A Dança dos Orkshas

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Enquanto minha mãe chorava, eu refletia sobre o dia em que tinha destruído minha vida. Não me entenda mal, minha vida sempre caminhou para um final trágico. Cedo ou tarde todo mundo paga por seus pecados. Eu só achei que eu tinha mais tempo.

Eu sou o segundo de onze filhos. Nasci numa das 103 favelas de pedras que formam o purgatório que todo mundo chama de Cidade Baixa. Todas as favelas são subterrâneas. Eu como a maioria dos Ratos que vivem aqui nunca viu o céu amarelo de Morserus. Nunca vão ver. Quem nasce debaixo da terra, morre debaixo da terra.

Minha mãe chorava, mas suas lágrimas não eram lágrimas de tristeza. Eram lágrimas de alívio, de alegria, de felicidade. Mal sabia ela.

— Você foi escolhido, meu filho — ela falava e soluçava. — Eles chamaram seu nome na praça. Você é um dos escolhidos para a Dança dos Orkshas.

Seus braços magros e frágeis me abraçavam com força, ela me segurava como se fosse me perder, como se eu fosse voar para longe e levar comigo a alegria que ela estava sentindo. Levaria comigo minha promessa de tirar minha família da miséria e levá-los todos para o mundo da superfície. Afinal, esse foi o meu destino profetizado no salão das máscaras.

Meus irmãos entraram em nossa sala pequena, onde não cabiam móveis, mas onde, apertando–nos uns contra os outros, cabíamos todos. Foram juntar-se ao nosso abraço. Apenas meu irmão não estava presente.

Tínhamos sete cômodos para doze Ratos. Na favela 93, onde eu moro, há umas mil e quinhentas buraco-casas idênticos ao nosso, com uma média de 14 a 16 Ratos por buraco. Esse é um dos motivos pelos quais Ratos odeiam se tocar. Esse era um dos motivos pelo qual abraços em grupo são coisas abençoadamente raras.

Enquanto minha mãe e meus irmãos choravam de felicidade, eu chorava de tristeza. O que eles não sabiam, o que ninguém nunca soube, é que tudo que eu falei sobre a profecia, tudo que eu prometi, eram mentiras. Esta não é uma estória de heróis e coragem, essa é uma estória de um Rato covarde que, por medo, foi morar num palácio de mentiras, e agora veria esse palácio ruir e destruir tudo a sua volta.

Meu nome e Malfaer, e essa e minha triste estória.

Tudo começou quatro anos atrás, quando fiz treze anos. Nessa idade todos os Ratos da Cidade Baixa são levados até o Salão das Máscaras. Nesse salão, uma Rodamorta nos daria a escolha de saber ou não quem é o nosso Orksha Rei.  Ano após ano eu via crianças sorridentes perderem seu sorriso ao descobrirem a verdade sobre quem governava suas mentes. Eu sempre achei que comigo seria diferente, afinal, eu era especial, eu merecia mais que os demais.

Minha Rodamorta era uma Rata sem dentes e sem um dos olhos. Ela não usava um tapa-olho e eu podia ver dentro da sua cavidade ocular. Ela fedia a alho velho e ervas queimadas. E, sem vergonha, ela sorria mostrando suas gengivas escuras, parecendo ter prazer no desconforto que me causava.

Eu nunca vou me esquecer daquele maldito dia, eu nunca vou sair daquele salão. Agora eu só queria estar abraçado à minha família, eu sabia que nunca mais veria nenhum deles a partir de amanhã meu futuro estava acabado. Mesmo assim minha mente voltava para aquele dia no salão. Eu ainda ouvia claramente a conversa que arruinou a minha vida.

— Você sabe quem eu sou, menino? — a Rata sem dentes me perguntou.

— Você é uma Rodamorta. Os Orkshas entraram dentro de você e falam com a sua boca.

— E quem são os Orkshas?

— Minha mãe diz que os Orkshas são os deuses da mente. Os guardiões do longo sonho.

— Sua mãe é uma imbecil que não ouve — a Rata enfiou o dedo dentro do ouvido, tirou um pedaço de cera e jogou ao chão. — Mas não ouvir é o poder dos Orkshas. Nós não somos nós, eu não sou eu, você não é você.

— Quem somos nós então?

— Escravos de ideias, escravos de emoções. Você não veio ao Salão das Máscaras para encontrar a sua máscara, você veio aqui para tirar a sua máscara e descobrir quem realmente vive por trás dela.

— Eu não sou escravo de nada.

— Todos somos, nossa mente e uma prisão sem grades. Nosso Orksha Rei é nosso mundo. Eu falo, mas o povo é burro e ignorante, eles escutam, mas ninguém ouve. Só quando e tarde que vocês entendem.

— Talvez seja você que não sabe explicar bem.

— Vai embora daqui, some — a velha falou me olhando com nojo. — Você acha que as respostas que você procura vão te libertar. Vão tapar o vazio no seu peito. Te digo agora, não vão. Nada tapa o vazio. Nada! Você pode cutucar, mas quanto mais você olha para o buraco, mais vazio o buraco fica. Corre daqui pirralho, corre antes que seja tarde demais.

Hoje eu me pergunto se ela dizia isso a todos, ou se tinha visto algo em mim, algo especial que ela queria proteger. Ela tentou me alertar, mas eu não queria ouvir o que ela tinha a dizer. Eu queria ouvir que eu era especial. Que minha lista de sonhos seria realizada. Que meu Rei me guiaria a cada um deles.

— É meu direito conhecer meu Orksha Rei — eu falei em protesto. — Eu fiz treze anos hoje. Minha mãe colocou seu nome no livro das dívidas. Quem paga os juros recebe os bens. É meu direito conhecer a face do meu guia.

A velha pisou na minha direção. Acendeu uma vela com cera negra e a colocou em minha mão. O salão era escuro, apenas a luz do portal sem porta iluminava o centro onde a gente estava. O resto do salão eram sombras e trevas.

— Na escuridão das paredes você vai encontrar as máscaras. Todas vão falar com você, vão pedir que você as escolham. Mas sua escolha já foi feita, você já vive dentro do seu Orksha. Me traga o dono da sua consciência. Me traga a máscara do seu Rei.

— E se eu errar, e se eu pegar a máscara errada?

A velha riu.

— Você já pegou a máscara errada.

— Mas… —  eu tentei perguntar algo, mas a velha me empurrou para dentro do escuro.

A vela não iluminava o suficiente, então eu comecei a andar, procurando o final do salão. Em poucos passos eu encontrei as máscaras, lado a lado, em fileiras. Na fileira de cima, máscaras com um contorno negro; nas fileiras de baixo, máscaras com um contorno branco. E a face de cada máscara dizia com clareza um sentimento ou emoção.

As máscaras de contorno branco sorriam, em sua maioria, enquanto as máscaras de contorno negro alternavam entre medo, raiva, desejo e tristeza. Parecia óbvio que eu tinha que escolher uma das máscaras de contorno branco. Mas sempre que eu tentava pegar uma delas, algo dentro de mim me segurava, eu quase podia ouvir uma voz me dizendo não.

Eu andei ao redor do salão olhando cada uma delas. Não eram a face de Ratos ou mesmo de qualquer uma das outras espécies de Morserus. Não havia máscaras de Coelhos, ou Gorilas ou Cães. Cada máscara aqui parecia ser o rosto de um Deus, algo que ia além da face de um mortal. Eram representações de sentimentos e emoções, mas representações exageradas, como se fossem o acúmulo visual de um estado de ser.

Sem ter ideia de como escolher a máscara certa, meu plano era simples, eu ia olhar todas, uma a uma por pelo menos três suspiros cada.  Depois eu escolheria a que eu gostasse mais. Sem dúvida uma das que tinha o contorno branco. Porque eu teria que ser um idiota para escolher as que tinham as caras do mal.

Uma, em particular, era especialmente revoltante. Eu não conseguia distinguir qual era a expressão no rosto da máscara. Não era tristeza, nem raiva ou desejo, mas havia tristeza, raiva e desejo. Eu conhecia essa face, eu tinha visto essa face antes. Seu contorno era negro e sua cor era azul escuro. Quando me dei conta, eu percebi que estava olhando essa máscara por mais suspiros que eu lembrei de contar. Eu tinha decidido que não ia escolher uma máscara com contornos negros, mas eu não conseguia tirar os olhos dessa máscara. Eu tinha que saber quem era esse Orksha.

Ao olhar para a máscara de baixo, notei que ambas eram semelhantes. A de contorno branco não sorria, mas tinha uma serenidade, uma confiança que me deixava perplexo; como duas máscaras com traços praticamente iguais podiam me causar sentimentos tão distintos. Minha mãe tinha me dito o significado do branco e do preto. Mas naquele momento eu havia me esquecido, assim como eu me esqueci de minha decisão de não escolher uma máscara de contorno negro.

Ao voltar ao centro do salão, a Rodamorta me recebeu com um sorriso de gengivas. Sem dizer uma palavra, pegou de volta a sua vela e a colocou no chão. Depois pegou a máscara e a colocou sobre o seu rosto. Eu senti uma tristeza delicada tomar o estagnado ar do salão. Era um sentimento que eu conhecia bem; antes mesmo do Orksha falar eu já sabia que tinha cometido um grande erro.

— Olá Malfaer — falou a voz que não era mais a voz da velha. — É tão estranho te ver de fora.

— Qual o seu nome, Orksha? Se apresente para mim.

A máscara era tão grande que cobria não apenas o rosto dela mas também seu peito, quase chegando ao seu umbigo. O Orksha se ergueu, abandonando a postura curvada da velha.

— Eu tenho muitos nomes, mas eu não sou um nome. Eu sou um lugar, um sentimento, e todos os momentos que definem o seu ser.

— Qual o seu nome, Orksha?

— Medo de perder, medo de tentar, medo de viver, medo de amar.

— Não, eu não sou nada disso! Eu tenho sonhos, eu prometi a minha mãe que eu era especial, que meu Orksha seria especial. Eu peguei a máscara errada, você não pode ser o meu Rei.

— Eu não sou seu, Rato. Você é meu. Você me encontrou onde muitos me encontram. Nas cavernas baixas da favela 63. Onde as crianças desobedientes em busca de aventura procuram perigo e emoção.

Ele estava falando do penhasco dos perdidos. Meu irmão mais velho me levou até lá com os seus amigos. Existia um rio subterrâneo que corria na queda do penhasco. As crianças mais corajosas pulavam no rio. As correntezas os levavam para dentro de um túnel de pedra. Se você segurasse sua respiração por quase dois minutos, chegaria ao outro lado, em outra favela. Volta e meia uma criança aparecia afogada. Eles chamavam o rio da verdade. Por que aquelas aguas diziam a todos quem eles eram. Quem não pulava era covarde, quem pulava e morria era otario, quem pulava e vivia era o herói.

Eu sempre quis pular naquele rio, eu sempre quis ser um herói. Eu sempre quis fazer muitas coisas que eu nunca fiz.

— Só por que eu não pulei? — eu falei, tentando me justificar. — Não é justo, sou mais que aquele único dia.

— Todos acham que são mais que seus pensamentos, e os sentimentos que esses pensamentos atraem. Mas quantas vezes você não repetiu aquele dia.

— Nenhuma, eu nunca mais voltei lá.

— Você vive lá, Malfaer. Quando você conheceu a Issadora a si mesmo que iria criar um poema de amor, e que ao recitar o poema ela iria se apaixonar por você na mesma intensidade com que você era apaixonado por ela. Você chegou a pensar no poema, mas nunca o recitou para ela. Nunca colocou no papel.

— De que adiantava? Ela…

— Ela era bela demais para você, ela deveria estar com alguém melhor — o Orksha terminou minha sentença recitando exatamente as palavras que eu iria dizer.

— Como você sabe?

— Como eu sei o que eu te disse para pensar? Não existe uma vez que você não tenha desistido de algo que não fosse minha voz dentro de sua mente lhe dando as desculpas para não tentar.

— Não. Eu tenho sonhos, meu Orksha não é o medo de viver. Meu Orksha é a coragem ou a confiança. Eu falei para minha mãe que eu achava que você poderia ser até mesmo a esperança, o maior e mais poderosos dos Orkshas.

— Você mentiu.

— Não. Eu tenho sonhos, eu prometi a todo mundo que eu vou ser alguém, eu vou sair da Cidade Baixa, eu vou ver o céu amarelo. Eu vou me inscrever para Dança dos Orkshas, eu vou ganhar a competição. Esse é o meu sonho, eu vou realizar o meu sonho.

— Você não tem sonhos, Malfaer. Você tem palácios de fantasias. Você sonha com a vida que não pode ter para não ter que enfrentar a vida que você tem. Sua vida é um rastro de oportunidades perdidas. Você abandonou sua realidade em troca de fantasias e ilusões. Você nunca terá a coragem de escrever seu nome no livro dos valentes. Você nunca vai ganhar, porque nunca vai competir.

Eu quase engasguei, eu não queria saber, mas eu tive que perguntar.

— E o que você tem a me oferecer?

— Nada. Não existe escapatória do que carregamos dentro de nós. Sua vida é a escolha de não viver. Você é novo agora, à sua frente existe a promessa de infinitas possibilidades. Mas os sentimentos que não te deixaram pular na água vão sempre te acompanhar. São correntes que você não vê, mas sente. Correntes que não existem, mas que na sua mente são reais. Você vai fracassar em tudo, porque na vida você não vai tentar nada.

— O que eu faço então? — eu perguntei chorando. — Eu desisto?

— Nunca! — O Orksha falou quase com raiva. — Desistir dos sonhos é outro Orksha, eu não vou te perder para um dos meus irmãos. Eu sou seu Orksha Rei. Fora de você eu sou formado por todos que pensam e agem como você, mas dentro de você eu também existo, e lá, no seu âmago, eu reino sobre os outros Orkshas que formam a corte da sua consciência. Todos têm todos os Orkshas nessa corte, mas o Rei da sua corte sou eu. Dentro de você a coragem existe, junto com a esperança e a alegria. Mas eu governo cada um desses sentimentos. Eu sou o medo que guia sua vida. Eu governo você.

— Então me diga o que fazer, o que dizer para minha mãe quando ela perguntar qual é o meu Orksha Rei, quando ela perguntar se eu realmente vou salvar minha família? O que eu digo?

— O mesmo que eu disse a ela quando, há muitos anos, ela me encontrou aqui, nesse mesmo salão de máscaras. Minta. Minta para si mesmo. Acredite na ilusão, fuja da tragédia de sua realidade. Porque suas mentiras são seu único esconderijo. Entre viver uma realidade cruel e criar uma fantasia feliz, que escolha você realmente tem?

Naquele dia eu limpei minhas lágrimas antes de sair do salão. Minha mãe me esperava na subida da escada torta. Esperando para saber se minha promessa de uma vida melhor seria verdade. Se meu Orksha iria nos guiar para o mundo da superfície, um mundo onde todos nós poderíamos fazer mais que apenas sobreviver.

Eu pensei em contar a verdade sobre mim. Eu pensei em falar que todas as minhas promessas eram falsas, que eu não era um escolhido de nada. Eu era somente um covarde que tinha medo de sequer tentar ter uma vida melhor. Que meus sonhos eram esconderijos do meu medo de falhar. Mas os olhos da minha mãe clamavam por conforto, eu me encontrei dentro deles. Ela estava tão assustada quanto eu. A verdade faria com ela o mesmo estrago que fez comigo. Então não me julgue, mas eu tive que confirmar a minha falsa promessa.

— A Rodamorta falou que meu Orksha é o Céu amarelo do mundo da superfície. Sua máscara é totalmente branca, com um sorriso de amor. Meu Orksha Rei é a Esperança e a Paz — eu menti com um sorriso. — A máscara falou que meu destino não era no escuro da terra, e sim na claridade do céu. Que ela me viu num mundo sem paredes, andando no vento, me molhando na chuva. Ela me falou que um dia eu seria escolhido para a Dança dos Orkshas, mas que eu não tinha que ter medo. Que eu seria vitorioso. Por que é meu destino ganhar. Não apenas eu mãe, ela me disse que eu vou levar todo mundo para ver o mundo acima. Que nosso mundo melhor vai chegar um dia.

— Quando, meu filho? — minha mãe tinha perguntando com lágrimas nos olhos.

— Vai demorar mãe, eu tenho que me preparar, e a gente tem que ser paciente, mas nosso futuro vai chegar, e todo esse tempo aqui no escuro vai ser só uma lembrança de outra vida.

Essa foi minha grande mentira. Por quatro anos essa mentira me carregou para uma vida melhor. Eu me tornei o preferido, o escolhido. A esperança é uma coisa tão estranha. Antes da mentira todo mundo só reclamava da vida, o mundo era ruim e nada tinha significado. Mas depois que minha mãe passou minhas palavras adiante, meus irmãos passaram a acordar sorrindo. Nada tinha mudado, a gente ainda estava cada vez mais pobre, com nossos nomes assinados várias vezes no livro das dívidas. Mas a maldita semente da esperança só crescia. Minha irmã mais nova começou a cantar, minha mãe redobrou sua fé nos Orkshas e começou a ser mais participativa na comunidade. Até meu sexto irmão, que era feio e depressivo, arrumou uma namorada. Todo mundo acreditava que um mundo melhor estava por vir, e essa mentira era tão forte que nosso mundo realmente ficou melhor.

Eu ainda estava abraçado a minha família. Era tempo demais para um abraço, mas ninguém queria ser o primeiro a abandonar um momento de felicidade. É como passar fome. Quem nunca sentiu fome pode comer até estar satisfeito e parar. Eu não sei o que é satisfação. Ninguém na minha família sabe.

Apenas agora eu entendia o poder dos Orkshas, das ideias coletivas que nos usam como fantoches de pano. Meu sentimento de fuga criou a mentira, e todos que acreditaram nela se tornaram seus escravos. Meu Orksha Rei estava se tornando maior, contaminando minha família com suas mentiras. Com minhas mentiras.

A Dança dos Orkshas acontece uma vez por ano. Havia duas maneiras de entrar: uma era cometer um crime contra as ‘leis’ dos Cabeças Grandes. Chamam a isso ‘entrar por baixo’, ou seja, você é forçado a participar. A outra maneira de participar era chamada de ‘entrar por cima’. Os voluntários entram por cima. É um grande prestígio ser um voluntário. A competição era cruel na Dança dos Orkshas. Cem oferendas, que é como os participantes eram chamados, entravam na competição.  Dos cem, apenas um podia ser o vencedor. O resto todo perdia, o resto todo morria.

Quando eu menti que tinha sido escolhido para vencer, eu tinha que provar, não era só falar, eu tinha que ‘entrar por cima’. No dia seguinte do salão das máscaras, eu fui com minha família até o Templo dos Valentes, onde eles guardam os nomes dos voluntários. Era só escrever meu nome num papel e colocar esse papel na urna das oferendas.

Pelos últimos quatro anos eu ia até o templo, esperava na fila e andava até um palanque onde o papel branco me aguardava. Por quatro anos eu fingia escrever no papel. Sem deixar a ponta da pena tocasse na folha. Depois, quando meu nome não era chamado, eu olhava para minha família e falava que a hora ainda não havia chegado, mas que na próxima vez eu sentia que seria o meu o nome a ser chamado.

Eu gostaria de dizer que eu me sentia mal em enganar minha família, mas, se for para ser honesto, eu mentia para mim também. Eu gostava de pensar que eu não poderia ajudar ninguém morto, e que, pelo menos vivo, eu era um símbolo que tudo ficaria bem um dia. Mas a ignorância do mal não nos protege do mal.  Tudo o que eu plantei no meu jardim de falsidades eu iria colher amanhã, depois da Dança dos Orkshas. Quando eu transformaria as lágrimas de felicidade daqueles que eu amo em lágrimas de horror.

Eu poderia falar a verdade e viver. Tudo que eu tinha que fazer era dizer que eu não coloquei meu nome no papel. Ninguém é obrigado a ser voluntário. E muita gente desiste quando seu nome é chamado. Mas a mesma coragem que eu não tive para escrever meu nome no papel eu não tinha agora para olhar nos olhos da minha família, da minha mãe, e admitir o que eu tinha feito. Eu não tenho como matar a esperança que eu tinha inventado. Eu preferia morrer que fazer isso. E morrer eu iria.

— Não chora, mãe — eu falei, tentando quebrar o momento. — Nossa hora chegou.

Ela me soltou e me olhou nos olhos. Falou que sempre soube que um Orksha de luz iria nos tirar da escuridão. Eles gritaram meu nome, os vizinhos chegaram à porta, mas, como o nosso buraco-casa era pequeno, nós é que saímos; eu recebi os parabéns do lado de fora.

Não vou mentir. Eu chorei diversas vezes, de diversos modos. Primeiro, contagiado naquela hora de felicidade, sentindo o amor e a alegria da minha família e amigos. Eu até encontrei paz por um longo momento. No tempo que durou esse sentimento, ele afastou o terror que assombrava minha alma. Eu pude sorrir e festejar.

A festa acabou quando tocaram os sinos que diziam que no mundo acima era noite. Todos se foram. Sozinho em meu quarto eu chorei pela segunda vez. Esse foi um choro verdadeiro, minhas lágrimas alternavam entre pena e desespero. Eu me via morrendo de todas as mortes que eu já tinha escutado acontecer na competição. Depois eu chorei de ódio. Ódio por ter deixado isso acontecer comigo, ódio por quem quer que seja que escreveu meu nome e o colocou na urna. Foi durante esse terceiro choro que meu irmão mais velho entrou no meu quarto. Eu sorri tentando encontrar forças para continuar a fazer o que eu fazia melhor, enganar.

— Você perdeu a festa, meu irmão.

— O que você vai fazer amanhã, Malfaer? — meu irmão me perguntou sério.

— Eu vou honrar o meu Orksha de luz. Eu vou ganhar a competição, depois vou levar todo mundo para morar na Cidade Alta — eu falei esticando meus lábios o máximo que pude, esperando que meus dentes escondessem o que meus olhos confessavam. — Você vai ter orgulho de mim.

Meu irmão ficou calado por um longo e desconfortável período. Não era um silêncio real, dentro dele eu podia sentir uma conversa solitária sobre mim acontecendo. Algo mudou em nossa relação. Depois da minha mentira, quando todos passaram a querer ficar mais perto de mim. Meu irmão mais velho, meu melhor amigo, se afastou de mim. Não de uma vez. No início a gente ainda ria e conversava sobre a vida, sobre as espécies que viviam no mundo da superfície, a gente coletava estórias, desenhava mapas, e tentava imaginar como seria viver nesse mundo mágico, onde não existem paredes e o teto não tem fim. A gente sempre dividiu o sonho de conhecer o mundo acima. Mas aos poucos ele se calou. Em algum lugar do passado nossa amizade tinha morrido. E o pior é que eu nunca nem perguntei o porquê. Agora, claro, era tarde demais para perguntar.

Eu decidi então me levantar e abraçar meu irmão pela última vez, mentir para ele e dizer que tudo ia ficar bem. Amanhã eles iriam descobrir a verdade sobre o mundo e sobre mim. Meu único conforto, agora, era saber que eu não estaria aqui quando essa hora chegasse. Eu morreria um herói aos olhos deles.

— Você quer que eu tenha orgulho de você, é isso? — meu irmão falou, recusando meu abraço. — Por que você não fala que não quer ir?

Por que aí todo mundo ia saber quem eu sou, por que morrer me assusta, mas nada me assusta mais que minha mãe saber quem eu sou. Eu pensei, mas não disse.

— Porque a verdade é que eu quero ir. Eu quero vencer a competição depois da Dança. Eu quero dar à minha família uma vida melhor — eu falei escondendo minha vergonha.

— Eu sei — meu irmão falou com lágrimas nos olhos. — Eu sei.

— O que você sabe? — eu perguntei confuso.

— Eu sei de tudo.

Não, ele não tinha como saber de tudo, ele poderia desconfiar, mas ele não tinha como saber. Em momentos como este, momentos de verdade, muitos fingem ultraje, mas o bom mentiroso não usa as táticas do mau mentiroso. Só existe uma maneira de matar uma verdade. Repetir a mentira, repetir e repetir até que você mesmo comece a acreditar nela. Repetir com a calma de quem não deve. Repetir com a serenidade de quem não teme. Não são as palavras que enganam, são as emoções que colocamos nelas que enganam.

— Meu querido, eu sei que você está com medo. Eu sei que você está preocupado comigo. Eu sei que a fé nos Orkshas nos falta justamente quando a gente mais precisa dela. Mas o que você acha que sabe não é saber. É medo. Nunca deixe o medo falar por você.

Sim, a ironia não me escapou, eu falava para ele o que eu deveria estar falando para mim. Mas o medo sempre foi meu porta-voz.

— No primeiro ano que você colocou seu nome na urna — meu irmão falou se virando de costas e olhando para o chão —, eu te admirava tanto que eu não pude aceitar que você iria se sacrificar para salvar a gente.

— Não é um sacrifício se você sabe que vai…

— Cala a boca e me deixa terminar! — ele falou gritando e se virando para me encarar. Ele tinha ódio nos olhos, não pena, não preocupação, ódio. Como era possível eu nunca ter visto isso antes? — Eu não ia te deixar morrer — ele continuou. — Então eu decidi roubar o papel com seu nome. Foi mais fácil que eu pensei, afinal, quem ia querer roubar a porcaria de um papel.

Existe um Orksha para momentos como este, seu nome é desespero. Você encontra esse espírito quando sonha que está caindo, ele é o sentimento do fim eminente, o momento que existe entre pular dentro do abismo e a descoberta do chão.

— Eu procurei seu nome por quase uma hora — ele continuou, com lágrimas de ódio nos olhos. — Sabe quantas vezes eu li todos os papéis? Cinco vezes. Sempre achando que eu tinha pulando seu nome. Eu teria ficado lá a noite inteira se não fosse a vez em que o último papel na minha mão foi justamente um papel em branco. Eu segurava aquele maldito papel e pensava “cadê o seu nome?”. Por que eu não encontrava o seu nome?

— Eu posso explicar.

— Não é para mim que você tem que explicar nada. Eu sei quem você é. O que você tem que fazer é ir acordar a casa e contar para eles que o grande herói não existe.

— Por que você não conta para eles? Por que não contou até agora?

— Eu tentei. Como eu mato um sonho? Pobre não foi feito para sonhar. Quem vive num buraco dentro de um buraco tem que pensar em sobreviver. Tem que pensar em comida, em segurança. Mas olha para eles agora, minha mãe morreria de fome para te dar o que comer. Você uniu todo mundo ao redor da sua mentira, nada mais importa para eles. Eu não tenho como matar sua mentira, eles me odiariam se eu fizesse isso.

— E você acha que eu posso?

— Para seu desgraçado! Chega de fingir! Você não se importa com ninguém. Tem os otários e os malandros, lembra? Você é o malandro, e nós aqui somos os otários!

— Eu não fiz por mal.

— Não, você fez por inveja, você sabia que eu era o preferido, o mais esperto, o mais forte. Você roubou o afeto que era meu. Eu virei o mudo rancoroso do sucesso do irmão mais novo. Do grande escolhido.

Ele se aproximou de mim, ainda dois palmos mais alto que eu. Com seu pelo escuro fazendo contraste ao meu, cinza. Sim, ele era melhor em tudo. Ele estava certo, a verdade de quem ele era recebia indiferença e incômodo. Enquanto a mentira de quem eu sou foi banhada por amor, admiração e afeto. O mundo era inegavelmente injusto e cruel. Tenho vergonha de admitir, mas isso me trazia algum conforto, tornava minha mentira quase que uma caridade. Como meu Orksha Rei falou, a escolha entre a realidade cruel e a fantasia boa não era nenhuma escolha.

— Conta a verdade — meu irmão falou colocando o dedo no meu peito. — Eles têm que ouvir de você.

— Eu prefiro morrer.

— Eu devia ter imaginado. Não é só eles que vivem de sonhos falsos. Você também acredita que é especial.

— Não. Eu sei quem eu sou. Eu sei que eu morro amanhã.

— Mas morre um herói, não? Se sacrificando pela família. Você prefere morrer como um herói a viver como o malandro vagabundo que você realmente é.

Será? Será que eu não me importo com minha mãe, em quebrar seu coração. Será que tudo que eu quero é não deixar o mundo ver quem eu realmente sou? No fundo eu sempre achei que eu merecia as coisas boas que me aconteciam, como quando minha mãe me deu seu quarto ou quando eu passei a ser admirado e respeitado. Eu sempre achei que eu merecia cada privilégio que tive.

— Qualquer que seja minha dívida com você, com a mãe, com todo mundo, eu a pago amanhã — falei meio como confissão meio como um insulto. — Quer vingança, meu querido, vai ao pátio e encontra um Narrador da competição.  Com um pouco de sorte ele vai narrar a hora da minha morte. Me desculpa se eu te magoei. Às vezes a gente não tem escolha entre o bem e o mal, às vezes o que temos é a escolha entre o mal que podemos carregar e o mal que não podemos.

— Eu não vou chorar por você — ele falou chorando.

Meu irmão se virou para sair do quarto, mas antes que ele abrisse o pano que servia de porta, eu tive que perguntar.

— Foi você, não foi?

Ele parou e olhou para mim. Ele fingiu sorrir, fingiu estar feliz em ter me matado.

— Sim, faz três anos que eu coloco seu nome no papel.

— Justo. — eu falei sincero.

Quando ele saiu, eu voltei para cama. Vazio de lágrimas para chorar, eu me sentia até aliviado. Alguém sabia quem eu era e o que eu tinha feito. Nesse momento eu percebi que minha vida nunca tinha sido tão ruim assim. É engraçado como as coisas têm pesos diferentes em momentos diferentes. Eu passei minha vida olhando tudo que eu não tinha. E agora que só me sobrou um dia, tudo que eu conseguia ver, tudo que eu queria ver, era que eu tinha tudo. Tudo que sempre precisei para ser feliz, eu poderia ter sido feliz. Por que eu não fui feliz?

Amanhã eles me levariam para a Cidade Alta. Amanhã eu não terei mais que mentir. Sim, eu iria sangrar e morrer. Mas antes disso, eu realizo um sonho, antes disso eu vou poder finalmente conhecer a beleza do céu amarelo de Morserus.

 

Logo pela manhã, guardas me buscaram para me conduzir até um elevador construído especialmente para levar as oferendas ao estádio da Cidade Alta. Eu e meu irmão mais velho costumávamos visitar todos os quatro elevadores que eram abertos ao público. Esse não era um deles, esse era um que funcionava apenas uma vez por ano. Já os outros, qualquer um podia usar se tivesse dinheiro. A gente sentava perto deles e via quem subia e descia. A gente passava o tempo tentando entender o que era ter dinheiro.

Na Cidade Baixa não existem moedas ou comércio monetário. Em cada uma das 103 favelas há uma caverna de fungos que se alimentam do esgoto dos moradores. Os fungos crescem mais rápido do que podemos comer. Eu nunca entendi bem como. Eu sempre me imaginava pegando um copo d’água e bebendo, depois urinando de volta no copo e bebendo de novo. Tirando a imagem revoltante, existe algo que não fechava. Se meu corpo absorve parte do líquido, então eu não poderia ter sempre a mesma quantidade no copo. Uma hora tinha que acabar. Mas nas Cavernas Verdes, a comida nunca acabava. Mesmo assim, para comer você tinha que colocar seu nome no livro das dívidas. Essa dívida era paga com favores e biscates, mas só uma pequena parte. Cedo ou tarde os donos da comida, viravam donos de tudo e todos.

Não couberam todos na primeira leva; a metade foi primeiro e eu os vi   subir até perder de vista. Todo mundo estava calado, uma sensação de inevitabilidade e temor permeava o ar. Eu tentei fugir dessa sensação lembrando que eu sempre sonhei em andar num elevador. Mas isso era a única coisa que você não podia comprar escrevendo seu nome no livro das dívidas. Eu quase sorri pensando que eu não ia ter que pagar as minhas assinaturas. Nossa economia era bem simples, cada favela tinha o Cabeção, que era o dono da entrada à Caverna Verde. Todo mundo que queria comer escrevia seu nome no livro de dívidas. Os mais endividados eram escolhidos para fazer os piores trabalhos que o Cabeção queria. Existia todo um comércio de nomes; se alguém fazia algo para você, ele riscava o nome dele do livro e você colocava o seu. Eu nunca trabalhei um único dia na minha vida, e meu livro estava cheio. Mas como eu era um voluntário, o Cabeção deixava passar, porque ele sabia que se eu ganhasse, eu pagaria minha dívida e a dívida da minha família com moedas de ouro. Mal sabia ele que eu pagaria minha dívida com decepção, sangue e lágrimas.

O elevador voltou vazio, eu e as outras oferendas entramos. Eu me vi subindo. Um dos meus maiores sonhos estava se realizando, eu iria sair do mundo subterrâneo e conhecer o mundo da superfície, mas meu único sentimento era o enjoo. Eu suava frio e tremia. Quase vomitei duas vezes. Não era a altura ou o balanço do elevador que apertava meu estômago. Era o que esperava por mim lá em cima.

Quando saí da cabine de metal, eu nem olhei para o estádio. Eu tinha que ver o céu e o sol, eles me trariam força. Eu precisava de força mais do que nunca. Todos diziam que palavras não tinham o poder de descrever a visão mais bela que era ver o céu e o sol pela primeira vez. Mas não havia céu amarelo, não havia o sol laranja, tudo que eu via era um manto negro cobrindo um vazio que parecia infinito. Eu pensei que eu ia cair para cima, e sumir dentro daquele grande nada.

— Onde está o sol? — eu perguntei decepcionado. — O céu não é amarelo, o céu é nada.

— É noite, menino tolo — falou um Cão que eu não tinha visto, mas que estava ao meu lado. — Você nunca viu a noite?

— Não, mas eu tinha ouvido falar.

O Cão sorriu e nós fomos levados diante do público nas arquibancadas. Meu queixo caiu com a grandiosidade do estádio. Se o céu era uma decepção, eu não tinha como reclamar do resto. Mais de 100 mil espectadores, divididos entre duas arquibancadas. As de baixo eram comunitárias, onde todos ficavam lado a lado, sentados em degraus de pedra. Em cima ficavam os camarotes de luxo, todos decorados com bandeiras coloridas, com grandes espaços abertos. Servos serviam seus mestres sentados em cadeira que pareciam ser tronos feitos de almofadas.

Ao norte de onde estávamos havia um gigantesco portão prateado. Uma estrada de tijolos dourados começava na base desse imenso portão e fazia voltas no interior do estádio. Cada volta levava o caminho dourado mais próximo ao centro do campo, onde um enorme buraco escuro marcava o fim da estrada.

Olhando para as arquibancadas eu percebi que havia poucos da minha espécie. Menos da metade eram Ratos, e a maioria deles estava nas comunitárias. O resto dos lugares pertencia às quatro outras nações de Morserus. A maioria eram Cães e Gorilas, seguidos por Gatos e Coelhos. Mas apesar de haver poucos Ratos nos camarotes, esses poucos ocupavam os camarotes maiores e centrais. No maior de todos, eu vi apenas três Ratos, um menino vestido de cinza, sentava entre dois velhos Ratos vestidos em trajes cerimoniais. Roupas elegantes e imponentes, idênticas entre si em tudo, menos em sua cor. Uma era branca, a outra, preta.

Eu já sabia que haveria poucos Ratos, todo mundo dizia que a Dança dos Orkshas era um dos grandes eventos do mundo conhecido de Morserus. ‘A festa dos Ratos é boa demais para ser desfrutada por Ratos’, era o que eu ouvia dos outros da minha espécie. Eu costumava sorrir com esse ditado, de alguma maneira me trazia conforto saber que os Ratos ricos tinham tanta vergonha de existir quanto os Ratos pobres.

Nossa nação era pobre comparada às outras, a nossa cultura, a nossa arquitetura, tudo era roubado, imitado e copiado das culturas mais avançadas. Os Gatos criaram a Academia e as sete torres do saber. Os Porcos formaram o primeiro império e depois o Banco dos Gigantes, unificando o sistema monetário das cinco nações. Os Gorilas nos deram as Casas de Comércio e o sistema de leis. Os Cães deram origem às treze Linhagens de poder. Até os Coelhos, que foram presenteados com uma nação tal qual nós, os Ratos, até mesmo eles desenvolveram uma cultura baseada na honra coletiva e treinaram os Daykar que são os soldados de elite mais temidos do mundo conhecido.

Sabe qual a contribuição dos Ratos? Turismo. Turismo sexual, turismo de caça, turismo de pobreza. E sim claro, o turismo maior de todos.         A Dança dos Orkshas.

No céu escuro, fogos coloridos explodiam, e com o final da última explosão, se abriram os portões gigantes do estádio. Os Orkshas haviam chegado.

Primeiros entraram dançarinas nuas, que tinham seus pelos pintados de branco. Cada uma usava uma máscara redonda que cobria o rosto, os braços e terminava pouco acima da cintura. Eu conhecia todos os Orkshas brancos. Esperança, amor, caridade, alegria e felicidade.

Depois das dançarinas brancas, entraram dançarinas vermelhas, azuis e amarelas. Todas nuas, vestindo apenas suas máscaras. Cada máscara tinha no interior a cor da dançarina, e no seu contorno a cor branca. Eram muitos Orkshas.  Eu não conhecia todos, apenas alguns: a coragem, que era azul; a compaixão, que era vermelha; a generosidade, que era amarela. Eu não conseguia contar todos os Orkshas, mas eu sabia qual era o número.  Cem dançarinas, cem Orkshas, cem oferendas.

As dançarinas foram seguidas pela bateria. Havia tambores, surdos, cuícas, caixas de guerra, pandeiros, chocalhos e todos os demais instrumentos de percussão. Enquanto as dançarinas eram todas fêmeas, na banda eram todos machos. Todos Ratos.

Esses eram os Orkshas de luz. E sua música era uma música de alegria e harmonia.

O povo na arquibancada dançava e festejava enquanto os Orkshas de luz desfilavam ao redor do estádio, seguindo a estrada dourada, se aproximando lentamente do buraco negro em seu interior. Novos fogos queimaram no céu. Do mesmo portão por onde entraram os Orkshas de luz, vieram os Orkshas das trevas.

Novas dançarinas nuas entraram, estas pintadas de preto. Suas máscaras eram assustadoras, e eu pude sentir cada Orksha que elas representavam. O desespero, a solidão, a desilusão, a tristeza e a apatia.

Depois das dançarinas escuras vieram as dançarinas de cor. Primeiro as de azul, depois as de vermelho e por final as de amarelo. Cada uma pintada na sua cor, com apenas o contorno da máscara em preto. No rosto de cada máscara, quem olhava podia sentir a natureza do Orkshas representados. Numa máscara vermelha eu reconhecia o ciúme, em outra amarela eu via gula, e entre as azuis eu podia ver a máscara que tinha me escolhido, o medo de viver.

Quando a bateria das trevas entrou, a bateria da luz se calou. Eram os mesmos instrumentos, mas sua música era outra. Eu não tenho como descrever o som, mas eu sentia claramente o sentimento por trás de cada batida. Era uma música que tocava para o meu terror, dizendo que o pior que sempre esteve por vir havia finalmente chegado.

No final da estrada dourada os bateristas das trevas calaram sua música e todos se posicionaram do lado esquerdo do buraco, enquanto os Orkshas da luz tomaram à direita. Guardas levaram a mim e as outras oferendas para frente do camarote mais luxuoso. Onde estavam os dois Ratos de preto e branco. O primeiro a se levantar e falar foi o Rato Branco, e para minha surpresa sua voz pôde ser ouvida por todos no estádio.

— Chegamos ao final dos quatro dias de alegria, onde festejamos a vida e celebramos a paz. Agora chegou a hora de os Orkshas de luz serem escolhidos para nos guiar para um novo ano de luz, onde deixamos as trevas para trás, e perdoamos aqueles que nos ofenderam com seus crimes contra a vida. Mas não podemos pagar a luz com a moeda das trevas. Sendo assim, eu clamo por piedade. Se os Orkshas da luz forem escolhidos, então que apenas um voluntário seja sacrificado, que apenas um pague com seu sangue pelos crimes do resto de seus noventa e nove irmãos. Afinal, somos todos Karmanos aos olhos da luz e o sofrimento de um é o sofrimento de todos.

O público xingou e jogou pedras na nossa direção. Pedras que eram vendidas nas arquibancadas baixas junto com flores brancas. O Rato Negro então se levantou e falou com a mesma claridade sobrenatural de voz.

— Chegamos ao final dos quatro dias de euforia, onde festejamos o prazer e celebramos a carne. Agora chegou a hora de os Orkshas das trevas serem escolhidos para nos guiar por mais um ano.  Serão quatrocentos e cinquenta e sete anos seguidos de trevas, onde deixamos as luzes para trás e odiamos e punimos aqueles que nos ofenderam com seus crimes contra nossa autoridade. Mas não podemos pagar a trevas com a moeda da luz. Sendo assim, eu clamo por justiça e vingança. Se os Orkshas das trevas forem escolhidos, então que apenas um voluntário seja poupado, que todos os outros paguem com seu sangue, pelas riquezas e glória que vamos despejar aos pés do único vencedor. Afinal, somos todos indivíduos melhores aos olhos das trevas, e o benefício de um justifica o sofrimento de todos.

Na arquibancada, as cinco espécies mais civilizadas de Morserus se portavam como animais. Eles gritavam ‘punição e morte, punição e morte,’ sem parar. Acho que alguns gritavam outra coisa, mas nada que eu pudesse ouvir entre os gritos dos que cobravam pela nossa morte. Eu sabia que os Orkshas das trevas iriam ser escolhidos, todos os anos eu mesmo torcia por eles. Aquele dia foi a primeira vez que eu torci para a luz.

Cada pedra jogada dentro do estádio era um voto para as trevas. Cada flor branca era um voto para a luz. A minha frente eu via milhares de pedras. Já as flores brancas eu contei apenas quatro.

Eu quase chorei quando os dançarinos brancos jogaram suas máscaras dentro do buraco negro. O mesmo buraco em que eu seria jogado em breve. Uma por uma caíram as máscaras da luz, até que apenas o último Orksha, o da esperança, sobrou. Quando sua máscara se foi, se foi também qualquer esperança que eu pudesse ter escondida dentro de mim. Esse era o início do meu fim. Ao meu redor todos sabiam disso. Todos, menos o Cão, que parecia estar mais preocupado em admirar o espetáculo do que em entender seu significado.

Sem suas máscaras, as Ratas dançarinas e sua orquestra saíram por uma pequena porta no ponto oposto ao portão de entrada.

Eles nos colocaram em filas, em frente aos Orkshas das trevas. Os voluntários, como eu, na frente, e os prisioneiros atrás. Quatro Orkshas, um de cada cor, escolheram seus preferidos. Os preferidos eram os campeões, cujo sangue seria vendido pelo valor mais alto.

O primeiro campeão a ser escolhido foi um Rinoceronte. Sua pele parecia ser dura como pedra. Ele tinha dois chifres que pareciam pontas de lanças em sua testa. Ele tinha o dobro do meu tamanho e largura. A Dançarina vermelha, que usava a máscara do preconceito, pegou uma faca e, com dificuldade, talhou no peito do rinoceronte o semblante do seu Orksha. Depois colocou um cálice e coletou o sangue que escorria do ferimento.

O sangue fazia parte do Ritual, ele seria misturando com galões de uma bebida alcoólica que tinha poderes sobrenaturais. Quem bebesse dessa mistura iria nos acompanhar. Iria poder ver nossa morte usando nossos olhos. Mais que apenas isso essa bebida era o ingresso para eles apostarem no vencedor da competição. O custo de beber do sangue de um campeão era considerado caro mesmo entre os mais ricos.

O segundo campeão a ser escolhido foi o Gorila, escolhido por uma dançarina com a máscara negra, da apatia. O terceiro foi o Cão, por uma dançaria com a máscara amarela, do privilégio.

Quando uma das dançarinas olhou para mim, eu pensei que eu fosse ser escolhido. Que a mentira teria virado realidade e os Orkshas azuis viam em mim alguém digno de acreditar. Ela apontou na minha direção e eu chorei, chorei por que naquele momento eu finalmente pude acreditar em mim. Toda a culpa, todo medo, todo nojo que eu carregava no peito caíram ao chão. Eu era o escolhido, de verdade, eu era merecedor de ter um sonho realizado. A esperança não tinha morrido, ela estava viva dentro de mim.

Maudio me empurrou de lado, me jogando ao chão junto com minhas pretensões de vitória. Era ele quem a dançarina tinha apontado. Era ele que tinha uma chance de sair vivo da competição. Minha vida triste não teria um final feliz, afinal de contas.

Que grande surpresa! Todo mundo na Cidade Baixa conhecia o Maudio. Não existiam muitos voluntários para a Dança, e o povo pobre vivia de fofoca. Eu tinha ouvido suas estórias. Como eu tinha ouvido as minhas. Eu era o Rato bonzinho que iria se sacrificar para salvar a família. Já o Maudio, bem, ele era odiado por todos. Ele era o Rato egoísta que queria vencer às custas de todos.

Eu o via treinando todos os dias. Pela manhã ele levantava pedras, à tarde ele corria, à noite, atirava facas e lutava com espadas. Ele caçava os devedores escravos que fugiam das minas. Sempre com uma faca e uma espada. A espada ele dava para o devedor. Uma vez eu perguntei para ele por que não dava a faca e usava a espada.

— Somente o melhor sobrevive. Para eu ser o melhor, eu tenho que ganhar mesmo estando em desvantagem. Eu tenho que aprender a matar sem piedade. O sacrifício não começa no dia em que eu for jogado no buraco, ele começa no dia que eu decidi competir.

Eu nunca esqueci essas palavras, eu nunca esqueci o olhar que ele me deu e o sorriso que dizia sem precisar falar uma palavra. “Eu sou melhor que você!”. Era verdade. Maudio era um lutador nato, um assassino nato. Eu era uma fraude. Ele sacrificou sua juventude para ter uma chance de vencer a competição. Enquanto eu dormia e falava sobre ganhar, ele suava e sacrificava seu corpo e sua sanidade para ter uma chance maior. Mas sabe o que é o pior? O pior e que eu nunca invejei ele. Existem coisas piores que a morte, e dar duro todos os dias, para mim, era uma dessas coisas. Ou pelo menos sempre foi, até o dia de hoje.

Depois que Maudio foi escolhido os outros dançarinos vieram com suas facas. Eram cem dançarinos, representando cem Orkshas, e cada um deles teria a sua oferenda. Novamente eu me dava de cara com a máscara do Orksha do medo da derrota. A dançarina marcou seu símbolo no meu peito. E colocou meu sangue numa taça. Meu sangue seria vendido a um preço maior o que dos prisioneiros; afinal, eu era um voluntário. Até hoje eu me lembro de ter assistido à narração de oito competições. Em todas elas o vencedor tinha sido um dos preferidos. Não um voluntário, em mais de trinta anos; não um prisioneiro em mais de oitenta.

Os guardas nos levaram até a borda do buraco no centro do estádio. O chão tremia com mais de 100 mil espectadores enlouquecidos, que batiam com os pés no chão. Eles tinham esperado um ano para poder sentir a nossas dores, ver o nosso desespero, beber a nossa morte. Eles não queriam esperar nem mais um segundo sequer.

As cem oferendas cabiam perfeitamente ao redor do buraco. Olhando para baixo, eu não conseguia ver o lago. Tudo que eu via era a escuridão. O povo gritava nas arquibancadas, vendedores corriam de um canto a outro com os frascos com nossos símbolos, com nosso sangue misturado ao álcool sobrenatural. Eu podia senti-los bebendo meu sangue, eu podia senti-los entrando na minha mente. O excitamento e a ansiedade para que eu fosse jogado logo dentro do buraco. Parte de mim estava apavorada. Mas essa nova parte de mim, meu público, se esbaldavam no meu medo. Nenhum deles tinha sentido nada igual, nenhum deles conheceu uma vida de privação, ou o temor de uma morte por violência. Eles tinham fome do meu sofrimento, para eles, isso lhes devolvia o seu gosto perdido pelas suas vidas de conforto.

Os guardas amarraram os tornozelos de todas as oferendas. Em seguida fomos empurrados dentro da escuridão. Eu gritei de pavor, me esquecendo das lamentações na minha mente, me esquecendo da culpa ou do quanto eu merecia essa queda. Tudo que existia era o horror de um único pensamento. Eu não estou pronto para morrer agora.

Eu já tive sonhos onde eu caía, mas nos sonhos eu sempre acordava antes de bater no chão. Eu fechei os olhos e fingi que isso era apenas um sonho. Mas nas sombras das minhas pálpebras eu os enxergava em seus contornos escuros. Os espectros daqueles que beberam do sangue, cada vez mais próximos. Eu via um menino no colo de seu pai. Ele abria os braços e festejava. “Eu estou voando pai, eu estou voando”, ele falou com a forma de uma nuvem cinza e depois desapareceu.

A corda elástica puxou minha perna com tamanha força que eu achei que ela iria estalar e se separar do resto do meu corpo. Primeiro eu senti uma dor alucinante na virilha, depois eu senti como que um soco, quando meu peito e rosto bateram na água fria. Eu subi, depois caí novamente, e subi mais uma vez.

Quando eu me dei conta, eu estava pendurado a um metro do lago azul. A minha volta chovia as outras oferendas. Eu fui até o laço que prendia meu tornozelo, e com um puxão forte, desfiz o nó e caí outra vez dentro da água.

Nadando até a margem, eu escalei as pedras afiadas que circulavam as bordas do lago. Era difícil de acreditar que eu ainda estava vivo. Enquanto eu recuperava o fôlego, admirava a loucura que se apresentava diante dos meus olhos.

Dezenas de ratos nadavam para fora do lago, enquanto dezenas mais ainda estavam pendurados de cabeça para baixo. O Rinoceronte era um deles, mas seu peso tinha sido mal calculado, por que sua cabeça e ombros entravam na água. Ele se dobrava para poder respirar, mas não tinha forças para alcançar a corda no tornozelo. Ele era o grande preferido, eu tinha certeza que ele iria ganhar, eu imaginei como seria minha morte em suas mãos. Mas ali estava ele, lutando com tudo que tinha para viver. Ele fraquejava, mas não desistia. A minha volta eu notei que estávamos todos assistindo a macabra cena. Uns sorriam e festejavam, talvez por ver que se o mais forte cai, então existe esperança para o fraco. Outros, como eu, tremiam, porque para mim a realização era outra. Se até ele pode perder, que chance tinha qualquer um de nós?

Eu pensei em nadar enquanto havia tempo, eu me via montando no seu corpo rígido como pedra. Eu poderia soltar o seu laço e lhe dar a vida. Eu tinha esse poder, todos ali tinham esse poder. Ninguém moveu um dedo. Eu virei o rosto quando ele engasgou na água. Ali eu aprendi que existem outras formas de matar. Covardia e indiferença matavam tão bem quanto ódio e malícia.

Dentro da caverna redonda havia oito saídas, das oito três levavam à morte. Se eu escolhesse o caminho certo eu tinha cinco horas para achar o Salão de Espera. Todos os caminhos certos se encontravam nesse salão. Já se eu escolhesse o caminho errado, eu encontraria as feras de duas mandíbulas. Elas ficavam presas nas primeiras três horas da competição, depois eram soltas e caçavam todos os que não chegaram a tempo ao salão. Na primeira fase, sobreviveria não quem sabia lutar, mas sim quem sabia correr.

Mas ninguém se movia, todos esperavam os três favoritos restantes. Era uma tradição, não uma regra, seguir um deles. Raramente alguém escolhia um caminho, todos queriam seguir o caminho de outro, seja esse caminho para vida ou para a morte. Era um risco calculado, por que sempre um favorito ou dois morriam em sua escolha, mas sempre um ou dois acertavam.

O Cão foi o primeiro escolhido a entrar no seu túnel, poucos o seguiram. Depois foi o Gorila, que foi seguido pela grande maioria dos outros Ratos. Eu posso ser um covarde, porém nunca fui burro. A dançarina tinha sussurrado algo para Maudio. Os organizadores da competição não poderiam se dar ao luxo de perder todos os favoritos para o acaso, todo mundo sempre suspeitou que alguns deles recebiam a dica de qual o túnel certo. Eu não tinha que adivinhar qual. O sussurro era minha pista. Eu estava disposto a apostar minha vida nessa intuição.

Quando Maudio escolheu sua caverna, dois garotos Ratos correram na sua frente, disparando a toda velocidade em busca do salão. Era um erro comum. O resto apenas andava em passos largos. Três horas de caminhada depois, encontramos os dois Ratos, sentados e exaustos.

— Por favor, me ajuda moço. Eu não vou conseguir sozinho — falou um dos meninos, com lágrimas nos olhos. — Me carrega um pouco.

— Aí quem não chega no salão somos nós três, e não vocês dois. — Eu falei tentando acreditar que isso era uma sensata justificativa para deixar duas crianças mais novas que eu serem devoradas vivas por animais selvagens.

— Você não sabe disso — falou o outro menino. — Você tem que tentar para saber disso.

Eu repeti o gesto que eu tive com o Rinoceronte. Virei meu rosto e caminhei sem ao menos responder. Eu justifiquei minha indiferença com o pensamento que só um escaparia vivo, não existe lógica em salvar alguém numa competição onde todos são seus inimigos. Numa competição não existe comunhão entre vencedores e perdedores. Quem vence faz o que tem que fazer para vencer. O resto perde. Eles perderam.

Os meus espectros espectadores sentiam o meu pensamento como eu sentia o deles. Eles concordavam comigo. Eles agora não estavam mais torcendo para me ver morrer, eles queriam ganhar o jogo. Aos olhos deles, todos os outros mereciam morrer. Eu queria odiá-los, mas era difícil odiar o afeto que eles tinham adquirido por mim. Mesmo sendo um afeto arbitrário e injusto.

Nosso túnel era estreito, não cabia quatro andando lado a lado. Obviamente ninguém andava lado a lado. A nossa era uma fila de desconfiança. Você ficava próximo o suficiente do outro para sentir sua presença e saber que estava no caminho certo, mas longe o bastante para que não pudesse ser abordado sem poder ter tempo de correr. Fungos fluorescentes iluminavam partes do longo túnel, mas em alguns trechos não havia fungos, nesses pedaços a escuridão era total.

Os mais velhos e os mais fracos perderam o passo, foram ficando para trás. Não acompanhar era a certeza de morrer. Dava para ouvir os lamentos, ‘eu não mereço isso’ era uma frase comum, outra era o ‘por que eu?’.

Quando eu andava no escuro eu podia sentir o espectro dos torcedores que apostaram em mim. Não por acreditar em mim, mas por que o sangue dos preferidos era caro mesmo para os mais ricos, então quem não podia beber o deles bebia o nosso. Tinha um pai com um filho. Um grupo de amigos jovens. Duas mulheres que pareciam irmãs, mas se tocavam como amantes, e, por final, um solitário macho de meia idade, vestido de preto. Todos eram Gatos. Todos, com exceção do último, estavam extáticos de felicidade. Eu podia sentir os sentimentos deles afogando os meus. Eles sonhavam em me ver ganhar o prêmio, minha vitória traria riqueza a eles. Mais riqueza, pois eram todos ricos. Todos, menos o Gato solitário de óculos. Eu era um personagem para eles, eu era só uma estória. Eles entendiam a minha dor como uma forma de entretenimento. Eles torciam por mim, eles queriam que eu vivesse, mas se as feras me pegassem, eles ficariam felizes também, eu seria a boa história com um final triste. A vontade que eu tive foi de desistir, de morrer sem tentar viver, roubar deles o prazer de me ver implorar.

A próxima luz que eu vi vinha de uma porta aberta no final do túnel, meus espectros pularam de alegria como se fosse a vida deles que tivesse sido salva. Menos o maldito Gato de óculos. Este apenas me olhava com a indiferença de uma estátua. Grades começaram a descer para bloquear a porta. Eu corri, eu mal tinha forças para andar, mesmo assim eu corri como nunca tinha corrido em minha vida.

As grades estavam quase tocando o chão. Eu me joguei por baixo delas e me arrastei para dentro do salão no tempo exato, mais um segundo e eu teria ficado do outro lado das grades. As portas de pedra do aposento começaram a se fechar. Eu podia ver mais três ratos correndo na minha direção. Um deles chegou até a grade. O olhar de pavor no rosto dele foi a coisa mais terrível que eu tinha visto na minha vida. Era a morte da esperança e o nascer do desespero. Ele não pediu ajuda, ele nem olhou nos meus olhos ou chorou. Ele apenas desistiu, e deixou a porta se fechar. Eu ouvi mais gente chegando do outro lado, desta vez eu ouvi gritos e soluços, ao fundo, eu podia ouvir um rosnar se aproximando.

— Senta longe da porta garoto — falou o Cão, que era um dos favoritos, tocando meu ombro. — Nada disso importa, todo mundo vai morrer aqui, menos um. Não se sinta culpado, porque em breve vai ser a sua vez.

Eu me virei para o Cão, que era maior e mais forte que eu. Tinha um porte de nobre, sorria, e parecia tão calmo e confiante que por um segundo eu me senti melhor. Até me lembrar que eu estava competindo com ele. Se ele não estava com medo, então eu deveria estar.

Sem responder, eu me sentei à mesa com todos os outros. A sala tinha quatro entradas, mas apenas dois favoritos estavam ali. Maudio e o Cão. A maioria dos prisioneiros também tinha ficado para trás. Você tinha que estar em ótima forma para sobreviver à caminhada nas cavernas. Eu contei cada um na sala, dos cem, apenas quatorze tinham sobrado. Até o Gorila, que era um favorito, não estava ali, nem nenhum dos que o seguiu.

A mesa era farta, comidas que eu nunca tinha visto em minha vida. Animais cozidos inteiros, bebidas em jarras, frutas frescas. Eu nunca tinha comido carne na minha vida, e fruta eu conto nos dedos as vezes que provei. Eu sempre quis saber qual era o gosto da comida dos que vivem no mundo da superfície. Mas agora, mesmo depois de horas sem comer, eu não tinha a menor fome. Meu estômago estava embrulhado, eu queria vomitar, não um vômito de mal-estar e sim um vômito de tirar o peso de morte que eu carregava na minha barriga.

Todos os outros Ratos estavam com o mesmo pesar, ninguém falava nada. Poucos comiam e, mesmo assim, os que comiam só mastigavam sem vontade. Com exceção do Cão, que comia se lambuzando, enquanto que Maudio olhava para ele com o canto do olho. Foi aí que eu notei a placa que ficava em frente à grande mesa.

‘Por favor, não se matem’, dizia a placa. Eu sabia que era permitido matar no salão, mas não era recomendado, por que as cinco horas que passaram eram o tempo que durava a poção com nosso sangue. Quem tinha bebido do sangue dos vencedores da primeira fase, bebia a segunda dose grátis. Já os que beberam do sangue de quem morreu, esse era o intervalo para eles comprarem um novo frasco e apostar em outra oferenda.

— Você acha que já ganhou, Cão? — Maudio falou do outro lado da mesa.

O Cão nem olhou para ele. Deu uma mordia na perna cozida de algum animal que eu desconhecia e depois falou com a boca cheia.

— Eu, se fosse você, saboreava essa refeição. A gente nunca sabe quando vai comer a última.

— Eu fui o primeiro a chegar aqui. Sabe por que eu fui o primeiro? — Maudio perguntou encarando o Cão, que não respondeu, mas limpou a boca com a toalha da mesa. — Eu estou aqui por que é meu destino estar aqui. Minha vida de verdade começa amanhã. Meu Rei é o mais forte de todos aqui. — Ele falou batendo no peito cortado. — O Orksha da inveja. Meu conselheiro, das trevas. Ele colocou no meu coração a vontade de tomar tudo que me foi negado. Ele me mostrou o caminho do ódio e do sacrifício pessoal em nome do desejo material.  Ele foi o fogo que ardia dentro de mim que me deu as forças para ser um atleta melhor que todos os outros. Pois quem não ganha, morre. Não existe segundo lugar aqui. Apenas um vai sobreviver. Esse um sou eu.

— Sabe o que é mais engraçado, Rato? — O Cão perguntou sem parar de comer. — Inveja foi exatamente o que me trouxe aqui. Eu também achei que eu era destinado a uma vida melhor do que a que eu tinha. Olha para mim agora e me diz. Qual de nós dois é o mais idiota?

Maudio se levantou e olhou ao redor. Os outros Ratos estavam calados, alguns, como eu, prestavam atenção no que acontecia. Mas a maioria parecia atender o próprio funeral, eu sabia o que eles pensavam, não importa, nada disso importa, todos vamos morrer, todos menos um dos favoritos. Todos, inclusive eu.

— Eu digo a vocês, meus companheiros. Matem o Cão agora — Maudio falou apontando para o seu inimigo. — Ele é um Cão, e nós somos Ratos. Um de nós deve vencer a competição, somos treze, ele é apenas um. Agora é nossa oportunidade de aumentar nossa chance de vitória.

Todo salão parou, até uma Rata fêmea, que se escondia no canto da sala, se virou. Até o Cão parou de comer e passou seus olhos por cada um de nós, entendendo que seu tamanho não seria o suficiente. A tensão acordou até os indiferentes, nada como a promessa de morte e violência para calar a voz do desespero e fazer falar a voz do ‘antes ele do que eu’.

— Mas, e a placa? — um dos Ratos falou. — Eu sei ler, está escrito ‘por favor, não mate’.

— Está escrito “por favor” — interpôs Maudio. — Não é proibido. Sabe por que não está escrito proibido? Por que eles não têm como proibir porcaria nenhum aqui em baixo. É por isso que tem a mesa e a comida, para distrair os otários enquanto eles vendem mais do nosso sangue para entreter os turistas. Os desgraçados das outras espécies que vêm de longe apenas para nos ver morrer. Quem que você acha que é o favorito deles? Um de nós, Ratos? Ou um Cão de Caltos?

— Ele está certo — levantou um Rato feio, com um rosto desigual, com um olho maior que o outro, uma orelha em pé e a outra cortada. Ele falou com seus dentes tortos. — Se for para morrer eu prefiro morrer na mão de outro da minha espécie.

Outro Rato, que de tão magro podia-se ver o contorno do seu crânio.

— Eu nunca matei ninguém, mas se eu tiver que matar, que seja um Cão, e não um Rato como eu.

Maudio sorriu e olhou para mim, esperando me ver levantar. Eu quase levantei, mas decidi esperar. Mais dois levantaram, e com esses dois seguiram todos os demais.

— Levanta para morrer Cão — Maudio falou.

O Cão se levantou, seu semblante não tinha a mesma calma de antes, o medo brilhava em seus olhos como uma brasa.

Eu pensei em assistir ou virar o rosto, de uma maneira ou outra eu seria tão culpado quanto todos eles. Pensando nele, não me ocorreu nenhuma palavra que pudesse salvar sua vida. Mas quando os Ratos deram seu primeiro passo, eu pensei em mim, e foi quando vieram as palavras, me surpreendendo ao sair da minha boca.

— Não — eu falei alto, me levantando.  — A gente não pode matá-lo.

— Se for a placa… — o Rato feio falou.

— Não tem nada a ver com a placa — eu o interrompi. — Vocês o matam e quem morre somos nós. Sabe quem ganha quase todos os anos? Os favoritos ganham. Esquece Ratos e Cães. Pensa em fortes e fracos. Eles são os fortes, nós somos os fracos. E quando os fortes ditam as regras, são os fracos que se ferram.

— Que te importa, Malfaer? — Maudio falou babando ódio. — Você sabe que vai morrer, é por isso que nunca se enforcou, nunca treinou, está pensando em viver agora? Agora é tarde para dar valor a sua vida. Você tinha que ter pensando nisso durante os anos que você desfrutou os méritos de ser um voluntário sem sacrificar porcaria nenhuma. Eu me matei para poder viver, eu mereço vencer. Ninguém merece mais que eu.

— Mérito. Privilégio, foi assim que tudo começou — falou a Rata fêmea, ainda no canto da parede. — Quando eu decidi me prostituir para comprar uma vida melhor, minha mãe me disse isso. Eu não ouvi, nem quis ouvir, eu vivi minha vida, comprei meu caminho para o mundo da superfície e conheci todas as riquezas que esse mundo tinha para me oferecer.

— Cala a boca, sua Rata maluca! — Maudio retrucou.

— Você acha que vai ser feliz lá cima, Rato. Eu achei que sim, eles me usaram, eu os usei. No final, ninguém mais me quis, eu voltei para a Cidade Baixa. Eu perguntei para minha mãe por que tudo deu errado — A Rata olhou para a mesa farta. — Ela me falou que no início, as Danças dos Orkshas era uma festa onde não existia morte. Antes das outras espécies nos encontrarem, a gente vivia na pobreza, mas com comida farta, dentro de uma cidade formada por dezenas de cavernas que abrigavam a todos, alimentavam a todos, protegiam a todos dos males do mundo acima. Nessa época, ninguém adorava os Orkshas das trevas. Nessa época as Cavernas Verdes pertenciam a todos. Não existiam os Cabeções. Todo mundo prestava homenagem aos Orkshas da luz. A humildade, a lealdade, o agradecimento, o perdão. Mas nenhum Orksha era mais adorado que a esperança.

— O que aconteceu? Como que um mundo desses pode ter deixado de existir? — eu perguntei curioso, notando que todos estavam calados esperando a Rata voltar a falar.

A Rata apontou para o peito do Cão.

— O seu Orksha foi o primeiro Orksha das trevas a ser adorado — o Cão olhou para a marca no seu peito, sem saber o que ela significava. — O privilégio — a Rata continuou. — Quando chegaram os Porcos e construíram a sua Cidade Alta em cima da nossa Cidade Baixa, eles nos mostraram algo que nunca tínhamos visto até então. Abundância. Eles não trabalhavam. Os Porcos eram os mestres e os Javalis seus escravos. A ideia do privilégio é uma ideia sedutora. Ter, não por que eu mereço ter, não por que eu trabalhei para ter. Ter por que é meu direito ter. E eles tinham tudo, e nós não tínhamos nada. Os Rodasvivas tentaram nos dizer que o privilégio não era algo a ser almejado, que ao alimentar um Orksha de trevas nós estaríamos convidando a ruína para o nosso coração. Mas já era tarde. O privilégio trouxe a inveja; a inveja, a raiva; a raiva, o medo; e um a um, nós nos esquecemos de como ter pensamentos de luz, e alimentamos os espíritos das ideias escuras. Foi assim que transformamos uma festa de dança e perdão numa carnificina de sacrifício e sadismo. Nós merecemos estar aqui, nós merecemos, qualquer que seja o nosso fim.

Mal a Rata terminou de falar e eu senti milhares de mentes entrando em mim. Eu caí no chão e o tempo parou. Era como estar de volta ao estádio, mas em vez de eles gritarem nas arquibancadas, eles gritavam dentro da minha consciência. “Corre que começou, corre que começou!”, falou a voz da maioria dos espectros. Eu podia vê-las ao meu redor, movendo-se em círculos em torno de mim. Quando abri os olhos, o Salão estava quase vazio. Apenas os dois favoritos estavam no chão, ainda se recuperando da mesma experiência que eu acabara de ter. A porta de saída estava aberta. A corrida até o Salão das Armas tinha começado, e eu estava atrasado. Sendo assim, eu corri.

O túnel era longo, amplo e escuro. Eu não podia ver nada. Usando instintivamente os delicados bigodes do meu focinho, eu conseguia sentir a distância entre paredes com a mesma facilidade que outra espécie poderia sentir o calor de uma chama. Em menos de uma hora de caminhada encontrei uma bifurcação. Eram oito túneis. Eu escolhi o último túnel sem pensar ou parar para ponderar uma melhor escolha. Todos os túneis davam no mesmo lugar.

Depois de mais duas horas, eu vi a luz que vinha do Salão das Armas. Eu me aproximei sorrateiramente, deixando que as sombras me escondessem.

— Por favor, eu te imploro. É a minha vez — falou a Rata.

— Eu não consigo — falou o Rato feio.  — Me perdoa, mas eu não consigo.

Eu podia ver quase tudo. O salão era redondo com uma tocha fincada no chão, exatamente em seu centro. Elas iluminavam as oito entradas e uma saída que, com simetria, se dividiam na circunferência do salão. A chama era o suficiente para mostrar as entradas, mas não o bastante para iluminar quem estava dentro delas, como eu. Isso era proposital, pois entre cada duas entradas ficavam prateleiras de armas. Armas de todos os tipos e culturas, armas familiares como espadas, lanças e arcos. Mas também armas que eu nunca vi, com cabos ligados a correntes e bolas de metal cobertas com espinhos de pontas longas.

Dos Ratos que estavam no salão, apenas dois estavam vivos. O resto agora eram corpos que estavam lado a lado, com um dardo no peito de cada um. No final da fila de mortos estava a Rata. À sua frente, segurando uma besta enorme, estava o Rato feio.

Sem ser notado eu fui até a prateleira ao meu lado e peguei uma faca. Havia armas maiores, mas eu nunca usei nada maior que uma faca. Eu podia ouvir os passos ecoando das outras entradas, os favoritos estavam chegando.

— Eu nunca matei uma fêmea — falou o Rato feio para a Rata. — Eu fui preso porque eu estuprei uma prima. Eu sempre me odiei por isso, eu sou feio por dentro e por fora. Mas eu não sou um matador, eu não sou mau. Você é conhecedora das vontades dos Orkshas, me diz, como a punição para o mal que eu fiz pode ser praticar um mal maior?

— Os Orkshas das trevas querem morrer. Nem todos sabem disso, pois a ignorância os move. Nesse Salão, nesse estádio, as trevas encontram as trevas, numa comunhão de dor e sofrimento. Meu Orksha Rei foi a insatisfação. Ele me prometeu uma vida melhor do que a que eu tinha. Eu sabia que os Orkshas das trevas mentem, minha mãe me falou. Mesmo assim, aqui estou.

— Eu não quero morrer, eu não quero matar, por que isso está acontecendo? — perguntou o Rato, feio baixando sua besta. — Me explica, por favor, me explica.

— Qual o seu Orksha?

— Eu sempre adorei o Orksha do ódio a mim mesmo.

— Está aí sua explicação. Não tem ninguém aqui que adora um Orksha de luz, nós escolhemos as trevas, e por isso estamos nas trevas.

— Não, não é justo. E eles? — o Rato feio apontava para as sombras dos espectros que apenas ele via. — Eles estão assistindo e rindo de mim, como todo mundo sempre riu de mim. Todo mundo escolheu as trevas, por que eu vou pagar sozinho? Por que eles não vão morrer também?

— Os Orkshas das trevas são formados pela união dos que adoram as trevas. Eles são condenados a viver dentro uns dos outros, acorrentados ao mal que admiram. Eu estou cansada do longo pesadelo. Eu quero acordar e começar outra vida. Eu quero tentar de novo. Eu quero fazer outra escolha agora. Me deixa ir embora.

— E eu? — o Rato feio perguntou, levantando a besta para a Rata. — Quem me mata?

— A sua vez chega. A vez de todo mundo chega.

O Rato feio soltou o dardo, que perfura o peito da Rata. Ela caiu de joelhos olhando para ele, falando algo, talvez um pedido de desculpas, mas não saíram palavras de sua boca, apenas saía sangue.

O Rato feio se virou e me viu. Ele olhou para a faca na minha mão.

— Essa faca não é uma boa arma — o Rato feio falou, jogando sua besta de lado. — Se você não se incomoda, eu prefiro que você use uma espada.

— Vocês nem tentaram lutar entre si? — eu perguntei, incrédulo.

— Eles pediram. Ninguém aqui sabe matar. Eu soube, mas agora eu não quero mais matar ninguém. É a minha vez agora de escapar desse lugar maldito.

Tudo que eu tinha que fazer era enfiar a faca nele, depois esperar os favoritos e usar a besta e tentar matar eles também. Mas como os criminosos aqui, eu era muitas coisas, mas eu não era um matador. A escolha não era apenas viver ou morrer, a escolha era algo ainda mais cruel. Era a escolha entre me tornar ou não num animal.

— É a minha vez agora — o Rato feio falou se colocando de joelhos. — Eu estou pronto.

Eu pensei na minha mãe, nos meus irmãos e irmãs. O futuro da minha família estava em jogo, não era apenas a minha vida. Tudo que eu tinha que fazer era usar a faca.

— Você não quer viver? — eu perguntei para ganhar tempo.

— Eu quero.

— Então lute.

O Rato feio estendeu a mão na direção de sua besta, mas antes de alcançá-la, uma flecha perfurou seu ombro. Depois sua coxa, depois uma flecha errou seu corpo, e as próximas duas acertaram fundo em seu peito. Ele caiu próximo ao corpo da Rata. Não morreu na hora, seu corpo dava pequenos espasmos. Não parecia sentir dor, seus olhos estavam fechados e seu rosto calmo.

Eu esperei as flechas me acertarem, mas no lugar de flechas eu ouvi a voz de Maudio.

— Você vai ficar aí parado, perto da luz, quando o Cão chegar eu mato ele primeiro e você por último. Me ajuda e eu te prometo uma morte rápida.

Eu podia ver meus espectros no escuro das cavernas de entradas do salão. Eles estavam berrando para eu correr. Uns me chamavam de covarde, outros me chamavam de coisa pior. Outros poucos apenas me olhavam arregalados, saboreando o suspense do que estava por vir. Não acho que realmente importava para eles se eu ia viver ou morrer, o que importa é o espetáculo de saborear o destino de uma vida no decorrer de oito horas. Eu queria odiar cada um deles, mas eu era um deles, e nunca tinha perdido nenhuma competição.  Quando eu ouvia o narrador da praça narrar a morte das oferendas, meu único arrependimento era não ter dinheiro para poder beber do seu sangue e vê-los morrendo com meus próprios olhos.

Eu ouvi um grito de susto e dor, ouvi algo bater no chão e rastejar para a luz. Era Maudio, com uma espada enfiada nas costas, atravessando seu peito. Ele caiu de lado e tentou empurrar a lâmina segurando firme no fio da espada, mas este cortava a sua palma e o sangue fazia sua mão escorregar da lâmina.

— Eu tinha pego essa espada para mim, você usou a minha arma — Maudio falou para a sombra de onde saiu.

— Obrigado — falou o Cão saindo da escuridão.

Maudio tossiu e engasgou. Após cuspir o sangue que lhe saía pela boca, conseguiu falar.

— Como você sabia a passagem que eu escolhi?

— Nós, Cães, temos um bom faro — ele falou com ironia, mas em seu olhar eu via culpa.

— Eu sacrifiquei tudo para ganhar — falou Maudio rolando na poça de seu sangue. — Não é justo. Eu mereço mais que você. Não é justo.

O Cão pegou um machado de guerra e caminhou até ficar sobre Maudio. Os meus espectros assistiam fascinados. Eu podia sentir a excitação deles. Era revoltante. Mesmo assim quem era eu para falar. Eu podia fechar meus olhos, eu podia ser melhor que eles. Eu procurei esse melhor dentro de mim, mas era difícil achar o que você nunca teve para perder. O Cão degolou Maudio com um único golpe. Os espectros festejaram. Apenas quando o Cão olhou para mim, eles finalmente se calaram.

— Qual o seu nome, menino? — o Cão me perguntou, apertando o cabo do machado para esconder o tremer de suas mãos.

— Malfaer.

— Meu nome e Hakien.

— Prazer.

Hakien se aproximou, ele trouxe consigo o machado banhando em vermelho.

— Na sala você poderia ter deixado eles me matarem, por que falou em minha defesa?

— Não sei. Acho que eu cansei de não fazer nada. Mas se você quer saber. Não acho que eles teriam te matado.

— Que outra escolha eles tinham?

Eu não sabia como responder isso com palavras. Minha resposta foi soltar minha faca no chão. Meus espectros protestaram, mas em breve eu não teria mais que escutar nenhum deles.

— Você está tão perto da vitória, como você pode desistir agora? — Hakien perguntou. — Qual o significado de chegar até aqui e desistir na reta final?

— Quer saber? Eu sempre achei injusta a vida que eu tinha. Só agora percebo que eu nunca fiz nada a respeito. Eu desisti sem nunca nem tentar — eu falei para ele esperando que, de alguma maneira, minhas palavras encontrassem minha mãe. Era hora de confessar a verdade. — Eu mereço morrer. Eu mereço estar aqui, eu temi e esperei esse momento a minha vida inteira. Eu poderia ter feito algo. Mas eu nunca fiz nada.

— Pega uma arma — o Cão falou irritado. — Eu não vou matar um garoto desarmado.

— Não.

— Seu hipócrita, você acha que é fácil para mim enfiar uma espada nas costas de alguém? Um diz que não merece, você diz que merece. Acorda criança estúpida. Ninguém merece estar aqui. Não existe justiça, não existe propósito. Isso não é uma estória de heróis e vilões onde você sabe quem morre e quem vive. No mundo real todo mundo morre. No mundo real eles colocam Ratos para enfrentar Cães. Crianças para enfrentar adultos. E os ricos riem e festejam enquanto os pobres passam fome e choram — o Cão chorava com cada palavra. — Eu tenho que sobreviver, eu quero viver menino, eu não estou pronto para morrer. Por favor, pega uma arma, não faz eu te matar desarmado. Eu não sou um monstro, não me transforma num monstro.

Eu podia ouvir os uivos dos animais que tinham sido soltos. Dizem que uma vez na história da competição um pequeno grupo se recusou a se matar. Eles foram levados ao estádio e apedrejados pelo público. Foi a última vez que isso aconteceu. Mesmo assim nos outros anos eles passaram a soltar os animais para incentivar uma urgência.

Eu peguei a faca do chão. O Cão acenou com a cabeça e me atacou. Instintivamente eu pulei para trás, mas não rápido o suficiente, a lâmina fez um corte no meu peito. O segundo golpe eu desviei, no terceiro o Cão chutou o meu pé e eu caí no chão. Ele levantou o machado e eu vi o final da minha vida. Eu pensei na minha mãe, e na minha família, na minha casa e na minha vida. Naquele breve momento eu não senti mais nenhum medo. Era como se uma voz falasse dentro de mim que tudo ficaria bem, que a vida era só um jogo, que a morte não era nem verdade.

O Cão hesitou, me olhou nos olhos e o machado parecia estar parado no tempo e no ar, mas então ele fechou os olhos e o machado desceu na minha direção. Foi quando o medo me achou. Foi quando eu decidi que também não estava pronto para morrer. Eu desviei. O cão perdeu o equilíbrio e, me atacando às cegas, caiu sobre mim. Eu usei minha faca em seu peito. A cada facada eu pedia desculpas, a cada facada eu chorava.

Quando eu me levantei, ele estava morto. Os espectros urravam de felicidade, choravam de alegria e pulavam de emoção. Todos, menos o gato de óculos. O Portão do salão se abriu e eu vi uma luz que nunca tinha visto em minha vida. Eu caminhei para dentro da luz e me encontrei de volta no estádio. Eu podia ouvir os urros com meus ouvidos agora.

O público me jogava flores. Cantavam meu nome, pareciam me amar. Eu era um herói. Eu tinha salvo minha família da miséria, eu tinha ganhado sem merecer ganhar. Mas isso apenas parecia aumentar o meu valor. Eu era um deles agora.

Será que era esse o preço desse mundo? Eu nunca iria me perdoar pelo que eu tinha feito. Pelo Cão que eu matei com minhas mãos. Pelos outros que eu deixei morrer para que eu continuasse vivo. Eles me chamavam de campeão, mas eu sabia que eu tinha perdido. Não existia vencedor nessa competição, éramos todos perdedores. Mas a diferença entre eu que vivi e eles que morreram, é que meu sofrimento continuaria, enquanto o deles estava acabado.

Eu me lembrei das palavras do Rato de branco, o sofrimento de um era o sofrimento de todos. Não existe vencedor em nenhuma competição, eu entendia isso agora. Se o custo da vitória de um vem da derrota de dois, então esse é um custo obsceno demais a ser pago. E aos que pagam esse preço, como eu paguei hoje, a recompensa é a mais discreta das punições. Eu iria carregar a culpa dos meus atos pelo resto dos meus dias. Eu iria carregar esse peso sozinho na mentira dessa vitória.

Mesmo assim, eu me permiti olhar para cima. Lá estava o meu sonho colorido, em amarelo no céu e laranja no sol. Eram ainda mais lindos do que eu poderia ter imaginado. Eu chorei, mas se você for me perguntar algum dia que tipo de lágrimas caíram dos meus olhos naquela hora, se lágrimas de luz ou trevas, eu não saberia dizer.

FIM?

6 Comments

  1. Simplesmente fantástico! Há tantas informações de cunho moral, que eu vou fazer uma resenha. Seu conto praticamente define a história humana, desde a Grécia Antiga aos tempos atuais. Muito bem escrito, focado, imparcial. Belíssimo conto. Parabéns, aplaudo de pé!!!

  2. Um conto que mexe com todos os meus sentidos. Vejo, sinto o cheiro, toco nos personagens, escuto os seus gritos, percebo o gosto amargo do medo em suas bocas. Reconheço um mestre das histórias curtas em ação. Assisto ao nascimento de uma saga que, com certeza, será aplaudida mundo à fora!!!

  3. Eu estou adorando estas antologias! Conteúdo rico, diálogos incríveis repleto de conteúdo moral, sentimental, emocional. Curto muito histórias curtas e estas histórias sobre o mundo de Morserus são curtas e bem construídas! Que venham muitas mais como esta!

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