Banquete para Fantasmas

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Quase não havia luz no quarto, mas seus olhos purpuras enxergavam com clareza total. Seu quarto tal qual sua mente estava em desordem. Os lençóis no chão, urinol de porcelana quase transbordando, as janelas fechadas, a poeira de dias acumulados. A única coisa que quebrava a desordem era a bolsa de couro colocada ao lado de uma cadeira que tinha um uniforme negro metodicamente dobrado.

Zemial sentava-se à mesa, que cambaleava por ter um pé menor que os outros. Ele admirava o trabalho artesanal do frasco verde. O vidro tinha ondulações com a caveira de um Touro. Ele achava bem apropriado, pois os Touros foram dizimados durante a Ermitagem. Se ele bebesse do líquido dentro do frasco, ele também iria se juntar a eles.

Como ele queria beber do frasco, como ele queria acabar com o peso de sua vida. Ele estava cansado, cansado de seu trabalho, cansado de ser sozinho, cansando de viver sobre a sombra de seus sonhos nunca realizados. Seu único amigo, seu único refúgio nessas horas era o sono. Mas ela tinha dormido cinco dias e agora estava a mercê de sua mente desperta, que alternava entre pensar em todas as suas falhas e pensar em como seria beber do frasco e encontrar a paz.

Essa maldita cidade era o palco perfeito para um ato de despedida. Se a podridão de Morserus tinha um centro, sem dúvida Kazil era esse lugar, a nação dos Ratos, que encontravam na ganância uma virtude, uma Raça de escravos que tinham conquistado uma das cinco nações ao trair não um, mas dois de seus mestres. Uma faca nas costas do Império dos Porcos, e um brinde de veneno a Dinastia dos Leões Brancos. O primeiro governo de cleptocracia, servia de prova que apenas os piores entre nós prosperam. A prova que morrer e desistir é a única real saída que temos.

O Gato então abriu a rosca do frasco verde. Inalou o perfume da morte. Doce e amargo ao mesmo tempo. Um gole e o peso de sua existência cairia de suas costas. O fim da paródia de seus sonhos. O fim do menino dentro dele, que sofria com a decepção do adulto que ele se tornou. Um gole e a escuridão seria finalmente plena.

Com um suspiro de insatisfação ele fechou o frasco e o colocou de lado. Novamente ele falhava, novamente não encontrava a coragem para o alívio eterno. Mas havia o suficiente para o alivio momentâneo. Pegou sua pequena lâmina, deslizou o metal sobre seu antebraço, abrindo um novo corte ao lado de dezenas de velhas cicatrizes. O sangue escorreu, e o prazer lhe cobriu como uma onda.

O Gato sorriu enquanto seu pelo branco bebia seu sangue vermelho.

Alguém bateu à porta.

— Não agora! — Zemial falou irritado.

Ele continuou guiando a lâmina, e o sangue escorria gentilmente.

As batidas voltaram, dessa vez mais fortes.

— Me deixa em paz! — gritou Zemial.

— Abre essa porta, meu senhor. Eu trago comigo a urgência de acontecimentos que requerem sua atenção – falou uma voz grossa do outro lado.

— Espere-me no maldito bar. Quando eu estiver pronto eu desço.

— Tem que ser agora Senhor Gato. É um caso urgente. Vida ou morte, talvez…

— Eu não me importo com quem vive ou morre do lado de fora dessa porta. Deixe-me em paz. Pelo sono do sonhador me deixe ser.

Por alguns segundos de silêncio Zemial achou que suas palavras tinham triunfado. Mas no segundo seguinte sua porta estava sendo arrombada.

Uma bordoada tirou os pregos da parede e rachou a madeira. Na segunda bordoada a porta caiu ao chão. Um Rinoceronte se dobrou para conseguir passar pelo umbral de entrada. Ao entrar seus chifres e cartola quase batiam ao teto, e bateriam caso ele não se mantivesse curvado.

O Rinoceronte usava uma grande cartola preta e um fraque de dois botões. Ele caminhou sobre a porta quebrando a madeira com seu peso. Quando parou em frente à Zemial ele se apoiou sobre sua bengala também preta, mas com adornamentos dourados.

O Rinoceronte era incrivelmente velho, tal era sua vestimenta que parecia ter sido usada milhares de vezes, até perder quase toda sua cor. Ele bufava e tentava recuperar o fôlego de seu pequeno esforço.

Zemial estava de pé. Totalmente nu. Ainda segurando sua pequena lâmina e sangrando. O Rinoceronte lhe olhava confuso. Já ele, apenas o encarava de volta sem nenhuma expressão em seu rosto.

— O que no sangue do abismo o senhor estava fazendo? — perguntou o Rinoceronte.

— Algo muito além de sua compreensão — Zemial falou ao pegar uma toalha.

— Você se cortou, meu senhor? De propósito? Um feitiço de sangue talvez?

— Você invadiu minha privacidade. Talvez seja melhor começar por aí. O que você quer comigo?

— Mas o sangue? — O Rinoceronte apontou para o sangue que escorria do corte do Gato e caía em gotas grossas ao chão.

— Vida e morte você disse, não? — Zemial falou enquanto estancava o sangue com a toalha.

— Sim claro, meu senhor. Madame Eulonieta Paingalle deseja uma audiência urgente, sobre acontecimentos que eu não ousaria divulgar por medo de ouvidos enxeridos. Entretanto, meu senhor, posso lhe dizer que você será generosamente recompensado, e o prejuízo da estalagem será incluso, é claro.”

— Muito bem, já que é assim, minha resposta é não! — Zemial jogou sua toalha encharcada de sangue sobre a cama.

— Como senhor?

— Eu disse não.

— Mas você ainda não ouviu a proposta?

— Exatamente. Enquanto eu não ouvir algo, eu não vou a lugar nenhum.

O Rinoceronte chegou bem perto do Gato. Seus lábios praticamente tocavam as brancas orelhas pontudas do felino. Quando ele falou seu hálito quente fez um arrepio correr a espinha de Zemial.

— Fantasmas meu senhor, fantasmas comem de nossas mesas.

— Fantasmas, hem? Sei, sei. Bom nesse caso me deixa me vestir que eu irei com você.

O Gato pegou sobre a cadeira suas roupas metodicamente dobradas, todas pretas. Enquanto ele se vestia o Rinoceronte apenas olhava.

— Você realmente quer saber por que eu me corto? — Zemial perguntou sem se virar.

— Sim, eu gostaria.

— Me dá alívio. Só isso.

— Mas, e a dor?

— Existe a dor do corte, mas essa não se compara com a dor que o corte liberta.

— Eu não entendo meu senhor.

— É como urinar. Você urina, não?”

O Rinoceronte acena positivamente.

— Então, você pode segurar, mas quanto mais você segura, maior o incômodo. Você consegue imaginar o que aconteceria se por algum motivo você não conseguisse mais urinar? Existe o desconforto, mas existe algo ainda maior. E se você chegar lá, você vai entender, ou você corta e deixa seu veneno vazar, ou o veneno acumula até destruir tudo que tem dentro de você.

— Qual é o veneno de seu sangue meu senhor?

— Nenhum. Não estou falando de um veneno real, estou falando de um veneno existencial.

— E o que é isso?

Zemial terminou de colocar suas calças e botas.

— Se você não sabe talvez seja melhor assim. Ideias são como parasitas. Você acha que você é dono da sua mente, quando na verdade as coisas dentro da sua mente é que são donas de você.

Com sua camisa em seu ombro Zemial colocou sua pequena faca junto com frasco verde dentro de sua bolsa de couro.

— Ideias são como estórias senhor. Elas não tem como nos ferir.

O Gato sorriu.

— Não seria essa a mais perigosa de todas as ideias?

O Gatou abotoou os vários botões de sua camisa de mangas longas. — Não se engane meu caro, ser cego para os muros de sua prisão não faz de você um ser livre.

— Eu sou livre meu senhor.”

— Sempre foi seu sonho ser um mordomo, então?

— Não, eu sempre quis ser um oleiro. Antes do império dos Porcos minha raça tinha as técnicas mais avançadas para a criação de vasos. Era uma profissão de grande honra. E nossos vasos são, até hoje, os mais caros das cinco nações.

— E o que lhe impediu de realizar seu sonho?

— Quando nosso povo foi conquistado pelo império, eles mataram todos os oleiros, junto com todos os artesoes, artistas, fazendeiros e comerciantes. A escolha era viver como um soldado ou morrer. A partir de então nos tornamos uma raça de guerreiros.

— Mas o império dos Porcos não existe a mais de quinhentos anos. O que impede você de ser o que quiser ser?

— O conhecimento se perdeu. Hoje tudo que sabemos fazer é lutar. Quando eu falei para o meu Pai que eu queria ser algo diferente, ele me expulsou de casa. Eu fui livre para ser um mendigo por muitos anos, até que um dia eu conheci a madame, e ela me tirou das ruas e meu deu um lar.

— Como eu disse, ideias nos aprisionam.

— Pode ser senhor, pode ser. Entretanto aqui estou. Meu pai e meus irmãos morreram ates de atingirem a metade da idade que eu tenho hoje. Sim, eu não sou um oleiro, mas eu sou o que eu sou e eu encontrei minha paz com isso.

— Eu te invejo então. Como eu gostaria de poder olhar para a criança que um dia eu fui, e dizer “fodasse” para todos os seus sonhos e anseios que me assombram até hoje. Dizer para ela, “aqui estão as migalhas de suas expectativas. Descubra nelas o contentamento da sua vontade”.

— Eu não sou um filósofo senhor, tudo que eu sei é o que eu sei — o Rinoceronte tira um pequeno relógio de bolso e nota a hora. — Vamos senhor, a noite se aproxima.

— Muito bem — falou Zemial ao terminar de colocar suas luvas, que como todos os seus itens de vestimenta, eram pretos e lisos de detalhes. — Estou pronto — ele disse ao colocar seus óculos redondos de lentes amarelas. — Me leve até sua casa mal assombrada.

 

 

A carruagem fez seu caminho até o centro da cidade. Através das ruas populosas de Kazil e do labirinto mal arquitetado de casas construídas umas sobre as outras. A grande rua principal cortava a cidade como um gigantesco ralo, fazendo círculos largos dos portões de entrada, até círculos pequenos ao atingir o centro. Os pobres moravam pelo periférico, enquanto os ricos moravam no núcleo do metafórico ralo.

A casa assombrada era na verdade uma enorme mansão de madeira negra. Com mais janelas que se podia contar sem a ajuda de um ábaco. Um dia com certeza teria sido uma imponente visão de riqueza e afluência. Mas hoje não era esse dia. Hoje a fonte não mais jorrava, sua água parada e suja era o lar de insetos. Seu caminho de pedras estava coberto de musgos, e a cada três janelas uma tinha seus vidros rachados, quebrados ou tão sujos, que escondiam seu interior.

Em seu interior a mansão contava a mesma estória de negligência e abandono, tapetes vermelhos com rasgados nunca emendados. Alguns quartos cheios de entulhos, enquanto outros totalmente vazios. Teias de aranha e móveis cobertos de poeira, até pareciam ser parte da decoração.

O Rinoceronte levou Zemial até um grande salão do baquete. O único lugar da mansão que tinha sido varrido e onde algumas lâmpadas de óleo ainda funcionavam. Uma longa mesa retangular ocupava o centro do aposento. Quinze cadeiras de cada lado. Talheres de ouro, pratos de porcelana desenhados a mão, copos de cristal e comida farta, animais cozidos inteiros estufados com ingredientes de cheiro forte, mas agradáveis. E jarras e mais jarras de suco de vinho de vários sabores e cores.

— Me deixe dar uma boa olhada em você — falou a senhora em sua cadeira, que mais parecia um trono, que ficava a um degrau acima do resto do aposento. — Qual o seu nome meu querido?

— Zemial — respondeu o Gato.

— Meu nome é Eulonieta Paingalle. Da Casa Paingalle de mercantes.

A senhora era bem velha, com pelos cinza claros e olhos de um cintilante azul. Apesar da idade sua figura era esbelta e sua cintura fina, acentuada por um belo vestido verde escuro.

— É um prazer lhe receber em minha casa Zemial — ela estendeu sua delicada e enrugada mão para o Gato, que não estendeu a sua de volta. — Me diga Gato de Troferos, o meu toque lhe repulsa?

— Sim — Zemial falou casualmente.

— Seria minha idade ou minha raça o motivo de sua aversão?

— Nenhum dos dois madame Eulonieta, o contato físico me repulsa e nada mais.

A madame olhou para seu mordomo Rinoceronte que rolou seus olhos.

— Mas que inusitada bolinha de pelos você me trouxe aqui — a madame colocou um monóculo e semicerrou seu olho esquerdo ao examinar Zemial. — Você não é um Gato branco, é? Você é um albino. É um branco diferente, sem vida. É por isso que você se esconde se cobrindo de preto? É por isso que você tem medo de ser tocado?

O Gato não responde.

— Que foi, mordeu a língua?

— Sim, eu sou um albino. Não, eu não sou um mago. Sim, eu me visto de preto. Não, eu não temo o contato físico, ele apenas embrulha meu estômago.

A madame olhou novamente para seu mordomo, dessa vez com seu semblante se contorcendo em indignação.

— Ele não é um mago? Quem em nome do abismo vazio você me trouxe no lugar do que eu tão claramente lhe solicitei?

— Madame, o Gato é um mago, na pousada em que estava ele curou a filha do hospedeiro de uma praga de fungos rosa. O hospedeiro estava praticamente falido, sua filha coberta de fungos, que grudavam e cresciam até nos objetos ao redor dela. A família não morreu de fome por que cobravam uma moeda de cobre para os curiosos verem a pousada rosa e a criança amaldiçoada. Até que um dia o Gato apareceu do nada e com palavras mágicas, que a ninguém mais era permitido ouvir, fez a menina chorar por três dias, e no quarto dia não apenas a menina estava curada como toda a estalagem — o Rinoceronte apontou para Zemial. — Ele é um mago, todos na cidade sabem da chegada do mago branco.

— Isso é verdade Gato?

— Algumas partes. Como quase tudo na vida, meias verdades voando nas assas da superstição e fantasia.

— Me permita então ouvir a sua outra metade da verdade.

— Eu não vim ajudar a garota, meu trabalho me leva à procura de estranhos acontecimentos, quando ouvi sobre os fungos rosa eu sabia do que se tratava. Então eu apenas coletei uma amostra para a Academia. Uma vez feita a coleta eu ofereci o conhecimento de como se livrar dos fungos rosa em troca de estadia grátis. Eu nunca proferi ser um mago.

— Se você não é um mago, quem é você?

— Eu sou um animista.

— O que, em nome de Nebru, é um animista?

— São aqueles que dedicam sua vida ao estudo dos animas.

— Não seja petulante meu querido, eu sou uma senhora e não quero perder o que resta da minha vida perguntando a outra metade das suas sentenças inacabadas. A não ser, é claro, que seu ego dependa que as pessoas lhe perguntem “o que no abismo você quis dizer com isso ou aquilo?”.

— Muito bem, animas são os responsáveis pela comida que desaparece em sua mesa.

— Os fantasmas, você quer dizer?

— Não existem fantasmas madame!

— E como você chama então os espíritos dos mortos?

— Eu os chamo de equívocos da mente ignorante.

— Não seja absurdo. Minha tia de casamento, a esplêndida Magnadella Paingalle, um símbolo de cultura e conhecimento em nossa sociedade, vivia cercada por magos e oráculos dos maiores escalões da Escada Secreta. Estou falando da nata do mundo oculto. Já ouviu falar da Escada Secreta? Se você não ouviu meu querido, é por que não era apenas secreta, era exclusiva. Somente as mentes mais evoluídas tinham acesso aos grandes mestres do mundo oculto.

— E no entanto aqui estou eu e não eles em sua frente.

— Como eu disse, eles são exclusivos.

— Eu conheci um membro da Escada Oculta, ele vendia chuva a fazendeiros e dizia que era mágica. Ele atravessava as terras de seca levando sempre consigo um contrato. Em suas páginas, a promessa de chuva em troca de prata e cobre. Moedas que apenas seriam entregues ao Mago após a chuva cair do céu sem nuvens. Uma boa proposta, não? Melhor ainda quando você está desesperado por um milagre. Todos os fazendeiros que ele encontrava assinavam seu contrato.

— E choveu ou não choveu nas fazendas?

— Choveu em algumas, em outras não. Nas fazendas que ele ouvia dizer que tinha chovido ele voltava com seu contrato em mãos; nas outras, bem, essas ele evitava.

— Não lhe ocorre que talvez faltasse a fé daqueles que a mágica sozinha não pôde ajudar? “Acreditar é metade da mágica”, dizia um dos grandes mestres da Escada Oculta!

— Madame, essa é a mágica que eles vendem. Vocês compram as palavras que querem ouvir. As explicações fáceis para problemas difíceis.

— E o que aconteceu com o mago de sua estória?

— Ele fez um grande contrato com uma cidade cercada de centenas de fazendas. Quando choveu no primeiro dia ele ficou rico. Quando choveu no segundo dia ele foi proclamado um herói. No terceiro dia de chuva, quando as colheitas tinham sido perdidas e a cidade inundada e centenas ficaram desabrigados e dezenas mais pereceram, ele foi então chamado de amaldiçoado. No quarto dia quando a chuva finalmente parou, ele foi arrastado pelas ruas devastadas e enforcado na praça principal. Antes de cair e quebrar o pescoço, ele implorou e gritou a todos dizendo que a chuva não era sua culpa, que ele não tinha nenhum poder e não sabia fazer chover. Que ele vendia apenas palavras.

— Diz-me então Animista, quais são as palavras que você veio aqui me vender?

— As palavras da verdade.

— E quanto vai me custar essa verdade?

— Um brasão de prata.

— E qual a diferença entre as palavras de um mágico para as palavras de um animista?

— Uma é o que você quer ouvir, a outra é o oposto.

— Por que eu pagaria para ouvir o oposto que meu coração comanda?

— Por que madame, mentiras que confortam também aprisionam!

— Não seja vago. Diga-me exatamente, qual a diferença entre um mago e um animista?

— Uma educação.

A madame ri.

— Pague o Gato. Eu quero ouvir as suas verdades incômodas.

O Rinoceronte tirou de seu bolso um brasão de prata e o jogou a Zemial.

— Muito bem, — falou Zemial ao examinar a moeda — como eu disse antes, não existem fantasmas, o que você tem aqui em sua mansão são animas. Animas não são flora ou fauna e são invisíveis ao olho nu. A academia descobriu sua existência ao comprovar o teorema da biosfera de sombras. Existem duas biosferas paralelas uma a outra. Nossa biosfera é a camada do globo terrestre habitada por todos os seres vivos. Contém o solo, o ar, a água, a luz, o calor e os alimentos. Ela fornece a todos os seres as condições necessárias para o desenvolvimento da vida. Porém, lado a lado a este, ao nosso mundo visível, existe outro universo invisível. Um lugar inimaginável habitado por estranhas criaturas — Zemial coloca sua mão próxima a lanterna de óleo. Sua mão é projetada como sobra no chão diante da madame. — A essas estranhas criaturas nós chamamos de animas. Para eles somos tão invisíveis quando eles são para nós. Já nossos pensamentos e emoções são outra estória. Os animas não apenas podem ver e senti-los, como também podem comê-los.

— Que noção absurda, criaturas invisíveis que comem ideias… — Eulonieta mordeu gentilmente seu dedo indicador. — Como se come uma ideia?

Zemial juntou sua segunda mão e fez um pássaro aparecer nas sobras.

— Não diferente de um pássaro que encontra um roedor na floresta. Mas na biosfera das sombras, nossos sonhos são o ar no qual o anima voa, e na terra de nossos anseios e receios se escondem os pequenos roedores que são nossos segredos e desejos. O pássaro se transforma num mostro com vários dentes. Eles comem de nossos sonhos e evacuam nossos pesadelos. Não por serem criaturas do mal, mas por serem puras e cegas para tudo que não seja a verdade que escondemos dentro de nós! — Zemial tira sua mão da luz. – Já outros acreditam que estamos equivocados, e que a biosfera das sombras somos nós.

— A bebida que some de meus copos não é uma ideia, tampouco são as mordidas que aparecem na minha comida cada vez que viro meus olhos.

— São as suas sombras que você vê. Existem vários tipos de animas, cada qual com sua característica em particular. Outros na Academia as chamam de sintomas. Lembra-se da filha do hospedeiro? O sintoma de sua anima eram fungos rosa que cresciam não apenas no seu corpo como em alguns objetos e mobilhas.

— E o meu sintoma são os malditos fantasmas? Eu estou doente? É isso que você quer dizer Gato?

— Não é uma doença. O anima se alimenta de nossa mente, nossos sentimentos, nossas obsessões e nossos desejos. E tudo que se consome por um lado é expelido pelo outro. Seus fantasmas são nada mais que a evacuação do que os animas comeram em sua mente.

— Que imagem gloriosa. Mas existe uma cura, não? Você curou a filha do hospedeiro…

— Em alguns casos sim, outros não. Lembre-se que não é uma doença e sim um estado de ser.

— Pela agulha sagrada dos três ratos costurados em um. Sim ou não?

— No caso da menina sim. O anima que lhe afligia é bem raro. Nós os classificamos como PDT. Usamos acrônimos para facilitar o catálogo de todas as espécies de anima. PDT significa Paixão Dos Tolos — ele para de falar por um momento, mas ao ver o olhar repreensivo da madame ele finge uma tose para limpar a garganta e continua. — Como o nome mesmo insinua, esse anima se alimenta de desejos sexuais não correspondidos.

A madame ri.

— Se isso fosse verdade metade da cidade estaria coberta de rosa.

— Cada anime se propaga de maneira diferente, esse se apega ao hospedeiro e apenas passa para outro através do sexo. A menina tinha feito uma viagem com a mãe para conhecer a Nação dos Coelhos. Minha suspeita é que ela dormiu com alguém contaminado.

— Ela dormiu com alguém coberto por fungos rosa?

— É raro, mas acontece. A função do fungo é justamente tornar o hospedeiro repulsivo aos olhos do seu objeto de desejo. A lenha do amor é o desprezo. Amamos apenas aqueles que acreditamos ser melhores que nós, então quanto pior nos tornamos, mais amor temos para dar.

— É uma visão de vida bem distorcida essa sua.

— Sintomas, causas e consequências. Eu falo apenas o que eu observo. A menina voltou de viagem com o anima dormente dentro dela. Quando um jovem aprendiz começou a trabalhar com o ferreiro do outro lado da rua. O anima despertou junto com sua paixão. E quantos mais fungos ela criava, mais importante era a fuga em sua mente que ela alimentava com a narrativa de um grande amor.

— E como você a curou? Forçou o menino a dormir com a coitada?

— No sexo masculino isso geralmente funciona, uma vez que a paixão esvanece quando a conquista é feita. Mas é bem menos eficaz no sexo feminino. E mesmo que funcionasse, eu estaria apenas trocando ou duplicando o número de hospedeiros. Não, o que eu fiz foi quebrar a ilusão. Eu busquei o menino e colocando os dois juntos falei que ela o amava.

— Cruel!

— Talvez, mas funcionou, o menino riu. Ela chorou, e na dor da verdade ela parou de alimentar a fantasia e com isso parou de alimentar o anima que rescindiu ao ponto que pude extraí-lo.

— E por que continuou na estalagem depois de ter pegado o que queria? Por que veio até aqui?

O Gato olhou para o Rinoceronte, depois para a madame.

— Minha vida é cansativa, sempre viajando, sempre envolvido com ignorância alheia. Às vezes tudo que eu quero fazer é dormir. Quanto a mim estar aqui, quando eu me canso de descansar sempre trabalho um pouco e com isso, vou onde os animas estão.

— Então os fantasmas, que não são fantasmas, comem da minha mente. Comem o que? Eu sou muito velha para paixões meu querido.

— Existem apenas dois tipos de anima que aparentam ser fantasmas. Um se chama MDAP e o outro MDOP. Memórias do amor perdido e memórias do ódio passado. Um se alimenta de amor, o outro de ódio.

— Todos que me amaram ou odiaram estão há muito tempo mortos meu caro.

— Seus sentimentos de amor e ódio…

— Meu pai foi um imprestável e um bêbado, e de todos no mundo foi a pessoa que mais me fez mal, não por malícia, veja bem. Nossa raça não é como a sua Gato. Nossos pobres têm muitos filhos, meu pai teve quatorze crianças, muitos morreram de fome antes de aprender a falar, outros fugiram, outros encontraram seu fim na violência das ruas. Eu nunca tive uma festa de aniversário, ou um jantar de família. Meu pai me chamava de lindinha por que não lembrava meu nome. Quando ele bebia ele me tratava mal, quando ele não bebia ele me ignorava. Nada é mais cruel que o poder que indiferença tem sobre uma criança. Mesmo assim, mesmo com todos os seus defeitos e toda dor que ele me deu, eu nunca o odiei. É difícil odiar aqueles que carregam com si as chaves perdidas da nossa autoestima. Ele merecia meu ódio, mas eu nunca aprendi a odiar. Nem ele, nem ninguém!

— O outro defeito então?

— Amor é um defeito?

— Todos nossos quereres são defeitos Madame.

Ela se levantou e andou até o grande quadro.

— Sim, eu amei muito. Como ninguém nunca amou ou foi amada! — ela olhava para o quadro que tinha suas bordas polidas e revestidas de ouro. A pintura mostrava uma família de Ratos. — essa é minha família por casamento.

No centro do quadro, na mesma cadeira em que ela estava sentada, havia um belo Rato que vestia um uniforme preto com babados brancos, que saiam de seu peitoral, ombros e pulsos. O Rato sorria com orgulho e tinha ao seu colo uma criança que sorria ainda mais.

— Meu falecido marido, Thobias Paingalle.

— É uma bela criança — falou Zemial.

— Se você diz. Ela sempre teve um narigão, em minha opinião, tal qual sua mãe. Deplorável criatura, a mãe eu digo. Thobias teve muitas mulheres antes de finalmente nos casarmos. Mulheres vieram e se foram, mas eu sempre fiquei ao seu lado — ela apontou ao lado direito do quadro, onde uma velha senhora com um longo vestido cinza, com gargantilha e luvas vermelhas, posava com um ar de insatisfação e um rosto enrugado numa máscara de desaprovação. — A grande Magdalena Paingalle, a cabeça da família, uma das figuras mais influentes da sociedade de Kazil. Tudo que eu sou, tudo que eu conquistei, eu devo a ela. Quando ela me aceitou, todos me aceitaram devido a ela.

O resto da família eram três garotos gêmeos, um velho numa cadeira de rodas, um casal de gordinhos, e no canto mais distante da pintura, uma belíssima Rata num vestido azul claro, atrelado a ela, uma menina a abraçava por trás, quase se escondendo embaixo de seu braço. A jovem sorria, enquanto que a criança parecia não querer estar ali.

— Eu e minha filha com Thobias. Muitos diziam que eu seria apenas mais uma de suas conquistas e descartes. Mas eu mostrei a todos eles quando vinte anos depois dessa pintura nós finalmente nos casamos oficialmente. Nossa, como eu estava linda nessa noite! Esse foi meu primeiro banquete. Foi o dia mais importante da minha vida, o dia em que eles me permitiram posar para a pintura. Um sinal claro que eu era parte da família!

— É essa a importância do quadro?

— Você me perguntou sobre memórias de amor — ela aponta para a pintura. — Aqui estão elas. Eu era uma criança quando eu vim para essa casa pela primeira vez. Eu e meus irmãos costumávamos pular os muros das áreas nobres. Magdalena, é claro, nunca soube que eu já comi do lixo dos Paingalle. Ninguém sabia que eu passava horas olhando pelas suas janelas, aprendendo como uma família de verdade vivia. Sonhando em um dia estar do outro lado do vidro. Aí um dia Thobias me viu, e ele não se importou que eu fosse pobre, ele disse que era a menina mais linda do mundo. Alguns amores são tão poderosos que alteram toda uma vida. E conhecer o meu marido mudou a minha. Foi um conto de fadas! — Eulonieta olhou para o Gato que se manteve calado. — Sim, houveram outras mulheres e outra filha. Um conto de fadas não tem que ser um conto de fadas para ser um conto de fadas. A menina com a família feia deu para sua filha uma das mais belas famílias de Kazil.

— Ou seja, o quadro é importante não pela família que mostra, e sim por aquela que esconde?

— Não Gato. O quadro é importante por que ele imortaliza meus momentos de glória. A vida passa, mas as lembranças ficam. É por isso que mesmo décadas depois de todos terem morrido ou se mudado, o banquete continuou a ser festejado. Eles vivem no meu coração… — Eulonieta coloca a mão no peito. — Eu nunca abandonei minha família, e eles nunca me abandonaram. Nem o abismo de Ilys teve poder de nos separar. Eles retornam ao nosso lar — a madame começou a chorar.

— Não tem ninguém aqui madame, apenas o anima e as sombras de sua mente.

O Rinoceronte pegou um lenço de seu bolso e ofereceu a madame. Ela limpou suas lágrimas e caminhou de volta a sua cadeira.

— Eu quero ver essas sombras Gato. Eu quero saber quem são meus convidados!

Zemial olhou novamente para o quadro, para a jovem Eulonieta e para a criança apertada em sua cintura.

— Na estalagem eu tive que mostrar para a menina a natureza de sua sombra. Pois estava onde ela não tinha como escapar. O anima estava dentro dela. Já no seu caso madame, seu anima está preso ao lugar onde a memória nasceu.

— No quadro?

— Não acho que seja o quadro madame, mas sem dúvida nesses aposentos, se você abandonar essa casa, sua sombra vai ficar eternamente presa aqui, e você vai viver livre dela.

A madame sorri ainda com seus olhos cheios de líquido.

— Não existe vida para mim além dessa casa.

— Sua filha?

— Ela nunca apreciou o que eu lhe dei. Ela nunca compreendeu o valor de ser uma Paingalle. Ela mora em outra nação. Eu não a vejo a mais de trinta anos.

— Eu tenho certeza que ela ficaria feliz em revê-la.

— Me custou uma vida fazer dessa casa o meu lar.

— Madame, me escute bem. Quando olhamos para dentro da sombra, nós encontramos a verdade sobre nós mesmos, pois a sombra que nos aprisiona também nos protege, ela esconde de nossos olhos as verdades que não temos coragem de enfrentar. Sem elas ao nosso lado, o peso de nossas vidas pode nos esmagar. Eu posso lhe mostrar os fantasmas que a assombram, mas eles não são o que você espera que eles sejam. E uma vez descobertos, não existe retorno.

— Eu tenho feito banquetes para cadeiras vazias por muitos anos, você acha que eu vivo pelo que? Eu não tenho um presente, tudo que eu tenho são memórias do passado. E se esse passado bate agora à minha porta, eu não tenho escolha a não ser abrir…

— Muito bem então, a que horas seus fantasmas aparecem?

— Nunca à noite, sempre pela manhã, ao nascer do sol.

— Então nós esperamos.

 

 

— Acorde Gato! — falou o Rinocerontes. — Os fantasmas chegaram.

Zemial levantou a cabeça, escondida entre seus braços cruzados, que descansavam apoiados sobre a mesa de jantar. A luz do sol inundava o aposento.

Eulonieta dormia em sua cadeira.

— Por que você abriu as janelas? — Zemial perguntou em voz baixa para o Rinoceronte.

— Eu não abri as janelas, nem servi nenhum dos pratos — o Rinoceronte olhou na direção do final da mesa. Um dos pratos estava cheio de pedaços de carne e purê.

Zemial se aproximou, ao piscar seus olhos viu a comida mudar de lugar com marcas de mordidas, que antes não estavam lá.

— Thobias, é você que voltou para mim? — Eulonieta tinha acordado e falou ao se aproximar. — É você, não é meu marido? Tem que ser você!

Não havia convicção em sua voz.

— Madame, seu marido não ficou na festa até o sol nascer, ficou?

O rosto de Eulonieta tremia, ela tentou responder, mas não encontrava as palavras. Ao fechar seus olhos uma longa lágrima escorreu pelo seu queixo.

— Ninguém esteve aqui durante essa hora — o Rinoceronte respondeu em seu lugar. — Eu fui o primeiro a voltar pela manhã para limpar o salão. Mas a noite tinha sido longa, e eu acordei um pouco mais tarde.

— É isso madame? Ninguém esteve aqui nessa hora? — Zemial perguntou novamente.

Eulonieta respirou fundo e limpou seus olhos com seu lenço. — Eu estou pronta para ver meu convidado.

Na mesa dois copos de vinho estavam cheios e depois pela metade, na borda de um deles uma marca de batom aparecia cada vez mais forte.

— Ainda existe tempo para voltar atrás, fechar essas portas, abandonar esta casa! — Zemial falou ao olhar para o copo marcado.

Eulonieta pegou o copo que agora tinha apenas um longo gole de vinho. Ela bebeu o longo gole deixando sobre a marca do batom fantasma sua marca de batom. Cores diferentes. Marcas similares.

— Mostre-me as memórias do meu grande amor — ela colocou o copo novamente sobre a mesa.

Zemial retirou de sua bolsa um pequeno frasco vazio de vidro amarelo, com ele quebrou um pedaço do ar azul e o aprisionou dentro do vidro. Em seguida guardou o frasco e pegou em seu lugar uma minúscula urna. Abrindo a urna ele deixou cair dela um pó azul claro sobre sua luva preta. E com um pequeno sopro, ele espalhou na direção da cadeira próxima aos pratos assombrados.

Refletidos na luz do sol, o pó azul brilhava como milhões de miúdos diamantes. Mas nem todos os fragmentos caíram ao chão. Muitos pareciam estar presos ao contorno de algo invisível. Pouco a pouco uma imagem se formava diante de todos. Era a silhueta de um Rato.

— Se você olhar dentro da imagem vai poder ver a forma do anima. Olhando de longe, vendo o todo, sim, parece ser um fantasma. Mas se você olhar de perto, dentro da ilusão de um corpo, você vai poder ver pequenas estrelas de três pontas que se amontoam umas nas outras, se alimentando do formato da sua lembrança madame.

Eulonieta não prestava atenção ao Gato, ela olhava fixamente para a silhueta azul. Cada segundo que passava a imagem ficava mais clara. Ela podia ver a roupa de seu visitante agora, uma vestimenta simples, apenas um macacão com uma camisa e calça. O Rato era belo e sorridente, carregando em seu colo uma criança, que dormia com seu rosto escondido em seu peito. E tirando a cor de cristal azul, a criança parecia estar usando exatamente a mesma roupa que a filha de Eulonieta usava no grande quadro de bordas douradas.

Eulonieta colocou sua mão sobre sua boca. Ela queria gritar e nos contornos de seu rosto a dor marcava seu semblante. Sem forças para se manter de pé, ela caiu sobre seus joelhos. Somente então conseguiu gritar. Não um grito de terror, um grito de dor.

O Rinoceronte a pegou no colo e a colocou em uma cadeira próxima a janela. O enorme mordomo então se virou para Zemial.

— O que é isso Gato? Onde estão os convidados da madame? Esse é o fantasma do jardineiro, ele nunca morreu aqui, ele partiu no dia do banquete, por que motivo ele voltaria para nos assombrar agora?

— Não existem fantasmas, essa não é a imagem dos mortos, o que você vê é apenas uma lembrança, uma lembrança de amor…

— Amor? Todos amavam a madame, temos trinta cadeiras nessa mesa, onde estão os outros convidados?

— Aqui estão todos. Todos aqueles que ela amou, todos que amaram ela.

O velho Rinoceronte parecia crescer, seu rosto amigável e sereno se enrugava no escurecer de seu temperamento.

— Os Paingalle eram sua família, como você ousa insinuar que eles não a amavam?

— Os Paingalle nunca foram sua família. Ela apenas fingiu para si mesma que eles eram. E eles fingiram de volta.

O Rinoceronte pegou Zemial pelo pescoço e o levantou do chão. Sua mão era tão grande que apenas seu polegar e o indicador conseguiam caber no contorno do pescoço do Gato.

Não era a primeira vez que Zemial era sufocado. Ele se lembrou de quando sua mãe lhe afogou na banheira do orfanato. Ele se lembrou do sonho estranho que teve naquele dia. De uma cidade chamada Exspesdomus. Ele não tinha medo de morrer, ele já tinha morrido uma vez. Mas ele tinha medo de voltar a cidade do sonho.

Eulonieta se jogou ao chão, caindo novamente aos pés da imagem azul. O Rato não mais sorria, ele parecia triste agora.

— Eu não tive escolha. Eu nunca tive uma escolha — ela chorava e babava. — Que vida você tinha para me dar? Que vida você tinha para dar a ela? — ela olhou para o fantasma de sua filha e de volta ao jardineiro. — Ela era uma Paingalle, como eu poderia roubar essa legacia dela e fugir com você?

O Rinoceronte largou Zemial e foi confortar a madame.

— Não são fantasmas — Zemial falou rouco. — São apenas uma lembrança, tal qual o quadro na parede. E cada imagem conta uma estória. Uma foi pintada com as cores das mentiras que você contou a si mesma… Zemial olha para a pintura. — E a outra com as cores de seu coração! — Ele se volta novamente para a imagem do jardineiro e a criança.

Eulonieta se desvencilhou do Rinoceronte e apontou seu dedo para o rosto de Zemial.

— Não era uma escolha! — Ela falou gritando com o que tinha de sua voz. – Ele era um jardineiro. Nascido de escravos de dívidas, o pai da minha filha era um Barão. Com o mais puro sangue nobre. Eu fiz por ela, tudo que eu fiz, fiz por minha filha. Eu nunca tive uma escolha…

— Nós sempre temos escolhas madame. Olhe para as duas pinturas do seu passado e me diga em qual delas sua filha está mais feliz.

Eulonieta olhou para o quadro. Nele viu sua filha no canto da pintura, escondida entre seus braços, ela nunca tinha reparado, ela tinha visto esse quadro milhares de vezes, mas apenas agora percebia a diferença. Ela sorria, sua filha não. Seu marido tinha uma criança feliz em seu colo, mas essa criança não era sua filha.

— Ele nunca a amou — ela finalmente admitiu para si mesma. — Meu pai nunca me amou, e eu dei para minha filha o mesmo pai que eu tive — ela virou o rosto do quadro. — Ela me odeia, você sabia? Ela fugiu de mim como eu fugi do meu pai — Eulonieta ri sem alegria. — A infelicidade é uma estrada em círculos, você corre e corre, mas nunca vai a lugar nenhum! — ela olha para o jardineiro, para sua filha sorrindo em seu colo. — Eu tive minha chance de sair dessa estrada. Diz-me Gato, por que eu não saí dessa estrada negra?

— Eu não sei. Eu pensava muito sobre isso no orfanato onde eu fui criado. Algumas crianças já nascem escolhidas para ser amadas. Antes mesmo do primeiro suspiro elas têm pais que as querem, sem ao menos conhecê-las, e que vão amá-las não importa o quão imperfeitos eles sejam. E existem outras crianças como nós… Os escolhidos a viver nas sombras. Que têm pais que nos machucam, que nos abandonam. Somos os desprezados incondicionalmente. Não importa o quanto necessitamos, ou o quanto estamos dispostos a dar para receber uma fração de um bem querer. Mesmo dando tudo que temos, nada ou menos que nada vai ser o que sempre receberemos de volta.

– Ele me amou — Eulonieta falou.

— E você tem as memórias desse amor, outros tem ainda menos.

Eulonieta colocou seu rosto perto do rosto azul de sua filha, suas mãos acariciavam o ar próximo a suas orelhas. A imagem da menina estava acordada e parecia olhar diretamente para sua mãe.

— Perdoe-me. Você merecia mais do que eu tive para lhe dar. Um pai melhor, uma mãe melhor também.

— Nós todos merecemos mais madame, mas a vida é a vida — Zemial falou ao pegar sua pequena urna. — Deixe-me lhe mostrar algo…

Ele repetiu o ritual e assoprou novamente o pó de cristal azul. Desta vez sobre a cadeira do outro lado da mesa. Uma terceira figura apareceu gradualmente a mesa.

Era Eulonieta, vestida como no quadro, jovem e bela. Com sua mão azul estendida e entrelaçada com a mão do jardineiro. Os fantasmas azuis permaneciam imóveis como estátuas, mas suas poses sempre mudavam após um longo piscar.

Eulonieta pegou uma faca de carne sobre a mesa. Ela então andou em direção ao quadro de bordas duradas, e pela primeira vez em sua vida ela viu o que estava sempre à vista de todos: uma pintura de tristeza. Prisioneiros em roupa de festa.

Sua lâmina passeou pela tela e os pedaço partidos caíam um de cada vez ao chão. Ela cortou até não ter mais nada para cortar. Até sobrar apenas a borda dourada e a parede nua atrás.

— Adeus minha preciosa mentira…

— Madame, por favor — falou o Rinoceronte.

Eulonieta colocou a faca sobre a mesa e se aproximou de seu leal mordomo.

— Meu caro, — ela falou colocando a mão em seu braço — eu gostaria que você fosse para seu quarto. Eu tenho mais algumas coisas para acertar com o Gato.

— Mas minha dama…

— Por favor, não me contrarie. Amanhã as coisas voltam a ser como deveriam ser. Mas hoje, hoje eu necessito solitude.

— Mas…

— Eu te imploro meu caríssimo companheiro. Deixe-me ficar com meus fantasmas.

O Rinoceronte beijou as mãos de Eulonieta. Depois se retirou com a cabeça baixa.

Uma vez sozinhos Zemial e Eulonieta se voltam para as imagens azuis. Os três fantasmas estavam juntos e de pé. A bela rata tinha suas mãos no ombro do jardineiro que parecia chorar.

— Faça com que eles parem de se mover — ela falou ao Gato.

— Não existe eles madame. São apenas memórias e nada mais.

— Esse é o momento onde eu o mando embora, esse é o momento em que eu destruí a minha vida. O momento em que eu o perdi para sempre. Não deixe ele ir embora novamente. Pare o tempo, você tem que parar esse tempo!

— Eu não tenho esse poder. Eles vão repetir essa dança enquanto você viver.

— E se eu morrer antes dele partir?

— O que lhe importa a forma que eles manterão depois de sua morte?

— Importa para mim. É tudo que importa pra mim!

— Se você morrer a imagem vai parar de se mover. O anima é imortal, mas sem alguém para alimentá-los, eles vão viver eternamente como estátuas invisíveis.

— Então você pode me ajudar — a madame pegou e lhe entregou a faca usada para cortar o quadro. — Rápido, antes que eles se separem.

— Eu lhe avisei sobre os perigos de olhar dentro das sombras?

— Sim, mas eu já sabia. Eu acho que eu sempre soube, eu só não queria ver. Obrigado por me fazer enxergar.

Zemial colocou a faca sobre a mesa.

— Lâminas são as ferramentas de bárbaros! – de sua bolça ele retirou o frasco verde e o entregou a Eulonieta. — Se é isso que você realmente quer… um gole lhe libertará de sua dor.

Eulonieta bebeu do frasco sem um segundo de hesitação.

— Um gole era suficiente — falou Zemial ao pegar de volta o frasco vazio.

Eulonieta sorriu.

— Você não precisa disso, eu tive minha chance, você ainda vai encontrar a sua.

Zemial queria perguntar como ela sabia que o frasco era para ele. Se ela podia ver que ele não era apenas uma testemunha de seu sofrimento e sim um companheiro de celas invisíveis? Mas não havia mais tempo, Eulonieta já estava morta, tinha ido ainda sentada em sua cadeira, ainda sorrindo.

Zemial se virou para ver os fantasmas. E lá eles estavam, juntos e abraçados entre si. Mas algo estava terrivelmente errado, este não era o abraço de despedida de antes, o que estava diante dele era um abraço de conforto e amor.

— Foi isso que aconteceu naquele dia? — ele perguntou ao anima. — São velhas lembranças que você me mostra, ou seria isso algo novo? Estou vendo a verdade do que aconteceu? Ou você me atormenta com o que eu anseio em assistir?

O anime não responde e os fantasmas também não. Eles apenas sorriem, e aos poucos, o azul cristal perde sua cor, e eles começam a sumir.

— Estaria você se alimentando agora de mim?

Sem receber sua resposta Zemial se move para a porta de saída. Mas dentro dele algo inusitado acontece, um sentimento de esperança. Uma vaga noção que talvez exista mais do que ele sempre acreditou existir. Algo que dê a esta estória uma fagulha de significado, que talvez nem tudo seja apenas em vão. Que exista algo além da dor.

Ele esperava que sim, mesmo sabendo que a resposta era não.

 

FIM?

 

1 Comment

  1. Na casa de uma ilustre rata, Zemial ajuda, com seu pó azul, e assiste um ritual de lembranças de dor, de um amor que não foi vivido, um ritual do que não foi e do que poderia ter sido, num banquete para fantasmas.
    Como a história não poderia ser modificada, a senhora rata se envenena para, já então como fantasma, se juntar ao seu verdadeiro amor.
    Quando Zemial se virou para ver os fantasmas, eles estavam abraçados não num abraço de despedida como antes, mas num abraço de conforto e amor.
    “Mas dentro dele algo inusitado acontece, um sentimento de esperança. Uma vaga noção que talvez exista mais do que ele sempre acreditou existir. Algo que dê a esta estória uma fagulha de significado, que talvez nem tudo seja apenas em vão. Que exista algo além da dor.”
    Quase uma fábula Shakespearediana…(inventei a palavra?) Muito interessante. Gostei.

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