A Sombra da Inocência

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Eu ainda me lembro de quando eu era feliz. Eu me lembro de caminhar ao lado de minha mãe pelas ruas de pedras redondas e coloridas da Capital de Ilys, a mais rica e bela cidade da nação dos Coelhos. A gente nunca comia no mesmo lugar duas vezes. “A vida é muito curta para repetir experiências, mesmo as boas. Ter e perder são a mesma coisa.”, ela sempre me dizia, e eu sempre fingia que entendia. Eu devo ter comido em mais de centenas de lugares diferentes. Cada um desses momentos são meus últimos tesouros. Primeiro eu perdi minha mãe, depois eu perdi minha vida na cidade, mas agora, quando eu achei que não me restava mais nada para perder, o tempo rouba de mim as memórias dos bons momentos. Eu não me lembro mais da maioria dos restaurantes, não me lembro mais dos pratos que comi. Não me lembro do sabor de nada.

Minha mãe também está começando a ir embora, eu penso nela todos os dias. Ela era a Coelha mais linda da Capital. Seu pelo era branco e puro como o pelo do meu irmão mais novo, Aito. Suas orelhas eram altas e a esquerda se dobrava quando ela sorria. Ela amava sorrir. Eu me lembro dela sorrindo para mim. Mas eu não me lembro da cor dos seus olhos. Como  eu posso me esquecer de ter sido feliz, como  eu posso achar meu caminho de volta se eu  esquecer tudo de bom que já me aconteceu?

Eu era feliz quando a gente morava na Capital. Eu amava meu pai naquela época. Todo mundo amava ele naquela época. O único sobrevivente da Batalha das Viúvas. A grande vitória que exterminou a maior tribo de Panteras dos estepes de Ilys. Como prêmio, ele  foi posto na guarda de elite do imperador. Foi-lhe permitido a honra máxima de se tornar um Daykar, e aprender as sete disciplinas da morte. Ele se tornou um herói, o que lhe permitiu casar acima de sua estação social baixa com uma Coelha de sangue nobre, filha de uma família honrada.

Eu e meu irmão crescemos sobre a sombra desse guerreiro legendário. Eu pude estudar na Escola da Guerra, onde eu recebia de todos o respeito e admiração que eles tinham por meu pai. Meu futuro estava escrito, eu me formaria entre os melhores 1% da minha divisão, e compartilharia a honra máxima de me tornar um Daykar. Eu entraria para o exército como um oficial e conheceria o mundo ao levar glória e conquistas a minha Nação.

Aos seis anos eu tinha toda minha vida a minha frente, mas antes deu completar sete, meu pai estragou tudo, ele destruiu meu futuro. Essa é a parte da estória que eu queria esquecer, essa é a parte que me faz ficar sem dormir à noite. Mas, enquanto meus momentos felizes fogem de mim, as lembranças ruins me possuem, eu raramente consigo pensar em outra coisa que não elas.

Eu saí com a minha mãe e voltamos tarde, depois de passar o dia no museu dos Porcos. Meus pais estavam brigando todos os dias, e quanto mais eles brigavam, mais longo era o meu passeio com minha mãe. Hoje eu sei que nossos passeios de felicidade e as brigas estavam interligados. Enquanto eu me divertia com minha mãe, nosso mundo desmoronava a minha volta sem eu perceber. Aos seis anos, eu era muito parecido com meu irmão mais novo. Eu só tinha olhos para as coisas boas. Até que naquele dia eu aprendi que as coisas boas são apenas o preludio do mal que estava por vir. Nós chegamos tarde naquele dia e encontramos Aito chorando em seu berço. Meu irmão Aito nunca chorava. Eu peguei meu irmão no colo. Foi quando meu pai entrou na sala, ele sangrava e segurava com a mão esquerda seu braço direito.

Ele sorriu para minha mãe.

“Eu quero que você veja a minha dor”, ele falou embriagado e jogou seu braço direito aos pés dela. Meu grande herói, era na verdade um bêbado louco.

Existia um lógica na loucura dele. Com um ato ele transformou sua honra em vergonha.Quando fui para escola no dia seguinte,  meus amigos me ignoraram, depois se afastaram,riram e apontaram para mim,  quando achavam que eu não estava percebendo.

Minha mãe foi deserdada pela família, no mesmo dia em que meu pai foi expulso da guarda de elite. So meu irmão Aito não sofreu, ele era pequeno demais para entender que nossa vida na Capital tinha acabado. Nós saímos da cidade durante à noite para que nossa vergonha e humilhação não alimentassem os olhos gordos e os sorrisos falsos dos vizinhos e conhecidos.

Nós viajamos até o fim do mundo, onde nossos vizinhos mais próximos ficavam a dias de viagem, aqui no meio do nada na terra de ninguém, começou nossa nova vida como Figydeiros. Eu sempre me perguntei se esse foi seu plano desdo inicio, se quando meu pai cortou seu braço ele sabia que era aqui que a gente terminaria no resto de nossos dias. Se foi, se ele achou que nós íamos dividir sua prisão ele se enganou. Minha mãe foi embora no ano seguinte. Isso faz mais de seis anos. Hoje eu tenho dezessete, meu irmão Aito tem doze. E agora eu sinto que é a nossa vez de ir embora, e nossa vez de escapar da prisão sem muros que meu pai construiu para todos nós.

As vezes eu tento não pensar em como meu pai destruiu tudo. Eu tento lembrar como era admirá-lo, como era amá-lo. Mas sempre que vejo ele beber, eu sinto uma escuridão dentro de mim crescer. Outras vezes eu entendo que não importa o que eu faça, já é tarde demais para mim. Por que eu sou igual ao meu pai, tenho o mesmo pêlo escuro, tenho o mesmo coração negro.

– Levanta seus vagabundos, o sol está para nascer! – meu pai gritou da sala.

Nossa cabana não era igual a nossa casa na Capital, lá eu tinha meu próprio quarto. Aqui tudo que eu tinha era uma plataforma que ficava em cima do pequeno aposento que era o nosso lar. Eu dividia essa tábua, que servia de quarto, com o meu irmão. Mal cabiam nossas duas camas de tatame, o resto da cabana era uma sala, uma cama, e uma cozinha com uma mesa. Tudo apertado e caindo aos pedaços.

– Será que eu vou ter que repetir? – meu pai dessa vez falou, em vez de gritar.

Meu irmão acordou com um sorriso, sem usar a escada ele pulou para a sala. Eu gostava de ser o último a descer, eu adiava cada movimento, deixando meu pai ficar o mais irritado possível, mas sem dar justificativa para ele me punir. Era um jogo só nosso, ele fazia algo que me desagradava, eu fazia algo de volta. Uma vez eu fiquei quatro dias sem falar com ele, apenas respondendo sim ou não. Ele fingia que não se importava, mas cedo ou tarde ele cedia e tentava ser gentil ou me convidava para ir com ele para comprar mantimentos. Eu sempre queria ir, eu odiava ficar aqui, nesse fim de mundo que ele arrumou para gente. Mas na maioria das vezes eu dizia “não, obrigado”. Afinal, foi ele que me ensinou, não importa quanto do nosso sangue é derramado numa batalha, o que importa que o sangue inimigo derramado seja maior.

Todos os nossos dias nesse fim de mundo eram sempre os mesmos dias. A gente acordava antes do sol nascer, tomava um café da manhã de frutas, nozes e queijo. Eu não suportava o leite dos Figy, mas era isso ou água, então eu bebia. Nos dias de bom humor meu pai contava estórias sobre a guerra, nos dias de mal humor, que eram cada vez mais constantes, ele ficava calado e bebia escondido. Depois do café eu contava o rebanho, enquanto Aito lavava os pratos. Com o rebanho contado a gente atravessava a ponte com os animais e andava cinco quilômetros pelas bordas da floresta até as colinas onde eles sempre pastavam.

No longo caminho, eu lembrava como era morar na Capital, como era ter amigos, como era ver fêmeas, como era ser respeitado e admirado. Na escola da guerra todo mundo ria da vida entediante e sem propósito dos meninos que trabalhavam nas fazendas. Eles eram piores que nós. Agora eu era um deles, pior ainda, porque os camponeses não sabem o significado de honra disciplina e dever.

A única parte do meu dia que eu suportava era o treino. Eu não sei porque, mas mesmo depois que saímos da Capital, meu pai continuou minha educação marcial. Todas as manhãs, durante as quatro horas que os animais pastavam, meu pai nos dava lanças de verdade com um couro protetor sobre suas lâminas. Meu pai era implacável, cada erro, por menor que fosse, era respondido com uma porrada do seu cajado. A intensidade de cada porrada, no entanto, era dosada de acordo com seu humor e nível de embriaguês. Nesse último mês ele começou a nos deixar roxos e inchados, não demoraria muito até sangue ser derramado, quem sabe, ossos quebrados.

Quando o dia chegava ao seu pico, o treino terminava e a gente almoçava tiras de carne cozinhadas ao sol. Os animais eram contados e a gente caminhava de volta. Tudo sempre igual. Dar água ao rebanho, tirar o leite para o dia seguinte. Meu irmão preparava o queijo, eu limpava o cercado, depois juntos a gente preparava o jantar. Quando a luz do sol se escondia, eu acendia as velas, meu pai se sentava em sua poltrona de couro, e eu no chão. Aito escolhia um livro e lia para todos até a hora de deitar. Meu pai bebia abertamente à noite. Eu podia ver nos olhos dele os pensamentos parecidos com os meus. Ele lembrava de tudo que perdeu. Eu nunca sentia pena dele, ele merecia sofrer. Meu único alívio era saber que por mais que eu sofresse, ele sofria ainda mais que eu, sangrava mais que eu. Aí a gente dormia, e acordava para a mesma tortura de tédio e repetição, e todos os nossos dias eram os mesmos, mal eu sabia que no dia seguinte, enquanto eu praticava com meu irmão, nosso mundo estava prestes a desabar.

– Nós somos uma das espécies mais fracas das cinco nações – meu pai falou enquanto eu e meu irmão fazíamos nosso kata com nossas lanças. – Os Gatos de Troferos são mais rápidos; os Gorilas de Gaul são mais fortes; e os Cães de Caltos são conhecidos por terem maior exército. Apenas os Ratos de Kazil são inferiores à nossa espécie em tudo.

Eu segurava minha lança com as duas mãos enquanto meu irmão Aito segurava a sua lança com apenas uma. No seu braço esquerdo ele usava uma proteção de couro com um pequeno escudo acoplado ao antebraço. Ele mantinha sua arma na formação acima do ombro. Ambas as lâminas estavam cobertas em couro.

– Durante nossa história fomos caça para as tribos selvagens, depois escravos dos Porcos, que se autoproclamaram nossos deuses, depois fomos servos na Dinastia do Leão Branco – meu pai interrompeu seu discurso para bater com seu cajado na testa de Aito. – Atenção menino, sempre espere um ataque.

– Sim senhor, meu pai – Aito falou sem um resíduo de raiva em sua voz.

– Me diga Aito, quem nos libertou? – meu pai continuou o velho discurso. – Quem deu aos Coelhos o domínio sobre o reino de Ilys?

– A lança nos libertou, Pai. A mestria do Kaytae – Aito falou.

Kaytae era a variação da lança criada pela nossa espécie, sua lâmina é mais pesada, não é tão eficiente quanto a lança tradicional para o arremesso. Contudo, é bem mais letal no combate corpo a corpo. Ela tinha sido criada pelo grande mestre das armas Samuto Keigai e entrou para a estória de Morserus quando seu filho, Namoko Keigai, matou num duelo o Leão que era o regente de Ilys. Kaytae foi a arma usada para dar o primeiro golpe que desencadearia uma revolução que terminaria com a queda da Dinastia dos Leões Brancos.

– Me mostre qual de vocês é digno de viver hoje – meu pai falou indicando que era hora de lutar.

Eu me aproximei de meu irmão, Aito, usando uma postura chamada Escorpo, nessa posição minhas mãos permaneciam na base da lança com meus braços levantados apontando a lança para baixo, era uma postura de penetração, que colocava a distância a meu favor. Aito conhecia essa tática, e como resposta colocou sua mão direita no centro de sua lança, enquanto sua esquerda ficava na minha direção. Eu daria o primeiro ataque, mas com um erro meu ele poderia contra-atacar e entrar dentro de minha formação.

Nós lutamos, Aito sempre foi mais rápido enquanto eu sempre fui mais forte, em cada ameaça ele desviava para o lado, nunca para trás. Cada golpe meu nunca era completo, eu fingia que iria atacar com tudo, e recuava. Aito nunca iniciava, seu estilo era sempre a defesa e o contra-ataque. Eu sempre falava que ele não tinha coragem de tomar a iniciativa, mas a verdade é  que ele era mais esperto que eu, mais paciente. Eu me cansava mais para atacar que ele para se defender, tudo que ele tinha que fazer era esperar um erro meu para ganhar. O problema para ele era que eu nunca me permitia errar.

– Chega de brincar Kuro, finaliza o seu irmão – meu pai falou impaciente.

Aito se distraiu e olhou para o nosso pai, eu vi a minha abertura, avancei sobre ele e poderia ter feito meu ponto. Mas eu hesitei um segundo antes de fazer meu ataque. Tudo que ele precisava era metade desse segundo. Aito bloqueou com seu escudo, entrou dentro da abertura e pressionou a sua lança em meu estômago. Num piscar de olhos eu tinha perdido.

– Eu venci eu venci – falou Aito eufórico. – Eu venci, Kuro.

– Sim irmãozinho, você venceu – eu falei sorrindo, olhando para o meu pai.

Ele se aproximou de mim.

– Você acha que isso é um jogo? – meu pai falou esfregando a madeira gorda do seu cajado no meu rosto. – Você tem ideia de quantos morreram nos campos de batalha por não respeitarem nossa técnica e disciplina? – ele me bateu com o cajado. Eu caí no chão sentindo o sabor de ódio em minha boca. Eu cuspi sangue na grama verde e me levantei para olhar ele nos olhos. Mostrar para ele que eu não tinha mais medo. – Ao desrespeitar a arte do Kaytae, você desrespeita sua espécie – meu pai falou.

Quando ele levantou o cajado novamente. Eu não virei o rosto, eu não fechei os olhos, eu queria mostrar para ele o monstro que ele havia se tornado. Mas dessa vez ele não bateu. Ele viu o sangue que escorria na minha boca. Eu pude ver o remorso em sua feição por um segundo, mas no segundo seguinte ele já estava repensando em como isso tudo era culpa minha e não dele.

– O que você tem a dizer, seu verme? – meu pai perguntou.

– Eu te odeio.

Dessa vez ele veio na minha direção sem remorso.

– Para pai, você vai machucar ele – Aito esbraveou, se colocando entre nós.

– Você é um estúpido, tal qual sua mãe. Seu irmão te desonra, não somente a você, mas a si mesmo e a todos nós – meu pai falou para Aito, que olhava confuso. – Você não ganhou, seu estúpido, ele te deixou ganhar.

– Não? – ele falou olhando para mim. – Isso não é verdade, né Kuro?

– Qual a diferença? Nós somos pastores brincando de soldados. Quem se importa com quem ganha ou perde?

– Quem perde sempre se importa – meu pai falou, agora com uma voz de tristeza no lugar da raiva. – Alguém vai querer o que você tem um dia, Kuro. Quando você estiver feliz. Alguém vai vir buscar o que é seu. Vai dizer que o que é seu não é mais seu. É assim que nascem as batalhas e as guerras. Não importa quantas batalhas você ganha, é só perder uma para você perder tudo. Eu perdi uma luta, uma só, e nessa luta eu perdi tudo, eu perdi sua mãe, e vai vir a hora que eu vou perder vocês também.

Aito abraçou nosso pai e por um instante eu pensei em me juntar a eles. Até que meu pai empurrou meu irmão, que caiu de costas no chão.

– Seu fraco de pelo branco! – meu pai falou com os olhos vermelhos. – Sua resposta para tudo é compaixão? Você não quer matar os animais, você não quer atacar o seu irmão, não importa como eu te trate você não me olha como o Kuro. Você é um fraco, Aito. Sem raiva no seu coração o mundo vai te devorar. Aprende comigo, aprende antes que seja tarde.

– Cala a boca seu mostro! – eu gritei pegando minha lança. – Você não é nosso protetor, não se iluda, você é nosso carcereiro! O dia vai chegar, quando nós vamos ser livres de você. Um dia você vai acordar nesse fim de mundo e você vai estar sozinho. Se afogando no seu rancor, esperando para morrer.

– Tira o couro protetor. Liberdade se paga com sangue.

– Eu posso te vencer sem precisar te matar, seu velho aleijado.

Com uma batida do seu cajado meu pai arrancou o couro e deixou a lâmina nua brilhando na luz do dia. Não era uma vitória justa derrotar um velho sem seu braço mestre. Mas eu não me importava com o justo, eu queria ver ele sangrar, eu queria ver medo em seus olhos, eu queria dar de volta cada sentimento de vergonha e humilhação que ele me fez engolir durante todos esses anos. Ele era o grande vilão da minha vida, e sua derrota seria meu primeiro passo para uma vida melhor.

Eu pulei em sua direção mirando em seu ombro no lugar do coração. Mas com o menor dos movimentos meu pai desviou do golpe, eu rolei no chão e me virei junto com minha lança, tentando cortar no lugar de perfurar. Ele bloqueou o golpe com seu cajado, depois chutou meu peito, me derrubando de costas no chão. Ele bateu com o cajado nos meus dedos e eu soltei minha arma. Eu tentei rastejar e pegar ela de volta, mas ele me chutou no rosto.

Quando eu parei de ver o mundo rodar, meu pai estava sobre mim, seu cajado estava no chão, e em sua mão esquerda ele tinha minha lança com a ponta apontada para o meu pescoço.

– É culpa sua que ela foi embora – eu falei querendo ferir ele de qualquer forma que podia. – Ela te abandonou por que você é ruim.

– Eu não fui o único que ela deixou para trás, filho.

Mal ele terminou de falar e virou a lâmina, bateu com o cabo de madeira no meu pescoço. Eu perdi o fôlego, eu tentava respirar, mas não conseguia, eu estava sufocando, eu estava morrendo.

– Ele vai morrer, Pai – Aito falou quase chorando.

– Então você tem que ajudar seu irmão.

Aito tentou vir na minha direção, mas nosso pai se colocou no seu caminho.

– Ele está sufocando, Pai.

– Será que você entende agora? O peso da sua fraqueza.

– Me desculpa pai, eu prometo que eu vou treinar mais. Você está certo, eu sou um covarde, eu sou fraco. Mas você é forte, você já provou que é forte. Ajuda ele, por favor.

– Vocês só trazem vergonha – meu pai falou ao largar minha lança e ir embora.

Quando Aito me alcançou, eu ainda sufocava e babava. Ele me virou e colocou meu rosto de contra o chão. Eu vomitei e depois de vomitar eu consegui respirar novamente.

– Está bem? – ele perguntou.

Eu acenei que sim. Nós descansamos por alguns minutos sem falar nada. E depois levantamos, contamos os animais e caminhamos com eles de volta.

 

Ao passar da ponte encontramos nosso pai, já do lado de fora da cabana, atrelando nosso animal de carga, a carroça já estava cheia de novelos de lã de Figys. Ele estava indo para vila trocar a lã por mantimentos e álcool.

– Eu vou demorar uns dois dias, como sempre, talvez três – meu pai falou sem olhar para nós. – Se eu sou o vilão da vida de vocês, se é tão horrível viver comigo, eu espero que vocês fujam desse cativeiro antes de eu voltar. – Ele montou na carroça e olhou para mim com um misto de remorso e rancor. – Há um mundo cruel a nossa volta, um dia vocês vão descobrir essa verdade. Eu não sou o vilão aqui, o vilão é o mundo. Eu sou a única coisa que protege vocês desse mundo. Um dia vocês vão conhecer essa verdade. Cedo ou tarde, todos aprendem isso, cedo ou tarde eu não vou mais poder proteger vocês de nada – ele deu uma pausa, depois continuou com dificuldade. – Eu sei que eu não sou perfeito, mas eu sou o único que sobrou. Sem mim, vocês só têm um ao outro.

– Adeus pai – eu falei sem realmente saber que era a última vez que eu o veria.

Ele não respondeu, bateu as rédeas e foi embora. Eu prometi a mim mesmo que nunca mais veria meu pai. Mas eu já tinha feito essa promessa antes, e por mais que eu o odiasse, a verdade é que eu me odiava ainda mais por não conseguir me afastar.

No que sobrou do nosso dia nos focamos em nossas tarefas como se nada tivesse acontecido, mas um silêncio insuportável parecia gritar que tudo estava errado. Depois de comer, Aito pegou um livro para ler, mas não leu alto como era o costume. Ele parecia estar com vergonha de mim.

À noite subimos para a tábua suspensa que era nosso quarto, eu não conseguia dormir, sabia que meu irmão também estava acordado ao meu lado no escuro da noite. Eu queria encontrar as palavras para confortar ele, mas por mais que eu pensasse, nada me vinha a mente.

– Você me desculpa, Kuro? – Aito falou primeiro, quebrando um silêncio de quase seis horas.

– Desculpar o que?

– Eu não tive coragem de enfrentar o Pai.

– Não é coragem, é burrice enfrentar alguém mais forte, você fez bem, Aito.

– Mas o Pai estava certo. Se você é fraco, você não tem como ajudar ninguém. Eu vou treinar mais amanhã, eu vou mostrar para o Pai que eu também vou ser forte que nem ele.

– Não Aito, o Pai está errado, será que você não vê que ele é um bêbado?

– Não, ele é um herói! Ele só ficou triste porque a mãe foi embora, mas você vai ver, qualquer dia a mãe volta e ele vai voltar a ser feliz.

Era em momentos como esse que eu odiava meu irmão. Em seu mundo não existia mal. Não importava a atitude do nosso pai; ele podia estar bêbado logo pela manhã que meu irmão não via mal na atitude dele. Ele dizia que era tristeza, que quando a tristeza passasse, nosso pai voltaria a sorrir. Quando ele nos xingava, meu irmão não ouvia o mal nos palavrões e insultos, as mesmas palavras que me faziam arder de ressentimento e indignação não surtiam nenhum efeito em meu irmão. “Era a bebida falando”, ele dizia, às vezes sorrindo. Meu irmão nunca respondia ou falava mal de volta. Aito sempre me fazia sentir como se o problema fosse eu, que não tinha nada de errado com o nosso mundo, não havia injustiça ou pessoas que mereciam ser punidas por seus erros. Tudo mundo era bom, inclusive nosso pai, inclusive eu.

Mas era claro que o mal existia. Eu sabia muito bem disso. Eu sempre pude ver a verdade, nosso pai era um fracassado alcoólatra que despejava suas frustrações nas únicas pessoas que não tinham como fugir dele. Ele não era um herói, nossa mãe não estava por vir. O amanhã de Aito nunca chegaria, ele queria que seu mundo fosse como nas estórias que ele perdia seu tempo lendo. Onde tudo sempre termina bem no final, mas a verdade é que nada termina bem no final. Quanto mais cedo ele aprendesse isso, melhor.

– Nossa mãe nunca vai voltar, Aito.

– Eu li num livro sobre a religião dos Bodes. Eles têm duas lâmpadas que são uma. Elas simbolizam a lâmpada que está dentro do nosso coração. Numa tem a luz branca, quem segue a luz branca realiza seus sonhos, porque a luz branca é a voz do bem.

– E a outra lâmpada?

– É uma lâmpada de sombras. Nela você encontra sua sombra, e muitos acham que são as suas sombras, mas ninguém é uma sombra. Nós temos sombras, não somos as sombras. Mesmo assim, muitos se perdem seguindo a própria sombra, acreditando que a visão escura deles é eles. Então eles seguem sua sombra e se afastam da luz.

– Falou muito e não disse foi nada, o que isso tem a ver com a mãe voltar, o que isso tem a ver com a gente?

– Eu não tinha entendido também, eu li esse livro várias vezes. Mas eu acho que funciona assim.  Nossos pensamentos que trazem alegria são a luz, os pensamentos que nos trazem tristeza são as sombras. Eles contam a estória de dois Bodes, dois irmãos como a gente. Isso aconteceu muito antes da Ermitagem, quando os Lagartos dominavam todas as espécies e as cinco terras de Morserus. Os Lagartos mataram todos os Bodes adultos e fizeram os dois irmãos de escravos junto com todas as crianças de sua espécie. Um irmão jurou vingança, o outro perdoou e aprendeu a amar os Lagartos. Os dois realizaram o seu sonho. O irmão que amou os seus inimigos foi libertado e ganhou de presente a grande montanha onde todos os Bodes hoje vivem. O irmão que jurou vingança roubou os segredos da biosfera negra e, com a ajuda dos Gatos, criou um inverno de cem anos que matou centenas de milhares de Lagartos e afastou para o deserto sem fim os poucos que sobraram.

– E que em nome do abismo e uma biosfera negra.

– Sei lá, no livro não dizia. Mas presta atenção Kuro, os dois sonhos viraram realidade, o de luz e o de sombras. Se isso for verdade, se a lanterna nos dá duas vidas possíveis. Dois sonhos, você tem que escolher o sonho que te faz feliz.

– Meu sonho é ir embora daqui. Meu sonho é pegar nossas coisas e ir para o norte, você sempre fala de Caltos, a nação dos Cães, a gente poderia ir para lá. Eu não acredito em nada que você falou. Mas eu acredito que a gente tem que ir embora. Vamos embora antes que ele volte.

– Norte? Você tem ideia da distância entre onde estamos em Ilys até Caltos?

– Tanto faz o lugar, Troferos então. A gente pode conhecer a nação dos Gatos.

– Não. Esse não é meu sonho. Quem vai cuidar dos Figy? Quem vai cuidar do Pai? E quando a mãe voltar?

– Tem um mundo lá fora que a gente nunca viu, Aito. A gente vai ser Figydeiros para o resto das nossas vidas, é isso que você quer?

– E qual o problema? Eu gosto de ser um Figydeiro, a gente cuida dos Figy, eles cuidam da gente. Eu só não gosto quando o Pai mata um para usar a carne. Mas tem que ser, né Kuro?  O pai diz que a vida cobra um preço, e o preço deles é esse.

– E o nosso é qual? Fazer companhia para um bêbado abusivo, que faz de conta que estamos treinando para a guerra, mas que nunca vai nos deixar ir a lugar algum, qual foi a última vez que ele levou a gente para a vila? Ele vai esconder a gente do mundo, não porque quer proteger a gente, e sim porque ele sabe que o mundo tem lugar para a gente, mas para ele não tem mais.

– O lugar do Pai é com a gente, nosso lugar é aqui. Nossa vida é aqui!

– Que vida, Aito? Dar de comer aos Figy? Limpar o celeiro? Brincar de soldado? Que vida que a gente tem?

– Eu não quero ser um soldado de verdade, eu não quero machucar ninguém. E eu não preciso sair daqui para conhecer o mundo, eu posso ler. Como eu li sobre as Sete Torres de Troferos, como eles deixaram de ser uma monarquia e se tornaram uma meritocracia; ou como os Cães de Caltos já foram a muito tempo atrás apenas uma única espécie de Cão, mas que depois viraram três espécies, e hoje são mais de treze.

– Por que eu vou ler sobre algo se eu posso viver algo?

– Por que ler te leva a qualquer lugar, a gente pode ir para o passado e saber como tudo começou, ou aprender como coisas que parecem mágicas, como as ilhas voadoras, são na verdade uns bichinhos invisíveis chamados anima, que fazem um monte de coisas impossíveis acontecerem.

– Não é a mesma coisa para mim, Aito. Você era pequeno quando a gente veio para esse fim de mundo. Você não lembra da Capital, você nunca frequentou uma escola, você acha que você pode ler o que é viver numa cidade com mais de cem mil habitantes, mas para você, cem mil é só um número; mas quando você vê, quando você se perde no meio de uma multidão de rostos e espécies é diferente, eu já vi um Cão, Aito, eles maiores que a gente, mais fortes, e as pernas deles são diferentes, o joelho deles dobra para trás e não para a frente como o nosso. Eles não correm como nós, nem pulam como nós, são outra espécie, e você pode ler mil descrições, mas até ver um, você não vai ter a menor ideia do quão realmente magníficos eles são.

– Um dia a gente vai até a cidade, aí eu vejo mais do mundo.

– Não, o Pai nunca vai deixar a gente sair daqui. A gente tem que ir agora, hoje, antes que ele volte, antes que seja tarde demais, Aito. Por favor, vem comigo.

– Eu não posso, Kuro.

– Não pode por quê?

– Eu já disse, os animais, o Pai. Quem cuida deles?

– Quem se importa?

– Eu.

– Você é um tolo, isso sim! Esse é seu sonho de luz? Ser um ninguém em lugar nenhum?

Eu ouvi um choro que parecia ser o choro de uma criança. Não uma, várias crianças. Mas não eram crianças, eram os Figys, nossos animais estavam urrando em terror. Aito foi o primeiro a pular da cama e ir até a janela.

– O que você está vendo? – eu perguntei.

– Nada, está muito escuro.

Os animais continuavam a urrar com um som fino de um assobio mórbido. Eu me vesti o mais rápido que pude, depois desci as escadas, onde tirei minha lança pendurada na parede. Aito veio para meu lado, repetindo tudo que eu estava fazendo.

– Nem pensar, você fica aqui e me espera – eu falei saindo e fechando a porta atrás de mim.

 

Eu olhava horrorizado enquanto o animal agonizava. Uma de suas pernas tinha sido arrancada e não estava à vista. O estômago do animal estava aberto, e suas entranhas esparramadas ao chão. O sangue vermelho-alaranjado do Figy banhava seu felpudo novelo encorpado. O animal berrava alucinado enquanto seus olhos negros, sem pálpebras, imploravam por alívio.

Ao redor do Figy ferido mais meia dúzia estavam caídos e mortos com suas gargantas estraçalhadas. O que restou do rebanho se amontoava no canto mais distante do portão quebrado do curral. Eles tremiam, suavam e salivavam. Eu sabia que eles usavam suas línguas para cheirar predadores, mas um Figy sempre assoviava na presença de perigo. Eu não tinha ouvido nenhum assobio de alerta. Não existia tempo entre o primeiro grito que eu escutei e a morte de tantos animais. “Por que eles não gritaram antes?”, eu pensei. Minha resposta foi um gemer de dor, eu levantei a minha lança e enfiei através da garganta do animal.

– Nós temos que ir buscar o Pai! – Aito falou atrás de mim, já vestido e segurando sua lança.

– Quem vai cuidar dos animais até a gente voltar?

– Eu fico então.

– Quem vai cuidar de você?

– Eu não sou criança, Kuro. Eu tenho quase treze anos já.

– Muito arriscado, mesmo que você fique dentro da cabana, o que impede o animal que fez isso de voltar para terminar com o rebanho?

– Eu protejo eles.

– Não.

– Eu sei lutar tão bem quanto você, Kuro.

– A vila fica a dois dias para ir e voltar, a gente não tem dois dias. Amanhã cedo eu saio para matar o animal que fez isso.

– Eu vou também.

– Você fica.

– Eu não vou deixar você lutar sozinho.

– Não tem perigo, se ele caça à noite, de dia ele dorme. Se eu achar sua trilha, o mato fáci – eu falei querendo parecer confiante.

– Não.

– Não tem não Aito, me ajuda com os Figy.

Nós carregamos as carcaças dos animais mortos para o outro lado da casa, onde ficava nossa mesa de açougue. A gente podou a lã e depois cortou eles em pedaços, salgando cada pedaço antes de colocar eles nas caixas de sol.

Aito raramente destrinchava os animais, mas naquela noite ele me ajudou. Nós trabalhamos até o amanhecer. Depois, exaustos, subimos para nossas camas no palanque e dormimos. Eu fui o primeiro a acordar depois de poucas horas de sono. Eu tinha perdido a fome, mas me forcei a beber um copo de leite e comer duas fatias de queijo. Eu ainda estava cansado, queria barricar a porta e me esconder em casa. Mas essa não era uma escolha, eu tinha que provar para o meu pai que eu não tinha medo do mundo. Eu iria matar o maldito animal. Eu iria mostrar para meu pai quem eu realmente era.

Todos os Daykar usavam a mesma vestimenta, que representava honra e valor. Era uma armadura leve, com metal apenas no peito e num dos braços. O resto do corpo ficava protegido apenas por um couro trançado, que não obstruía a velocidade de movimento. Meu pai não deixava a gente tocar na sua armadura. Ela, junto com arma Kaytae, eram os últimos resquícios do herói que ele um dia foi.

Sem me importar, eu coloquei sua armadura. Eu era um pouco menor que meu pai, mas ela me servia bem. Na minha braçadeira esquerda acoplei o pequeno escudo chamado Manica. Um modelo melhor que o que meu irmão gostava de usar nos treinos. Ele protegeria meu antebraço e seria usado para bloquear ataques sem sacrificar o uso da minha mão mestre. Eu pensei em levar sua arma também, mas eu não precisava dela. A minha furava tão bem quanto a dele.

 

Eu pensei em me despedir de Aito, mas ele iria querer vir comigo. Essa era a minha luta.

Passando a ponte, logo quando eu dei meus primeiros passos dentro da floresta, me ocorreu que eu estava caminhando para minha morte. O medo que eu tinha escutado antes, o medo que tinha me dito que seria horrível ouvir as acusações de meu pai ao encontrar seu rebanho morto,  agora me dizia outra estória. Sobre uma criança tola que teria sua garganta rasgada por um predador desconhecido enquanto brincava de soldado usando as roupas do seu pai.

Não foi coragem que me fez continuar. Eu tremia o suficiente para entender que eu não era corajoso. Mas uma coisa era eu saber disso, outra era meu irmão descobrir. Eu pensei na estória da lâmpada que ele tinha me contado ontem, sobre você seguir a sua sombra e se afastar da luz que diz quem você realmente é. Será que eu estava seguindo minha vontade, ou a vontade da sombra de quem eu gostaria de ser?

Eu não tive que andar muito até encontrar os primeiros rastros de sangue. Eu deveria ter perguntado a Aito que tipo de predador poderia ser, afinal não existiam predadores nessa floresta, os animais perigosos viviam nos estepes além do Rio Faminto, junto com as tribos selvagens.

Eu tentei me guiar apontando minhas orelhas individualmente, uma para cada lado, procurando qualquer som intruso na floresta. Algo além dos pássaros e insetos. Mas não foi o som que eu encontrei que me assustou, outra coisa me fez querer correr de volta.

À minha frente, eu ouvia o nada. Não era apenas um silêncio, pois mesmo no silêncio se pode ouvir os sons da floresta. Mas o que eu ouvia à minha frente era um inatural nada.

Seguindo esse nada eu me deparei com uma clareira. Olhando sorrateiramente por trás de arbustos, avistei quatro filhotes sobre a carcaça de um de nossos Figys. Os pequenos animais cinzas estavam rasgando sua pele e se fartando em sua carne. Eles pareciam rosnar, mas eu não escutava nenhum som.

Cada filhote tinha quatro patas, quatro olhos, e nenhuma cauda. Sua pele era cinza e enrugada, com dentes e garras afiadas. Deitado ao lado deles havia uma sombra. Uma sombra que parecia respirar. Uma sombra que parecia estar viva. Essa sombra atraía as sombras em sua volta, que a cobriam como uma capa. Dentro da sombra eu podia ver o contorno de uma criatura similar aos filhotes, apenas maior, muito, mais muito maior.

Eu nunca tinha ouvido falar sobre animais de sombras. Eu dei um passo para trás, era hora de voltar para casa e barricar a porta. O que quer que fosse isso à minha frente, era algo que estava além do que eu poderia enfrentar.

No meu segundo passo eu senti um graveto se partir sob meu pé. Não ouvi nenhum som. Já a sombra que dormia levantou sua cabeça. Do interior de suas trevas, quatro olhos vermelhos se abriram. Eles procuravam individualmente e sem sincronia pelo som que não tinha feito som. Um dos olhos parou, parecia olhar diretamente para mim.

Eu corri, sem olhar para trás, o mais rápido que pude, pelo tempo que pude. Eu corri esperando morrer a cada passo. Eu podia ver nossa cabana, eu tinha alcançado o final da floresta. Era só atravessar a ponte. Ousei olhar para trás, esperando ver a sombra em meu encalço.

Não havia sombra, não havia nada, apenas a floresta e o silêncio. Eu parei de correr e tentei recuperar meu fôlego.

– Kuro? – eu ouvi meu irmão perguntar.

Não mais que vinte passos de distância, lá estava Aito, vestindo uma armadura feita com panelas amarradas entre si com o que parecia ser pedaços rasgados de lençol. Ele segurava sua lança numa mão, e seu escudo de madeira na outra.

– Você matou o bicho?  – ele perguntou.

– O que você está fazendo aqui, Aito? – eu falei sem conseguir esconder o pavor em minha voz.

– Eu não sou um covarde, eu vim te ajudar.

– A gente tem que voltar para casa – eu me calei quando vi a expressão de terror no rosto do meu irmão. – Corre, por tudo que é mais sagrado, corre!

Eu gritei e me virei para encontrar a sombra vindo na minha direção.

– Vem também, Kuro! – Aito falou, chorando.

– Vai ficar tudo bem, eu encontro com você lá – eu menti.

– Mas…

– CORRE! – eu gritei sem som.

Aito correu, mas esse foi meu grande erro, tão logo ele deu as costas para a sombra, ela mudou de rumo. Ela estava indo agora em direção ao meu irmão.

Eu tinha uma única chance, um pulo de batalha chamado de jornada final, um pulo que eu tinha treinado muitas vezes em sacos de farinha. Eu pulei com meu inaudível grito de guerra e, usando meu peso como alavanca, caí sobre a sombra com minha lança transpassando seu peito.

Existia carne dentro daquela armadura de trevas. Era um animal, afinal de contas. Eu não podia ouvir ele urrar de dor, mas eu podia sentir sua agonia no tremer do cabo de madeira. Eu sorri já me imaginando um verdadeiro guerreiro, mas no momento seguinte eu tentava manter minhas mãos firmes sobre a minha arma, o predador se debatia ferozmente. Quando a criatura viu que não tinha como escapar da lança, se atirou na minha direção tentando me morder.

Mesmo ferido, o animal era mais forte e muito maior que eu. Ele me jogava de um lado a outro, eu apertei minhas mãos no cabo da lança o máximo que pude, mas meu máximo não era o suficiente e minhas mãos escorregaram. O animal pulou sobre mim.

Eu senti seus dentes perfurando o metal da armadura em meu braço, perfurando minha carne. Eu sentia o líquido quente de meu sangue encharcando meus pelos. Eu sentia a escuridão caindo sobre mim. Eu sentia tudo isso, mas eu não sentia dor. Dentro das trevas, meus sentimentos e sentidos pareciam alimentar a escuridão se esvaindo de mim para dentro do nada.

Eu me esqueci de respirar, eu me esqueci de ter medo, eu me esqueci de todos e de tudo. Apenas uma vontade existia em mim. Um único poderoso desejo que clamava toda a minha atenção e me chamava. A vontade de dormir era a única vontade que me restava. Eu podia ouvir no seu sussurro que tudo ficaria bem, que meu irmão estaria salvo, que eu poderia descansar de viver. Eu fechei meus olhos, que já não viam mais nada, e nadei nos mares do silêncio em busca do encontro com essa escuridão.

Existia paz dentro do nada, paz na morte de nossos desejos, nossos medos, ódios e dor.

Ninguém se lembra do seu nascer, mas não é à toa que a primeira voz de um recém-nascido é seu choro de terror. Quando a luz voltou, ela trouxe consigo choque, confusão e urros alucinantes de agonia. Meus urros alucinantes de agonia. Como a vida era pesada foi a primeira coisa que pensei depois que a dor me permitiu pensar.

Eu podia ouvir o animal de sombras pela primeira vez agora, não era eu que urrava, era ele. O animal tinha a voz monstruosa de algo profano e sobrenatural. Mas não era o som de sua voz que me amedrontou, o som que me tremeu em agonia e desespero foi o som do bater de panelas.

O som de meu irmão sendo devorado.

– Não!!! – eu gritei enquanto corria desarmado na direção do animal, que agora eu podia ver. Um animal cinza montado sobre o corpo branco e vermelho de Aito.

Eu me atirei sobre a criatura, rolei com ela sobre a grama. O animal fincou seus dentes abaixo de meu peito, eu tentei afastar suas mandíbulas segurando seu pescoço com minhas duas mãos. A criatura tentava me morder enquanto eu tentava a estrangular. Mas meu braço esquerdo não tinha mais forças. A armadura que envolvia meu braço estava toda perfurada, alguns dentes ainda presos dentro do metal. O pequeno escudo que era preso ao meu antebraço estava quebrado.

Eu ofereci meu braço ferido à criatura, que instintivamente mordeu, quebrando mais alguns dentes enquanto que outros perfuram carne e metal. Com minha mão direita eu segurei o cabo quebrado da minha lança. Torci a lâmina dentro animal, e quando este parou de morder para urrar, usei minhas pernas como catapulta e o joguei para longe.

O animal caiu ao chão, mas rapidamente se levantou cuspindo alguns dentes com fragmentos de metal. Eu podia ver outra lança em suas costas, era a lança de Aito. Ele não fugiu como eu mandei, ele voltou para me salvar. Era minha culpa se ele morresse aqui.

O animal avançou na minha direção. Eu tremia, mas não era medo, eu estava muito além de mim, eu tinha sido tomado por um ódio puro, um desejo absoluto de destruição e morte. Nada mais importava, eu iria matar aquele monstro.

Os quatro olhos da criatura cinza me diziam que ele nutria por mim um ódio igual ao meu. Ele correu na minha direção, eu corri na dele. Quando ele pulou, eu enfiei minha lança quebrada dentro de sua mandíbula. A criatura caiu mortalmente ferida, engasgando em sangue e no metal.

Seus olhos vermelhos agora se esvaíam da coragem e raiva de antes. Eu sorri quando eles começaram a olhar a sua volta, procurando uma fuga ou uma ajuda que não viria. Não era apenas medo, o animal estava aterrorizado, eu era o monstro agora, eu era o fim da esperança.

Eu arranquei a lança que meu irmão tinha colocado em suas costas, e com o resto de força que me restava no meu braço bom, perfurei seu peito. A ponta atravessou sua carne e penetrou na terra abaixo do animal.

Mesmo assim a criatura cinza ainda vivia. Ela gemia e se movia dando pequenas voltas ao redor da lança que empalava seu peito, como um terrível carrossel de morte. Sem as sombras, o animal não parecia tão aterrorizador, ele não era mais tão grande. Eu poderia ter dado uma morte rápida a ele. Mas eu queria ver ele sofrendo, eu queria assistir ele morrer, mas meu irmão precisava de mim, então fui até ele e o encontrei ainda vivo. Ou quase.

– Eu te salvei – Aito falou quase sem voz.

– Sim, você me salvou – eu respondi olhando para seus ferimentos.

– Por que você está chorando, Kuro?

– Não é nada, eu só estou orgulhoso de você.

– Eu não sou um covarde, né?

– Não Aito, você nuca foi um covarde.

– O pai estava errado, você diz para ele o que eu fiz. Que eu voltei e não te deixei para trás.

– Nós vamos dizer para ele isso juntos, que você é um grande herói.

– Não chora, vai ficar tudo bem.

– Eu sei, eu vou cuidar de você… Aito?

Ele fechou seus olhos. Com cuidado eu catei suas entranhas e as coloquei o melhor que pude sobre a cavidade aberta em seu estômago. Eu tirei meu peitoral e o usei para tapar a abertura. Apertei as tiras de couro o mais que pude. Tirando algumas mordidas em sua perna, Aito não tinha mais nenhum outro ferimento.

Eu tentei carregar meu irmão, mas meu braço esquerdo não me obedecia. O sangue escorria. Eu sabia que por mais que nossa cabana estivesse a menos que alguns minutos de distância, existia uma grande chance de ele morrer no caminho de volta.

– Eu vou te salvar, eu prometo!

Com minha mão esquerda, arrastei meu irmão pelas orelhas através da ponte e até a cabana.

 

– Eu tenho um plano. Se der certo vai tudo ficar bem – eu falei para meu irmão enquanto usava a agulha e linha para costurar minha pele cheia de buracos e rasgos. – Eu não pude fechar o seu estômago, mas eu amarrei ele bem apertado, se você aguentar mais um dia, vai dar tempo de eu achar ajuda – eu olhei para ele dormindo na cama do nosso pai, coberto até o pescoço por um grosso cobertor. Ele parecia estar apenas dormindo. – Lembra que o pai tinha dito que tinha visto uma manada se aproximando do Rio Faminto? Tribos de nômades seguem essas manadas, se eu encontrar os animais, eu posso encontrar uma dessas tribos, eu posso pedir ajuda.

Era um plano desesperado, eu sabia que as chances de encontrar uma tribo de nômades era mais que improvável, e eu sabia que mesmo que eu encontrasse uma, que as tribos e as cinco nações estavam sempre em guerra, as nações tomaram suas terras e mataram muitos de seus filhos e guerreiros. Meu pai dizia que eles mereciam morrer. Que matar uma Pantera não era o mesmo que matar um Coelho.  Por que eles não eram como nós. Nós somos civilizados, e eles selvagens. Por muitos anos eles caçaram a nossa espécie, e agora era justo eles serem caçados por nós.

Eu nunca vi uma Pantera ou um Lobo ou qualquer das espécies das tribos dos estepes, eu não tinha motivos para duvidar do meu pai sobre as coisas horríveis que ele me falou, sobre como os selvagens torturavam suas vítimas num ritual de sangue onde eles cortavam o couro de sua pele sem matar, e deixavam eles morrerem no sol. Eu sabia que atravessar o Rio das Lágrimas, era caminhar para a morte, mas eu não iria ficar esperando meu irmão morrer, eu tinha que fazer algo, ele não ia aguentar mais que um dia. Eu tinha que fazer algo, eu preferia morrer tentado fazer algo que viver sabendo que eu não fiz tudo que pude. Foi brincando de herói que eu matei o meu irmão, e seria brincando de herói que eu pagaria pelo meu erro e salvaria ele.

Terminei de costurar meus ferimentos e amarei meu braço esquerdo no meu peito usado as tiras de couro que arranquei do que sobrou da armadura do meu pai. Coloquei uma camisa branca e uma calça preta, que eu usava quando ia até a vila. Sem escudos, armaduras ou lanças.

Olhando para o meu irmão, notei que ele mal se mexia, algumas vezes ele parecia parar de respirar, depois do nada deva um longo suspiro e voltava a ficar imóvel. Fazia quase muito tempo que ele não dava nenhum longo suspiro.

– Você me espera, está me ouvindo? Me espera aqui até eu voltar. Por favor, me espera.

Eu pensei em ter certeza que ele ainda estava respirando, mas eu não tive coragem, eu não queria saber, ele tinha que estar vivo. Se alguém merecia morrer, esse alguém era eu, não ele.

– Você vai viver Aito, eu prometo – eu falei para ele e para mim antes de ir embora.

Eu tinha que atravessar o Rio Faminto, mas antes eu precisava voltar até a clareira. Lá eu encontrei os filhotes do animal de sombras dormindo. Quando eu me aproximei, eles acordaram e pularam sobre mim, brincando de morder e lambendo meu rosto. Eles eram tão inocentes quanto Aito, ignorantes do mal que espera a todos nós. Eu peguei eles no meu colo.

Nas margens do Rio do Faminto, soltei os quatro filhotes ao solo, eles não correram de mim, pelo contrário, queriam voltar para o meu colo, eles se esfregavam entre as minhas pernas.  Eu peguei um deles e o coloquei perto do meu rosto.

– Me desculpa, mas eu tenho que salvar meu irmão.

Eu atirei o filhote no meio do rio, era um rio profundo com uma correnteza fraca e escura. O animal mal caiu dentro da água e já começou a nadar de volta para mim. Me ocorreu então que o monstro apenas estava tentando alimentar e proteger seus filhos. Que se matar Figys fosse um mal digno de morte, então eu cometia esse mesmo mal toda vez que eu abatia um deles quando ficavam velhos demais para nos prover de leite e boa lã.

O filhote foi puxado para dentro d’água, por um segundo eu queria virar o rosto, mas eu não virei. Eu justifiquei pensando no meu irmão, mas na segunda vez que o filhote foi puxado, apenas seu sangue subiu a superfície.

Uma sombra rodeou o sangue, uma sombra que eu sabia o que era. Peixes predadores chamados de Niranhas. Um por um eu joguei os outros três filhotes dentro do Rio, cada vez mais longe na descida da correnteza. As Niranhas seguiram sua refeição. Eu poderia ter usado a carcaça da mãe dos filhotes, mas eu não queria arriscar perder tempo cortando o animal em pedaços que eu pudesse carregar. Os filhotes morreriam de fome de qualquer maneira. Era melhor assim.

Eu mergulhei e atravessei o rio, o nadando o mais rápido que eu conseguia, com apenas uma mão. Depois eu andei por muitos quilômetros. Quando eu finalmente olhei para trás, vi que o Rio e a floresta já tinham sumindo na distância. Raramente um Coelho de Ilys cruzava esse rio. O Rio Faminto era um rio artificial, criado para proteger nossa civilização das grandes tribos que vivem nos estepes. Era um medo justificado, uma vez que quando o Leão Branco unificou todas as tribos dos estepes, ele conquistou o mundo de Morserus por mais de quinhentos anos.

Meus pés ardiam, mesmo assim não parei. Eu nunca tinha atravessado o Rio Faminto, nunca tinha visto os estepes. E agora que eu via, era difícil descrever. Era um deserto de vegetação rasteira, um deserto que parecia ser infinito em todas as direções, aqui o mundo parecia não ter fim. Mesmo assim, mesmo podendo ver mais longe que pude ver em toda minha vida, eu não via nenhuma manada, não via nenhum acampamento de tribos. Eu estava sozinho no meio do nada.

O céu amarelo ficou laranja com o entardecer. Exausto, eu não conseguia mais andar. Eu também não tinha água, minha garganta estava seca e meus lábios estavam quebrados, minha saliva parecia areia em minha boca. Eu não teria forças para voltar, e mesmo que tivesse, eu não tinha mais nada para oferecer ao Rio. Por que eu não pensei em nada disso? Será que eu queria morrer? Será que eu não tinha vindo aqui para salvar meu irmão? Me ocorreu que talvez eu tivesse vindo aqui para pagar pelo crime que eu cometi contra ele.

Eu pensei no meu pai e como que eu odiei ele por suas escolhas, por todos os seus erros. Ele não estava aqui para eu o culpar agora. Meu pai não era um monstro, o predador sombra não era um monstro, antes de cair no chão eu entendi tudo isso. O monstro aqui era eu.

Era o fim, eu teria chorado, mas já não tinha mais lágrimas. Eu não podia nem mais sentir meu corpo, quando a noite caiu sobre mim, o escuro me levou de volta ao passado, para a noite em que minha mãe nos abandonou. Eu tinha sentindo sede também naquela noite, foi o que me fez acordar e descer as escadas do palanque, que era meu quarto. Minha mãe já estava com a porta aberta, alguém a esperava do lado de fora. Nós não falamos nenhuma palavra, ela apenas olhou para mim, não com amor ou arrependimento, mas com terror, terror que eu acordasse o meu Pai. Terror que ela não pudesse escapar da prisão de sua vida. Quando ela viu que eu não iria fazer nada além de olhar, ela me assoprou um beijo, depois virou suas costas e saiu de nossas vidas para sempre. Hoje eu voltava para aquela mesma noite, para aquele sentimento de abandono e desespero. Mas dessa vez quem dava as costas a todos era eu.

– Me perdoa, Aito – eu falei deixando o escuro me levar embora.

Era como estar dentro da sombra novamente, eu queria ir embora do lugar onde eu vivia dentro de mim, do lugar onde minha mãe ainda estava, onde eu deixei o amor do meu pai se transformar em ódio, onde a culpa por falhar com meu irmão era mais do que eu tinha forças para carregar. Eu estava pronto para deixar esse peso cair de mim, eu estava pronto para abraçar o nada.

A vida não estava pronta para me deixar ir embora. O chão começou a vibrar, eu tentei ignorar, eu queria morrer, eu queria a paz da morte. Mas então o vibrar se tornou um tremer e eu abri meus olhos e me sentei para ver o que estava acontecendo.

Uma grande manada se aproximava. Eram animais que eu desconhecia, animais gigantescos, maiores que a cabana em que eu vivia. Eles tinham pelos negros e longos, com chifres pontudos por todo corpo, chifres abaixo de suas orelhas, chifres abaixo de suas mandíbulas enormes e mais chifres pequenos no contorno de seus ombros. Suas pernas eram grosas e redondas como pilares que poderiam esmagar meu corpo com um único pisar. Eram centenas de centenas dessas criaturas estranhas, todas vindo na minha direção.

Nenhum deles pisou em mim, eles apenas passaram ao meu redor, indiferentes. Apenas um filhote, que tinha três vezes meu tamanho, parou para me observar e me cheirar uma vez, antes de continuar a ir com sua manada.

Quando o último animal passou, eu me deitei novamente, nada tinha mudado, não haviam selvagens seguindo a manada, tudo voltava para o mesmo lugar. Era hora de morrer. Eu estava pronto. Tudo que eu queria era que meu irmão não acordasse, que ele não abrisse os olhos para descobrir que eu o tinha abandonado para morrer sozinho.

Eu dormi, e nos meus sonhos vi uma luz branca, mas a luz não era luz, era meu irmão, eu sabia, mas não sabia como eu sabia. Ele tentava me falar algo, mas eu não conseguia ouvir. “Fala mais alto Aito”, eu falei, e como resposta ele abriu sua boca e gritou, mas sua voz era um trovejar de um trompete.

Eu acordei com o som desse trompete, mesmo assim o trompete não parou de tocar. O som era real. Foi quando eu vi diante de mim um enorme Alce montado num animal largo com escamas que pareciam vidro. O Alce assoprava num trompete de corno.

– Por favor, me ajuda. Eu preciso de ajuda – eu falei.

O Alce desmontou. Tirando uma toga e um colar de penas verdes e rosas, o Alce não tinha nenhuma outra roupa, mas seu pelo marrom e branco lhe cobriam como um belo manto, e seus chifres altos e belos lhe davam uma imponência de um Rei com uma coroa de galhos de árvores.

O Alce me deu de beber com sua cantina de couro com uma tampa feita com ossos amarelos.

– Obrigado – eu falei ao terminar de beber a água.

– O espírito branco me mandou aqui. Eu vi seu rosto dançando na fumaça.

– Meu irmão está muito ferido, você tem que me ajudar a salvar ele.

– Nós não somos inimigos, Coelho? – ele perguntou sem hostilidade.

Eu me lembrei de todas as vezes em que brinquei de matar selvagens, eu sempre fazia meu irmão colocar galhos na cabeça para fingir ser um Alce. Eu sempre quis ser um grande soldado como meu Pai, defender minha nação das tribos dos estepes, eu sempre quis a glória de matar um deles. Eu sempre desejei isso, e agora eu não sabia porquê. Eles eram apenas estórias para mim, como quem eu podia ter raiva de estórias?

– Meu pai sempre me disse que sim – eu confessei. – Eu sempre acreditei que sim.

– E agora você acredita que um inimigo vai lhe estenderia a mão?

– Sim.

– Por quê?

– Por que eu não tenho escolha.

O Alce pegou de volta sua cantina. O vento soprava forte.

– Não Coelho, tudo que temos, tudo que somos são as escolhas que fazemos. O resto, o céu e a terra, o vento e a água, a vida e a morte, são apenas os sonhos de nossos sonhos.

– Meu irmão não é como eu, ele é bom, ele merece ser ajudado. Por favor, não deixa ele morrer.

O Alce levantou novamente sua trombeta de corno. Ele a soprou com vigor. Eu tapei minhas orelhas do estonteante som do instrumento. Três sopros longos, seguidos por dois curtos. E em algum lugar dos estepes, o som era respondido de volta. Quatro curtos, dois longos.

O Alce montou em seu estranho animal e eu estremeci ao contemplar que a vida de meu irmão estava nas suas mãos.

– Onde você mora, pequeno Coelho? – o Alce me perguntou estendendo sua mão.

 

O caminho de volta foi muito mais fácil. O animal de escamas que pareciam vidro era rápido e fez em menos de uma hora todo o caminho que eu tinha levado um dia para percorrer. Quando chegamos ao Rio Faminto, o Alce não parou e sua montaria entrou na água e nadou com facilidade até o outro lado do rio. Esse Rio que já tinha custado a vida de centenas de Coelhos, era mais uma das mentiras da minha vida. Ele não nos protegia de nada.

“O que mais na minha vida era uma mentira?”, pensei, mas antes que eu pudesse achar uma resposta, avistei a ponte e em seguida nossa cabana.

Antes mesmo do animal parar, eu pulei da montaria e corri para a cabana sem esperar pelo Alce. Quando entrei em casa encontrei meu irmão exatamente como o deixei, menos as velas, que agora estavam todas apagadas. Nada disso importava, é claro, pois o dia estava nascendo do lado de fora e pelas janelas o sol banhava nossa casa com luz. Eu tinha conseguido, eu tinha salvo meu irmão, tudo voltaria a ser exatamente como era antes.

– Eu consegui Aito, eu prometi que eu ia te salvar e eu consegui, eu mantive minha promessa.

O Alce entrou na cabana, ele olhou para meu irmão, e depois olhou para mim. Sem dizer uma palavra, sem fazer mais nenhum movimento, ele apenas olhava na minha direção.

– Você não vai fazer nada? – o Alce não respondeu. – Você veio até aqui para ajudar ele, ajuda ele! – o Alce não respondeu. – Ele vai morrer! Por favor, faz algo!

O Alce olhou para Aito e depois novamente para mim.

– Não – eu falei chorando, finalmente entendendo o que ele queria me dizer. – Não, ele está vivo, ele tem que estar vivo – eu não tive coragem de tocar nele, eu não tive coragem de saber se era verdade. Não podia ser verdade.

Mas é claro, eu já sabia que era verdade, eu me lembrei do seu último suspiro. Antes mesmo de sair eu tinha visto meu irmão morrer, eu só não tive como aceitar, eu não tinha saído em busca de ajuda, eu tinha saído para encontrar minha punição por ter matado o meu irmão.

Tremendo, eu toquei em seu rosto frio. Eu estava de volta ao momento escuro, meu lar não era capital, meu lar não era essa cabana. Meu lar era a escuridão que sempre me acompanhava, foi por isso que minha mãe fugiu, é por isso que meu pai me odeia, foi por isso que eu matei o meu irmão. Eu era essa escuridão.

– Eu que deveria ter morrido – eu falei para o Alce. – Ele sempre foi bom e eu sempre fui ruim, meu pai dava o pior para ele, mas ele respondia amando ainda mais aquele desgraçado. Não importa o quão injusto nosso pai era, não importa a raiva que ele colocava em cada palavra, em cada ato, Aito nunca via o mal, nunca ouvia o mal, nunca falava o mal. Meu pai nunca pôde contaminar ele com sua podridão. Mas eu. Eu sou a escória. Me diz, Alce, que mundo é esse, onde os que merecem morrer vivem, e os que merecem viver morrem?

O Alce não respondeu.

– Você não sabe a resposta, sabe? Você e só um selvagem ignorante que veio ajudar o povo que dizimou sua espécie.

O Alce não respondeu.

– Vai embora vai, seu otário, o motivo pelo qual você veio aqui não existe mais.

– Você e o motivo pelo qual eu estou aqui, pequeno Coelho.

– Do que você está falando?

– Existe um ritual de fogo, onde os espíritos da terra se unem com os espíritos dos sonhos. Eles dançam nas chamas, e durante o fogo, eles compartilham suas estórias sobre suas vidas e suas mortes. São todos espíritos de sombra, condenados a repetir seus erros, sem nunca aprender seu caminho de volta ao sol.

– Do que você está falando, seu selvagem ignorante?

– Eu vi seu irmão nas chamas.

– Não, eu não acredito em você. Eu não acredito em espíritos, e mesmo que eles existam, meu irmão nunca seria um espírito de sombras.

– Não, seu irmão é um espirito branco. Cheio de amor e esperança. Mas mesmo o amor, mesmo a inocência pode criar sua sombra. Você, pequeno Coelho negro, é a sombra de seu irmão. Não é a primeira vez, nem primeira vida em que ele se sacrifica por esse amor. Vocês já morreram juntos muitas vezes em mundos diferentes, em vidas iguais.

– Eu não acredito em você.

– Não Coelho, em quem você não acredita é em si mesmo.

– Você é louco! Você acredita que está falando em destino, olha a sua volta, olha para mim, eu estou vivo, eu merecia morrer, mas eu estou vivo, meu irmão merecia viver e ele está morto. Me diz, qual o sentido de ele morrer e eu viver?

– A morte não existe. O que existe é a eterna jornada. Sua caminhada vai ser de dor e sangue. Em seu caminho, você vai tentar combater o mal, quanto maior forem seus inimigos, maior será sua sombra. Maior será sua dor. Mas a dor não é sua punição, sua dor é o caminho que você escolheu seguir. Quando você cansar de sofrer, quando você mudar sua estrada e abandonar seus inimigos, você vai mudar seu mundo e quebrar o ciclo. Seu irmão vai deixar de lhe seguir dentro da escuridão, você vai seguir com ele de volta ao sol.

– Será que você não entende, Alce? Eu mereço sofrer, eu matei meu irmão, eu quis brincar de herói, eu quis sair dessa casa, dessa vida, e eu consegui, e só me custou tudo. Ele era a única coisa boa na minha vida, sem ele não sobra nada.

– Você pode vir comigo, eu estou a caminho da minha morte, como você. Mas onde minha jornada termina, a sua apenas começa, está marcado.

– Por que você está me ajudando?

– Eu nunca tinha visto um espírito branco. Eu mesmo duvidei que eles existissem, seu irmão me alimentou de luz, se ele te segue, é porque existe essa mesma luz dentro de você.

– Você pode me mostrar o fogo, o fogo onde você diz ter visto meu irmão?

– Existem sombras no fogo que, uma vez vistas, nunca mais podem ser esquecidas.

– Eu não me importo. Eu quero ver meu irmão novamente. Eu quero acreditar.

O Alce acenou.

– Eu aguardo do lado fora.

Quando o Alce saiu, eu fui até meu irmão e chorei profundamente, até que parte da tristeza se foi com as lágrimas. Era como se algo invisível estivesse me confortando. Claro que eu não acreditava nas superstições do Alce, mas eu não tinha mais para onde ir, então, por que não ir com ele até encontrar meu lugar no mundo? Por que não descobrir o que realmente aconteceria quando eu olhasse dentro do fogo?

Eu beijei a testa de meu irmão e preparei uma bolsa com algumas roupas, alguns livros, eu odiava ler, mas iria ler todos os livros que meu irmão não teve tempo de terminar. Do meu pai eu peguei sua legendaria Kaytae, a arma que ele tinha conquistado no sexto nível na arte de combate dos Daykar. A mesma arma que ele usou para matar muitos Selvagens durante a grande Purgação. Essa lança era seu último tesouro, mas eu sabia que ele não teria mais utilidade para ela, meu destino era incerto, mas o do meu pai eu via com clareza.

Eu peguei o pequeno caderno que eu tinha usado para ensinar meu irmão a ler. Eu, sempre com a má vontade, sempre dando a ele o mínimo de minha atenção. Mesmo assim ele aprendeu, como em tudo, Aito recebia pouco e transformava em muito. Eu rasquei uma das folhas brancas e escrevi minha despedida.

“Eu matei meu irmão, Pai. Ele se sacrificou para me salvar de um predador desconhecido por mim. Eu matei o animal, mas o custo foi alto demais. Aito, sozinho, mantinha afastada as sombras onde eu e você vivemos. Sem ele, é uma questão de tempo para essa escuridão nos transformar no que verdadeiramente sempre fomos. Todo o mal que vemos nos outros, Pai, é o mal que alimentamos dentro de nós. Nós somos esse mal. Nós somos tudo de ruim que vemos nos outros. Eu acho que isso quer dizer que a única maneira de ser bom, é ver o bem em todos. Eu nunca fiz isso, mas vou começar a fazer isso agora, eu vou começar com você, Pai.

Um dia eu te amei, mas eu matei esse amor com mentiras. Eu sempre soube a verdade, que minha mãe lhe traía por tédio. Que você a amava mais que tudo, mas que não tinha coragem de deixar ela ir e viver sem ela. Eu também sabia que você tentou se matar mais de uma vez. Mesmo sabendo de tudo isso eu escolhi odiar você, eu escolhi continuar amando ela. Eu também precisava dela, Pai, eu sou igual a você. Eu não podia aceitar a verdade que ela não nos amava, então eu decidi te transformar no monstro que era o culpado por destruir nossas vidas. Eu transformei meu amor por você em ódio, eu transformei minha dor em ressentimento. Eu aprendi com você, pai, mas nós poderíamos ter aprendido com o Aito. Nós escolhemos sofrer. E agora chegou a hora de colher os frutos do nosso ódio.

Eu te perdoo, Pai. Eu te perdoo por ter me ensinado a odiar, por ter me ensinado que o mundo é um lugar ruim, que os Selvagens são monstros, por chamar Aito de covarde, por me fazer acreditar que eu nunca veria o mundo de Morserus. Saiba que as verdades do seu ódio são todas mentiras. Mas eu te perdoo porque eu cometi os mesmos erros, porque eu sou tão ignorante quanto você. Eu te perdoo por que eu sei que você não vai conseguir se perdoar. Por que eu sei que você vai beber, eu sei o que você vai fazer depois.

Não sei por quanto tempo eu vou conseguir caminhar. Quanto tempo eu vou conseguir viver. Mas tem um mundo lá fora que eu quero ver. Sei que nada de bom me espera, mas eu mereço qualquer que seja o final que eu venha a encontrar em meu caminho.

Mas enquanto eu viver, Pai, eu levo todos comigo. Você, o Aito e a mãe. Sempre presentes dentro do meu coração escuro. Eu amo vocês, mesmo sem nunca ter sabido demostrar esse amor.

Eu espero estar enganado e que você viva, e que se você viver você também me perdoe. Mas no caso de eu estar certo, adeus Pai.”

Então, eu saí da nossa cabana e dei meus primeiros passos em minha nova vida. Mas essa, é outra estória.

FIM?

2 Comments

  1. Amazing dialogues! I’m Braziliam and I’m reading in portiguese. I’m loving the Anthologies! Congratulations!

    • Muito obrigado Gustavo, depois me fala como vc achou o blog. And thanks for the kind words 🙂

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