros morreriam comigo e mais ninguém.

Eu peguei o frasco de veneno, decepcionado que eu morreria sem ter as respostas que eu tanto queria, contudo eu morreria e todo meu sofrimento terminaria aqui e agora. Terminaria para sempre! Eu levaria comigo o que quer que seja que crescia dentro de mim. Morreria sem dor, sem nunca ter que descobrir o que as vespas fariam com meu corpo depois de nascerem. Isso teria que ser o suficiente.

Sem medo, eu coloquei o frasco em minha boca e tentei beber do líquido, mas não havia líquido nenhum no frasco. Isso era impossível, eu sabia… O frasco estava cheio quando eu o coloquei na mesa. A não ser, é claro…

Eu olhei para a porta do meu quarto escuro, a mesma porta, havia luz entrando pelas frestas; meu quarto dava para a sala, que deveria estar escura como o resto da minha cabana, pois era noite do lado de fora.

Será que era possível? Eu pensei enquanto me vestia, será que eu já estava sonhando? Não podia ser, eu ainda estava acordado, e eu podia sentir o cheiro de poeira do quarto, eu podia sentir meu peso, minha calça estava um pouco folgada, nada disso você percebe em sonhos. Mesmo assim eu fui até a porta do meu quarto, e quando a abri, encontrei o saguão de um hotel me esperando do outro lado.

xXx

No final do saguão, atrás de um balcão de recepção, eu avistei uma fêmea vestida dos pés a cabeça em uma burca vermelha e preta.

– Bem-vindo ao Hotel de Segredos, Zemial. Como eu posso servi-lo? – ela falou.

O hotel a minha volta era majestoso, eu já tinha visto pinturas desse hotel, conhecia sua história… Era um hotel que tinha sido construído numa das cidades fortalezas de Gaul, a nação dos Gorilas, o curioso é que esse hotel em particular tinha sido destruído a mais de duzentos anos, ele não existia mais; contudo, aqui eu estava, aqui estava o hotel, e aqui estava ela, uma lacraia na forma de uma recepcionista, esperando para me servir.

Eu toquei na madeira, podia sentir até o verniz recentemente aplicado.

– E inacreditável! – eu falei, impressionado.

– Sim, todos os nossos hóspedes apreciam nossa decoração tradicional e nossos preços altos, porém justos.

– Você sabe que você não é real?

– Sim, eu sei. Eu sei muitos segredos, entre eles que nada é real, tudo é um sonho.

– Não, isso não é verdade. Eu sou real. Sou um Gato de Troferos, vivo num mundo de verdade chamado Morserus. Você que não existe! Você fala como eu, mas você não é como eu, é apenas um inseto, um parasita que rouba a memória de seres reais e constrói com elas um sonho lúcido na forma deste hotel. Você não é uma Gorila vestindo uma burca, você é um inseto que eu coloquei dentro da minha mente. Nos livros da Academia eles chamam os insetos que acreditam ter consciência de exspes.

– Qual a diferença entre acreditar ter uma consciência e ter uma consciência?

Eu não sei porque a pergunta me irritou. Era uma pergunta estúpida, mesmo assim eu não iria admitir que eu não sabia a resposta.

– O corpo que você está usando pertence a uma Gorila que matou o dono desse hotel, ela era uma escrava, mas pouco se sabe do verdadeiro motivo que a levou a matar o seu mestre, o que se sabe e que ela escondeu seu corpo dentro de um dos quartos e depois queimou o hotel quando o cheiro do cadáver começou a atrair a suspeita dos hóspedes.

– Essa é minha primeira lembrança, ela implorou para esquecer seu segredo, esquecer o que tinha dentro do quarto de número 3. Eu atendi seu pedido, fiquei com o seu segredo, fiquei com seu hotel e com sua vida. Mas eu não roubei nada, tudo me foi dado de livre e espontânea vontade; o mesmo com você, Zemial, seja meu hóspede apenas se quiser e achar justo o preço de um dos meus quartos.

Eu olhei para sua burca, o tecido era leve, e eu quase podia ver o corpo escondido por trás; sua voz era suave, seus movimentos sutis. Que me importava se ela era real ou não, eu tinha vindo aqui em busca de algo.

– Quantos andares você tem aqui hoje?

– Temos quase trinta mil andares.

Eu sabia o que isso significava, não existia nenhum hotel, eu estava na minha cama, dormindo, e a lacraia estava ligada à minha mente, ligada a outras lacraias da mesma espécie através da biosfera negra; ninguém sabia ainda exatamente como era feita essa ligação, mas em pelo menos dois estudos foi comprovado que cada novo hospedeiro criava a ilusão de um novo andar em todos os demais parasitas. Mesmo que você matasse um parasita, seu conhecimento se mantinha estável. O que um sabia, todos sabiam. Em essência, todas as lacraias acreditavam ser um único ser.

Ao escolher um quarto, meus segredos irão existir para sempre como um novo andar nesse hotel.

– Gostaria de saber se você tem os segredos de minha mãe.

A fêmea abriu um livro tão grande que uma pessoa apenas não conseguiria carregar, ela foleou algumas páginas e levantou o rosto.

– Eu sinto muito, Zemial, sua mãe nunca se hospedou conosco.

Eu já tinha imaginado que ela poderia não estar aqui, que minhas perguntas morreriam comigo, mas eu tinha ao menos que tentar saber a verdade.

– Cada quarto em nosso hotel é um segredo – a fêmea falou, parecendo ler minha mente –, contudo, vários andares possuem em seus corredores os mesmos quartos, com os mesmos segredos.

Como eu era burro, era óbvio que segredos são compartilhados, se minha mãe falou o que eu quero saber para o meu Pai, ou para uma amiga, e se essa pessoa tiver tido contato com o parasita, eu ainda poderia encontrar o segredo dela no andar deles. São muitos ‘se isso’ ou ‘se aquilo’, porém eu não tinha nada a perder em tentar.

– Meu pai, você tem o andar dele aqui?

– Não, por que você não me diz o segredo que procura, eu posso verificar se ele se encontra em nosso hotel.

Eu não queria dizer, eu tinha vergonha de admitir, mas ela não era real; não existia ninguém na minha frente, a recepcionista era apenas uma lacraia, nada mais.

– Eu quero saber o motivo de minha mãe nunca ter me amado.

A recepcionista apenas olhou no seu livro.

– Sim nós temos esse quarto – ela se afastou e voltou com uma caixa de madeira escura, marcados na madeira eu podia ler um nome, era o meu. Ela abriu a caixa e dentro dela eu pude ver várias chaves, todas com etiquetas com palavras e números. Ela me entregou uma das chaves.

Eu li a etiqueta, estava escrito, ‘por que a mãe de Zemial nunca o amou? Quarto Z-11.’ Era difícil de acreditar que a coisa que eu mais quis saber em toda minha vida se encontrava em minhas mãos, mas agora que tinha uma resposta, eu me descobri ainda tendo outras perguntas.

– Como é possível esse segredo estar numa caixa com o meu nome?

– No momento em que você entrou no hotel seu andar foi construído, junto com o seu andar nós temos todos os quartos de seus segredos.

– Por que, em nome do abismo, eu iria perguntar algo para o qual eu já sei a resposta?

– Por que nem todos guardam segredos apenas dos outros, alguns guardam segredos de si próprios. Segredos inconfessáveis até para si mesmo.

– Então eu sei a resposta que eu procuro, eu apenas não quero admitir que sei?

A recepcionista acenou com a cabeça, eu coloquei minha mão sobre o balcão e peguei minha caixa com as outras chaves. Ela não resistiu, apenas esperou enquanto eu examinava cada chave, e lia cada etiqueta.

‘Por que meu pai teve que morrer? Quarto Z-01’

‘Por que todos me odeiam? Quarto Z-02’

‘Por que eu nunca subi acima do nível 4 na Academia? Quarto Z-03’

‘Por que eu me odeio? Quarto Z-04’

‘Por que eu me corto? Quarto Z-14’

– Eu não tenho a resposta para essas perguntas – eu falei quase gritando. – Você não tem como me responder nada disso.

– Só existe uma maneira de descobrir, escolha uma chave.

– Não, eu quero todas, se essas são as verdades que eu escondo de mim mesmo, eu quero saber tudo. Eu quero todas as chaves.

– Infelizmente isso não é possível, você escolhe uma chave, descobre um segredo, em troca o hotel fica com o seu andar, e com todos os quartos e chaves restantes. Quando você acordar, seus segredos deixados aqui estarão para sempre além de suas lembranças. Seus segredos não serão mais seus, serão quartos neste hotel.

– Um segredo por treze, isso não me parece ser nada justo.

– Temos quase trinta mil hóspedes satisfeitos.

Ela não mentia, porém omitia o óbvio: ninguém tem como reclamar de perder algo que não sabe que perdeu. Ninguém na Academia sabia que esse era o custo, todos sempre suspeitavam que o parasita tirava algo da mente ao mesmo tempo que colocava algo de volta, muitos suspeitavam que, como o nome do parasita dizia, o mercador de segredos trocava segredos; porém, até hoje ninguém tinha certeza. E nunca teriam, eu mesmo vou esquecer dessa parte quando acordar.

– Muito bem, eu quero alugar um quarto.

– Escolha sua chave e pegue o elevador.

Eu peguei a chave que eu queria, ‘por que minha mãe nunca me amou. Quarto Z-11’. Eu coloquei as outras chaves de volta, no entanto, antes que eu pudesse entregar a caixa a recepcionista, eu vi uma outra chave, uma que ainda não tinha lido.

‘O Enigma da Vida. Quarto Z-13’

Eu segurei essa chave junto com a outra que seria a minha escolha. A recepcionista pegou sua caixa de madeira e estendeu o braço para mim.

– Escolha uma, me dê a outra.

– Está escrito o enigma da vida, o que isso quer dizer?

– Quer dizer que você sabe o enigma da vida, mas esconde o conhecimento de si próprio.

– Não é possível, ninguém sabe o enigma da vida!

A recepcionista volta para seu livro enorme.

 – Não é verdade, temos esse quarto repetido em nosso hotel quinhentas e quatorze vezes.

– Quinhentas e quatorze pessoas sabem o significado da vida, e eu sou uma delas?

– Não, quinhentas e quatorze pessoas guardam o segredo do enigma da vida, eu não tenho como saber quantas pessoas sabem desse conhecimento abertamente.

Eu não sabia o que fazer, eu não sabia o que pensar, eu não apenas sabia a resposta que procurei por toda a minha vida, como também, teoricamente, sabia o significado da vida, algo que nunca realmente me interessou. Não até agora, não até o momento no qual eu tenho que escolher qual segredo eu trago para o meu consciente e qual segredo eu perderia para sempre.

– Você já fez a sua escolha, Zemial.

Era uma afirmação, e não uma pergunta; mas sim, ela estava certa, eu não tinha uma escolha, uma das chaves tinha um poder maior sobre mim, eu devolvi a chave com o segredo que seria para sempre um segredo e me dirigi ao elevador com a outra.

No luxuoso elevador eu me dei conta que não existiam elevadores a duzentos anos atrás, também não existem hotéis com trinta mil andares, o que quer que fosse esse lugar, ele era feito com elementos adquiridos de milhares de mentes, eu agora faria parte desse lugar bizarro.

Virei a alavanca e o elevador subiu.

Os andares passavam numa velocidade impossível, mesmo assim eu não sentia nada, e quando o elevador parou subitamente, eu continuei a não sentir nenhum movimento.

Quando a porta se abriu eu vi uma placa com meu nome, ao lado direito um longo corredor com quatorze portas, eu passei por cada uma até chegar a porta com o número de Z-11. Parei e pensei no que estaria escondido dentro desse quarto, eu me atormentei uma vida inteira pensando no porquê de minha mãe nunca ter me amado. Por que ela tinha decidido me abandonar? Como ela justificou voltar e me matar? Eu sempre achei que a resposta estava na razão dela não poder ou querer me amar, teria eu feito algo para merecer a ausência desse amor, ou teria algo acontecido com ela para justificar seu ódio e ressentimento por mim?

Mas se a resposta sempre esteve dentro de mim, isso quer dizer que eu sei e não quero saber, talvez fosse melhor continuar assim.

Eu me despedi de sua porta e andei o corredor até chegar à penúltima porta, Z-13.

– O enigma da vida – eu coloquei a chave e girei. – Vejamos o que me espera…

xXx

O quarto não era um quarto, e sim uma grande varanda circular, com uma mesa redonda com uma bancada de vidro. Sentado à mesa, um Cão. Não qualquer Cão, um que eu conhecia, um que deveria ter sido meu primeiro e único amigo, um que me ensinaria a esperança, que me mostraria que a vida faz sentido. Um que morreu esfaqueado demonstrando exatamente o oposto. Eu sempre quis saber o que ele pensou enquanto morria, se ele estava surpreso que seus sonhos eram apenas ilusões.

– Olá Zemial, eu senti a sua falta – o Cão falou com um sorriso calmo.

Sem responder eu fui até a bancada da varanda, era um lindo dia de luz sem sol, nuvens brancas em toda a minha volta, o céu era azul, e não amarelo; mas num sonho o céu pode ter qualquer cor. Eu não via mais o hotel, a porta pela qual eu tinha entrado não estava mais aqui, a varanda não estava presa a nada, nem mesmo ao chão, ela flutuava entre as nuvens, uma brisa suave acariciava meu rosto; porém, na paz imaculada dessa belíssima vista, tudo que eu podia pensar era o que aconteceria se eu pulasse da bancada.

– Você acorda se pular – o Cão respondeu, aparentemente lendo meus pensamentos.

– Quem é você? – eu perguntei me virando para ele. – Ou melhor, o que é você?

– Eu sou o seu segredo, então imagino que, de alguma forma, eu sou você.

– Por que então não usar o meu rosto, e sim o de um Cão que eu conversei apenas uma vez?

– Você queria ter uma segunda chance de encontrá-lo, ele tentou te mostrar um novo ponto de vista; você queria acreditar nele, ainda quer.

– Ele estava errado, ele era um Cão estúpido.

Meu comentário não o abalou, ele apenas me olhava com afeto. Isso me fazia sentir raiva, não dele, e sim de mim. O estúpido era eu por estar tentando perguntar algo que eu poderia deduzir, tudo que ele falou era verdade, ele sabia de tudo que eu sabia, tudo que eu pensava ou sentia; ele não era apenas o meu segredo, ele era na verdade meu inconsciente falando comigo. Sem dúvida com ajuda do parasita que acredita ser um mercador de segredos.

– Muito bem, Zemial. Sim, eu sou a voz do seu inconsciente.

– Então, Hakien, eu não vejo porque não usar o nome do Cão que você está vestido. – eu me sentei a mesa, de frente para ele. – Me diga então, qual o enigma da vida?

– Todos somos um – ele falou como se isso tivesse algum significado.

– É isso? Esse é o enigma da vida? Eu tenho que admitir que estou profundamente decepcionado. Eu não tenho como mentir e dizer que achava que ouviria realmente o significado da vida, mas eu pelo menos esperava algo que tivesse a pretensão de um argumento intelectual que eu pudesse desconstruir.

– Então você admite que não escolheu esse quarto para aprender algo, e sim para desaprovar algo… Algo que já havia decidido não pode existir. Uma atitude apropriada para explicar como você pode escutar o enigma da vida, e não ouvir o seu significado.

– Agora esse já é um comentário mais interessante, me explique então por que eu decidi não querer entender?

– Sua consciência – o Cão fez uma pausa dramática, e eu rolei meus olhos. – Você tem uma inteligência que poucos possuem.

– Um elogio que teria maior peso se eu não estivesse falando comigo mesmo.

– Onde sobra inteligência, lhe falta coragem. Você escolheu ver o mundo como um lugar frio e cruel, você escolheu ser a vítima desse mundo, escolheu sofrer. No entanto, você não quer admitir a verdade de sua dor. Que você a criou, que você a alimentou, que você carregou ela ao seu lado por toda uma vida. Seu intelecto e sua lógica veem isso, os sinais, as inconsistências, esse conhecimento lhe apavora, só que em vez de enfrentar o seu medo, você se esconde dentro dele, você encobre sua consciência em sombras e esconde dentro das sombras todas as verdades que não correspondem à narrativa falsa e fatalista que você criou para si próprio.

– Eu quero sofrer, é isso que você está me dizendo? Eu escolhi perder meu pai com seis anos? Eu escolhi chorar no escuro porque eu sabia que minha mãe ia me abandonar? Eu escolhi ser abandonado também, eu escolhi o orfanato, eu escolhi não ter amigos, eu escolhi ver casais de mãos dadas, enquanto eu nasci para nunca ter ninguém do meu lado?!? É isso, seu desgraçado? É isso que eu escolhi para minha vida?

Eu senti as lágrimas de ódio correrem pelos meus olhos, eu sabia que era um sonho, mas minha vontade era estrangular o maldito Cão. Eu tinha enterrado tudo isso, e agora eu sentia todo o meu esgoto sentimental voltando a superfície.

– Você não escolheu os acontecimentos, você escolheu os sentimentos que esses acontecimentos despertaram. Sua raiva, por exemplo, seu sentimento de injustiça, é algo que você alimenta desde a sua infância, porém, você saberia me dizer a quem serve sua raiva?

– Como assim?

– Quantas vezes a raiva lhe serviu? Quantas vezes ela lhe deu paz? Quantas vezes esse sentimento lhe guiou para uma vida melhor? Quantas vezes ele resolveu os seus problemas?

– Eu não sinto raiva para resolver nada, eu sinto raiva porque a vida é injusta, as pessoas são injustas, e todos merecem minha raiva.

– Inclusive você?

– Não, é claro que não. Eu não mereço minha raiva.

– Mas você se odeia, Zemial, sempre se odiou. Você odeia todos com palavras, e a si mesmo com pensamentos. Você odeia a pessoa que você se tornou, odeia sua vida, odeia a Academia, odeia sua aparência, você acha que odeia o mundo, no entanto, seu ódio, como todo o ódio, é interno. Você sente primeiro contra si mesmo, e quando o sentimento trasborda, você sente contra todos os demais.

Era difícil manter a raiva com ele desconstruindo o sentimento, era difícil não concordar com ele, e quanto mais claro ficava que a resistência do meu raciocínio estava no sentimento de raiva que eu sentia, mais raiva eu sentia, isso me fazia me sentir ainda mais manipulado e estúpido.

Ele me entregou um lenço branco com bordados amarelos. Eu limpei meus olhos. Eu podia jogar esse jogo, eu não precisava de raiva para debater comigo mesmo. O Cão estava certo sobre uma coisa, a raiva nunca me serviu, mas o resto da premissa dele era totalmente falsa, todos não são um, cada qual é apenas si mesmo, todos somos indivíduos!

– Talvez a raiva não me ajude em nada – eu falei concedendo um pouco. – Mas eu não escolhi minha vida, com seis anos minha mãe me deixava sair sozinho de casa, eu não sabia que isso era errado; na minha inocência eu via sua indiferença como sua forma de amar, isso foi antes de eu aprender a odiar ela – eu fingi limpar minhas lágrimas antigas com o lenço, porém eu apenas secava as novas que tentavam escapar. – Cedo ou tarde, toda inocência morre. Para mim foi cedo, antes do meu pai morrer, uma semana antes para ser exato, eu caminhava sozinho e encontrei uma menina da minha idade, apenas ela não estava sozinha como eu, ela estava de mãos dadas com sua mãe, eu não sei por quê, mas eu as segui durante toda uma tarde… Eu assisti a mãe da garota amarar seu sapato, lhe comprar flores, fazer caretas para ela rir, quando ela abraçou a filha sem motivos, quando beijou sua testa, eu não aguentei mais assistir as duas, voltei para casa chorando. Eu chorei em minha cama até dormir, quando acordei todo meu mundo tinha mudado, minha inocência tinha se perdido, em seu lugar eu encontrei o ressentimento. Depois meu pai morreu, minha mãe me abandonou, eu cresci sozinho num orfanato, o ressentimento e o ódio foram minha única companhia. Todos não somos um, porque alguns têm tudo enquanto outros não têm nada.

Eu lhe devolvi o lenço, eu não precisava mais dele, meus anos de raiva tinham há muito tempo dado lugar a um sentimento ainda mais poderoso, o torpor da indiferença e apatia. Eu estava cansado de odiar o mundo. Numa coisa eu concordava com o Cão, o ódio nunca me serviu, ele me manteve vivo, porém nunca me deu uma vida digna de ser mantida.

– Toda a vida é digna de ser mantida, você está a um passo da verdade. No entanto, primeiro você tem que estar disposto a admitir que sua realidade não cria o seu estado mental, e sim que seu estado mental cria sua realidade.

Eu ri, eu não ria há anos… Não tinha como não rir, quem diria que o enigma da vida não eram os clichês que os guias espirituais vendiam aos pobres de intelecto, mas ricos em moedas? As mentiras são sempre as mesmas: se ame, ame ao próximo, perdoe o próximo, perdoe a si mesmo… Essa era a base da filosofia esotérica de baboseiras, só o tempero que mudava. Uns pregavam reencarnação, outros espíritos guias, outros falavam de amosdomus, a cidade do amor. O jeito mais fácil de convencer o outro e lhe vender uma ideia na qual ele apenas tenha o benefício ao acreditar. Medo de morrer, compre vida eterna; medo de adoecer, compre proteção divina; triste com a morte de um filho, compre um recado onde ele diz que tudo está bem, que ele está feliz do outro lado, esperando o reencontro. Eu tenho que rir, por que dentro de mim, de alguma forma, eu alimento os mesmos anseios, eu que sempre me achei superior aos ignorantes felizes, mas me encontro em meu inconsciente desejando ser um deles.

– Meias verdades não são nem mentiras nem verdades – o Cão me falou sem vacilar em seu sorriso. – Você vê os dois, Zemial, contudo, você escolhe dizer que apenas a mentira está presente em ideias que são tão antigas quanto o mundo de Morserus. Ideias que sobrevivem séculos são ideias imortais, que nascem de dentro de cada um, demostrando que existe um elo entre todos, esse elo revela que todos formam o um.

– Eu agora sei quem você é – eu falei com um sorriso de triunfo.  – O jogo acabou e eu ganhei. Você é a minha inveja do mundo que eu escolhi não participar. Sim, eu poderia ser feliz na mentira, eu poderia fingir que eu não fui injustiçado, eu poderia fingir que existe uma força maior que me ama, que cuida de mim, eu poderia fingir que sou imortal, mas eu fiz a minha escolha; eu escolhi viver na realidade da dor, ao invés da mentira da alegria.

– Novamente você fala apenas uma meia verdade.

– Não existe meia verdade, é tudo uma grande mentira! Você é uma grande mentira! Você é meu medo, minha inveja, você é a parte de mim que quer fingir que o mundo tem algum propósito, você quer me vender esperança… No entanto, eu sei que esperança é uma mentira, esperança não vai mudar a minha vida! Fingir que minha vida não foi um grande desperdício não vai mudar o desperdício, só vai aumentar ele; eu, pelo menos, tenho a integridade de ser honesto. Eu quero morrer com essa integridade, o mundo real não está dentro da minha mente, o mundo real está do lado de fora; minha mente não muda a realidade, minha mente apenas tem o poder de me fazer cego a essa realidade. Eu não quero ser um cego que finge ser feliz.

– Por que você escolheu esse quarto? – o Cão perguntou. – Por que alguém que não acredita em significado teria escolhido saber o enigma da vida?

– Você sabe o porquê.

 – Eu sei que você não sabe, mas você não sabe disso.

A pior parte de debater com um idiota, como eu estava debatendo agora, era saber que o idiota, sendo meu inconsciente, era, portanto, eu.

– Foi estupidez, só isso. Eu sempre fui um curioso idiota.

– Sim, mas todas as portas nesse andar respondem a perguntas das quais você sempre quis a resposta, durante anos você se atormentou por não saber porque sua mãe nunca o amou, você nunca pensou mais de um minuto no enigma da vida, não lhe parece estranho e contraditória sua escolha?

Pior que debater com um idiota que é você, é perder o debate para o idiota.

– Me pareceu ser mais importante.

– Por quê?

Por que se eu encontrasse um significado para a vida, talvez eu encontrasse uma razão para viver. Eu não falei, apenas pensei, e isso era o suficiente para o maldito Cão; seu sorriso ainda era de afeto, porém eu sentia como se ele risse de mim, como se eu finalmente tivesse admitido que nunca deixei de ser o órfão em busca de uma mãe.

– Você está a um passo, Zemial, admita a possibilidade de existir uma possibilidade, e ela vai se manifestar dentro de você e tudo será revelado.

As nuvens brancas ficaram escuras, e raios e trovões macularam o céu azul com sua inapropriada presença.

– Por que o tempo mudou? – eu perguntei, já sabendo a resposta.

– Não importa – o Cão falou, me olhando com compaixão.

– Eu estou morrendo?

Ele acenou que sim.

– Eu carreguei um frasco com veneno por mais de quinze anos, me parece um desperdício que eu vá morrer antes de beber de seu doce veneno.

– Todos somos um, Zemial… Ninguém morre.

– Você fala como se isso fosse uma coisa boa. A morte nunca foi minha inimiga, a dor e o sofrimento foram meus inimigos, sempre ao meu lado, sempre me levando para as profundezas da melancolia… meu conforto sempre foi saber que eu poderia beber da morte e me libertar.

– Seu corpo morre, mas sua consciência é imortal, ela habita o seu corpo agora, sem ela você não seria Zemial, o Gato de Troferus, sem ela você seria apenas um animal.

– A última coisa que eu quero é viver para sempre! Eu estou cansado, eu estou pronto.

Eu me levantei, a porta do quarto tinha retornado, tudo que eu tinha que fazer era caminhar até ela, eu não precisava saber mais nada. O que eu sempre quis, era o fim da minha dor, esse fim próximo.

A tempestade aumentava, ventos fortes derrubavam os vasos de flores que decoravam o local. Eu olhei para o Cão, esperando que ele protestasse, esperando que ele me impedisse de ir, porém o Cão apenas sorria, ele parecia estar em outro lugar, um lugar onde não existia a minha tempestade.

Eu não consegui dar nem mais um passo em direção a porta, me ocorreu que ainda queria saber o enigma da vida, me ocorreu que eu não tinha dado nenhuma chance ao Cão, que eu tinha falado e contestado, mas que em nenhum momento eu tentei ouvir o que ele tinha a me dizer. Eu peguei a cadeira que tinha caído ao chão e me sentei de volta a mesa.

– Muito bem então, me diga qual o enigma da vida.

– Todos somos um.

– Você já me disse isso. Isso não é o suficiente… isso não muda nada, não explica nada.

– Logo no seu primeiro dia na Academia, enquanto os outros alunos conversavam entre si e se conheciam, você se afastou e foi passear, você subiu um dos níveis da torre e encontrou um salão com uma esfera armilar feita de cobre. Nela você viu a constelação de Morserus. Você já sabia que seu mundo girava em torno do sol, mas nunca tinha realmente entendido o significado desse conhecimento até ver a enorme esfera. Como que era possível, você estar vivo numa esfera de areia e pedra, que girava ao redor de uma imensurável bola de fogo que nunca apagava e brilhava e dava vida a tudo e todos?

– Qual o seu argumento?

– Como você acha que a esfera armilar foi concebida?

– Ciência, lógica e estudos. Tudo que você não tem para me oferecer, seu argumento apenas mostra a insustentabilidade da sua teoria. Eu estudei muito sobre a esfera armilar, sei tudo sobre ela! No início de nossa civilização, antes mesmo dos Gatos terem uma nação, nossos filósofos acreditavam no geocentrismo, que colocava nosso mundo no centro de tudo; porém, ironicamente, foram os Porcos que argumentaram pela primeira vez sobre a possibilidade do heliocentrismo, colocando nosso mundo girando em torno do sol. Como prêmio por sua teoria, Erik, o Bondoso, mandou que esses sábios fossem queimados vivos, amarados numa corrente ligada a um pilar de ferro fincado no meio de uma grande fogueira; animais selvagens foram soltos, e ao tentar correr das feras, a corrente girava o pilar puxando os estudiosos para as chamas. Contudo, alguns desenhos e cálculos matemáticos sobreviveram, é mais fácil matar pessoas que ideias. Quando a Academia foi fundada, um jovem Gato chamado Corper criou a primeira esfera armilar e propôs a teoria de Corper, anos depois sua teoria foi comprovada num teorema e depois aprimorada; hoje, graças a ela, podemos prever a órbita de nossas duas luas, e até mesmo calcular a distância das outras esferas planetárias.

– Foi isso que você percebeu naquele dia e escondeu aqui nesse quarto, você notou que primeiro nasciam as ideias, vindas de sonhos, que essas brotavam como sementes nas mentes de alguns, e eram ignoradas por completo na mente de outros. Você pensou de onde viriam as ideias, como que era possível todo esse conhecimento sempre estar ao nosso alcance, como esse conhecimento sempre crescia da semente de uma ideia para a árvore do saber e para os frutos materiais que radicalmente alteravam o mundo físico… Como que nenhum ser tinha o conhecimento do todo, mas quando juntos, de alguma forma, esse conhecimento se sustentava e vivia a nossa volta, na forma de livros, de escolas, de Academias… Alguns acham que as ideias são inventadas por gênios, mas você observou algo diferente, que o conhecimento é maior que todos, que quando ele queria nascer, não importava quem você matasse, a ideia ressurgia, se espalhava, era guardada, ensinada, que temos mais conhecimento que qualquer mortal seria capaz de entender ou consumir. Você se perguntou de onde vinha todo esse conhecimento, porém as sombras de sua mente esconderam a conclusão, que seria óbvia.

– Você está falando sobre um inconsciente coletivo.

– Não sou eu que estou falando. O segredo é seu.

– Se esse poder existisse, nosso mundo seria outro. Como você acomoda o sofrimento de crianças num mundo onde todos somos um único deus?

– Sombras. Na ignorância de sua identidade nasce todo o seu sofrimento, o mesmo acontece com o mundo, ao ignorar que todos são um, o mundo compete entre si, numa busca fútil de soberania sobre si mesmo.

– Eu não tenho nenhuma sombra dentro de mim. Não existe nada dentro de mim que não seja minha consciência e minha tristeza.

– Suas tristezas, seus rancores, seus medos, seus desejos, estão a serviço do ego, do animal. Não existe paz na companhia desses sentimentos, sem paz não existe objetividade intelectual. Mesmo assim, mesmo isso sendo óbvio, você alimenta essa escuridão, você permite que esses ecos calem a voz do seu verdadeiro ser.

– Por que você não para de falar em platitudes e me oferece um exemplo que comprove os absurdos que você me fala?

– Muito bem, você se diz um realista, mas quantas vezes você observou o lado bom das coisas, e quantas vezes você observou apenas o pior, o pior de cada situação, o pior de cada indivíduo, o pior de cada momento do seu passado?

– O lado bom em quê? Quando? Eu perdi meu pai, fui abandonado pela minha mãe, cresci sem amigos, conquistei absolutamente nada em minha vida, e estou aqui, morrendo, enquanto desperdiço meus últimos momentos falando comigo mesmo sobre os misticismos que apenas aparecem nas mentes dos inteligentes no momento em que contemplam sua mortalidade. Será que você não entende, eu estou com medo de morrer, e você é esse medo! Só isso. Não existe verdade maior que vai me proteger de porcaria nenhuma, ou você me convence, e eu me torno mais um débil mental que acredita na conveniência de sua ignorância; ou eu me mantenho atado ao princípio do meu intelecto e morro sozinho, sem nunca ter conhecido o amor, sem nunca ter tido nada que não fosse a espera de algo que nuca veio.

– Ou você perde, ou você perde.

– Sim, você finalmente entendeu.

– Me diga, então, quantas vezes você conheceu a fome? Quantas vezes nesse mundo cruel lhe faltou abrigo, lhe faltou conforto, lhe faltou oportunidades? Como que num mundo cruel, uma criança, sozinha, sobreviveu para se tornar um animista que viajou o mundo, que mesmo sofrendo ajudou tantos com seu dom. Como é possível, Zemial?

Eu não sabia o que dizer… Eu nunca tinha pensado nisso, e mesmo agora, enquanto minha mente procurava uma explicação, nada me vinha a mente; era como tentar pensar numa cor que não existe. Eu não tinha uma resposta, mas mesmo assim eu respondi.

– Eu tive sorte, só isso – eu falei, tentando acreditar mais que convencer. – Mas mesmo que eu possa dizer que nada me faltou, não quer dizer que não faltou para outros. Outros sofrem mais que eu, sem dúvida. Se meu sofrimento não é o suficiente para provar meu argumento, então tudo que você deve fazer é observar o mundo.

– Quantas vezes, além de agora, você pensou em si próprio como um afortunado?

– Nunca – eu falei sobre o som de trovões.

– Um realista não é aquele que vê apenas o ruim de sua vida, uma realista veria os dois lados. Quando apenas um lado existe em sua mente, sua percepção está sendo filtrada, suas mentiras, Zemial, não são construídas com as coisas que você percebe, e sim em todas que você ignora existir, quando a verdade é apenas a pior verdade, então você não está observando um mundo ruim, você está criando esse mundo ruim dentro de você.

– Eu não sofri o suficiente para poder ser tão infeliz, não é isso quer você quer me dizer? Eu tive saúde, eu tive educação, eu nasci um Gato numa nação rica e próspera, eu nunca conheci a fome, nunca tive que fazer um trabalho escravo… Mesmo assim eu sou infeliz, mesmo assim eu escolho ver um mundo sujo e cruel, é isso que você acha? Que eu quero me sentir assim? – um raio acertou um dos pilares da varanda, despedaçando a madeira e deformando o teto; eu não me importei, tudo que me importava era terminar meu discurso. – Eu não era um órfão quando minha mãe me colocou no orfanato, ela estava viva, as outras crianças pertenciam àquele lugar, eu não. Eu tinha uma mãe, uma que não me queria, uma que voltou um dia para me matar. Ela podia ter me salvado, e mesmo depois que ela morreu, qualquer pessoa poderia ter ido me salvar, porém ninguém veio; eles vinham para as outras crianças, mas ninguém nunca veio para mim. Eu não pedi para nascer, eu nunca fiz nada para merecer o sofrimento que eu carrego. Nada. Eu nunca fiz mal a ninguém.

O Cão esticou seus braços através da mesa e pegou na minha mão; ele me olhou nos olhos, eu queria desviar meu olhar, mas ele permaneceu calado até que eu o olhasse de volta. Eu, relutantemente, olhei.

– Você faz mal a um.

– Quem? – eu perguntei já temendo sua resposta.

– A si próprio.

Eu puxei minhas mãos.

– Você mente – eu falei tentando mostrar convicção.

– Você carrega consigo um frasco de veneno, mas nunca bebe. Você diz odiar as pessoas, mas sofre por estar sozinho. Você diz que odeia sua vida, mas nunca faz nada para mudar. Você fala com arrogância que o mundo é cego e estúpido, mas sozinho, no silêncio, você pensa em sua inferioridade. Você odeia a sua mãe, mas ainda espera por ela. Você quer ser amado, mas acredita que não merece nenhum amor – o Cão olhou para a tempestade. – Isso é você, Zemial, preso num mundo de contradições, travando uma batalha eterna contra si mesmo.

Eu deveria ter ido embora, não podia ter deixado ele me falar isso. Eu não tinha como explicar nada disso, eu não tenho como contra-argumentar a inconsistência da minha vida. Quem diria que o enigma da vida era que eu destruí a minha vida, que eu tive em algum lugar uma chance, mas que fui estúpido demais para perceber?

– Você mente novamente – o Cão falou lendo meus pensamentos escuros. – Contudo, você mente com as palavras que as sombras de sua mente sussurram para você. Essa é sua batalha interna, Zemial, luz e trevas lutando por controle, mas suas sombras mentem, elas escondem de você a verdade.

– Eu desisto Hakien, me diga, então, qual a verdade?

– Todos somos um.

– Isso não significa nada.

– Você está sonhando, não está?

– Sim, estou.

– Quem sou eu, então?

O Cão não era o Cão que eu conheci, ele não era o inseto parasita, ele era eu, como todos os personagens de todos os sonhos sempre são nada mais que projeções daqueles que sonham.

– Em Caltos – eu comecei a falar –, os Cães acreditam que existe um sonhador adormecido, que sonha o mundo em que vivemos, e que todos nós somos esse deus. Os Bodes de Ogromna Gora acreditam que o amor é a luz do universo e que todos somos essa luz. Eu sempre achei essas crenças bonitas, no entanto, elas não explicam uma criança morrendo de fome, é fácil ser religioso quando você ignora o sofrimento alheio, quando não lhe falta nada, mas é impossível para aqueles que têm o mínimo de empatia e percepção das injustiças do mundo.

– Você possui imaginação, Zemial – o Cão afirmou.

– Eu acredito que sim – eu respondi.

– Imagine, então, reveja seu mundo perante a simples regra: todos somos um.

Eu não tinha mais tempo, a tempestade aumentava e eu tinha certeza que eu estava prestes a morrer. Eu então tentei ver pelos olhos do Cão como seria o mundo se toda consciência fosse apenas uma só, dividida em animais que as carregavam. Se uma criança passa fome, então essa criança sou eu, ela não merece passar fome, mas ao mesmo tempo eu sou os mercadores ricos que não se importam, eu sou os governantes que não se importam, eu sou cada pessoa que finge não ver a criança por não se importar. A criança então, que sou eu, paga pelo meu pecado de ignorar a mim mesmo quando eu mais precisava de ajuda.

– Eu sou o culpado – eu falei para o Cão. – Se todos somos um, eu sou o responsável por tudo de errado que existe no mundo, não existe deus que eu possa culpar, não existe outra pessoa que eu possa culpar… Sou eu, sempre fui eu, o responsável de tudo.

– Não existe malícia, apenas ignorância, uma vez que o mal que desejamos ao outro é o mal que praticamos a nós. Todos somos um.

Por essa ótica, tudo fazia e perdia o sentido, toda forma de competição se tornava uma grande tolice, eu me imaginei vivendo várias vidas, eu me imaginei vencendo na arena, matando outros dez; depois me imaginei sendo cada um dos que matei, eu me assisti morrendo em dez vidas para ganhar em apenas uma.

Todas as crianças que foram escolhidas no meu lugar, eu sempre senti inveja delas, mas pensando nelas como sendo parte de mim, eu descobri que era possível sentir outra coisa além de ressentimento e ódio, eu descobri que poderia ter ficado feliz por elas.

Inveja, ressentimento e ódio, mais que todos, esses eram os sentimentos que envenenaram toda a minha infância, como era possível eu não ter tido nenhum motivo para odiar alguém? Então, minha mãe…

– Não! – eu gritei com raiva. – Eu não sou a minha mãe, eu nunca faria o que ela fez!  Ela tinha que me amar, ela era minha mãe. Ela tinha que me amar, eu vi outras mães amando seus filhos, por que ela não era como elas? Ela é diferente, ela é uma pessoa ruim, sem amor. Ela não sou eu, eu nunca faria o que ela fez.

– O que ela fez, Zemial?

– Ela não me amou.

– E como você é diferente? A quem você ama?

– Chega do seu jogo de palavras, chega das suas ilusões, eu não sou Pai de ninguém, eu nunca tive filhos, eu sou obrigado a amar ninguém.

– E ela, é ‘obrigada’?

– Não, eu não tenho como perdoar a minha mãe.

– Não é a sua mãe que você tem que perdoar, Zemial. Volte a imaginar e você vai entender que o passado acabou, seu sofrimento acabou, agora a semente da verdade foi plantada, agora você compreende que o caminho existe. Cabe a você agora decidir ter ou não ter coragem para caminhar para sua paz.

– Sua ideia é uma mentira.

– Ideias não tem que ser verdade para serem verdades. A escolha é sua entre acreditar ou não.

– Eu me recuso a acreditar! – eu falei gritando.

Um raio destruiu outra pilastra, quando eu olhei de volta para o Cão, ele não estava mais lá… eu me senti sozinho, me senti abandonado.

– Eu espero que tenho gostado de sua estadia – falou a voz da recepcionista.

Quando eu me virei, ela estava de pé diante de mim, atrás dela a porta da varanda estava aberta, do outro lado meu quarto escuro.

– Eu não terminei minha conversa, traga o Cão de volta.

– Você já sabe o segredo, nossa transação foi concluída.

– É a tempestade, não é? Ela vai destruir seu hotel de segredos.

– Não, outros hóspedes já morreram no hotel, o hotel sempre prevalece; porém evitamos ter nossos hóspedes presos com suas lembranças aqui.

Eu não sei se ela queria dizer o que eu imaginei, mas eu não queria me tornar um fantasma de insetos. Eu caminhei além dela e entrei de volta no meu quarto.

xXx

Eu acordei gritando de dor, meu estômago estava queimando. Eu tirei as cobertas e pude ver minha barriga inchada, com pequenas ondulações que pareciam dedos dentro de minha pele, tentando cutucar seu caminho para fora. Mas o primeiro inseto a sair não saiu de meu estômago, ele saiu do meu nariz; a lacraia de vermelho e preto rastejou meu rosto e depois voou para a porta, e sumiu dentro de sua fechadura.

A dor era alucinante, eu queria pensar, eu queria imaginar as palavras do Cão em minha mente, porém eu somente sentia a dor. Com esforço eu peguei meu frasco de veneno, o frasco que eu tinha carregado comigo por anos para me salvar. Eu abri o frasco e senti o seu perfume doce e ácido. Eu senti novamente os espasmos de agonia, quase derrubei o vidro, mas eu o segurava tão forte que não sei como que não o quebrei em minha mão. Eu ouvi minha voz falando, ‘beba, beba e acabe com o sofrimento de toda uma vida. Beba e deixe toda a dor se esvair dessa vida que só lhe deu mentiras e ilusões’.

No entanto, eu não bebi do frasco, eu não ouvi a voz, pela primeira vez em minha vida. Essa voz em minha mente parecia não ser minha, o Cão tinha falado sobres as sombras, as vozes ruins em minha mente eram isso, sombras.

Eu derramei o líquido sobre o chão, logo em seguida tive outro espasmo, o frasco vazio caiu. Eu ouvi o vidro se espatifando. Senti em seguida um dedo arranhando minha barriga por dentro, abrindo seu caminho. Quando o dedo rasgou minha pele eu olhei, mas não era um dedo, era uma vespa negra, ela abriu suas asas e tomou o céu escuro do meu quarto.

Eu não queria mais morrer, eu queria um milagre, eu queria viver, mas eu sabia que não existiam milagres, não existem deuses… “Todos somos um”, eu pensei. Isso me fazia ser deus, um deus falho e impotente, um deus de ódio e ressentimento; porém, não importava que eu tinha falhado, eu estava vivo em todos os seres vivos, e se algum era bondoso e feliz, eu estaria vivo dentro dele também.

As vespas foram saindo do buraco aberto em meu estômago, rasgando seu caminho para fora da minha barriga; em pouco tempo eu podia ver centenas de vespas escurecerem ainda mais o quarto, elas eram eu também. Minha tristeza, minha ignorância, minhas más escolhas, eu sempre me odiei, mas olhando para mim na forma delas, eu senti algo que eu esqueci que podia sentir, eu amava as vespas, eu tinha compaixão por cada uma delas, elas sofriam sem saber que elas não tinham porque sofrer.

Eu pensei em minha mãe, dessa vez eu me permiti ser ela, eu não sei porque ela não soube me amar, esse segredo tinha ficado dentro do hotel, mas eu sabia que ela sofria por não amar. Pela primeira vez eu pude ver como minha mãe sofria, como apenas uma pessoa ferida poderia abandonar seu filho. Ela também estava perdida. Ela fez o melhor que pôde, eu fiz o melhor que pude.

– Me perdoa mãe, me perdoa por não ter entendido isso antes.

Algo aconteceu dentro de mim, não no meu corpo, mas dentro de minha mente. Eu podia sentir minha consciência se expandindo; todo o meu ressentimento, todo o meu ódio contra o mundo e contra todos era na verdade um ressentimento contra mim. Eu decidi então que eu não merecia me odiar, ninguém merecia meu ódio, e com esse pensamento, o ódio dentro de mim simplesmente desapareceu.

Depois eu observei meu medo me abandonar. Não existia morte, não existia o mal, os monstros de minha mente eram apenas as sombras da minha ignorância, eu não era apenas o meu corpo de um Gato. Eu não tinha nenhuma evidência que minha consciência era uma consciência coletiva, mas ideia era o suficiente, eu podia ver os dois lados agora. Sim, eu estava morrendo, no entanto, eu não morreria sentindo pena de mim mesmo, eu não morreria uma vítima, eu pude aprender a mais bela das ideias: o enigma da vida. Uma ideia tão bela, que apenas sua concepção tinha o poder de me trazer paz. Em meu momento mais escuro, eu me sentia coberto de luz.

Eu me sentia feliz e grato por ter vivido, por ser parte de tudo.

A última peça do quebra-cabeça era o amor, o único sentimento que não pertence ao ego, o sentimento que busca nos unir e nos revelar quem somos. O amor é mais que um sentimento, é um caminho, é o destino. Um caminho para o único objetivo lógico da premissa que somos todos um. Se somos todos um, o objetivo do universo é ver todos felizes, porque a infelicidade de um é a infelicidade de todos. Esse é o nosso propósito escondido: ser feliz e ajudar os outros a encontrarem a sua felicidade.

Essa era a ideia escondida em todas as religiões; essa era a ideia escondida em todas as grandes obras de literatura; essa era a ideia escondida nas pessoas que amamos… Era tudo parte de um todo, existia um plano, meus olhos estavam abertos, eu finalmente conseguia ver.

Foi então que as vespas começaram a cair, uma por uma elas morreram, até sobrar apenas uma única viva. A última vespa pousou em meu peito. Fazia sentido elas morrerem, elas se alimentavam da minha tristeza, uma tristeza que eu não sentia mais.

Quando a vespa parou de se contorcer, eu achei que ela também tinha morrido, até que sua carcaça negra se partiu, de dentro, asas transparentes se abriram, era um novo inseto, um que parecia uma linda borboleta, uma que não se alimentava de sofrimento.

Eu esperei um milagre para mim também. Eu queria viver! Eu queria outra chance! Mas a borboleta branca apenas voou até a janela fechada e me abandonou por entre as persianas. Eu sorri, eu tive minha chance, eu poderia ter visto a verdade antes, mas havia escolhido ouvir as sombras do meu ego.

Contudo, eu não iria me recriminar, eu fiz o melhor que pude, como fez a minha mãe, como fez o meu pai, como fazem todos, se erramos não erramos por malícia, e sim por ignorarmos quem realmente somos.

Eu sabia agora, e isso era tudo que importava. Então eu fechei meus olhos e deixei o sono me levar embora.

xXx

Eu sempre fui muito melodramático, foi bonito achar que eu estava morrendo com dignidade, mas confesso que foi bem melhor acordar vivo num pequeno hospital de um vilarejo próximo. Não que viver não tenha seus reveres, eu tive um choque céptico, eles tiveram que costurar parte do meu estômago, eu fiquei meses acamado até poder conseguir andar novamente.

Meu resgate foi uma peculiar estória. Uma criança estava perdida na floresta onde fica minha cabana, ela ficou perdida por uma semana, sem comida, bebendo a água da chuva, todos na vila achavam que ela já estava morta, as patrulhas tinham desistido.

Era para essa criança ter morrido, mas ela disse ter visto uma fada com asas brancas. Ela seguiu a fada e encontrou em seu lugar a minha moradia. Me encontrou em choque em uma cama coberta de sangue e vespas mortas. A criança me deu água e ficou ao meu lado.

Seu pai nos encontrou, ele não tinha desistido de procurar seu filho. Ele estava no caminho errado, mas ele jurou ter visto a luz branca de um vaga-lume, que o atraiu para a direção certa. Foi assim que ele nos encontrou, foi ele que me carregou até o vilarejo.

Eu levei quase um ano para me recuperar, mas eu não tinha nenhuma pressa, eu sabia exatamente quem eu era e o que eu tinha para fazer. Tão logo eu me recuperei, viajei até a capital de Troferos, voltei para o meu orfanato. Eu nunca tinha saído desse lugar, eu nunca tinha deixado de ser a criança que ninguém tinha escolhido amar, que ninguém queria salvar; contudo, agora eu sabia quem eu era, agora eu sabia como me salvar.

Num orfanato de Gatos, eu adotei o único Rato. Ele tinha passado por coisas muito piores que eu em sua idade, porém ele era muito mais corajoso que eu, e tão logo saímos juntos e caminhamos pelos portões de minha antiga prisão, o menino me abraçou. Eu me lembrei da menina com sua mãe, em como seu abraço tinha destruído o meu mundo, e agora, abraçando meu filho, meu mundo se construía novamente.

Foi assim que eu finalmente encontrei o amor que eu procurei por toda minha vida.

Alguém tinha finalmente vindo me buscar.

Não existe o fim.

6 Comments

  1. Amei o conto!
    já fiquei feliz por ver que seria mais um conto sobre Zemial,li cada parte emocionado por sua historia.
    E que final! Obrigado por postar logo num sábado! mudou o meu dia,mudou a minha vida.
    E Zemial,sempre vou ler suas histórias mais de uma vez,mesmo sabendo do final. kk

  2. Marcelo, você me foi recomendado por Jorge Desgranges. Porque, como sou aprendiz de escritora, ele, além de recomendar leituras, comenta meus textos. E, da mesma forma como elogia muito suas histórias, para mim funciona como o “editor malvado” ou, por sugestão minha, “advogado do diabo”. E prefiro assim. Se estou querendo trilhar por esse caminho, tenho que saber dos acidentes de percurso. Perdoe-me o preâmbulo. Fui apresentada a você no conto O mercador de Sonhos. Levei um susto. Não sabia do mundo de Morserus. Como diz seu amigo, tive que metabolizar seu texto e o resultado foi minha admiração pela sua imensa criatividade e, o mais importante, como você transita com a maior naturalidade pelo mundo que criou. Parece que vive lá… Hoje li o Enigma da Vida. Não é um texto fácil, talvez até porque mexe também com nossas indagações e desejos de respostas. Vou ler outra vez. Vou fazer todo o périplo. Ler todos os seus textos. Acho que depois do último, quem sabe também não vou me sentir à vontade nesse mundo fantástico? Sim, porque um pouco de fantasia faz falta…e você é generoso nesse quesito. Um abraço. Christina Mariz

  3. O que dizer de algo q comove e atravessa a alma com tanta simplicidade? Nas minhas leituras antigas na infância e adolescência, buscava por isso, o q me comovesse a ponto de compreender Deus e a Sua Nossa Humanidade. Sua estória me trouxe isso. Gratidão

  4. Marcello, boa tarde…
    Eu já havia feito uma primeira leitura do conto, mas, como ele é o mais profundo de seus textos, fiquei de ler outra vez. Não sou uma crítica literária nem alguém que faz resenhas. Comento de acordo com o que sinto naquele momento.
    O enigma da vida é o melhor dos seus contos. Como diz seu amigo Jorge, todo conto é um pouco autobiográfico e a verdadeira arte do autor é saber camuflar…
    Você propõe os questionamentos e responde a eles pela boca do Cão, ou seja, ele é o seu Grilo…
    Você próprio vai desenrolando os nós de sua existência.
    É um lindo conto que fica em nossa mente provocando outras reflexões e que nos induz a olhar em outras direções, para outras pessoas, não com novos olhos, mas com novos olhares…
    Parabéns, meu amigo escritor!
    ,

    • Linda resenha minha querida, vc novamente da todo um significado maior ao que esta escrito, muito obrigado pela sua infinita sensibilidade e carinho 🙂

      Muito obrigado 🙂

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