Lagrimas de Escuridão

Lágrimas de Escuridão

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Um dia antes do embarque

Minha mãe rasgou meu último diário. Eu tinha acabado de completar treze anos, meu pai, que saiu de casa antes de eu nascer, apareceu na minha festa sem ter sido convidado, era nosso segundo encontro. Eu não sei como ele soube que eu amava escrever, mas ali estava ele com seu presente, uma máquina de letras, era uma grande novidade em Troferus a Nação dos Gatos. Você apertava os botões e as palavras eram marcadas no papel com alavancas de metal e uma fita de tinta. Antes mesmo de eu abrir a caixa, minha mãe me falou que eu deveria dar a máquina para minha irmã mais nova (minha meia irmã, para ser exata) afinal, ela era mais estudiosa e tinha verdadeiras chances de ser aceita pela Academia. Eu sorri por fora e concordei. À noite, eu chorei, como eu geralmente choro, eu escrevi no meu diário sobre ser a primeira filha e não ser a primeira escolha de ninguém.

Meu pai se separou da minha mãe antes de eu nascer, ele teve uma filha depois de mim, uma mais bela e mais inteligente, uma que ele não admite, mas que ele ama mais que eu. Com minha mãe foi a mesma estória, ela se casou depois de ser abandonada, eles tiveram uma menina linda e delicada, todos os pais juram amar seus filhos igualmente, mas eles sempre têm seus preferidos. Eu nunca soube o que era ser a preferida de alguém, eu nunca fui a primeira escolha de ninguém.

Minha mãe gritou e me chamou de ingrata quando ela leu o meu diário, me lembrou de tudo que ela já fez por mim. Era uma lista grande que eu conhecia muito bem, começava no meu parto e nas dificuldades de me criar sozinha enquanto meu pai frequentava festas e comia em banquetes enquanto a gente quase passava fome. Ela perguntou como que eu ousava escrever que ela tinha uma preferida; que eu era a irmã mais velha e que ela trabalhava, que minha obrigação era cuidar da minha irmã mais nova. Que minha irmã era estudiosa e tinha uma chance, enquanto que eu era igual ao meu pai e só pensava em namorar e sonhar com um príncipe encantado que não existia.  Que ela achou que meu pai fosse ser o príncipe dela, mas que príncipes na vida real te amam num dia e somem no outro. Que estava na hora de eu acordar para o fato que nem todo mundo pode ser feliz.

Eu chorei até secar naquele dia, os sentimentos se misturavam dentro de mim como se em meu estômago fosse um redemoinho de culpa, raiva, medo, tristeza, arrependimento e esperança. Eu jurei nunca mais escrever no meu diário, eu jurei que seria uma filha perfeita, por muitos anos eu consegui cumprir essas duas promessas. Eu fui a primeira da minha família a ser aceita na Academia, todo mundo ficou tão surpreso… Quando eu saí de casa, vi nos olhos da minha mãe, vi felicidade por eu ter conquistado algo que ela nunca esperou, mas eu vi também ressentimento e inveja. Eu nunca vou entender minha mãe, ela me ama, mas parte dela não gosta de mim, acho que sou parecido com ela; talvez seja esse “ela” em mim que ela tanto rejeita.

Aquala é uma das cidades mais lindas dos Gatos de Troferus, ela foi construída numa ilha artificial que fica no centro do grande lago. Dizem que todos os rios de Morserus começam e terminam no grande lago. Que toda água do nosso mundo nasce aqui, vindo de cavernas subterrâneas que fazem os gêiseres, que todos os anos atraem milhares de turistas para Aquala.

Minha irmã mais nova nunca foi aceita pela academia, e durante meu segundo ano eu recebi uma carta dizendo que ela tinha se afogado no rio que ficava ao lado de nossa pequena vila. Eu me senti suja, pois de alguma maneira eu tinha roubado seu sonho e a matado. Fiquei muito triste por ela, mas como era de costume, eu encontrei meu caminho de volta a chorar por pena de mim e não por ela, meu redemoinho de sentimentos apenas crescia, e a culpa cabia muito bem dentro dele, como a ingratidão de estar num dos lugares mais belos do mundo e não conseguir aproveitar nada.

Foi num dia de tempestade que eu conheci Jokua, eu andava sem rumo pelas belas ruas de pedras polidas e casas de tijolos coloridos, chovia muito, e pela primeira vez o tempo refletia como eu me sentia por dentro; o vento forte derrubava os postes de luz, e eu estava perdida, sem saber o caminho de volta para a Academia, eu achei que fosse morrer, mas Jokua me encontrou. Ele nunca tinha falado comigo, eu achei que ele nem sabia quem eu era, sua família era de uma Linhagem diferente da minha, ele era um Daltama, eu uma Bexor.

Em Caltos os Cães são divididos entre treze Linhagens, apenas os Sem Coleiras são livres para casar com quem quiserem; eu não tenho essa liberdade, meu Colar de Hierarquia tem uma joia de cobre, essa joia diz meu status, o tipo de emprego que eu posso ter e até mesmo quem eu posso amar. Eu não apenas só posso me casar com um membro da minha Linhagem, como deve me contentar com um que tenha a mesma pedra em seu pescoço.

Jokua usava um colar de Prata, ele era de uma Linhagem mais nobre. Os Bexor são uma Linhagem sem muito poder na República de Caltos, nosso Paramor tem sua cadeira no conselho baixo, enquanto que a Linhagem de Daltama se senta no conselho alto; em Caltos tudo se baseia em não sutis demonstrações de Hierarquia. Outro ponto de nossa inferioridade e nossa aparência, os Bexor têm seus lábios caídos ao redor da boca, nosso focinho é curto e nossa cabeça é arredondada; eu sei que nossa Linhagem e considerada feia pelas demais. Eu concordo, eu tenho pelos castanhos claro com um peitoral de brancos, meus olhos são do mesmo negro da máscara de pelos que cobre meu rosto. Jokua, por outro lado, é lindo, todos de sua Linhagem são lindos, com seus corpos esbeltos e atléticos, seus corpos longos com pelos brancos cobertos por pequenas bolas negras. Jokua tem uma rodela negra ao redor de seu olho esquerdo, ela lhe dá ao mesmo tempo um ar de irreverência e imponência. Ele é o Cão mais lindo que eu já conheci em toda minha vida.

Naquele dia de chuva ele me deu abrigo em sua vila, e como acontece nos livros de romance, nosso amor quebrou a tradição de Linhagens e Colares de Hierarquia. Nós nos beijamos, nós nos amamos durante toda a noite. O redemoinho em meu estômago sumiu, e em seu lugar eu senti o que pessoas felizes sentem. Eu me senti querida, eu me senti amada, eu senti que o mundo tinha um lugar para mim, que esse lugar era nos braços de Jokua.

Porém, minha mãe estava certa, e o príncipe de um dia se tornou o vilão no outro. Ele foi gentil, me deu flores e um bilhete, mas em suas palavras doces ele destruiu meu coração, ele falou de um erro de imprudência e me pediu perdão, mas o que eu li por trás do texto era que eu não era digna de ser amada, que eu terminaria como minha mãe, casada com a sombra que meu Pai deixou em sua vida. Eu podia ver a sombra de Jokua cobrir minha vida, me mostrando que tudo que eu tinha conquistado não valia de nada, que apenas o amor é real, e que sem ele meu destino seria existir sem nunca mais viver.

Eu parei de ir às aulas e me tranquei em meu quarto. Falei ao mundo que eu não queria mais nada, que eu queria Jokua, e que sem ele nada importava. Eu sabia que ele me amava, eu sabia que no fundo ele sofria tanto quanto eu, ele apenas estava com medo de enfrentar o mundo em nome do nosso amor. Não existe união entre as Linhagens em Caltos, é proibido, mas nós poderíamos viver aqui na Nação dos Gatos, onde até o incesto é visto como uma opção entre adultos. Eu escrevi para Jokua declarando meu amor e contando meu plano, mas ele nunca me respondeu.

Quando eu fiz dezenove anos, fui reprovada na Academia. Foram dois anos sem ir às aulas, foram dois anos depois de meu encontro na tempestade. Eu pensei em me matar, mas seria trabalho demais, eu não encontrava energia nem mesmo para tomar banho, eu passava meus dias deitada no escuro, pensando em Jokua, revivendo nosso dia de amor. Até que um dia um panfleto foi colocado sobre minha porta, falava sobre o Livro das Sombras, que todos os outros deuses não atendem as nossas preces porque eles não existem, apenas a Rainha é real, apenas ela pode dar vida ao mundo que sonhamos ter.

Eu não acreditei no panfleto, eu não sou uma idiota, mas sua semente estava plantada, e se fosse verdade, e se fosse possível, o que custava saber mais a respeito. Naquele dia eu tomei banho e fui até o templo da Casa de Hodracus, lá um discípulo me falou sobre uma cidade mágica que ficava em outro mundo, sobre como ao chegar nessa cidade eu me tornaria imortal, que eu seria escolhida para uma das três torres, onde eu veria uma das três princesas, ele me falou sobre os quatro grandes segredos da existência, e que se eu fosse a escolhida para encontrar com a Rainha, eu aprenderia cada um desses segredos; que eu poderia pedir qualquer coisa, e que eu voltaria para Morserus ascendida para minha nova vida, livre para realizar todos os meus desejos. Que apenas me custaria a abnegação de tudo que eu tinha nessa vida. Mas que era a única chance que eu tinha, que qualquer um teria de ser salvo.

Eu não acreditei em nenhuma palavra que ele falou, mas eu não tinha nenhuma outra escolha, a única coisa que eu acreditava era no meu amor por Jokua, que era nosso destino nos reencontrar e viver lado a lado. Por ele eu pagaria qualquer preço, então eu apostei meu futuro nesse conto de fadas, eu peguei todo dinheiro que meu Pai colocou em meu nome para pagar a Academia e assinei a transferência para a Casa mercante de Hodracus. O que sobrou eu usei para viajar para a Cidade dos Portos que fica no coração de Ilys, a Nação dos Coelhos. Do quarto em minha pousada eu posso ver o Abismo que fica no centro de Morserus, é como ver o final do mundo, é como ver o redemoinho que sinto em meu coração.

Como eu quebrei minha promessa de ser uma boa filha, me pareceu apropriado quebrar minha promessa de nunca mais escrever um diário, hoje começa minha primeira entrada, dizendo porque eu estou aqui. Terminarei esse diário apenas quando eu estiver ao lado de Jokua.

Eu não sei o que me espera, mas eu espero ter feito a escolha certa.

No trem para Exspesdomus

Eu estava para embarcar quando meu pai apareceu na estação. Eu não sei como ele me achou, como achou esse lugar; a estação para Exspedomus era um segredo construído nas profundezas da Cidade dos Portos. Meu pai sempre teve o hábito de aparecer quando você menos espera e sumir quando você mais precisa. Hoje, contudo, eu não sabia qual era qual.

Eu esperei o pior, afinal foi sua herança que eu usei para comprar um bilhete de trem. Um pequeno pedaço de papel, que representava o abandono de tudo e todos em minha vida. Mas meu pai não gritou comigo, ele me abraçou forte, não queria me largar. Eu sentia o medo que ele tinha de me perder, ele estava tão aliviado, sorrindo, chorando e falando que me amava, que tudo que importava era que ele tinha chegado a tempo. Era estranho, quando eu era criança, sempre que eu brigava com minha mãe eu imaginava meu pai vindo me salvar dela, nos meus sonhos ele me abraçava assim, depois me levava para morar com ele, para ser feliz. Quem sabe se ele tivesse feito isso antes, eu não vou mentir no meu diário como eu menti para ele, mas eu queria ir com ele, eu queria ser salva, mas algumas escolhas não têm volta, essa era uma delas.

Eu lembrei a ele de todos os momentos em que ele falhou comigo, todas as noites que eu chorei em minha cama, imaginando por que meu Pai tinha outra casa e outra filha. Sim, eu sabia ferir, sabia que ele me amava, sabia que ele tentava, mas em mim ainda existia a criança que não entendia por que seu pai não ficou com ela. Eu vomitei cada mágoa e rancor que eu guardava no meu redemoinho de dor. Essa era a última vez que eu veria meu pai, eu não tinha coragem de falar o quão eu o amava, então eu falei o que não precisava de coragem para falar. Eu listei minhas cobranças emocionais, cada dívida que eu anotei no meu coração. Eu falei até sobre as festas de aniversário em que ele não apareceu, ele já tinha ouvido esses pedaços de verdade, mas hoje eu lhe dei tudo, eu me senti a pior pessoa do mundo, mas era isso ou ir embora com ele.

“Eu não sou o seu vilão Adell, eu não sou o motivo pelo qual você quer fugir do mundo. Eu sei que eu não fui um pai perfeito, mas essa lista de dívidas emocionais não é minha. Sim, tudo que você falou aconteceu, mas sua verdade é escolhida a dedo com os momentos que validam o sentimento que lhe falhei, que eu não lhe amei o suficiente. Mas se a sua verdade é a verdade absoluta, por que então existem tantas omissões? Sim, perdi muitos aniversários, mas muitos eu não fui convidado, outros eu fui e não recebi nenhuma atenção, fiquei de lado, pagando os juros de outro pecado emocional anterior. Sim, nós ficamos anos sem nos encontrar, mas foi minha escolha, filha? Ou foi a sua mãe que ao não me ter mais em sua vida decidiu te afastar de mim? Eu lutei por você minha Adell, eu levei meu caso ao tribunal de Caltos. Onde está essa parte da sua verdade? Me diz como que eu posso pagar uma dívida quando nada nunca e subtraído e tudo é sempre adicionado?”

Ele me falou isso e muito mais, mas essas palavras ficaram marcadas na minha consciência. Escrever ajuda a esquecer, eu quero esquecer tudo que ele me falou. Que Exspesdomus não existia, que a Casa de Hadracus tem uma fábrica de Trens, que para cada viagem eles construíam um novo trem. Que nenhum dos trens que partiam dessa estação voltavam, que nenhum passageiro jamais regressou de Exspesdomus, que eu não estava indo para uma nova vida, eu estava indo para a minha morte.

Na mesa em que eu escrevo meu diário, eu noto as verdades em tudo que ele falou. As cortinas do vagão são de um branco nunca lavado, de um liso nunca dobrado. É tudo impecavelmente novo. O chão, o teto, as luminárias, não existe riscos de desgaste ou qualquer sinal de uso. Eu olho para a janela e vejo as pedras do túnel passarem, estaria eu realmente viajando para a minha morte?

Eu menti para ele e falei que eu sabia que o trem era novo, que ele era um trem mágico, que iria flutuar no abismo de Mosrserus e me levar para uma vida melhor, onde eu seria imortal, onde eu conheceria a Rainha das Sombras.

Meu pai teve que ser arrastado para que eu pudesse entrar no trem, é algo assustador ver a pessoa mais corajosa que você conheceu apavorado, ele chorava e gritava de pavor, eu nunca tinha visto meu pai tão desesperado, e agora essa imagem era o que eu levava comigo, nosso último momento junto.

Mas agora é tarde meu Pai, se um dia você achar esse diário entenda, mesmo que eu tivesse certeza que a sua verdade fosse a única verdade. Mesmo assim eu teria entrado nesse trem, porque eu tenho um sonho de viver num mundo onde eu sou amada e querida. Eu busquei esse sonho no mundo de Morserus, eu busquei e eu falhei, eu falhei no dia em que nasci e continuei a falhar até agora. Eu não tenho nenhuma escolha, ou meu sonho se torna realidade, ou morrer vai vir para mim como um ato de caridade.

Eu te amo pai, eu sempre te amei, mesmo nas vezes em que eu disse que te odiava.

Adeus.

Era tudo uma mentira

Você estava certo, pai. Eu soube disso quando o maquinista pulou do nosso vagão pouco antes do trem despencar dentro do abismo. Segundos depois dele nos ter dado o sangue negro para beber. Estão todos mortos. Tinha uma Gata que foi decapitada na queda, eu vi sua cabeça bater como uma bola pelas paredes do vagão. Tudo rodava, tudo se quebrava. Eu nunca senti um medo tão profundo. Pai, são centenas de trens, uns sobres os outros, num cemitério de metal e madeira. Todos os trens cheios de passageiros, todos mortos. Uns mortos há dezenas de anos, outros mortos não tem um dia. Eu consegui achar meu diário e escalar os escombros até o topo da pilha de trens. Daqui eu posso ver tudo, eu nem sei porque eu estou escrevendo isso, ninguém vai ler, você nunca vai achar esse diário, ninguém nunca vai achar esse diário. Pai, por que eu não fui com você? Por que eu fugi de você a minha vida inteira? Por favor, me perdoa.

O trem nunca chegou no final do abismo, olhando para cima eu ainda consigo ver a caverna de onde a gente caiu. Eu estou numa ravina, olhando para baixo eu apenas vejo o vazio, olhando para além do penhasco eu vejo as ilhas flutuante, elas são tão lindas, pai.

Eu estou sangrando, mas quase não dói, só faz muito frio. Eu vou descansar um pouco agora, quando eu acordar eu escrevo mais, tanta coisa que eu nunca disse, tanta coisa que eu nunca admiti, mas assim que eu acordar eu…

Renascimento em Exspesdomus

Meu pai estava errado, minha mãe estava errada. Quem diria, eu estava certa esse tempo todo. Eu não morri, não existe morte, meu corpo que morreu em Morserus está comigo aqui, em Exspesdomus. Eu acordei no mesmo vagão, sentada na minha cadeira, com meu diário aberto diante de mim, com todas as palavras escritas, até minha última sentença inacabada.

Os outros passageiros estavam me esperando. Tinha um Porco que era tão obeso que tiveram que abrir a lateral do vagão para ele poder entrar com sua cama sobre rodas. Ele agora era um jovem, ainda gordo, mas não tão gordo que não pudesse andar. A velha da minha espécie, com um colar de prata, a que me olhou com cara feia quando viu meu colar de cobre,  agora é jovem e linda. Ela ainda tem a mesma feição de nojo, mas sem as rugas ela não é mais feia, apenas antipática. A Gata que tinha sido degolada estava igual. Ela e eu não mudamos nada. Eu continuo feia, continuo baixa demais, redonda demais. Por que a mágica da velha não me transformou também? Eu notei pedaços de vasos quebrados no lugar onde cada um de nós estava sentado, eu me lembro de minha mão estar transparente, mas eu não tenho ideia do que isso significa. Não importa, o que importa é que estou aqui.

Quando saímos do vagão nos encontramos dentro de uma redoma de madeira com o céu amarelo de Morserus pintado em todo o nosso redor. Nosso vagão não estava mais sobre trilhos, ele estava montado sobre uma plataforma, ele parecia ter sido construído ali, parecia nunca ter saído dali.

Eu não sabia o que esperar, foi quando uma menina magrela, vestida num colante negro e com uma máscara de porcelana branca apareceu. Ao olhar bem para a máscara, entendi quem ela era. O corpo e as feições da máscara eram da minha irmã. Eu queria abraçar ela, minha meia irmã, que tinha morrido, estava diante de mim. Eu sabia que era ela, mas eu sabia também que não era, que algo estava diferente, que ela agora era algo intermediário, entre vida e morte. Eu tive convicção que se eu encontrasse a coragem para remover sua máscara de porcelana, eu descobriria uma verdade terrível sobre sua real natureza; e por mais que eu quisesse saber, eu não ousei, existem saberes que são melhores a gente não saber.

Quando a menina falou, eu ouvi da minha irmã.  “Oi irmã, eu vim te buscar para você conhecer sua casa”. Eu fingi que sorri e que estava feliz por vê-la, mas dentro de mim eu queria gritar e correr, mas meu trem não tinha mais trilhos, e eu não sabia para onde fugir.

Minha irmã não lembrava de tudo. Enquanto andamos pela cidade eu tentei conversar sobre o dia do seu aniversário, quando dançamos, rimos e fomos amigas, como raramente conseguíamos ser, mas ela não lembrava de nenhum dia de alegria, tudo que ela falava, tudo que ela lembrava eram apenas os momentos ruins. Ela me falou de todas as vezes em que foi reprovada na Academia, e como cada vez ela viu seu mundo de possibilidades da sua infância se fechar diante de sua vida adulta, em como ela decepcionou nossa mãe e seu pai, que sempre acreditaram nela, e como um dia ela não encontrou mais forças para continuar tentando e falhando. Seu acidente não foi um acidente. Ela mergulhou o mais fundo que pôde, mesmo sabendo que não sobraria ar para voltar.

Como eu pude ser tão cega? Eu sempre achei que ela era feliz. Ela teve a infância que eu nunca tive, minha mãe fazia tudo por ela, ela sempre foi a preferida, eu sempre quis a atenção que ela recebia, o amor também, eu sempre quis ser ela. Eu queria saber como era ser realmente amada, eu achei que era o suficiente para acabar com o redemoinho. Será que eu poderia ter ajudado ela? Será que eu estava tão sozinha e não percebi que ela estava sozinha também? Como que é possível dois solitários viverem juntos?

Eu não quero mais escrever sobre minha irmã, ou o que quer que ela seja agora. Eu quero escrever sobre o que vai acontecer em breve. Eles ainda não me disseram para qual das torres eu vou ser levada, eu estou agora no meu quarto, ou pelo menos parece com o meu quarto da casa da minha mãe. Eles chamam essa área da Cidade de Retalhos. Meus aposentos são cópias dos aposentos onde eu vivi em Morserus. Meu quarto, minha sala de aula, até a mezanino da Senhora que me dava aula de Música. Eu não sei por que o mezanino dela está aqui, eu sempre odiei tocar arpa, eu sempre odiei aquela mulher. Pensando bem, eu nunca fui muito feliz em nenhum dos aposentos que eles construíram para mim aqui.

            Essa cidade é uma loucura visual. Nada faz sentido, nada segue uma ordem. Primeiro, não existem corredores. Eu saio do meu quarto e estou na sala de estar, quando eu entro onde deveria ser a cozinha da sala eu encontro minha sala de aula. Do lado de fora da minha ‘casa’ eu encontro um salão do tamanho de um pequeno estádio, ao redor do salão estão as outras ‘casas’. Meu salão de espera tem treze andares, mas existem centenas de salões que nem esse, um colado ao outro.

            Tudo aqui é falso. Você olha e vê uma parede de tijolos, um chão de pedra, mas quando você toca, percebe que tudo é feito ou de madeira ou de cerâmica pintada. Até meu diário não é o mesmo diário. Ele é idêntico, mas as páginas são diferentes, meio plásticas, e tudo tem o mesmo cheiro adocicado, tudo tem o cheiro do Sangue Negro.

            Não quero mais escrever sobre isso também, acho que vou dormir, amanhã eu escrevo mais, amanhã eu pergunto quanto tempo vai demorar para eu ser levada para uma das três torres.

            Eu sei que eu fiz a escolha certa, eu sei que tudo vai ser como eu sonho que deveria ser.

O Grande Baile

            Eu fui a escolhida. No meu primeiro baile, eu fui a escolhida, todo mundo me olhou com ódio e inveja, mas eu não me importo. Hoje é o dia mais feliz da minha vida. Eu fui escolhida para encontrar com a Rainha das Sombras.

            É melhor eu começar do início. Eu estou tão feliz que mal consigo escrever, estou tremendo, ainda não acredito que isso tudo é real. Foi o mais belo baile de todos os bailes, no mais belo salão, com as mais belas espécies de Morserus. Houve dança, houve música e, acima de tudo, houve a expectativa daqueles que, como eu, participavam da festa pela primeira vez. Eu podia ver no rosto a ansiedade daqueles que aguardavam para conhecer a Princesa de Ouro.

            “Felicidade é o mais importante dos sentimentos!”, a Princesa falou ao entrar no salão, vestindo um longo vestido amarelo com uma máscara de ouro. “Mas o que é felicidade?”, ela perguntou em sua voz suave e penetrante. “Eu diria que felicidade é saber o que você quer. Eu diria que felicidade é conseguir o que você quer…”. Ela andou por entre seus convidados, olhando para todos brevemente; subiu os muitos degraus, até uma poltrona que parecia ser um trono, e terminou de falar olhando para todos nós abaixo: “Felicidade, então, nada mais é que um desejo. E cada um de vocês foi escolhido para essa Torre porque suas vidas nunca serão completas sem que esse desejo seja realizado. Mas apenas um será o escolhido nesse baile. Apenas um aqui na Torre da Alegria vai encontrar com a Rainha das Sombras amanhã. Revelem então seus segredos, abram seu coração e me digam seus desejos, e ousem ousar, pois o mais poderoso de todos os desejos será escolhido por mim para ser realizado!”.

            Todos gritaram de uma vez, cada qual com sua vontade. Muitos queriam o poder máximo de sua nação, Reis, Imperadores, Paramores e posições de autoridade plena; um Cão se excedeu aos demais e com uma voz de comando falou que seu destino era ser o novo Geik Khar, ele queria unificar as Cinco Nações de Morserus sobre o seu comando e ser soberano sobre todos.

            Mas nem todos os pedidos foram sobre poder, alguns queriam apenas mais riquezas, outros queriam renascer como os mais belos de sua espécie. Um pediu para voltar ao passado e renascer na época em que os Lagartos comandavam o mundo. Eu perdi minha coragem, meu pedido parecia ser pequeno comparado aos demais, e quando eu falei, eu falei baixo e ninguém me escutou. Ou pelo menos eu achei que ninguém tinha escutado. Mas a Princesa se levantou e mandou que todos se calassem, ordenou que eu fosse para o centro do salão e me intimou a repetir meu pedido perante todos os demais.

            “Eu quero ser amada!”, foi o que eu falei enquanto muitos riram de mim. “O amor é o mais forte de todos os desejos!”, eu reiterei irritada.

            A Princesa me pediu para que eu me explicasse melhor, então foi isso que eu falei: “Não existe felicidade na solidão. Crianças com mais brinquedos não são as crianças mais felizes. Crianças amadas são as mais felizes. Sem amor nenhuma conquista tem valor. Será que vocês não veem? O que vocês pedem não é o que vocês realmente querem. Nossa fome á a mesma. Nossa fome é uma fome de amor!”.

            Uma mulher chorou, mas o resto apenas me olhou com ódio. Eu achei que eles iriam me atacar, mas antes que eles tivessem a oportunidade, a princesa se aproximou de mim e me levou para um passeio por uma área restrita da sua torre. Ela já sabia sobre Jokua, ela já sabia tudo sobre mim. Ela me fez prometer nunca desistir do meu amor, que a Rainha tentaria me enganar, que ela me daria tudo que eu desejo, mas ela tentaria matar o desejo e se colocar em seu lugar. Eu não entendi, sempre achei que as três princesas de Exspesdomus fossem leais a Rainha das Sombras. Mas nada disso importava, eu prometi que eu nunca desistiria do meu amor por Jokua, que eu vivi minha vida inteira em busca desse amor, e nada me faria abandonar ele.

            A Princesa pareceu satisfeita com minha resposta, ela me falou que amanhã eu seria levada até a Rainha, que amanhã eu voltaria para Morserus. Eu mal posso esperar.

A Rainha das Sombras

            Ontem eu morri pela segunda vez. Ontem eu renasci pela segunda vez. Eu estou de volta para Morserus, mas meu corpo se perdeu em Exspesdomus. Tudo agora é diferente. Eu tenho um novo corpo, eu tenho uma nova família, uma nova casa, até mesmo um novo diário. Um diário caro, com páginas aromáticas e uma cobertura de couro com ilustrações de um brasão em ouro. O brasão da minha nova Linhagem. Toda minha estória continua escrita nas páginas desse novo diário, porém não em minha caligrafia, e sim na caligrafia de minha falecida mãe, minha nova e falecida mãe, que eu matei ontem, ao nascer.

            Eu nunca imaginei que um dia poderia conter tanto horror, minha vontade era nem escrever o pesadelo do qual eu não tenho como acordar. Mas meus pensamentos são como uma comida estragada, eles borbulham em minha mente e fazem mal, eu tenho que vomitar cada momento desgraçado de minha mente nesse papel, eu tenho que me livrar dessa podridão antes que ela me consuma, antes que ela enlouqueça ou me transforme em algo ainda mais perverso que aquilo que eu me tornei agora. Aqui estão, então, os fatos em sua ordem de ocorrência.

            O pesadelo começou quando eu fui levada até a última Torre. No ponto mais alto da Torre da Alegria existe uma porta de ouro que leva à uma ponte coberta, com pequenas aberturas, pelas quais eu pude ver as nuvens abaixo. Nem a montanha mais alta em Morserus ultrapassa o céu, mas aqui eu estava muito acima de qualquer montanha, eu não podia respirar de tão ralo que era o ar. Da abertura eu também vi as outras duas Torres, a Torre azul da Proteção e a Torre vermelha da Justiça. Cada qual com uma ponte igual a minha. Eu não tinha como ver para qual Torre eu estava sendo levada, mas ao ver a porta imaginei que ela seria da mesma cor negra.

            Dentro da Torre havia um único aposento, do tamanho de um estádio, em seu interior uma gigantesca árvore de flores brancas nascia do chão de madeira e atravessava o teto escuro, que era coberto de teias. Dos incontáveis galhos, flores brancas se misturavam com frutos nas cores das quatro torres, azul, vermelho, amarelo e preto. Ao redor da árvore, junto aos frutos caídos e apodrecidos, eu avistava um jardim de corpos vivos, corpos de todas as espécies de Morserus, corpos cobertos por teias que formavam casulos que cobriam eles quase que por completo, mas alguns tinham seus braços ou pernas expostas, esses se contorciam. As pernas pareciam querer correr, os braços pareciam pedir ajuda. Em alguns eu via os rostos, com seus olhos brancos com lágrimas de sangue; tentavam gritar, mas nenhum som saía de suas gargantas. Alguns casulos estavam abertos e tinham seu branco delicado encharcado de sangue e pedaços rasgados de carne mastigada.

            Eu pensei em meu Pai, eu pensei no trem, em como durante toda a minha vida eu tinha visto os sinais de que eu estava indo na direção de algo errado. Eu não fui forcada a entrar na torre negra, eu tinha escolhido estar ali, mais que isso, eu dediquei minha vida para estar ali. Por que eu não ouvi o meu pai? Por que eu nunca parei de andar na direção desse meu triste fim?

“Porque não importa a estrada que você escolha seguir, todos os caminhos terminam em mim”, a Rainha falou acima de mim, descendo da escuridão de suas teias. “Não existem escolhas, minha flor, tudo que temos são as mentiras que contamos a nós mesmos para nos proteger da verdade que se aproxima, a verdade que os sonhos dos ignorantes são os pesadelos dos sábios. Olhe para mim, pequena flor, se desnuda das falsidades que a alimentaram por toda uma vida, me dispa também do véu de quem você esperou encontrar e olhe para mim nua, me veja pela primeira vez por quem sou. Pois apenas conhecendo minha natureza você vai poder ter a coragem de descobrir quem se esconde dentro de você.”

            Eu gritei, eu chorei, eu tentei correr, mas a Princesa de Ouro me segurou, eu fechei meus olhos, mas no escuro de minha mente a imagem da Rainha ardia ainda mais forte e assustadora. Ela não pertencia a nenhuma das espécies de Morserus, ela era um inseto antropomórfico. Na metade de baixo do seu corpo ela possuía as partes de uma aranha gigante, com quatro pares de pernas, com uma carapaça escura e um abdômen branco e liso. Fundido ao seu abdômen de aranha existia um corpo parecido com o meu, dois braços, dois seios, uma cabeça. Sua pele era rosada e seus olhos eram vermelhos. Seu rosto era algo que eu nunca tinha visto igual, um rosto que escondia outros olhos entre as camadas de sua pele, uma boca que não possuía lábios, que por isso sorriam perpetuamente para mim.

“Não tenha medo”, ela sussurrou em meu ouvido. “Não porque coisas ruins não estão para acontecer, não tenha medo minha flor, porque toda dor e sofrimento são inevitáveis aos vivos.”

            Eu abracei a Princesa de Ouro e implorei para que ela me levasse de volta ao baile, mas a princesa apenas falou: “Está na hora de você me ver sem minha máscara.”. Eu senti o corpo da Princesa se desfazer em meus braços, escapando de seu vestido amarelo e rastejando sobre minha perna e meus ombros.

            Eu peguei um dos pedaços da Princesa; cada pedaço era uma aranha do tamanho de minha palma e tinha partes de seus membros, a que eu segurava em minha mão tinha um de seus olhos em suas costas, outra aranha eram seus dedos, duas outras formavam seus pés, mas a maioria eram apenas aranhas idênticas umas às outras.

            Eu desmaiei, esperando que o escuro que me levava não me trouxesse nunca de volta. Eu queria morrer, mas o que eu iria descobrir em breve é que a morte não era o fim do meu pesadelo, era apenas o início de um pesadelo ainda maior.

            Quando eu abri meus olhos estava envolta em teias de seda, as pequenas aranhas que formavam a princesa escalavam a Rainha, de alguma forma eu entendi que eram mãe e filhas.

            Eu consegui a coragem de perguntar a Rainha o que ela iria fazer comigo, perguntei mesmo podendo ver a resposta nos corpos devorados a minha volta. Eu não queria ouvir a resposta, mesmo assim perguntei, porque eu não conseguia pensar em outra coisa.

            “Não existe fim minha flor, você teme morrer e perder sua vida, seus desejos de amor. Você me enxerga como um mostro que vai lhe devorar e roubar tudo, mas eu não sou o monstro de sua vida, eu sou a verdade, eu sou o final das ilusões e a descoberta do significado de toda sua existência. Tudo que você deseja será seu. Uma nova vida, um velho amor… Me diga sim, me diga sim agora e amanhã você vai acordar renascida no mundo dos seus sonhos. Me diga sim e seu desejo vai se tornar realidade.”

            Eu acreditei nela. Eu acreditei nela e falei sim.  Eu pensei em Jokua, pensei na magia de renascer, em ter uma segunda chance. A rainha me beijou com suas presas, perfurando meu focinho e quebrando meus dentes, a dor foi alucinante, eu queria gritar, mas meu corpo estava paralisado. Eu senti cada mordida, senti cada pedaço de mim sendo arrancado, vi meu sangue correr e, então, minha visão escureceu e eu não vi mais nada.

            No escuro eu não senti mais dor, sentia apenas o casulo que me prendia. Eu queria escapar, queria me livrar da escuridão. Então, com o que restou da minha vontade, eu rasguei meu caminho de volta a luz. Quando saí do casulo eu estava coberta em sangue, o casulo não era mais um casulo, era uma barriga rasgada, uma barriga que eu havia rasgado ao sair.

            Eu podia ver tudo, podia ver várias pequenas aranhas de pelos amarelos olhando umas para as outras. Eu olhei a minha volta me procurando, eu não estava lá. Tudo que eu via era um quarto de gigantes, um quarto luxuoso com uma cama coberta de sangue, com uma Cadela sorrindo enquanto sua vida se esvaía de seus olhos. “Minha filha”, a cadela falou em seu último suspiro. Ela olhava para as aranhas, paras as aranhas que tinham rasgado seu caminho de dentro de seu ventre, para as aranhas que agora entendia, eram todas eu.

            Com o terror desse pensamento eu me escondi, rastejando para diversos lados, indo para baixo da cama, subindo as paredes, entrando por entre os lençóis. Um pedaço de mim voltou para dentro da barriga rasgada da Cadela falecida. Outras partes de mim olhavam para os outros Cães que estavam do outro lado do quarto. O Cão mais velho sorria para mim (uma das aranhas), ele parecia orgulhoso. Ao seu lado estava uma Cadela nua, linda, mesmo com seus olhos cobertos de terror e lágrimas, ela estava vestida apenas de correntes e algemas. Ela tinha dois irmãos gêmeos ao seu lado, um macho e outra fêmea, eles pareciam assustados, mesmo assim eram eles que seguravam a menina nua.

“Bem-vinda, minha filha. Bem-vinda ao seu novo lar.” Falou o Cão mais velho.

Eu queria fugir, mas uma pequena parte de mim sabia o que fazer. Então eu vi por vários ângulos uma única aranha se aproximar da menina nua e algemada. A aranha (eu) escalou sua coxa e, pouco antes de encontrar sua genitália, ela fincou seus dentes na menina. Eu senti o seu gosto doce, eu senti sua vida, seus medos, seus desejos e arrependimentos.

Eu não quero mais escrever sobre isso, basta dizer que agora eu estou em seu quarto, em sua casa, em sua família, e enquanto eu escrevo em meu diário, eu escrevo com suas mãos, usando o seu corpo. Eu não sou mais eu, eu sou ela, ou talvez ela agora seja eu. Mas eu não sou somente ela, ainda sou as outras aranhas. Quando eu fecho meus olhos novos, eu vejo pelos olhos delas, me observando do escuro das frestas em que elas se escondem.

O Cão, ou melhor, meu novo Pai, me chamou de Noxerus. Eu sinto que ele é algo parecido comigo. Eu não entendo esse mundo que eu roubei para mim, mas eu sei que nada de bom pode vir desse novo pesadelo. Só agora, enquanto eu escrevo, é que entendo que tudo que eu um dia quis foi agora me dado. Minha nova família usa um colar de ouro, somos descendentes diretos do Paramor. Adell não existe mais, em seu lugar existe uma belíssima cadela rica, da mesma Linhagem de Jokua.

Isso tudo é o maior de todos os pesadelos, mas ao terminar de escrever a parte ruim, eu já começo a imaginar tudo de bom que me será permitido ter agora. Esse pensamento me enoja, eu sei que tudo que aconteceu foi imoral e errado, eu me odeio por ter roubado o corpo dessa menina, mas eu me odeio ainda mais porque uma parte de mim está sentindo a esperança de novas possibilidades.

As Verdades das Sombras

Olhei para o espelho ontem, não encontrei minha imagem, não encontrei nem Adell e nem Karol que é o nome da menina que me ofereceu seu corpo. Quem eu encontrei foi a Rainha, com seus enormes olhos vermelho sangue, com suas presas, sorrindo perpetuamente para mim. Dessa vez eu não gritei, dessa vez falei “oi” e ela respondeu “oi”, e assim iniciamos uma longa conversa.

Eu perguntei porque ela mentiu para mim, porque seus discípulos me disseram que Exspesdomus era o paraíso das vontades, que os outros deuses eram falsos, que apenas ela escutava nossas rezas, e apenas ela atenderia nossos pedidos de felicidade.

A Rainha respondeu que ela nunca mentiu, que a vida mentiu, que eu menti para mim mesma, que eu buscava uma mentira porque eu não queria enfrentar a verdade. Eu perguntei qual era então a verdade, mas ela não respondeu, e eu perguntei qual era a minha mentira.

“Amor, você ainda quer encontrar amor?”, foi sua resposta.

No meio de toda essa loucura eu quase tinha me esquecido de Jokua, de minha promessa de nunca amar ninguém que não fosse ele, minha jura que eu esperaria por ele durante toda minha vida, até o dia em que ele enxergasse que ninguém nunca o amaria como eu. Sim eu ainda queria encontrar o amor, mas como confiar na Rainha das Sombras? Como confiar naquela que me trouce apenas escuridão.

            “Não sou eu quem lhe traz a escuridão, minha flor.” A Rainha falou lendo meus pensamentos. “Sua estrada sempre terminou aos meus pés. Somos todos prisioneiros de Exspesdomus, mas nem todos enxergam essa prisão. Minhas filhas, em sua ignorância, se entretêm plantando seus jardins de sofrimento e dor, apenas para se descobrirem eternamente surpresas e decepcionadas quando sofrimento e dor é o que invariavelmente colhem.”

Eu entendi o que ela queria dizer. Que meu escuro era uma escolha, que eu queria permissão para abrir minhas janelas, mas que eu tinha escolhido as sombras, e com isso escolhido ela. Mas eu recusei suas falsas verdades, eu sabia quem eram os culpados da minha infelicidade. Meu Pai era o culpado por me abandonar, ele me ensinou a sofrer com sua ausência. Minha mãe também era culpada, por me dar apenas as migalhas de seu amor, enquanto que minha meia irmã foi sufocada e estufada com atenção e privilégio. Jokua também era culpado por não ter coragem de me amar. Que nosso amor era a chave para escapar de toda infelicidade do mundo, mas ele me roubou essa chave. E a Rainha também era culpada, por mentir e me prometer felicidade enquanto que me fez ver o sofrimento dos tolos de sua corte, e me deixar entender que eu era uma tola igual. Eu não mereço nada disso. Eu nunca fiz mal a ninguém, eu não merecia ter nascido em meio a tantos carrascos de afeto.

Eu queria chorar, eu tentei, mas a Rainha falou que eu não poderia mais chorar por meias verdades, que apenas a absoluta verdade faria lágrimas caírem de meus olhos. Quando eu perguntei então que verdade era essa, ela me respondeu com sua triste estória.

            Em Morserus, uma menina tinha poderes estranhos, ela podia ver e falar com pequenas criaturas invisíveis que nadavam no ar. Seus pais, guiados por medo de sua própria filha, levaram a menina até o interior de uma floresta escura e a abandonaram para ser devorada pelos predadores da noite.

Ao se ver cercada pelos animais, a menina chamou por suas criaturas e implorou que salvassem sua vida. As criaturas responderam ao seu chamado.

Os pequenos seres invisíveis viviam entre dois mundos, o mundo de Morserus e um mundo morto, totalmente coberto por um deserto sem fim. Enquanto o corpo da menina era devorado, as pequenas criaturas invisíveis transportaram seu espírito e suas memórias para o mundo morto, e a plantaram dentro do solo.

A menina então deixou de ser a menina e se transformou em três flores, uma azul, uma vermelha e uma amarela. Sua consciência, suas memórias, seus sentimentos estavam divididos em cada flor. A flor azul continha seus medos, a vermelha seus ressentimentos, a amarela seus desejos.

            Sem olhos, sem mente, sem corpo, a menina dormiu dentro das flores, e teria dormindo para sempre não fossem os ovos de insetos que durante muitos séculos hibernaram nas areias do deserto. Sentido o despertar da flora, os ovos eclodiram; assim vespas tomaram o ar, e aranhas rastejaram pela terra.

            Quando a primeira vespa bebeu do néctar da flor azul, ela bebeu junto a consciência de medo da menina, ela sonhou com sua morte, com seu pavor do escuro.

            Quando a primeira aranha comeu a primeira vespa, ela comeu junto a consciência da menina. Os insetos que nunca antes tinham tido consciência, agora acreditavam ser a menina.

            Aterrorizada com suas formas de insetos, a menina comandou as aranhas que se agrupassem uma sobra as outras, formando um único corpo, semelhante ao seu que tinha sido devorado. Usando as teias ela teceu um vestido e esculpiu uma máscara. Como seu vestido era azul, ela se tornou a menina de azul.

            Mas havia três flores, três cores, e quando a menina de azul voltou para sua flor, ela encontrou duas outras meninas idênticas a ela. Usando o mesmo vestido e máscara feita de teias. Apenas a cor do tecido era diferente.

            Quando elas conversaram, descobriram que cada um sabia de coisas que a outra tinha esquecido. A menina de azul falava apenas sobre as memórias do medo, a de vermelho sobre as memorias de raiva e a amarela sobre as memorias de desejo.

             Em sua primeira noite juntas, a menina de azul temeu que sua irmã de vermelho pudesse feri-la enquanto ela dormia. Para se defender, ela então pegou a maior pedra que podia carregar e esmagou a máscara de sua irmã, esmagou suas aranhas que tentaram fugir e, num ato de instinto, comeu algumas delas.

            Com isso a menina azul se lembrou do ódio que sentia por seus pais pela injustiça de sua morte. Ela também aprendeu a ter raiva da sua irmã amarela, pois essa se achava melhor que ela. Então a menina azul matou sua segunda irmã com a mesma pedra, da mesma forma. Apenas dessa vez ela sentiu prazer em matar e comer dela.

            Assim menina novamente tinha apenas uma consciência, dividida igualmente por todas as aranhas que compunham seu corpo. Agora ela se lembrava de tudo, mas estava sozinha em seu mundo de sombras. Sem ninguém para temer, para odiar, para desejar. Ela descobriu a tristeza, a solidão, o desespero.

            A menina então chorou lágrimas escuras e implorou para as criaturas invisíveis que trouxessem suas irmãs de volta. Mas as criaturas invisíveis não lhe responderam mais. Contudo, quando suas lágrimas tocaram ao chão uma nova flor nasceu, uma flor escura que cresceu mais que as outras, cresceu até se transformar numa grande árvore.

            Quando a menina comeu do primeiro fruto dessa árvore, sonhou com outra vida, com outra menina nascida escrava, que trabalhou até morrer numa fazenda perto de um castelo, um castelo que ela sonhou conhecer, mas morreu sem nunca entrar.

Cada fruta que nascia na árvore contava a estória de uma vida, do início ao fim, e ao final de cada estória a menina deixava de ser menina e se tornava uma mistura dela, e da vida que ela tinha consumido. Ela passou a ser todos os medos, todos os ódios, todos os desejos e todas as tristezas de todos os que morriam em Morserus. Seu corpo cresceu e se tornou mais que um conjunto de aranhas, se tornou um novo e único ser. Nascia assim a Rainha das Sombras.

            A árvore nunca parou de crescer; com o tempo, se transformou na cidade de Expesdomus. A Rainha teve três filhas, três princesas, a princesa de azul, a princesa de sangue e a princesa de ouro.

Com o nascimento das princesas, a Rainha entendeu que seu trono estava ameaçado, pois a princesa azul lhe atacaria por medo, a princesa de sangue lhe mataria por ódio e a princesa de ouro lhe trairia por cobiça. Sem ter nenhum poder para se defender, a Rainha aceitou sua morte, e pela primeira em toda sua existência encontrou paz na ideia de que poderia escapar da prisão que tinha construído ao matar suas irmãs e comer da grande árvore.

Um dia, enquanto a Rainha dormia, a princesa de sangue cotou-lhe a garganta e comeu de seu corpo. Mas a Rainha não escapou para a escuridão eterna pois, ao ser devorada, suas memórias se tornaram as memórias da Princesa de Sangue. Pela primeira vez a princesa pôde ver além de seu ódio; ela sentiu o medo, o desejo e o inevitável desespero. Ela cresceu e se tornou a nova rainha das sombras; entretanto, como tinha a mesma consciência da rainha antiga, achava que era ela.

Anos depois, a Princesa de Ouro ajudou a Rainha a pular da torre mais alta de Exspesdomus, onde seu cadáver não pudesse ser encontrado e devorado, mas a Princesa comeu dos frutos da grande árvore e, novamente, as memórias de sofrimento e desespero tomaram o lugar dos sonhos de desejo e poder. Novamente renascia a Rainha das Sombras.

Nada mudava. Uma princesa matava a rainha apenas para se tornar quem matou, e depois tinha novas filhas que tornavam o lugar das princesas que se tornavam a rainha. Mas as novas princesas não se lembravam da futilidade de seu erro. Em sua ignorância o repetiam o ciclo em perpetuidade.

Esses eram os quatro segredos de Expesdomus, que todos os caminhos dão sempre no mesmo lugar. Não existe fuga, não existe vitória, não existe satisfação, tudo o que existe é o sofrimento eterno de entender que apenas o desespero e real.

Olhando para o espelho, pela primeira vez pude ver além do rosto assustador da Rainha das Sombras. Eu pude ver sua dor, pude ver a minha. Eu conhecia o sentimento que ela descrevia, eu vivi toda uma vida com dele. Mas em sua estória, em seus jardins, as flores nunca se alimentaram de amor, a Rainha não sabe o que é amor. Eu sei, eu senti, eu busco. O amor é a luz que me protege da escuridão que me encobre. A Rainha está errada, existe uma escapatória, eu queria dizer isso para ela, eu queria confortá-la, lhe explicar o significado de amar.

Mas ela sabia tudo que eu tinha para dizer. Que minhas estórias, como todas as estórias, já haviam sido escritas. Que ela podia ver o meu fim, que eu estava caminhando ao encontro desse fim. Primeiro, a Rainha me disse que as flores não se alimentavam de amor porque o amor não era real. O que existe é apenas um vazio que tentamos tapar com mentiras que contamos a nós mesmos. Que meu amor por Jokua era esse vazio. Meu amor por ele não era pelo que eu amava nele, meu amor por ele era justamente o contrário, era o que eu queria tirar dele e colocar em mim. Por isso que eu o idolatrava, eu queria ele grande, maior que eu, melhor que eu, porque apenas assim ele seria grande o suficiente para tapar o abismo que exista em mim.

No reflexo do espelho, névoas cobriram o rosto da Rainha, e quando as névoas se afastaram eu me vi dentro do espelho, chorando, ainda um bebê. Eu, de fraldas, com meu mundo abalado pela ausência de uma boneca. Eu gritava, batia no chão, outros brinquedos me eram dados, mas nenhum servia, apenas a boneca podia acalentar a minha dor. Até que minha mãe me deu a boneca. Eu sorri, parei de chorar, abracei forte o objeto do meu querer. Mas logo em seguida eu deixei a boneca de lado e engatinhei para fora do reflexo no espelho. Outra imagem se formou. Eu, novamente chorando, mas chorando agora por meu pai. Eu chorei aos dez anos, e me vi chorando várias noites no mesmo quarto e na mesma cama, apenas os anos mudavam em meu rosto. Depois eu me vi numa festa de aniversário, brincando. Enquanto meu Pai se sentava sozinho olhando para mim, eu o ignorava. Depois o espelho me mostrou entrando no trem, pela segunda vez eu vi meu pai chorando.

Eu entendi, ela queria dizer que tudo que eu quis, eu tive, e tudo que eu tive eu não quis mais. Eu falei que agora seria diferente, que agora seria verdadeiro.

A Rainha, sorrindo, me contou sua profecia de sombras. Que eu seria a primeira de suas filhas a enxergar que nossos desejos são mentiras, que não existe nada que pode tapar o vazio que existe dentro de nós, nada que possa iluminar nossas sombras, e que o brilho do ouro não era luz. Que eu voltaria para essa casa, para essa cadeira, para esse diário, e que eu escreveria que minha vida tinha sido uma mentira, e que eu choraria lágrimas de escuridão. Que depois de chorar eu pensaria em fugir, mas que não fugiria. Que eu estava condenada a viver o resto dos meus dias nessa casa. Que na morte da minha esperança eu renasceria e me tornaria um ser maior.

Eu seria a primeira Rainha de Morserus, plantaria a primeira árvore, levaria as sombras que eu carregava no vazio do meu peito e as usaria para encobrir todo o mundo.

“Por quê?”, eu perguntei. “Qual o propósito da infelicidade, e por que eu dividiria a minha com o mundo?” Eu nunca vou esquecer suas palavras.

“Porque enquanto existir vida, o sofrimento também vai existir. Enquanto o sofrimento existir, eu vou existir na minha corte de trevas, reinando meu mundo de sombras. Do maldito abismo viemos todos, e apenas quando voltarmos ao abismo nós encontraremos paz.”

Eu tremi ao contemplar o sinistro plano da Rainha, ela queria nos salvar, mas sua visão de salvação incluía o suicídio coletivo de todos os seres conscientes.

O amor é minha única escapatória

Hoje eu reencontrei Jokua, num baile no castelo do Paramor da nossa Linhagem. Eu era a fêmea mais bela, ou eu me senti como a mais bela quando eu entrei no salão. Todos pararam para me admirar, em toda minha vida eu nunca soube o que era ser desejada e como possuir um brilho que todos querem ter. As pessoas com quem eu conversava sorriam e pareciam estar felizes apenas por terem uma fração da minha atenção. Quando Jokua olhou nos meus olhos, eu vi seu medo, sua admiração, seu amor. No corpo de Karol eu conquistei sem esforço o que Adell nunca poderia ter.

Isso deveria me fazer feliz, mas as palavras da Rainha ainda encobriam minha mente. Poderia ser verdade que meu amor por Jokua não era real? O que seria de mim sem a ideia desse amor que por tanto tempo me sustentou?

Jokua não teve coragem de me chamar para dançar, não era um tabu, mas era extremamente raro um colar de Ouro dançar com um colar de Prata. Mas eu não me importava com costumes, eu sorri e lhe estendi a mão, ele sorriu inseguro, mas pegou minha mão.

Nós dançamos e em nosso dançar roubamos a noite. Era nossa estória de amor que era contada sem que nenhuma palavra fosse necessária, todos abriram caminho, ninguém ousava se aproximar de nós. Sem perceber, nós tomamos o centro do salão, tomamos a atenção de todos, e naquele breve momento, todo amor que trasbordava em meu peito invadia e ostentava aqueles que se consideraram um dia ricos, mas que agora se encontravam pobres na ausência de um amor como o nosso amor.

Ninguém compreende esse sentimento até encontra-lo, e agora que eu o tinha, eu iria ensinar a Rainha das Sombras o quanto ela estava errada. Eu iria mostrar para ela que o amor é real, e que todas as dores no mundo são apenas a ausência desse amor. Temos medo quando não somos amados, odiamos quando não sabemos amar, e desejamos quando queremos comprar a felicidade de amar, mas o amor não pode ser vendido, não pode ser temido, não pode ser combatido. Apenas quando nos entregamos ao amor encontramos nosso propósito de ser. No fundo eu sempre soube disso, eu sempre busquei por isso, eu acredito que todos buscam pela mesma luz, eles só não sabem que essa luz é o amor, e toda escuridão do mundo vem da ausência desse sentimento.

Jokua me roubou um beijo antes de partirmos, ele implorou que eu o encontrasse amanhã. Tudo que eu sonhei durante todo minha vida está acontecendo, eu mal posso acreditar.

A Rainha estava errada, Jokua me ama

Hoje Jokua proclamou seu amor por mim, de joelhos ele falou que nunca encontrou ninguém igual a mim, que não existia beleza igual, mas que não era com seus olhos que ele me enxergava, que ele via apenas o meu coração com o bater do seu, que durante toda sua vida ele esperou por mim, que eu existiria para sempre dentro dele, e que seu amor por mim seria eterno, mas que ele sabia que não era digno de mim, que ninguém era digno de mim, que o mundo me fez perfeita, no material da forma, e no imaterial da minha alma.

Ele queria saber se eu encontrava nele uma fração do amor que eu despertei nele. E que se eu dissesse que sim, que ele dedicaria sua vida para se tornar a pessoa que fosse digna de viver ao meu lado, que ele provaria ao mundo que ele merecia ser amado por uma deusa.

Amor é tudo que eu sinto, amor é tudo sobre o que falamos, amor também é o que fizemos inúmeras vezes, como fizemos naquela noite de chuva. Mas agora não existem mais chuvas, o sol brilha no céu, e o dia seguinte onde ele me abandona nunca chega. Tudo é ainda mais lindo do que eu imaginei que poderia ser, eu disse sim a esse amor, eu disse sim a Jokua.

A Rainha estava errada, eu amo Jokua

Hoje eu termino de escrever esse diário. Hoje é meu último dia nessa estranha casa de sombras. Meu novo Pai não parece se incomodar com minha futura ausência, ele acredita que tudo faz parte do plano da Rainha das Sombras. Mas ele não sabe de nada, não sabe sobre o plano dela de matar o mundo, não sabe que ela nunca mais me visitou nos espelhos, não sabe sobre sua profecia de sombras.

A Rainha está errada, o amor é real, e se o amor é real então não existem motivos para matar o mundo. Eu vou provar para ela que esperança não é uma mentira e que seu desespero não é uma verdade. Amanhã eu me caso com Jokua, amanhã minha verdadeira vida se inicia.

Eu não vou levar esse diário, ele pertence a esse mundo estranho. Ficam também minhas aranhas. Elas dormem escondidas entre as paredes, à noite eu sonho com elas caçando insetos, mas no resto do tempo elas são apenas uma lembrança de um pesadelo do qual eu finalmente acordei. A única aranha que vai comigo é a que está fundida a minha coxa, mas ela mal pode ser vista agora, Jokua nunca a notou em todas as vezes em que me viu nua. Às vezes até eu consigo esquecer que ela está ali, às vezes eu também me esqueço de Adell, de sua triste vida, um dia eu vou me esquecer de Exspesdomus, esquecer da Rainha e de sua profecia.

Amanhã eu me torno definitivamente Karol. Amanhã eu começo minha nova vida feliz!

Eu não tenho mais nada para escrever, talvez apenas que eu amo Jokua, e nada nesse mundo tem o poder de mudar esse amor.

Quem quer que encontre esse diário um dia, nessa casa de mentiras, saiba que eu venci, saiba que todos podem vencer e que amor é o nosso guia.

Adeus sombras. Bem-vinda seja a luz.

Lágrimas de Escuridão

A Rainha estava certa, em tudo. Eu acabei de chorar lágrimas negras, lágrimas que ao correr por meus lábios revelaram o mesmo gosto do sangue negro que me transportou para Exspesdomus.

Eu chorei imóvel como uma estátua, eu não possuía mais meu corpo, nem o corpo de minhas aranhas, mas ainda podia ver com seus olhos. Eu vi elas saindo de suas frestas, eu vi elas escalando minhas pernas, eu vi elas lambendo as lágrimas escuras do meu rosto. Gota por gota, elas coletaram tudo, encheram um pequeno casulo de teias, quando a última aranha se escondeu, eu pude voltar a me mover.

Como eu pude ser tão estúpida? Tudo fazia parte da profecia de sombras. Como eu pude acreditar nas mentiras que eu mesma criei? Meu amor por Jokua não morreu, meu amor por ele nunca existiu. Ele não era o príncipe dos meus sonhos, era apenas um Cão romântico e fútil, tão romântico e fútil como eu sempre fui. Seu amor por mim, sua obsessão por mim, tinha em sua essência os mesmos elementos que minha obsessão por ele. Jokua amava minha beleza, meu colar de Hierarquia, meu prestígio social. Nunca é uma questão do que temos, mas sempre do que deixamos de ter. Ele proclamou amar a minha alma, como eu proclamei amar a dele, mas ele amava minha beleza, meu colar, meu status. Tudo que ele tinha, eu tinha mais. O amor que ele me ofereceu não era o amor que ele tinha por mim, o amor que ele me ofereceu era o amor que ele não tinha por si próprio. Exatamente o mesmo amor que Adell ofereceu a ele.

Beleza, riqueza e poder são as moedas do comércio sutil de autoestima. Eu via em Jokua alguém melhor que eu. Enquanto eu acreditei nele como sendo meu superior, eu me permiti amá-lo. Por ele me achar superior, ele me amou também. Mas o amor do desejo não é amor.

Eu sou invisível para ele. Eu, não meu corpo, não meu colar, não minha nova família. Eu, o ser que existe dentro de tudo isso, o mesmo ser que existia quando nos encontramos na chuva. Ele mentiu quando falou que podia ver quem eu sou, por que se isso fosse verdade ele teria amado Adell, amado o ser dentro do corpo dela. Eu nunca fui o meu rosto arredondado, o bronze do meu colar, a ausência de amigos. Eu não sou o que existe do lado de fora, eu sou o que está por dentro.

Mas é claro que existem dois lados dessa moeda. Nos cinco anos em que estivemos juntos, eu aprendi que eu também nunca o amei. Não temos nada em comum. Ele gosta de caçar e falar sobre aventuras, fazer viagens perigosas e escalar montanhas, era justamente isso que uma vez eu achei lindo e romântico, que provou para mim que ele era diferente de todos os outros, mas que agora me mostrava outra estória, outro significado. Ele está fugindo, fugindo do seu vazio como eu fugi do meu, ele apenas joga outras coisas dentro do seu, e cada vez mais ele tem que ir mais longe, caçar um animal mais perigoso, escalar uma montanha mais alta, por que um dia isso lhe deu brilho, mas esse brilho ilumina cada vez menos, e se apaga cada vez mais rápido.

Por cinco anos eu fingi junto com ele. Nós viajamos, conhecemos o mundo, fomos a inúmeras festas, durante esses anos eu me tornei tudo que eu sonhei ser, eu me tornei a filha preferida, a esposa amada, a mulher mais desejada, mais admirada, mais invejada. Todos queriam ter a minha vida. Todos, menos eu. Para mim, tudo isso me levava de volta à Torre da Alegria em Exspesdomus. Nós somos os pobres ricos. E se quando eu vejo uma criança com fome, eu lhe dou um pão, hoje quando vejo um rico, eu resisto em lhe dar um abraço. Pois a fome dos ricos é ainda mais grave que a fome dos pobres. Os pobres saciam a sua com alimento, enquanto que nós temos fome de luz, e não encontramos no brilho do ouro luz suficiente para nos alimentar.

A Rainha estava certa. Tudo que encontramos na torre mais alta é a solidão. O desespero de não ter mais para onde subir, e quando isso acontece, tudo que resta é olhar para baixo e desejar a queda.

“O brilho de Ouro não é Luz.”

As palavras da Rainha nunca saíram da minha mente, como sua profecia que eu me tornaria ela um dia, que eu conheceria a verdade e que essa verdade me levaria a voltar para essa casa, para esse diário, e escrever que não existe escapatória para a dor, que sua profecia estava certa.

Jokua chorou quando eu o abandonei. Ele me falou tudo que eu um dia quis falar para ele, que eu o amava, que ninguém me amaria mais que ele, que eu estava com medo de ser feliz ao seu lado. Eu quase falei que não existe amor, que o que ele chamava de amor nada mais era que o vazio que ele achava que eu podia preencher, mas ninguém tem esse poder de encher o vazio do outro. Que o meu brilho não é luz. Em vez disso eu falei que eu não o amava, que nunca o havia amado. Era melhor assim, porque na sua tristeza ainda existe a ilusão do amor. E enquanto a ilusão existir, a esperança ainda vai estar ao seu lado.

Eu já não tenho a minha ilusão.  E sem ela não tenho nada. Termino esse diário dizendo que você ganhou, Rainha das Sombras. Eu desisto de ser feliz, eu aceito sentir nada, viver nada, ser nada. Sua profecia estava certa, e eu serei para sempre a sua escrava, viveremos juntas na mesma escuridão.

Profecias e escolhas

Em livros de estória, profecias são sempre realizadas, mesmo sem nunca explicar quem é que cria as profecias e que poder elas têm sobre nossa vida e nossas escolhas. A Rainha das Sombras profetizou que meu amor era uma mentira, e que eu nunca mais abandonaria essa casa. E pelos seis meses eu acreditei em sua profecia, essa profecia se tornou a minha realidade. Mas olhando para a pessoa que eu fui, não foi uma profecia que me roubou o amor, foram as minhas escolhas e minhas crenças que me levaram à estrada errada.

Eu acreditei que eu não merecia ser amada. Ninguém nunca me falou que eu não merecia ser amada, eu escolhi acreditar nisso, essa escolha guiou todos os meus passos, durante toda a minha vida. Todas as vezes que me ofereceram amor, eu me afastei, porque eu não acreditei no amor que me era dado. Todas as vezes que me recusaram amor, eu me aproximei, porque queria provar para mim mesma que eu merecia ser amada. E quanto mais eu busquei esse amor fora de mim, mais eu me afastei de mim mesma, mais eu me perdi, até que me encobri de sombras, e tudo que me restou para querer, era o querer do silêncio eterno da morte.

E dentro dessa escuridão eu finalmente encontrei a luz, não por inteligência ou sabedoria, mas sim por estar cansada de sofrer. Eu me cansei do medo, eu me cansei da raiva, eu me cansei de querer, eu me cansei até mesmo de não ter mais vontade de viver.

Eu sempre soube o segredo. O segredo sempre foi o amor. Ele existe, se eu nunca o encontrei é porque eu o procurei em todos os lugares errados. O amor não está fora de mim, nunca esteve. Eu não preciso da permissão de ninguém para amar, para me amar. Não é no amor que nós e dado que encontramos nossa salvação, é no amor que damos que somos salvos. Tudo que quis durante toda a minha vida, eu nunca dei, nem a mim mesma. Agora é a hora de recomeçar.

Eu amo escrever, então eu começo por aqui, nessas palavras, nesse diário. Ao fazer o que eu amo, eu me alimento do que dou, do que faço. Eu também vou procurar meu Pai, não para puni-lo pelo amor que eu achei que ele me devia, mas porque eu o amo. Eu quero rever a minha mãe, quero voltar para a Academia, quero encontrar o meu lugar nesse mundo. Mas dessa vez eu vou seguir meu coração e nada mais. Dessa vez eu vou amar sem condições, e se eu não for amada de volta, eu vou amar mesmo assim, por que o amor é o único sentimento que tem o poder de encher o vazio que carregamos dentro de nós. Todos o resto são apenas sombras, que nada mais são que ausência de amar.

Esse diário termina aqui, mas eu vou começar outro, um sobre alegria e esperança, um sobre o que eu posso fazer para o mundo, e não o que o mundo deve fazer por mim.

Não existem profecias, porque nós temos escolhas. Nós vamos na direção em que caminhamos, e se não gostamos de onde estamos, então devemos caminhar para outro lugar.

Eu termino, então, escrevendo para você, Rainha das Sombras, que diz pertencer ao desespero, mas que sonha com um mundo sem dor e sofrimento. Não seria seu sonho sua esperança? Não seria sua salvação na morte a mesma ilusão que minha salvação em Jokua?

Mas se tudo que você me falou for verdade, então nossa consciência é imortal. Ela vai de Cão para flor, de Flor para vespas, de vespas para aranhas, e de aranhas de volta para as espécies de Morserus. Nossos corpos morrem, mas nossa consciência prevalece, nossa consciência nos define. Se a alimentamos de medo, vivemos no medo; se a alimentamos de ódio, vivemos no ódio; se a alimentamos de desejo, vivemos no desejo; se a alimentamos de tristeza, vivemos na tristeza.

O que acontece, então, se nós a alimentamos de amor?

O amor existe, e é movida por ele que escrevo cada palavra para você, aqui. Seu sofrimento não é uma condição, seu sofrimento, como o meu, é uma escolha; uma escolha que um dia fingimos não ter feito. Sua profecia não tem poder sobre mim, como não tem poder sobre você. Eu escolho sair dessa casa. Eu escolho viver outra vida. Eu escolho amar sem a condição de ser amada.

Podemos escolher a luz ou, pelo menos, podemos tentar.

Até um dia, Rainha das Sombras. Obrigada por me salvar.

FIM?

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  1. “Nossa consciência nos define; o amor nunca esteve fora de mim; o amor que oferecemos é o que nos salva; não preciso da autorização de ninguém para amar; eu posso sempre escolher a Luz”… São algumas pérolas em que o autor convida o leitor a um profundo mergulho no vale das sombras, aquele lugar sombrio no fundo de cada um de nós e que tanto nos ilude sobre quem somos e o que verdadeiramente queremos. Mas ele não abandona o leitor e após o essencial processo de autoconhecimento da protagonista, ele emerge para a luz ao perceber que estava aprisionada no cárcere sem grades de seus sentimentos mais densos, do personagem que criou para viver a sua vida e de suas escolhas equivocadas. Assim como a lótus, a mais bela das flores, nasce no lodo, a personagem usa as próprias sombras para renascer e alterar a rota da sua viagem rumo ao sol.
    Impossível o leitor permanecer impassível, continuar o mesmo, não questionar valores, conceitos e posturas diante do espelho. Imperdível!!!!!!!

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