Exspesdomus

Zemial continuava a olhar pela janela do orfanato. Todos os dias a mesma paisagem. O longo caminho de pedras. As costas da estátua de Jinmute, o Leão Branco. A grama verde e bem cuidada. As grades do portão. Os Gatos passando de um lado a outro da rua. Depois de sete anos olhando pela mesma janela, ele sabia que sua mãe nunca mais voltaria para buscá-lo. Mesmo assim, todos os dias ele sentava na ponta de sua cama no dormitório e olhava pela janela.

— Você não vai vir a cafeteria? — perguntou o único Coelho numa escola de Gatos, numa cidade de Gatos, numa nação de Gatos.

— Por favor, me deixa quieto — Zemial falou sem olhar para trás, ele não queria ser rude, mas ao mesmo tempo sabia que se não fosse rude, o Coelho não entenderia que eles eram diferentes. Não por causa de suas raças, e sim por que Zemial não se considerava um órfão. Ao contrário de todos ali, ele não pertencia a este lugar.

— Meu nome é …

— Eu não quero saber seu nome, eu não quero saber sua estória, eu não quero ser seu amigo. O que eu quero é ficar quieto no meu canto — Zemial falou o mais gentil que pode.

O Coelho colocou sua mão no ombro de Zemial.

— Meu pai sempre me dizia, você não pode ter um dia bom com uma atitude ruim, nem um dia ruim com uma atitude boa. Se você sorrir, mesmo sem querer, você engana a tristeza – o Coelho falou abrindo um dentuço, mas amável sorriso branco.

Zemial se virou olhando o Coelho de cima a baixo. Ambos tinham a mesma idade, doze anos; usavam o mesmo uniforme azul escuro com golas altas e mangas compridas, e botas pretas, que escondiam a bainha de suas calças brancas. Zemial sorriu para o Coelho.

— Seu pai foi um sábio — o Coelho mostrou ainda mais dentes. — Alguma vez ele te disse qual é a única coisa mais triste que um órfão chorando?

— Não — o Coelho respondeu coçando a cabeça.

— Mais triste que um órfão chorando é um sorrindo — Zemial parou de sorrir e o Coelho também escondeu os dentes. — Não tem nada mais triste que alguém que não sabe o que é — Zemial lhe deu as costas e voltou a olhar pela janela.

Ele ouviu os passos indo embora e se arrependeu do que falou. Como era fácil magoar órfãos que estavam perpetuamente à procura de migalhas de afeto para jogar dentro do vazio em seus peitos. Não existia nada mais patético que querer ter algo que você não pode ter. Zemial sabia que não era diferente deles nesse ponto, ele não estaria sentado à janela se realmente fosse melhor que eles. Mas saber que ele era fraco e patético lhe dava um módico de autoestima, não o suficiente para sentir-se bem, mas o bastante para se sentir melhor que todos os outros. Ele pelo menos sabia quem ele era.

Todos os órfãos eram escravos da esperança. Zemial odiava esse sentimento mais que qualquer outro, e cada vez que ele sentava na sua janela, sabia que alimentava uma fantasia, como as crianças que sonhavam em ser adotadas. Mas a diferença é que algumas crianças eram adotadas, enquanto que ele estaria para sempre à sua janela esperando por algo que nunca aconteceria. Como era ridículo saber disso e mesmo assim estar sentado, atormentando sua consciência com fantasias de uma mãe arrependida lhe implorando por perdão, por amor. Nos dias bons ele sonhava dizer não e ela ia embora chorando, sozinha. Mas nos dias ruins, eles atravessavam juntos pelo portão, voltavam para sua antiga casa. Seus sonhos eram um abismo, onde ele jogava os pedaços perdidos dos seus dias solitários.

— Oi meu filho — ela falou despedaçando os pensamentos de sua mente.

Zemial tremia sem saber o que fazer, como ele não a viu chegar? Seus olhos púrpuras se encheram de lágrimas e ele esqueceu a janela, agora sua mente buscava a coragem para não chorar na frente dela.

— Eu disse, oi meu filho — falou a suave voz, que de alguma maneira estava, agora, ao seu lado.

— Eu ouvi Leelah — Zemial se levantou de sua cama e ficou de frente para sua mãe. — Você nunca tinha me chamado de filho ante — suas unhas entravam nas palmas de sua mão. A dor ajudava a manter a postura, ela não podia ver ele tremer.

— Eu sei — ela falou gentilmente. — Você prefere que eu te chame pelo seu nome?

Com um vestido amarelo sem mangas e com uma saia justa que cobria seus pés, ela parecia jovem demais para ser sua mãe, bela demais para ser uma mãe. Suas memórias dela pareciam agora mentiras. Como ele pôde pensar nela durante todos os seus dias e mesmo assim esquecer seu rosto?

Zemial não sabia o que dizer, todos os discursos feitos em sua mente durante anos agora pareciam tolices, somente uma pergunta existia: Você veio me levar embora? Mas essa pergunta não saía de sua boca.

— Não importa como você me chame — foi tudo que ele conseguiu dizer.

— Você deve estar confuso.

Zemial não respondeu, ele apenas olhava para ela. Como ela era linda. Com seu corpo alto e esbelto, com seu rosto em forma de diamante, seus pelos azuis escuros, seus penetrantes olhos cinzas que pareciam nunca piscar ou olhar outro lugar que não para ele. Que contraste, Zemial com seus pelos albinos e seus olhos do estranho púrpura. Na intensidade em que ela era bela ele era um estranho.

— Por que você voltou? — ele finalmente perguntou.

— Eu preciso da sua ajuda — ela respondeu sem emoção, como quem diz “olhe que dia bonito”.

Não era me perdoe ou eu te amo, mas era a verdade e a verdade é sempre algo assim, decepcionantemente previsível.

“Você vai me levar embora daqui?”, era o que Zemial queria dizer, mas seu orgulho apenas perguntou:

— Te ajudar em que?

— Eu quero que você vá num lugar para mim.

— Um lugar? Que lugar?

— Não importa o lugar.

— A gente vai juntos?

— Não. Eu nunca mais volto para lá. Nunca mais.

— E se eu for, o que eu faço lá?

— Primeiro você tem que me dizer se você vai me ajudar.

— O que acontece comigo depois de te ajudar?

A bela Gata de pelos azuis parecia não querer responder, ela fugiu com seus olhos fingindo olhar a sua volta. Eles estavam sozinhos no dormitório, duas fileiras de camas, oito janelas. Sem quadros ou qualquer outro tipo de decoração.

— Eu volto para cá, né? — Zemial perguntou sem conseguir esconder sua decepção. – Você consegue o que você quer e eu volto para o armário como um sapato velho, um que serve apenas para quando a rua está cheia de lama.

— Não seja melodramático Zemial.

— Você está viva, isso aqui é um orfanato, mas você está viva. Eu não deveria estar aqui! — Zemial se virou de costas para a mãe, escondendo as lágrimas que rolavam livres de seus olhos.

Sua mãe se aproximou e quase colocou a mão em seu ombro para confortá-lo, mas em vez disso se sentou na cama ao seu lado.

— Eu não sei se serve de consolo, mas não faz diferença você estar comigo ou não. O que você sente aqui, você ia sentir do meu lado também. Não é que eu seja uma pessoa má, eu simplesmente não tenho para dar o que você quer de mim. Nunca tive, nunca vou ter. Do meu lado ou longe de mim não muda nada. O meu vazio não pode encher o seu. Você está melhor aqui.

— Mentira! — Zemial se virou e olhou diretamente em seus olhos a apenas uma palma de distância de seu rosto. — É melhor para você. É só isso que te importa.

— Sim, é só isso que me importa. Mas também é a verdade.

— Eu não vou te ajudar nunca.

A bela Gata toca no rosto de seu filho.

— Você fez a escolha certa — ela então se levantou. — Adeus, meu filho.

Zemial assistiu sua mãe se afastar, implorando a si mesmo para ser forte, pensando que era o melhor.

“Ela não te ama, não ouse amar ela. Não ouse.”

— Espera — ele se ouviu falando. — Eu faço o que você quiser.

xXx

A Gata trancou a porta.

— Esse é o banheiro particular da diretora. A gente não deveria estar aqui – Zemial falou.

— Nós precisamos de água, muita água — a Gata falou olhando para a bela banheira de mármore preto com torneiras duradas. – Aqui é perfeito.

O banheiro era muito elegante, com ladrilhos escuros cobrindo as paredes e o chão. Um grande espelho ficava de frente à banheira, refletindo todo o aposento de cima à baixo, outro espelho menor ficava ao lado de uma pia em forma de aquário com peixes vivos nadando em seu interior. Tanto o vaso sanitário quanto o bidê tinham o mesmo estilo e material que a banheira.

A Gata fechou a janela e ascendeu uma das quatro lâmpadas de querosene em forma de tochas, espalhadas entre as quatro paredes. Depois abriu a torneira da banheira e deixou a água jorrar.

— Você disse que a gente ia à algum lugar.

— Eu disse que você ia — ela abriu sua bolsa de couro na grossa borda da banheira.

— Não tem lugar nenhum, não é? — Zemial perguntou.

Ela se virou para ele e colocou suas mãos sobre seus ombros.

— Você acredita em mágica?

— Eu não sou um imbecil.

— Claro que não, e você está certo em não acreditar. Não existe mágica. Tudo tem uma causa e um efeito, tudo tem uma explicação — ela leva as mãos de seu ombro aos botões de sua jaqueta, desabotoando um por vez. — Mas complexidade da realidade não tem como ser digerida pela mente nua de estudos – ela tira sua jaqueta e a joga ao chão, depois sua camisa, e começou a desabotoar sua calça. — Quando não podemos entender algo, o que vemos, então, vira para nós mágica — ela baixa sua calça e sua roupa de baixo. O deixando nu, senão pelas botas e meias que ela começou a tirar também.

— O que você está fazendo? — perguntou Zemial sem resistir.

— Eu não tenho como explicar o que acontece agora. Eu mesma não entendo direito — a última meia foi jogada junto as botas. Zemial estava completamente nu. — O que eu sei, e que você vai fazer uma viagem mágica.

Zemial já se sentia numa viagem mágica. Nos anos sentado à janela, esperando por sua mãe, muitos cenários foram imaginados, mas em nenhum deles ele estava nu com sua mãe, trancado dentro do banheiro da diretora.

Sua mãe tinha pego de sua bolsa uma caixa de madeira, e Zemial tentava imaginar o que poderia existir dentro da caixa, e qual a relevância que teria com sua bizarra situação. Mas sua curiosidade se transformou em receio quando ele viu as duas seringas de vidro dentro da caixa aberta.

Uma seringa tinha um líquido transparente, e a outra tinha um estranho líquido negro e viscoso, que parecia se mover dentro do vidro. Quando sua mãe levou a seringa negra para injetar em seu braço, Zemial se afastou dela.

— O que no abismo você acha que está fazendo? – ele perguntou.

— Você não tem que ter medo. Eu vou explicar o que eu posso. Essa líquido negro é a chave para você poder se transmutar para um novo corpo.

— Novo corpo?

— A morte é uma mentira, Zemial.

— O que?

— Esse é o grande segredo, existir é uma prisão sem escapatória. Nós morremos apenas para renascer dentro das dores que carregamos. Aqui nós sofremos, na cidade dos perdidos somos costurados dentro do nosso sofrer.

— Você enlouqueceu — Zemial falou ao dar seu último passo e sentir o frio da parede em suas costas nuas.

Sua mãe aproximou cautelosamente, como quem faz a um pássaro que pode voar para longe.

— Eu não louca, a vida é louca. Eu tive medo da morte até morrer. Agora nada me apavora mais que continuar viva.

— Você não está fazendo nenhum sentido.

— Entra na banheira.

— Não.

— Você prometeu me ajudar.

— Eu não vou te ajudar a me matar. É isso que você quer fazer, não é? É para isso que você voltou.

— Será que você não me ouviu? A morte é uma mentira! — ela pegou o braço de seu filho com força. – Eu preciso da sua ajuda — Zemial podia ver o desespero nos olhos de sua mãe. — Eu fiz um acordo com o guardião do jardim azul. Se você encontrar com ele, ele vai destruir o meu arbusto de flores — ela o puxou até a banheira. — Entra.

— Não.

— Por favor, eu te imploro, se você tem algum sentimento por mim entra na banheira.

— E o seu sentimento, cadê? Você me abandonou, você prometeu ao meu pai que você ia cuidar de mim e me largou aqui.

— Nem todas que têm filhos são mães.

— Me leva embora daqui. Eu quero voltar para casa.

— Entra na banheira e eu prometo que você vai voltar para lá.

— Com você, eu quero ficar com você.

— Eu não posso…

—Mente. Diz para mim que você me ama. Me faz acreditar que eu não sou incapaz de ser querido. Mente se não for verdade. Mente e eu deixo você fazer o que você quer.

— Eu não posso — ela soltou do braço do filho. — Vai embora, vai. Sua única chance de felicidade é correr de mim.

Zemial assiste sua mãe chorar sentada ao chão. Ele pensou em ir embora. Mas ir para onde? Se ele voltasse agora nem a janela lhe traria conforto. Sem ter onde ir, ele entrou na banheira.

Sua mãe parou de chorar e quase sorriu. Ou pelo menos ele quis acreditar que sim. Ela pegou a seringa negra e olhou em seus olhos buscando permissão para ir adiante. Zemial acenou que sim e ela injetou os vinte mililitros do visco escuro em braço.

— E agora? — Zemial perguntou se sentando na banheira, com metade de seu corpo imerso na água gelada.

A Gata tirou da bolsa um relógio de bolso, e o abriu.

— Agora esperamos.

— E o que vai acontecer?

— Quando você chegar na cidade você vai procurar um jardim azul. Não fale com ninguém que não use máscaras. Não coma nada, não beba nada. Encontre o jardim e o guardião vai encontrar você.

— E se nada disso acontecer, é se for só um sonho que você teve.

— Eu não fui a única a ir lá. Se for um sonho, outros estão sonhando a mesma coisa.

— E a seringa? O que tinha na seringa negra?

A Gata olhou para o relógio.

— A seringa negra é a chave de entrada, a outra é minha chave de saída. Só mais um minuto e sua impressão vai ser feita.

Zemial esperou o minuto passar. Parte de sua mente queria saber o que aconteceria no final do minuto, mas a outra parte da sua mente apenas queria saber uma coisa:

— Mãe, posso perguntar mais uma coisa?

— Você pode perguntar qualquer coisa.

— Por que você não me ama?

Ela tirou os olhos do relógio e olhou diretamente em seus olhos.

— Você realmente quer saber a verdade?

— Eu quero.

— Eu nunca te quis. Seu pai queria um filho e eu engravidei para não perder ele, porque eu tinha medo. Eu pensei que talvez com você no meu colo eu aprendesse a te amar. Mas eu não aprendi. Eu nunca amei ninguém que não fosse o meu pai, e o seu.

— E por que eu sou um albino?

Ela sorriu sem alegria.

— Não seja tolo. Não é culpa sua, não é nada que você fez.

— Então, por quê?

— Porque aqueles que não são amados quando jovens, nunca aprendem a amar quando adultos – ela olhou para o relógio. – Está na hora.

— Eu te amo mãe.

— Não, você ama a ideia de uma mãe. De alguém que cuide de você, alguém que te ame mais que a si próprio. Qualquer um que te dê isso vai ser seu grande amor. Mas na falta desse alguém, eu sirvo. Não existe amor entre nós. Você me esqueceria tão fácil quanto foi para mim esquecer de você.

— Isso não é verdade. Não diz isso.

— Só existe uma escapatória para gente como a gente — ela abraçou seu filho e sussurrou em seu ouvido. — Mate minhas flores, mate as suas se puder — ela o beijou na testa. — Adeus meu filho.

Com suas duas mãos ela empurrou Zemial para dentro d’água. Segurando firme em seus ombros ela o manteve submerso.

Zemial não lutou, ele meio que já esperava por isso. Sua estória, afinal, além dos anos em que seu pai estava vivo, sempre foi uma estória de decepções. Este parecia um final mais que apropriado.

Mas os intuitos de sua mente não eram compartilhados pelo instinto em suas veias. Quando seu peito começou a queimar pela falta de ar, o desespero se apossou de sua vontade e Zemial lutou com unhas e dentes para se levantar dos dois palmos de água que seriam sua sepultura.

Mas ele era apenas uma criança e ela uma adulta. Zemial nunca teve a menor das chances, e quando não aguentou mais segurar seu fôlego, engoliu água.

Ele engasgou-se. Tossiu. Espasmou. Afogou-se. Seus olhos púrpuras olhavam diretamente para ela. Mas olhavam sem ver.

Zemial estava morto.

xXx

Zemial acordou dentro da escuridão. Tentando se mover descobriu que seu corpo não lhe obedecia. Ele não podia sentir seus braços e pernas, nem mais nenhum anseio por ar. Ele tentou gritar, mas sua boca não estava mais lá.

Quando sua visão voltou ele ainda estava imerso na água da banheira. Mas era outra banheira, em outro banheiro, e sua mãe não estava mais lá. Sentindo suas mãos e pernas ele se apoiou na borda e se sentou.

Olhando a sua volta, o novo banheiro era todo branco, com pedras redondas de granito polido cobrindo do chão ao teto. Uma pequena fonte no centro, era cercada por bancos de madeira polida.

Ele se levantou e viu um monstro. Um ser coberto por uma membrana de líquido que servia de pele para um esqueleto branco com veias vermelhas e músculos à mostra. O monstro olhava em sua direção com seus esbugalhados olhos sem pálpebras. Olhos púrpuras tal qual os seus.

Antes de ver a borda do espelho, Zemial já sabia que o monstro era ele. Levantando sua mão na altura de seus olhos ele teve a assombrosa certeza. Sua mão não tinha carne, apenas água com veias e músculos cobrindo seus ossos.

O susto o fez dar dois passos para trás. Sem pele para sentir a borda da banheira ele caiu de costas no chão de granito.

Zemial se espatifou quebrando a maioria de seus ossos. Antes do escuro vir, ele viu sua água escorrendo junto com seu sangue, se espalhando à sua volta enquanto ele morria novamente.

xXx

Zemial acordou novamente dentro da banheira negra.

Ele se sentou e vomitou a água de seus pulmões, que ardiam. Respirando fundo ele olhou para suas mãos e com alívio descobriu que elas ainda estavam ali. Ele ainda tinha carne e pelos.

“Foi só um sonho”, ele pensou.

Quando ele olhou à procura de sua mãe, ela já estava sobre ele.

— Mãe — foi tudo que ele conseguiu falar antes dela o empurrar para dentro d’água novamente.

Novamente ele lutou, novamente perdeu, novamente se afogou…

Novamente ele morreu.

xXx

Quando ele acordou no banheiro branco, ele não se levantou. Ele tentou fechar os olhos, mas sem pálpebras ele foi forçado a ver. Ver sua mão crescendo dentro da película líquida. Primeiro veio seus ossos, depois suas veias e músculos. E desta vez, ao esperar mais, ele viu que sua pele também começava a se regenerar.

Quando suas unhas terminaram de se formar ele sentiu novamente a falta de ar. Só então ele se levantou de dentro da banheira, escalou sua borda e pisou no chão de granito. O mesmo chão no qual ele tinha se partido. O mesmo chão no qual seus pedaços partidos ainda estavam espalhados à sua frente.

Horrorizado ele viu seu crânio fraturado, um dos seus olhos tinham se soltado e rolado para a perna de um dos bancos de madeira. Zemial pegou um dos ossos, um dos seus ossos. Era estranho morrer, mas era mais estranho segurar o osso do seu fêmur em sua mão.

E num piscar de olhos seus pedaços se dissolveram na água. O osso em sua mão, o crânio no chão, até mesmo o olho perdido. Lá estava ele, nu e de pé em cima de uma grande poça d’água.

Mas haviam outras coisas estranhas para ele notar. O banheiro não era apenas um banheiro. Era grande demais, era familiar demais.

— Eu já estive aqui — ele falou para si mesmo quando lembrou do dia em que seu pai morreu. Em como ele correu pelos corredores do hospital e se escondeu dentro de um banheiro. Esse banheiro que ele estava agora.

Exatamente o mesmo banheiro, ele tinha seis anos naquele dia, e sua cabeça mal podia se ver no espelho, devido ao seu pequeno tamanho. Mas ele tinha crescido, mesmo assim sua cabeça continuava a alcançar o mesmo lugar de antes. De alguma forma, o banheiro tinha crescido junto com ele.

Mas não era apenas isso que estava errado, ao tocar no granito da pia, ele não sentia a textura da pedra. E a torneira que parecia ser de metal também não era de metal. Ele virou a torneira, a água jorrou, ele torceu a torneira e ela se quebrou na sua mão. Os pedaços de porcelana se esfarelando e mostrando dentro da cobertura com a cor de metal uma cor branca. E um odor açucarado com um fundo leve de algo podre.

E a única porta de saída deveria levar ele a um dos quartos luxuosos do hospital. Mas para sua surpresa, quando ele abriu a porta o dormitório do orfanato lhe esperava do outro lado.

As janelas do dormitório estavam fechadas e o aposento estava vazio. Zemial abriu o baú que ficava na base de sua cama. Dentro ele encontrou seus livros e seu uniforme extra, mas ao pegar seu uniforme, notou que apesar de ser idêntico, tinha um material estranho, era macio agora, com uma textura entre a seda e o plástico.

Ele pegou um dos seus livros, não abria e não era mais feito de papel, eram todos esculturas de cerâmica. Tal qual o baú e a estrutura de sua cama. Já seus lençóis e colchão eram feitos do mesmo material liso e plástico que seu uniforme, e tudo ali exalava a mesma fragrância adocicada.

— Alou — Zemial gritou.

Quando ninguém respondeu ele foi até a janela e a abriu. A mesma vista, o caminho de pedras, a estátua, o portão. Mas não existia o lado de fora, o que ele estava vendo era uma pintura feita num muro que bloqueava a janela a menos de um palmo de distância. Ele abriu todas as janelas e encontrou um muro pintado bloqueando cada uma delas.

Zemial tocou no muro, cerâmica como todo o resto.

— Onde eu estou? — ele falou para si mesmo enquanto andava de um lado ao outro tentando notar o que mais era diferente nessa versão de seu dormitório. Tudo era idêntico, até nos detalhes, como as pequenas placas no baú com o nome de cada criança. Foi quando ele lembrou que nunca tinha perguntado o nome do Coelho. Então ele foi até o baú dele ver qual era. Já esperando o que encontrou.

O baú do Coelho era o único com sua placa vazia.

Ele então vestiu seu uniforme e olhou para as portas de saída. O dormitório tinha duas, uma em cada estremo, as duas levavam ao mesmo corredor. Mas olhando para a porta pela qual tinha entrado, ele ainda avistava o banheiro branco. Então, ao se aproximar da segunda, ele tentou imaginar o que iria encontrar do outro lado.

Ao abrir ele encontrou a cafeteria. A cafeteria que ficava na segunda ala do primeiro andar. Quase dez minutos de caminhada, e agora com um passo ele estava lá.

A cafeteria estava deserta. Era estranho aquele lugar vazio. Aquele enorme lugar, grande o suficiente para alimentar duzentos alunos de uma vez, com suas quatro fileiras de grandes mesas.

Zemial caminhou descalço, seus pés tocando o tapete que deveria ser de junta, mas tinha a mesma suavidade do seu uniforme. Examinando as luminárias ele viu que não havia querosene nem pavios em nenhuma delas. Eles queimavam com um gás natural em seu lugar.

— Alou – Zemial gritou. — Tem alguém aqui? — silêncio.

As janelas da cafeteria estavam fechadas, e ao abrir uma delas ele encontrou outro muro com outra pintura, idêntica ao que a janela deveria mostrar.

Haviam três portas ali, a que ele tinha entrado, a porta dupla que levava ao pátio, e a porta escrita “Somente pessoal autorizado” que era onde ficavam o material de limpeza. Zemial abriu as portas duplas e encontrou outro muro, este com a pintura do pátio.

Ele se sentou numa das mesas. Sempre achou que odiava a cafeteria por ser cheia, mas agora, com ela vazia, o sentimento ainda estava lá. Se a morte era uma mentira, seria isso a sua volta a verdade? Por um segundo ele imaginou o que seria viver eternamente no falso orfanato. No segundo seguinte ele pegou sua cadeira e a espatifou contra o muro da porta.

A cadeira se quebrou em milhares de pedaços de cerâmica. O muro apenas rachou, mas na segunda cadeira que ele arremessou, ambos se despedaçaram. Atrás do muro… outro muro.

O segundo muro, contudo, era de madeira e não cerâmica. Era uma madeira viva, tal qual a de um tronco de uma árvore, mas sem nenhuma curva.

— E atrás de você, o que tem? — ele perguntou para o muro antes de pegar outra cadeira.

Quebrar o segundo muro foi muito mais difícil que o primeiro, a madeira era muito mais resistente que as cadeiras de cerâmica. Mas eram muitas cadeiras. Primeiro a madeira rachou, depois ela sangrou uma viscosa polpa negra, com um cheiro forte de podridão e açúcar. O mesmo cheiro de antes, mas infinitamente mais intenso. Colocando suas mãos na rachadura Zemial quebrou a madeira e fez uma abertura no muro.

Quando a luz invadiu o escuro da abertura ele viu coisas negras de várias pernas rastejarem para dentro do escuro. Dentro do buraco apenas um vão negro.

Ele sabia que não era uma boa ideia, mas mesmo assim colocou sua cabeça dentro do buraco. A escuridão era plena, mas seus olhos de Gato conseguiam enxergar mesmo assim. Era um pequeno vão entre dois muros, ele podia ver o outro muro à sua frente. Abaixo até se perder de vista. Ele via raízes que ligavam os dois lados. Entre as raízes, grandes aranhas de oito pernas do tamanho de sua cabeça estavam imóveis. Na mais próxima ele podia ver cabelos brancos e antenas longas.

— Tome cuidado, meu filho — uma voz familiar falou.

Com o susto Zemial bateu com a cabeça na madeira. Ele se virou para confrontar a voz.

— Quem e você? — ele perguntou ao ver uma figura envolta num tecido negro e elástico que o cobria totalmente dos pés à cabeça. Em seu rosto uma máscara de porcelana branca com o semblante de um Gato. — Eu conheço essa máscara… é o rosto do meu…

— Seu pai — falou a figura escura. — Sou eu, meu filho.

O tamanho da figura era correspondente ao tamanho do seu pai, e até os gestos eram similares. Mas Zemial lembrou que tudo ali era similar ao mundo real.

— Meu pai está morto.

— A morte é uma mentira — a figura respondeu.

— Quem ou o que é você?

— Venha comigo. Você deve estar ansioso para voltar para casa — a figura com o colante negro foi até a porta com a placa “Somente pessoal autorizado” e se virou antes de passar por ela. — Não tenha medo, você está seguro comigo.

Zemial olhou para dentro da porta, era sua antiga sala do outro lado. Parecia imprudente seguir adiante, mas olhando para a cafeteria vazia ele sentiu como se não tivesse escolha.

— Feche a porta, por favor — falou a figura tão logo ele entrou. Zemial relutantemente obedeceu. — Não é bom estar em casa, meu filho? Como eu senti a sua falta todos esses anos.

Zemial tentou conter sua emoção ao ver a sala onde ele foi criado. A parede de tijolos cobertas com relógios no formato de casas de madeira. Ele lembrava dos relógios, ao bater meio-dia, pequenos bonecos de madeira saiam. Lenhadores em uns, pássaros em outros.

— Quem fez esses relógios? — Zemial perguntou.

— Ora meu filho, você sabe muito bem que eu crio cada um deles — o estranho falou ao se sentar numa cadeira que parecia ser de couro.

— Meu pai era um carpinteiro para a Casa Mercante de Ligno. Ele trabalhava com madeira — Zemial chegou perto de um dos relógios. – São feitos de madeira algum desses relógios?

— Não. A Rainha não me permite trabalhar com madeira. Mas fui eu quem fez cada um deles. Como eu fiz sua escola e seu quarto, e todos os pedaços do mundo velho que você me mandou.

— Do que você está falando, eu não mandei nada — Zemial se virou para a figura. — E quem é a Rainha?

— A rainha construiu essa cidade. Nós ajudamos ela, nós construímos e decoramos todos os quartos. Ela nos permite ver onde você vive. Assim eu posso construir seu novo lar, igual ao seu antigo. Nós não temos muitos materiais aqui. Mas o que temos serve para construir qualquer coisa.

— E o banheiro do hospital? Eu nunca vivi lá.

— Você ainda vive lá meu filho.

— Quem é você?

— Você sabe quem eu sou.

— Meu pai está morto.

— Ninguém morre, a primeira vida termina, a segunda vida começa.

— Tira sua máscara. Se você é meu pai eu quero ver seu rosto.

— O corpo que você conheceu se perdeu. Na segunda vida  ganhamos um segundo corpo.

— Meu corpo não mudou.

— Seu corpo apodrece no mundo acima. Se você tem a mesma forma aqui é por que você bebeu do sangue negro.

Zemial se lembrou da líquido negro da seringa, do líquido negro que saía do caule da madeira.

— Não, isso não faz o menor sentindo. E só um sonho. Nada disso e real — ele falou.

— Sua mãe me disse o mesmo. Mas ela chorava e gritava também. Você é diferente. Você nunca teve medo de nada. Ainda não tem. Eu tenho muito orgulho de você, meu filho.

— Para de me chamar de filho. Você não é meu pai.

— Me pergunte qualquer coisa se você não acredita em mim.

— Eu estou sonhando, não adianta perguntar nada. Você vai saber tudo que eu sei.

— Então me pergunte algo que você não saiba.

Zemial olhou para o quadro sobre a lareira, uma pintura dos três juntos. Na sua memória tinha sido um dia feliz, mas ali ele não estava sorrindo. Nenhum dos três estavam.

– Eu nunca soube qual foi a doença que matou meu pai. Eu não tive a coragem de perguntar e ninguém se importou em me dizer – ele perguntou olhando sem tirar seus olhos da pintura.

— Eles chamam da morte em preto e branco. Eu contraí do fungo que, às vezes, se esconde na madeira negra que eu importei de Affica.

— Por que se chama morte preto e branco?

— Porque o primeiro sintoma é a perda da cor. A doença destrói seus sentidos um por um. Pequenas coisas no início, depois das cores eu não conseguia mais escutar o som de música. Depois eu perdi o gosto para o sal. Mas pequenas perdas, quando contínuas, se tornam grandes perdas. A maioria se suícida antes de perder um único sentido por completo, mas eu não. Eu não podia morrer e deixar vocês sozinhos — a figura se calou por alguns segundos. — Eu não podia deixar, mas eu deixei.

— Isso não prova nada — Zemial falou tentando conter as lágrimas. — Eu posso estar sonhado isso tudo.

— Que seja um sonho então, meu filho. Um no qual nunca mais acordamos.

— A mãe falou para achar um jardim azul. Eu vou procurar por ele. Só no caso de não ser um sonho.

— Por favor, fica mais um pouco. É tão bom te ver novamente. Eu tenho tantas coisas para falar. Eu esperei uma eternidade para poder fazer uma única pergunta.

— Que pergunta?

— Você me perdoa?

— Você não me fez mal nenhum.

— Mas eu fiz. Eu sentei aqui nessa cadeira e esperei minha morte chegar, mesmo sabendo que quando eu morresse eu iria destruir a sua vida.

— É aí que você se engana. Meu pai nunca destruiu a minha vida. Ele foi o único que me amou.

— Mas eu morri. E deixei vocês sozinhos.

— Não foi culpa sua. Quer dizer, não foi culpa dele. Meu pai não queria morrer. Ele não queria me deixar.

— Mas eu te deixei. Eu vi a sombra cair sobre nós e eu deixei ela me levar. Eu me sentei e esperei. Eu abandonei vocês. Eu abandonei você, meu filho.

— Não, você não me abandonou, você morreu. Não é sua culpa. Nunca foi sua culpa.

— Então por que eu ainda estou aqui? Na mesma sala, ainda esperando, ainda sofrendo pela dor que eu causei. Se não é minha culpa, por que eu estou aqui, meu filho?

— Eu não sei.

— Me perdoa. Diz que me perdoa, por favor. Eu tenho que ouvir você dizer que me perdoa.

— Eu te perdoo.

— De verdade?

Zemial abraça a figura negra. Um abraço que ele sonhou dar, um abraço que ele precisava dar. Não importava se era verdade ou não. Seu pai estava ali, e isso era tudo que importava.

— Eu te perdoo, pai — Zemial falou olhando nos olhos da figura.

Mas a figura não tinha olhos, apenas um vazio escuro dentro dos vãos da máscara. Porém algo saía desse escuro. Antenas de insetos, dezenas de pequenas e longas antenas se esticavam na direção de Zemial, quase tocando em seu rosto.

Zemial pulou para trás caindo no chão.

— O que é você? O que, no nome do abismo, é você?

— Por favor, não me deixe sozinho novamente. Eu tenho tanta coisa que eu quero lhe dizer, meu filho.

— Eu não sou seu filho.

— Por favor, me deixe fazer só uma pergunta então.

— O que?

— Você me perdoa?

— Você já me perguntou isso.

— Eu perguntei?

Zemial se levantou e começou a caminhar para trás.

— Não vai embora, sua mãe vai estar aqui em breve — a figura falou esticando um braço. — Nós podemos ser uma família novamente, como no quadro. Não seria maravilhoso ter uma segunda chance? Todos nós, eternamente juntos?

— Seria.

— Eu posso te fazer uma pergunta?

Zemial virou as costas e foi embora.

Ele abriu a porta da cozinha pensando em sair pela entrada dos fundos. Mas ao passar pela porta não havia uma cozinha, e sim seu antigo quarto. Ainda com seus brinquedos espalhados pelo chão, sua mesa de desenhar e sua cama. Tal qual no banheiro branco, tudo ali era maior que deveria ser.

Ele se sentou na cama sem saber o que fazer. Ele tinha sonhado por muito tempo em voltar para casa. Mas o sonho agora parecia um pesadelo. Um que ele não sabia como acordar.

Foi quando ele ouviu uma melodia de flauta. Um som que parecia estar tão longe que ele não tinha certeza se era real. Mesmo assim ele se levantou e procurou sua origem.

Ao se aproximar de seu armário o som aumentou. Ao abrir seu armário ele encontrou uma escada de serviço no lugar de roupas. Ele conhecia essa escada. Sem hesitar ele escalou até chegar ao topo.

A luz do sol cegou seus olhos. Um vento forte batia em seu rosto. Zemial estava ao ar livre. Ele andou cautelosamente até seus olhos se ajustarem a luz. Quando conseguiu ver, seus pés estavam na borda de uma queda. Ao seu lado ele viu o gargoyle. Idêntico ao gargoyle da cobertura do orfanato. Olhando ao seu redor ele finalmente descobriu onde ele estava.

Era uma cidade impossível de existir. Ele tinha sido criado em Dischel, a capital da nação de Troferos. Onde existiam as sete torres dos sete profetas. A torre central era a maior construção do mundo conhecido, a grande obra prima da Casa Mercante de Kamen. Todas as raças vinham ver o esplendor que eram essas torres. Mas elas não eram nada se comparadas a cidade que ele via agora. Eram prédios e casas sobre prédios e casas, todos com diferentes arquiteturas, com diferentes tamanhos e cores. Todos empilhados subindo até o céu. Eles subiam em forma de uma pirâmide feita de retalhos de inúmeras construções e civilizações. E o topo da cidade pirâmide não podia ser visto, pois se perdia dentro das nuvens cinzas que cobriam parte do céu.

Mas o redor da cidade que era a visão mais inacreditável de todas. Onde sua vista alcançava, um deserto se estendia até o horizonte. Sem montanhas, sem vida, apenas um infinito de areia.

Olhando de volta para o Gargoyle ele reconheceu sua letra no arranhado que escrevia. “Ninguém se importa”. Era para ser sua despedida, ele tinha escrito no primeiro dia em que subiu a cobertura do orfanato. Era uma queda suficiente para matar, mas lhe faltou a coragem.

A melodia tocou mais uma vez, era uma música bela e triste. A melodia crescia gentilmente parecendo falar sobre a insustentabilidade da dor. Mas antes de terminar, em sua parte mais intensa, ela parava no meio. E aí começava de novo. Apenas para parar de novo.

— Olá — Zemial gritou para o flautista duas casas abaixo.

— Uma vista e tanto, não? — falou o Cão colocando sua flauta na mesa sobre a bancada na qual ele admirava o pôr do sol. — Por que você não se junta a mim, eu adoraria ter um pouco de companhia.

Zemial pulou os dez metros de queda, caindo de pé diante do Cão.

— Vocês, Gatos, são bem ágeis.

— Obrigado — falou Zemial olhando atentamente para o Cão. Alto com pelos marrons e brancos, vestindo um elegante uniforme militar. Com um ar de autoridade e um olhar severo. — Meu nome é Zemial.

— É um prazer conhecer você, Zemial. Meu nome é Sorbo, da Linhagem de Naracio.

— Você sabe onde estamos?

— É claro que eu sei. Por que, você não sabe?

— Não.

— Então bem-vindo Zemial. Bem-vindo a Exspesdomus.

xXx

— Eu estou morto? – Zemial perguntou.

— Você morreu, mas você não está morto — respondeu o Cão.

Os dois estavam sentados nos degraus que levavam à um elegante trono. Dentro de um enorme salão com pilares segurando um teto de redoma.

— Como isso é possível? — Zemial perguntou.

— A rainha das sombras sangra com o sofrimento de nossos pecados, e apenas aqueles que bebem desse sangue podem ser perdoados – o Cão olhou o Gato com desconfiança. — Você nega ter bebido do sangue negro?

— Minha mãe me deu algo, mas eu não sei o que era. Ela não me disse.

— E onde está sua mãe?

— Ela me mandou sozinho.

— Sua mãe deve lhe amar muito para lhe dar seu lugar no paraíso de Exspesdomus — o Cão virou o rosto para os passos que se aproximavam. — Nosso banquete chegou.

Era uma menina, envolta dos pés a cabeça com o mesmo tecido colante negro que a figura anterior. Usando uma máscara similar de porcelana branca, mas seu semblante não era de um Gato, e sim de uma bela criança Canina de não mais que doze anos.

Em suas mãos a menina carregava uma bandeja de prata, com uma cúpula. O Cão removeu a cúpula para revelar uma cuba dourada que estava cheia até a borda de vermes brancos com cabelos vermelhos.

— Nojentos, eu sei — o Cão falou ao pegar um dos vermes que tentava sair da cuba. — Mas são deliciosos — o Cão engoliu o verme inteiro olhando e sorrindo para Zemial. — Experimente — falou ao lhe estender um.

— Eu não estou com fome — Zemial mentiu. — Você é um rei? — ele perguntou apontando para o colar de diamantes e ouro que o Cão usava.

— Gatos e Coelhos têm reis e rainhas. Na nação de Caltos nós temos uma república. Cada raça de Cães tem um representante que chamamos de Paramor. Cada um deles tem uma cadeira na república. E sim, eu fui um por alguns anos. Mas eu fiquei velho e um dos meus filhos tomou o meu lugar.

— Pai, eu quero conversar — falou a menina de preto.

— Agora não. Vai embora, vai.

— Eu tenho algo para lhe contar — insiste a menina.

— Você já me falou mil vezes. Volta para o seu canto.

A menina deixou a bandeja sobre os degraus e se retirou.

— Ela te chamou de pai — Zemial observou.

— Ela foi minha filha um dia. Uma criança feliz que tinha tudo. Amava cavalgar e cantar — o rosto do Cão escureceu. — Um dia ela cavalgou para longe de sua escolta e se aproximou da floresta, onde uma tribo nômade de Hienas se escondia. Eles a pegaram, chacinaram sua escolta, e a estupraram por três dias enquanto meus soldados reviravam a floresta à sua procura. Ela foi achada amarrada num tronco de árvore. Sem dedos, sem dentes e sem pele… mas viva – os olhos cinzas do Cão refletiam remorso.—  Quando eu a estrangulei eu achei que estava acabando com sua dor. Mas ela morreu sem beber do sangue e renasceu aqui como uma sombra.

— Como assim, uma sombra? — Zemial perguntou.

— Uma sombra sua é feita por você, mas ela não é você. É só uma sombra. Minha filha hoje é isso. Ela não lembra de nenhum dia bom que teve. Tudo que ela quer falar é sobre o que aconteceu naquela floresta. Para ela eu não sou o pai que cuidou dela por toda uma vida. Para ela eu sou o pai que nunca a encontrou.

— Quem é a rainha?

— A rainha morava num deserto, até que ela ouviu o cantar de nossos males, nossas súplicas e nossos desejos. Ela construiu essa cidade e nos deu tudo que nosso coração poderia almejar. Imortalidade, riqueza. E quando chegar minha vez, umas das sombras vai me buscar e me levar para conhecer a rainha no grande baile dos andares altos.

— O que acontece nos andares altos?

O Cão sorri.

— Um festival como nenhum outro.

— E se você estiver errado, e se isso for apenas um sonho?

— Eu pensei que você fosse um menino esperto.

— Eu sou esperto.

— Mas você não sabia que Cães não têm reis. Você não sabia o nome dessa cidade. Você não sabia sobre as sombras. Como um sonho pode nos dizer mais do que sabemos?

— Eu posso estar inventando tudo isso.

O Cão ri.

— E meu colar? O que você sabe sobre os colares de hierarquia de Caltos? – ele não espera Zemial responder. — Nada, não é? Menino, você tem muita sorte de ter encontrado seu caminho até o paraíso de Exspesdomus.

— Nós não estamos em nenhum paraíso. Esse muito, eu sei.

— Sabe? Sabe como?

— Todos os lugares aqui são só lugares ruins.

— Lugares ruins?

— O banheiro que eu me tranquei quando meu pai morreu. O dormitório que eu ficava esperando minha mãe voltar. A cafeteria que eu odiava ir. A sala onde meu pai esperou para morrer. O quarto em que eu chorava à noite. Até a bancada com o gargoyle, onde eu subi pensando em pular, mas sem ter a coragem. São todos lugares ruins, não são? E não tem nenhum bom. Meu pai tinha uma oficina, onde ele fazia bonecos para mim. Eu adorava ficar lá. Se aqui é o paraíso, por que eu não encontrei a oficina?

— Não. Você não sabe do que está falando – o Cão falou com seu rosto contorcido em fúria.

— Me diz então, esta sala de trono, você foi feliz aqui?

O Cão deu um poderoso tapa no rosto de Zemial, derrubando-o ao chão.

— Cala a sua boca — ele se levanta e sua sombra encobriu Zemial. — Você tem alguma ideia de quanto eu paguei para estar aqui? Eu matei meu primogênito. Eu esvaziei os cofres da minha linhagem. Por que eu faria isso senão para encontrar a verdadeira felicidade?

— E você encontrou? — Zemial perguntou limpando o sangue de sua boca.

— Seu pequeno idiota, você não encontra a felicidade. A felicidade tem quer lhe ser dada ou conquistada. A Rainha vai me dar a minha quando for minha vez de subir para o festival.

Zemial se levantou, sem medo nenhum do Cão, e falou:

— Me desculpa se eu te magoei.

— Você tem que ter cuidado aqui. Existem regras que você desconhece. As sombras não morrem, mas nós podemos tanto matar quanto morrer. Você sabe o que acontece quando você morre aqui? Seu corpo vira água ou uma estátua de madeira. E aí uma sombra usando uma máscara com o seu rosto sobe dos andares abaixo. E é isso que você vai ser eternamente. Uma sombra.

— Eu tenho de ir agora. Boa sorte no festival.

— Espera — o Cão falou entregando o desespero em sua voz. — Eu não devia ter batido em você. Eu fico com raiva, às vezes. Eu prometo que não vou fazer de novo – o Cão olhou para a varanda. — Por que não vamos lá fora? Eu posso tocar minha flauta. Eu nunca terminei de compor minha música. Eu sempre deixava para o amanhã. Até que eu fiquei velho e meus amanhãs terminaram. Mas eu não sou mais um velho, eu tenho todos os amanhãs que eu quiser.

— Eu não posso ficar. Eu tenho que achar o jardim azul.

— Os jardins ficam nos níveis abaixo. Você não quer ir para lá… Os guardiões moram lá. Você tem que ficar e esperar sua vez.

— Eu não vou ficar aqui. Se esse lugar não for um sonho, então minha mãe vai me levar de volta e a gente vai viver junto.

— Ninguém volta Gato. Não sem a rainha.

— Eu vou tentar mesmo assim.

— Foda-se você, então. Vai procurar sua miséria lá em baixo. Têm pessoas ruins aqui, você sabia? Se você encontrar com uma delas você vai desejar ter ficado aqui comigo.

— Mesmo assim — Zemial falou e se virou e seguiu o caminho que a menina usou para sair do grande salão. Um portão duplo que parecia ser pesado e de metal, com imagens de Cães na porta direita e Gorilas na esquerda. — Você acha que vai terminar a música hoje? — Zemial se virou e perguntou depois de ter aberto o portão com facilidade. — Eu posso voltar mais tarde para ouvir o final da música.

— Agora você me aborreceu. Eu não estou com cabeça para compor droga nenhuma! — O Cão se virou e andou para a varanda. — Quem sabe amanhã eu termino.

xXx

Era o aposento mais estranho que Zemial tinha entrado. Paredes negras com estrelas pintadas no alto como se fosse um céu. Árvores que saiam do chão e entravam dentro do falso estrelado. Em seus vinte passos quadrados o estranho aposento fingia ser uma floresta.

No centro, Zemial avistou a menina, sentada e encostada na maior das árvores.

— Oi — ele falou.

— Eles me machucaram — a menina falou olhando para ele. — Por que eles me machucaram?

— Eu não sei.

A menina virou o rosto.

— Por que você continua aqui? — Zemial perguntou.

— Eu estou sempre aqui.

— Mas por quê?

— Eu não sei.

— Você sabe onde eu encontro o jardim azul?

A menina acenou que sim.

xXx

Juntos, de mãos dadas, a menina guiou Zemial pelo interior da cidade. Pelo espaço que existia entre as casas e prédios. Na cidade não existiam passarelas ou ruas, não existia o lado de fora. Mas haviam os vãos entre os prédios e casas, vãos vazios de decoração, com chãos de troncos de árvore e muros espremidos ao redor.

Por muitas horas eles andaram em silêncio. A menina o guiava sempre para baixo. E quanto mais eles desciam, mais os troncos negros eram vistos no lugar dos prédios. Eles avistaram outras figuras vestindo roupas coladas de tecido negro com máscaras brancas. Não apenas máscaras de Gatos e Cães, mas todas as raças de Morserus. Muitas, como a do Touro, extintas a séculos.

As sombras pareciam não se importar com a presença de Zemial. Elas seguiam todas indo para o mesmo lugar. O mesmo lugar para onde a menina o guiava.

Quando ele já não aguentava mais andar, ele avistou os galhos. Galhos gigantescos que saiam do chão e subiam até se encontrar com outros galhos e juntos formarem uma monumental redoma. Ao redor da redoma não haviam mais prédios, apenas troncos que serviam de pilares para sustentar a cidade sobre o espaço aberto.

Centenas de sombras os acompanhavam agora. Todas entrando e saindo da grande redoma, que parecia ser do tamanho de uma vila. Quando Zemial andou em direção ao umbral de entrada. A menina soltou de sua mão. Sem se despedir ou dizer uma única palavra ela lhe deu as costas e o deixou para trás.

— Obrigado! — ele gritou para ela antes de passar pelo umbral.

O jardim ocupava todo o interior, flores até onde a vista alcançava. Flores brancas, mas o brilho azul explicava o nome do jardim. Quase metade das flores estavam totalmente cobertas por casulos de um delicado e brilhante material azul.

Insetos infestavam todo lugar. No ar, vespas negras com asas azuis iam de flor em flor. No chão, vermes com cabelos azuis assolavam as flores. Vermes idênticos aos encontrados dentro da cúpula dourada que o Cão lhe serviu. Só que estes tinham pelos azuis e não vermelhos.

A pouca luz do lugar vinha dos casulos brilhantes. Zemial caminhou entre as flores que eram arrumadas em linhas. Ele notou que uma das vespas negras pousou numa flor ao seu lado, fechando suas asas azuis dentro de uma carapaça negra. O inseto parecia olhar para ele.

Na base de cada arbusto de flores haviam máscaras de porcelana branca, tal qual lapides de cemitério. Uma gorda figura usando uma máscara de porco se aproximou de um arbusto que tinha no chão a máscara de outro porco. A gorda figura então retirou a sua e vomitou uma secreção azul sobre a planta. Zemial tentou ver o rosto por trás da máscara, mas a posição do estranho não permitia.

Junto com o vômito azul, pequenos vermes agora passeavam sobre as flores. Zemial olhou para o arbusto ao lado, este estava totalmente coberto pelo casulo azul. Dentro do casulo, ele pôde ver vermes trabalhando para fechar o casulo sobre a planta com eles do lado de dentro.

Uma sombra cobriu Zemial e ele olhou para trás.

Uma figura enorme estava agora ao seu lado. Ela não era coberta de tecido como todas as outras. Essa figura tinha uma armadura de pequenas escalas negras que cobriam todo o seu longo e alto corpo. Seu rosto era igualmente coberto pelas escalas negras. Mas o escuro de seus olhos e boca se moviam como se estivessem vivos.

— Olá Zemial. Eu sou o guardião do jardim azul – falou a figura com uma voz triste.

— Oi — Zemial falou sem saber mais o que dizer.

— Eu estive esperando por você.

— Você sabe por que eu estou aqui?

— Eu sei.

— Você pode me levar para as flores de minha mãe?

— Ela está ao seu lado.

Zemial olhou para a máscara aos seus pés, era o rosto de sua mãe. Seu arbusto de flores estava totalmente coberto pelo casulo azul. Dentro ele podia ver o movimento dos vermes na deformidade que eles faziam no material.

— Se e o seu desejo é matá-la — falou o guardião —, você tem pouco tempo.

Zemial se abaixou e pegou a máscara com o semblante de sua mãe.

— O que você quer dizer com matá-la. É apenas uma planta.

— É isso que você realmente acredita?

— O que acontece se eu não matar a planta?

— Eu mato ela no seu lugar.

— Quem e você?

— Seu deus.

— Eu sou um ateísta.

— Contudo desde o dia em que seu pai morreu, todos os dias sem exceção, você reza para mim.

— De que maneira eu rezo para você?

— Todas as vezes que você chorou até dormir. Todas as vezes que você sentou há janela. Todas as vezes que você subia no teto do orfanato. Todos esses momentos são nossos. Eu sou a escuridão dentro de você.

— Você mente.

— Eu sou a voz que você acredita ser a sua voz. A voz que te diz que você nunca vai ser digno de ser amado. A voz que diz que você mereceu ser abandonado. Quando você escreveu “ninguém se importa” na pedra do gargoyle, fui eu que lhe ditei. Quando você pisou na borda da queda a voz que suspirava “pula seu covarde” era nenhuma outra que não a minha.

— Não, eu pensei isso. Eu que queria pular. A voz era minha.

— Por que você odiaria a si mesmo se houvesse uma escolha entre não se odiar?

— Eu não sei. Minha mente fica cheia de pensamentos escuros, e eu não consigo pensar em outra coisa.

— Nós dividimos essa escuridão. Seu sofrimento são os pilares do meu templo. Seus pensamentos são suas preces. Olhe para mim Zemial, deslumbre-se na encarnação da sua dor.

— O que eu estou pensando agora, então?

— Você me testa, criança?

— Você não tem ideia, tem?

— Eu não posso estar dentro de você enquanto você habita Exspesdomus.

— Mesmo assim os pensamentos escuros ainda estão comigo.

— O que você supõe e o significado disso?

— Eu não sou burro. Você quer saber o que eu acho? Você não é deus de nada. Você é algum tipo de parasita. Você não cria meu sofrimento, mas você de alguma forma se alimenta dele.

— Mas que noção terrível a qual eu não sou o monstro dentro de você, e sim você é o monstro dentro de mim.

— Você nega?

— Se você apenas soubesse. Existe dentro de mim um número de vozes que corresponde ao número de flores nesse jardim. Cada flor é um sonho perdido, um amor não dado, outro não recebido. Quando a esperança que tudo ficaria bem despencou de dentro de você, no dia em que ele morreu, sua primeira pétala floresceu no meu jardim – a figura apontou para um arbusto de flores semicoberto por vermes. — Eu então bebi do seu néctar. E deste então, nós vivemos juntos dentro de uma mesma escuridão.

Zemial olhou para o arbusto, no chão uma máscara com um rosto que ele conhecia, o seu.

— O que são essas flores? — Zemial perguntou olhando para o jardim com outros olhos. — E por que minha mãe quer as suas mortas?

— As origens do meu mundo tem milhões e milhões de anos. Num mundo deserto e inóspito a vida. Onde um último rio submerso dentro da terra abrigava uma insignificante fração de vida, alguns insetos e algumas plantas e nenhuma flor. Até quem um dia uma das plantas aprendeu a se alimentar de outros elementos, tão abundantes em seu mundo, que de alguma forma vazaram para o meu. Foi quando o primeiro jardim nasceu. Um jardim vermelho que se alimentava do ódio. Um jardim preto que se alimentava do medo. Um jardim amarelo que se alimentava do desejo.

— E o azul? Do que se alimenta o jardim azul?

— Você sabe muito bem a resposta.

— Tristeza. O jardim azul bebe a tristeza.

— Sim. O jardim se alimenta de você, eu me alimento do jardim. E a árvore proibida se alimenta de todos nós.

— E minha mãe?

— Ela quer suas flores mortas. Você é livre para atender seu pedido. Mas você tem que fazer isso agora, antes que seja tarde.

— E se eu não matar as flores dela, o que acontece?

— Algo que vai lhe assombrar para o resto dos seus dias.

Zemial olhou para o casulo de flores que se remexia. Ele considerou pisar nas flores, porém não teve coragem, mas não era apenas isso. Parte dele queria saber o que iria acontecer. Então ele colocou a máscara de volta ao solo onde a encontrou.

— Eu não tenho como — ele admitiu para o guardião.

— Sua mãe também não pôde.

E com isso o casulo se partiu.

Centenas de centenas de pequenas aranhas se derramaram para fora. Nenhuma delas maior que uma unha. Todas com oito pernas e duas antenas. Todas, menos uma. Um dos insetos era maior, e tinha asas azuis, tal qual as das vespas que sobrevoavam eles.

A recém-nascida vespa bateu suas asas e tentou voar. Mas as pequenas aranhas não deixaram, elas arrancaram suas assas, depois despedaçaram seu corpo e lutaram entre si pelo privilégio de devorá-lo.

O núcleo de aranhas que comeram a vespa parecia formar um coração de tão amontoados que estavam. E tão logo esse pensamento passou pela cabeça de Zemial, ele viu o pequeno coração pulsar como se fosse de verdade. O resto das aranhas cobriam o pulsante falso órgão, e uma forma parecia estar se formando. Braços e pernas feitas de aranhas amontoadas. Uma cabeça. Zemial não conseguia acreditar em seus olhos. Uma secreção negra parecia fundir uma aranha com a outra. Os insetos ainda se moviam, mas o que eram movimentos individuais estavam se tornando um ritmo único, até que você não podia mais ver as aranhas, e tudo que restava era os contornos negros de um bebê.

Zemial quase vomitou quando o bebê inseto começou a chorar.

O guardião pegou o recém-nascido em seus braços. Seus olhos, eram as antenas de aranhas fundidas com suas cabeças para fora. Sua boca, tinha como dentes as patas de aranhas fundidas com a barriga para fora. O resto do corpo eram suas costas cobertas em pelos azuis fundidas lado a lado. Sem orelhas, sem nariz, sem unhas. A voz, no entanto, era claramente a voz de uma menina.

O guardião vomitou um líquido plástico e negro sobre o recém-nascido, cobrindo cada milímetro de seu corpo, deixando apenas o rosto intocado.

— Você quer beijar sua mãe Zemial? — ele falou lhe oferecendo a criança aranha.

— Por favor, coloque a máscara nela — Zemial respondeu virando o rosto.

O guardião pegou a máscara que estava ao chão e a colocou no recém-nascido.

— Agora você entende, Zemial?

— Minha mãe está morta.

— Não totalmente. Parte dela vive em meus braços.

— Isso não é ela. Isso é a tristeza dela. Vocês são apenas insetos parasitas que se alimentam do sofrimento dos mortos.

— Os mortos não sofrem – o guardião falou acariciando o recém-nascido. — Nós bebemos dos vivos.

— Isso não é  ela, isso não é minha mãe.

— Se a consciência da sua mãe não é a sua mãe, me diga Zemial, quem é sua mãe?

— O que?

— Nossa consciência e como a água, Zemial. Nós não a possuímos, nós a dividimos. Água num vaso ou água num rio, continua sendo água.

— Eu sou eu.

— E eu também sou você.

— Não, eu tenho minhas memórias, eu tenho